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Primeiro Capítulo: O Guardião de Memórias | Kim Edwards
Livro: O Guardião de Memórias
Brasil | World
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Março de 1964
A neve começou a cair horas antes de ela entrar em trabalho de parto. Primeiro alguns flocos, no céu cinzento e opaco do fim de tarde, depois volteios e redemoinhos impelidos pelo vento ao redor das quinas da ampla varanda frontal. Ele parou ao lado da mulher, à janela, observando as rajadas abruptas de neve sucederem-se em ondas, rodopiarem e caírem no chão. Em todo o bairro acenderam-se as luzes e os galhos nus das árvores embranqueceram.
Depois do jantar, ele acendeu a lareira, aventurando-se na nevasca para buscar lenha do monte que empilhara junto à garagem no outono anterior. O ar penetrante e frio bateu-lhe no rosto, e a neve na entrada da garagem já chegava a meia altura de seus joelhos. Ele juntou algumas toras, sacudindo a camada macia e branca que as cobria, e as levou para dentro. Os gravetos sobre a grelha pegaram fogo imediatamente e, por algum tempo, ele ficou sentado junto à lareira, pernas cruzadas, acrescentando toras e observando o saltitar das chamas, azuladas e hipnóticas. Lá fora a neve continuava a cair silenciosamente na escuridão, tão brilhante e densa como estática nos cones de luz formados pelos postes de iluminação. Quando se levantou e olhou pela janela, seu carro se transformara numa colina branca e fofa à beira da calçada. Suas pegadas na entrada da garagem já tinham desaparecido.
Ele sacudiu as cinzas das mãos e se sentou no sofá ao lado da mulher, que tinha os pés apoiados em almofadas, cruzando os tornozelos inchados, e um exemplar do livro do Dr. Spock equilibrado sobre a barriga. Absorta, ela lambia a ponta do dedo indicador, distraída, a cada vez que virava uma página. Tinha mãos delgadas, de dedos curtos e firmes, e mordiscava o lábio inferior, concentrada, enquanto lia. Ao observá-la, ele sentiu uma onda de amor e deslumbramento: por ela ser sua esposa e pelo fato de seu bebê, esperado dali a apenas três semanas, estar prestes a nascer. Seria o primeiro filho. Fazia só um ano que estavam casados.
Ela ergueu os olhos, sorridente, quando o marido ajeitou o cobertor em volta de suas pernas.
– Sabe, andei pensando em como deve ser… – disse. – Quero dizer, antes de nascermos. É uma pena a gente não se lembrar.
Abriu o roupão e levantou o suéter que usava por baixo, revelando uma barriga redonda e dura como um melão. Passou a mão pela superfície lisa, enquanto a luz do fogo brincava em sua pele, lançando em seu cabelo um tom de ouro avermelhado.
– Você acha que é como estar dentro de uma grande lanterna? O livro diz que a luz atravessa minha pele, que o bebê já consegue enxergar.
– Não sei – disse ele.
A mulher riu.
– Por que não? – perguntou. – O médico é você.
– Sou apenas um cirurgião ortopedista – lembrou-lhe o marido. – Poderia explicar o padrão de ossificação dos ossos fetais, mas só isso.
Levantou o pé da mulher, delicado e inchado dentro da meia azul-clara, e começou a massageá-lo de leve: o tarso possante do calcanhar, os metatarsos e as falanges, escondidos sob a pele e sob a densa camada de músculos, como um leque prestes a se abrir. A respiração dela enchia a sala silenciosa, o pé aquecendo-se nas mãos do marido, e ele imaginou a simetria perfeita, secreta, dos ossos. Na gravidez, sua mulher lhe parecia linda, mas frágil, com as finas veias azuis transparecendo vagamente na pele alva e pálida.
Tinha sido uma gestação excelente, sem nenhuma restrição médica.Mesmo assim, já se iam vários meses sem que ele conseguisse fazer amor com a mulher. Em vez disso, descobria-se querendo protegê-la, carregá-la nas escadas, envolvê-la em cobertores, levar-lhe xícaras de creme de ovos. Não estou inválida, ela sempre protestava, rindo. Não sou um filhote de passarinho que você tenha encontrado na grama. Apesar disso, gostava das gentilezas do marido. Às vezes, ele acordava e a observava durante o sono: o tremor das pálpebras, o movimento lento e ritmado do peito, a mão estendida, tão miúda que ele conseguia envolvê-la completamente com a sua.
Ela era 11 anos mais moça. Fazia pouco mais de um ano que ele a vira pela primeira vez, subindo uma escada rolante de uma loja de departamentos no centro da cidade, num sábado cinzento de novembro em que saíra para comprar gravatas. Ele tinha 33 anos e era novo em Lexington, no Kentucky, e a moça havia emergido da multidão como uma espécie de visão, com o cabelo louro penteado para trás e preso num coque elegante, pérolas reluzindo no pescoço e nas orelhas. Ela usava um mantô de lã verde-escuro e tinha a pele clara e pálida. Ele subiu a escada, abrindo caminho pela aglomeração e se esforçando para não perdê-la de vista. A moça foi para o quarto andar: lingerie e meias. Quando ele tentou segui-la por entre os corredores repletos de araras cheias de anáguas, sutiãs e calcinhas, todos com um brilho suave, uma vendedora de vestido azul-marinho com gola branca o deteve, sorrindo, perguntando em que poderia servi-lo. Um roupão, disse ele, vasculhando os corredores até avistar o cabelo da moça, um ombro verde-escuro e a cabeça inclinada, que revelava a curva elegante e pálida de sua nuca. Um roupão para minha irmã que mora em Nova Orleans. Ele não tinha irmã, é claro, nem qualquer parente vivo que conhecesse.
A vendedora desapareceu e voltou um instante depois, com três roupões de tecido felpudo e grosso. Ele escolheu às cegas, quase sem baixar os olhos, pegando o do topo da pilha. Temos três tamanhos, dizia a vendedora, e haverá uma variedade maior de cores no mês que vem.Mas ele já seguia pelo corredor, com um roupão cor de coral pendurado no braço e os sapatos rangendo no piso de lajotas, enquanto se deslocava com impaciência por entre os outros clientes, em direção ao local em que ela havia parado.
A moça estava examinando as pilhas de meias caras, cujas cores transparentes reluziam pelas aberturas brilhosas de celofane: castanho, azul-marinho, um marrom-escuro como sangue de porco. A manga de seu casaco verde tocou-o de leve e ele sentiu seu perfume, suave mas penetrante, como as pétalas densas e pálidas dos lilases fora da janela do quarto de estudante que ele um dia ocupara em Pittsburgh.As janelas de seu apartamento no porão estavam sempre sujas, cobertas pela fuligem e pelas cinzas da siderúrgica, mas na primavera havia lilases em flor, borrifos brancos e purpúreos no vidro, e o aroma invadia o aposento como a luz.
Ele pigarreou – mal conseguia respirar – e levantou o roupão felpudo, mas a vendedora atrás do balcão estava rindo, contando uma piada, e não o notou. Quando tornou a pigarrear, a mulher o olhou de relance, irritada, e fez sinal com a cabeça para sua freguesa, que nesse momento segurava nas mãos três embalagens finas de meias, como cartas de baralho gigantes.
– Creio que a Srta. Asher chegou aqui primeiro – disse a vendedora, fria e altiva.
Foi quando os olhos dos dois se encontraram, e ele ficou surpreso ao ver que os da jovem eram do mesmo tom verde-escuro de seu mantô. Ela o estava avaliando – o sólido sobretudo de tweed, o rosto escanhoado e avermelhado pelo frio, as unhas bem aparadas. Sorriu, divertida e meio desdenhosa, apontando para o roupão em seu braço.
– Para sua mulher? – indagou. Falava com o que ele reconheceu ser um sotaque refinado do Kentucky, numa cidade de velhas fortunas em que essas distinções tinham peso. Depois de apenas seis meses na cidade, ele já sabia disso. – Está tudo bem, Jean – prosseguiu a jovem, tornando a se virar para a vendedora. – Pode atendê-lo primeiro. Esse pobre homem deve estar se sentindo perdido e sem graça com toda essa renda aqui.
– É para minha irmã – disse ele, aflito por desfazer a má impressão que estava causando. Isso já lhe acontecera várias vezes na cidade; era afoito ou direto demais e ofendia as pessoas. O roupão caiu e ele se abaixou para pegá-lo, enrubescendo ao levantar. As luvas da moça estavam sobre o vidro do balcão e suas mãos se cruzavam de leve ao lado delas. O constrangimento do homem pareceu abrandá-la, pois, quando os olhos voltaram a se encontrar, os dela se mostraram gentis.
Ele tentou de novo:
– Desculpe. Parece que não sei o que estou fazendo. E estou com pressa. Sou médico. Estou atrasado para o hospital.
Nesse momento, o sorriso dela se modificou, tornou-se sério.
– Entendo – disse, e se voltou de novo para a vendedora. – Jean, por favor, atenda-o primeiro, sim?
Concordou em vê-lo de novo, escrevendo seu nome e telefone com a letra perfeita que aprendera na terceira série, cuja professora era uma ex-freira que havia imprimido em seus pequenos pupilos as regras da caligrafia. Toda letra tem um formato, ela lhes dizia, um único formato no mundo, e nenhum outro, e é sua responsabilidade fazer com que ele seja perfeito. Aos oito anos, pálida e magrela, a mulher de mantô verde que viria a ser sua esposa havia agarrado a caneta entre os dedinhos e praticado a letra cursiva, sozinha em seu quarto, hora após hora, até escrever com a fluência requintada da água corrente. Tempos depois, ao ouvir essa história, ele a imaginaria com a cabeça inclinada sob o abajur, com os dedos dolorosamente apertados em volta da caneta, e se admiraria com a perseverança dela, com sua crença na beleza e na voz autoritária da ex-freira. Nesse primeiro dia, porém, não sabia de nada disso. Carregou o pedaço de papel no bolso do jaleco branco, de um quarto de doente para outro, rememorando as letras dela a fluírem até desenhar a forma perfeita de seu nome. Telefonou-lhe na mesma noite, levou-a para jantar na seguinte e, três meses depois, os dois estavam casados.
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Primeiro Capítulo: Uma Breve História do Mundo | Geoffrey Blainey
Livro: Uma Breve História do Mundo
(A Short History of the World)
Brasil | World
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Vindos da África
Há 2 milhões de anos, eles viviam na África e eram poucos. Eram seres quase humanos, embora tendessem a ser menores que seus descendentes que hoje povoam o planeta. Andavam eretos e subiam montanhas com enorme habilidade.
Alimentavam-se principalmente de frutas, nozes, sementes e outras plantas comestíveis, mas começavam a consumir carne. Seus implementos eram primitivos. Se eram bem-sucedidos em dar forma a uma pedra, não iam muito longe com a modelagem. É provável que usassem um pedaço de pau para defesa ou ataque, ou até mesmo para escavar, caso surpreendessem um roedor escondendo-se em um buraco. Não se sabe se construíam abrigos feitos de arbustos e de pedaços de pau para se protegerem do vento frio no inverno. Não há dúvida de que alguns moravam em cavernas – quando podiam ser encontradas –, mas uma residência permanente teria restringido bastante a necessária mobilidade para encontrar alimento suficiente. Para viver do que a terra oferecia, precisavam fazer longas caminhadas a lugares onde sementes e frutas pudessem ser encontradas. Sua dieta era resultado de uma série de descobertas, feitas ao longo de centenas de milhares de anos. Uma das mais importantes estava em saber se uma planta, aparentemente comestível, não era venenosa; explorando novos lugares à procura de novos alimentos em tempos de seca e carestia, alguns devem ter morrido por envenenamento.
Há 2 milhões de anos, esses seres humanos, conhecidos como hominídeos, viviam principalmente nas regiões dos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia. Se dividirmos a África em três zonas horizontais, a raça humana ocupava a zona central, ou zona tropical, constituída principalmente de pastos. Uma mudança no clima, cerca de um ou dois milhões de anos antes, que fez com que em certas regiões os pastos tenham substituído boa parte das florestas, pode ter incentivado esses hominídeos a, gradualmente, descendo das árvores, deixar a companhia de seus parentes, os macacos, e passar mais tempo no chão.
Eles já acumulavam uma longa história, embora não tivessem nenhuma memória ou registro disso. Falamos hoje do grande espaço de tempo que se passou desde a construção das pirâmides do Egito, mas esse período representa um simples piscar de olhos se comparado à longa história que a raça humana já viveu. Na Tanzânia, descobriu-se um registro primitivo pelo qual se conclui que dois adultos e uma criança caminhavam sobre cinza vulcânica amolecida por uma chuva recente. A seguir, suas pegadas foram cozidas pelo sol e, aos poucos, foram cobertas por camadas de terra; as pegadas, definitivamente humanas, têm pelo menos 3,6 milhões de anos. Até mesmo isso é considerado um fato recente na história do mundo contemporâneo: os últimos dinossauros foram extintos há cerca de 64 milhões de anos.
No leste da África, os primeiros humanos costumavam acampar às margens dos lagos e dos leitos arenosos de rios ou em campinas: nesses locais, foram encontrados alguns restos deixados por eles. Conseguiam adaptar-se a climas mais frios e, na Etiópia, preferiam os planaltos abertos, a uma altitude de 1.600 ou 2.000 metros acima do nível do mar. Nas florestas sempre verdes das regiões montanhosas, também sentiam-se em casa; sua adaptabilidade era impressionante.
De modo geral, na impiedosa competição por sobreviver e multiplicar-se, os humanos tiveram sucesso. Nas regiões da África que habitavam, eram em número bem menor que as espécies de grandes animais, alguns deles agressivos; ainda assim, os humanos prosperaram. Talvez as populações tenham se tornado muito numerosas para os recursos dis poníveis na região ou tenha havido um longo período de seca, e isso os tenha levado para o norte. Há forte indício de que, em algum momento dos últimos dois milhões de anos, eles tenham começado a migrar mais para o norte. O maior deserto do mundo, que se estende do noroeste da África para além da Arábia, pode, por algum tempo, ter impedido seu avanço. A estreita faixa de terra entre a África e a Ásia Menor, contudo, podia ser facilmente atravessada.
Moviam-se em pequenos grupos: eram exploradores e colonizadores. Em cada região desconhecida, tinham de adaptar-se a novos alimentos e precaver-se contra animais selvagens, cobras e insetos venenosos. Os que abriam caminho conseguiam uma certa vantagem, pois os seres humanos, adversários implacáveis dos invasores de território, não estavam lá para atrapalhar seu caminho.
Era mais uma corrida de revezamento do que uma longa caminhada. É possível que um grupo de talvez 6 ou 12 pessoas avançasse uma pequena distância e decidisse se estabelecer naquele lugar. Outros vinham, passavam por cima delas ou impeliam-nas para outro lugar. O avanço pela Ásia pode ter levado de 10 mil a 200 mil anos. Montanhas tinham de ser escaladas; pântanos, vencidos. Rios largos, gelados e de forte correnteza tinham de ser atravessados. Será que eles atravessavam esses rios em seus pontos mais rasos, nas estações muito secas, ou nos pontos mais próximos às nascentes, antes que o leito se tornasse largo demais? Será que os exploradores sabiam nadar? Não sabemos as respostas. À noite, em terreno desconhecido, era preciso selecionar um abrigo ou um lugar com um mínimo de segurança. Sem a ajuda de cães de guarda, cabia a eles manter vigilância sobre animais selvagens que vinham caçar durante a noite.
No decorrer dessa longa e lenta migração, a primeira de muitas na história da raça humana, esses povos originários dos trópicos avançaram para territórios bem mais frios, jamais conhecidos por qualquer de seus ancestrais. Não se sabe ao certo se conseguiam aquecer-se ao fogo nas noites frias. É provável que quando um raio caía nas proximidades, ateando fogo à vegetação, eles apanhassem um galho em chamas e o transportassem para outro lugar. Quando o galho estava quase todo queimado e o fogo por se extinguir, juntavam-lhe outro galho. O fogo era tão valioso que, uma vez obtido, era tratado com desvelo; ainda assim, o fogo podia extinguir-se por descuido, apagar-se sob uma chuva forte ou por falta de madeira seca ou gravetos. Enquanto conseguiam manter o fogo, devem tê-lo levado em suas viagens como um objeto precioso, como faziam os primeiros nômades australianos.
A habilidade de produzir fogo, em vez de obtê-lo ao acaso, veio bem mais tarde na história humana. Com o tempo, os humanos conseguiram produzir uma chama através do atrito e do calor provocados ao esfregarem-se dois pedaços de madeira seca. Podiam, também, triscar um pedaço de pirita ou outra rocha adequada e, assim, provocar uma faísca. Em ambos os processos, eram necessários gravetos muito secos e o domínio da arte de soprar delicadamente sobre os gravetos em chamas
O emprego habilidoso do fogo, resultado de muitas idéias e experiências durante milhares de anos, é uma das conquistas da raça humana. A genialidade da maneira com que era empregado pode ser vista na forma de vida que sobreviveu até o século 20, em algumas regiões remotas da Austrália. Nas planícies desanuviadas do interior, os aborígines acendiam pequenas fogueiras para enviar sinais de fumaça, uma forma inteligente de telégrafo. Usavam o fogo também para cozinhar, para se aquecer e para forçar os animais a sair das tocas (enchendo-as de fumaça). O fogo era a única iluminação à noite, exceto quando uma lua cheia lhes dava luz para suas cerimônias de dança. Era usado para endurecer os pedaços de pau usados para cavar, para modelar madeira com a qual eram feitas as lanças e para cremar os mortos. Era usado, ainda, para gravar marcas cerimoniais na pele humana e para afastar as cobras do capim perto dos acampamentos. Era um eficaz repelente de insetos e era usado por caçadores para queimar o capim em sistema de mosaicos em certas ocasiões do ano e, assim, incentivar novo crescimento, quando viessem as chuvas. Eram tão numerosos os usos do fogo que, até recentemente, foi a ferramenta de maior utilidade da raça humana.
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Primeiro Capítulo: A Luneta Âmbar | Philip Pullman
Livro: A Luneta Âmbar (The Amber Spyglass)
Brasil | World
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A Adormecida Enfeitiçada
Em um vale sombreado por rododendros, próximo da linha de neve, onde um riacho de águas leitosas de neve derretida passava ligeiro espumando, onde pombos e milheiros voavam entre os imensos pinheiros, havia uma caverna, que ficava semi-escondida pelo rochedo acima e pelas folhas secas e pesadas que se acumulavam abaixo.
A floresta era repleta de sons: das águas do riacho correndo entre as pedras, do vento entre as folhas alongadas dos galhos de pinheiros, do zumbido dos insetos e de guinchos de pequenos mamíferos arbóreos, bem como do cantar de passarinhos; e, de tempos em tempos, uma lufada mais forte de vento fazia com que um dos galhos de um cedro ou de um abeto roçasse contra um outro e gemesse como um violoncelo.
Era um lugar claro e ensolarado, nunca monótono; raios de claridade, dourado-limão, penetravam até o solo da floresta entre retângulos e círculos de sombra verde-acastanhados, e a luz estava sempre em movimento, nunca era constante, porque a névoa que passava com freqüência flutuava em meio às copas das árvores, filtrando todos os raios de sol até adquirirem um brilho perolado e salpicando cada cone de pinheiro com gotículas de umidade que cintilavam quando a névoa se desfazia. Por vezes a umidade nas nuvens se condensava formando minúsculas gotas, metade neblina, metade chuva, que desciam flutuando em vez de cair, fazendo um ruído suave como um tamborilar farfalhante entre os milhares de folhas aciculadas dos pinheiros.
Havia um caminho estreito passando junto do riacho, que levava de uma aldeia — pouco mais que um aglomerado de choupanas de pastores —, na entrada do vale, até um relicário, semi-arruinado, próximo da geleira lá no fundo, um lugar onde bandeirolas de seda esvoaçavam sob os ventos perpétuos das altas montanhas e oferendas de bolos de cevada e chá seco eram colocadas pelos fiéis aldeões. Um estranho efeito da luz, do gelo e do vapor fazia com que a parte mais alta do vale ficasse envolta em eternos arco-íris.
A caverna ficava a alguma distância acima do caminho. Muitos anos antes, um homem religioso morara ali, meditando, jejuando e orando, e o local ainda era venerado em sua memória. Tinha 30 metros de profundidade, mais ou menos, com o solo bem seco: um abrigo ideal para um urso ou para um lobo, mas os únicos seres morando nela durante anos haviam sido pássaros e morcegos.
Mas o vulto que estava se agachando logo após a entrada, os olhos negros atentos vigiando um lado e depois o outro, as orelhas pontudas levantadas, não era pássaro nem morcego. A luz do sol descia pesada e forte sobre seu lustroso pêlo dourado e as mãozinhas de macaco reviravam uma pinha para lá e para cá, com os dedos fortes, partindo a casca em lascas e raspando as nozes doces.
Atrás dele, pouco além do ponto que a luz do sol alcançava, a Sra. Coulter estava aquecendo água numa panelinha sobre um fogareiro à nafta. Seu daemon emitiu um murmúrio de advertência e a Sra. Coulter levantou a cabeça.
Vindo pelo caminho da floresta havia uma menina da aldeia. A Sra. Coulter sabia quem ela era: Ama vinha lhe trazendo comida já há alguns dias. Logo ao chegar, a Sra. Coulter fizera circular a notícia de que era uma mulher religiosa, dedicada a meditações e preces, que fizera um voto de jamais falar com um homem. Ama era a única pessoa cujas visitas aceitava receber.
Dessa vez, contudo, a menina não estava sozinha. Seu pai estava com ela e enquanto Ama subia até a caverna, ele esperou, mantendo alguma distância.
Ama chegou à entrada da caverna e fez uma mesura.
— Meu pai me pediu que viesse trazendo preces para sua boa vontade — disse.
— Bons olhos a vejam, criança — disse a Sra. Coulter.
A menina trazia uma trouxa embrulhada em algodão desbotado, que colocou aos pés da Sra. Coulter. Então estendeu um raminho de flores, cerca de uma dúzia de anêmonas amarradas com um fio de algodão, e começou a falar rápida e nervosamente. A Sra. Coulter compreendia um pouco da língua daquela gente da montanha, mas nunca permitiria que percebessem o quanto. De modo que sorriu e fez um gesto para que a menina se calasse e para que observassem seus daemons. O macaco dourado estava estendendo a mãozinha negra e o daemon borboleta de Ama esvoaçava, chegando cada vez mais perto, até pousar no caloso dedo indicador.
O macaco o aproximou lentamente de sua orelha e a Sra. Coulter sentiu uma corrente de compreensão fluir para sua mente, esclarecendo as palavras da menina. Os aldeões estavam felizes que uma santa mulher religiosa como ela estivesse abrigada na caverna, mas havia rumores de que também tinha uma acompanhante, uma mulher como ela, que de alguma forma era perigosa e muito poderosa.
Isso era o que estava deixando os aldeões assustados. Seria aquele outro ser mestra da Sra. Coulter ou sua criada? Teria a intenção de fazer mal? Por que estava ali, para começar? Pretendia ficar muito tempo? Ama transmitiu essas perguntas com infindáveis apreensões.
Uma resposta totalmente nova ocorreu à Sra. Coulter, à medida que a compreensão do daemon foi penetrando em sua mente. Ela podia contar a verdade. Não toda, naturalmente, mas parte. Estremeceu ao conter a vontade de rir diante da idéia, mas manteve isso longe de sua voz quando explicou:
— Sim, há uma outra pessoa comigo. Mas não há nada a temer. É minha filha e ela foi vítima de um feitiço que fez com que adormecesse. Viemos aqui para nos esconder do feiticeiro que lançou esse feitiço, enquanto eu tento curá-la e impedir que qualquer mal lhe ocorra. Venha ver, se quiser.
Ama ficou parcialmente tranqüilizada pela voz suave da Sra. Coulter, mas ainda estava com medo; e toda aquela conversa sobre feiticeiros e feitiços aumentava seus temores. Mas o macaco dourado estava segurando seu daemon com tamanha gentileza e, além disso, estava tão curiosa, que seguiu a Sra. Coulter até o interior da caverna.
O pai de Ama, que esperava mais abaixo no caminho, deu um passo adiante e seu daemon corvo levantou as asas uma ou duas vezes, mas ficou onde estava.
A Sra. Coulter acendeu uma vela, porque a luz estava indo embora rapidamente, e conduziu Ama até o fundo da caverna. Os olhos da garotinha faiscavam, arregalados, na semi-obscuridade e suas mãos se moviam, fazendo um gesto repetitivo de esfregar o dedo no polegar, o dedo no polegar, para afastar o perigo confundindo os maus espíritos.
— Está vendo? — perguntou a Sra. Coulter. — Ela não pode fazer mal a ninguém. Não há motivo para ter medo.
Ama olhou para a pessoa no saco de dormir. Era uma menina, mais velha que ela, talvez três ou quatro anos; e tinha cabelos de uma cor que Ama nunca vira antes — de um tom fulvo, amarelo-tostado como o pêlo de um leão. Seus lábios estavam bem fechados, comprimidos, e estava profundamente adormecida, não havia dúvida quanto a isso, pois seu daemon estava deitado, enroscado em seu pescoço e inconsciente. Ele tinha a forma de um animal parecido com um mangusto, mas de cor vermelho-dourada e menor. O macaco dourado estava alisando carinhosamente o pêlo entre as orelhas do daemon adormecido e, enquanto Ama observava, a criatura-mangusto mexeu-se incomodada e emitiu um pequeno miado rouco. O daemon de Ama, na forma de camundongo, se apertou contra o pescoço de Ama e espiou assustado entre seus cabelos.
— De maneira que pode contar a seu pai o que você viu — prosseguiu a Sra. Coulter. — Não há nenhum espírito mau. Apenas minha filha, adormecida por causa de um feitiço e de quem estou cuidando. Mas por favor, Ama, diga a seu pai que isso tem de ser mantido em segredo. Ninguém, exceto vocês dois, deve saber que Lyra está aqui. Se o feiticeiro souber onde ela está, virá procurá-la e destruí-la, a mim também e tudo que estiver nas vizinhanças. De maneira que trate de ficar calada! Conte a seu pai e a mais ninguém.
Ela se ajoelhou junto de Lyra e afastou o cabelo úmido do rosto da menina adormecida antes de se inclinar para beijar a face de sua filha. Então levantou a cabeça, com uma expressão triste e carinhosa no olhar, e sorriu para Ama com tamanha bravura e sábia compaixão que a garotinha sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
A Sra. Coulter pegou a mão de Ama, enquanto iam voltando para a entrada da caverna, e viu o pai da menina observando cheio de ansiedade lá de baixo. A mulher juntou as mãos e inclinou a cabeça para ele num cumprimento, que ele respondeu com alívio, enquanto sua filha, depois de fazer uma mesura para a Sra. Coulter e para a menina adormecida enfeitiçada, fez meia-volta e desceu correndo pela encosta sob a luz do crepúsculo. Pai e filha inclinaram a cabeça mais uma vez em direção à caverna, num cumprimento respeitoso, e se foram, desaparecendo em meio às sombras dos rododendros.
A Sra. Coulter virou-se de volta para a água no fogareiro, que estava quase fervendo.
Abaixando-se, ela esmigalhou algumas folhas secas sobre a água, tirando duas pitadas de um saquinho, uma pitada de outro e acrescentou três gotas de um óleo amarelo-claro. Mexeu rapidamente a mistura, contando silenciosamente até terem se passado cinco minutos. Então tirou a panela do fogo e sentou-se para esperar que o líquido
esfriasse.
Espalhada ao seu redor estava parte da equipagem do acampamento, próximo ao laguinho azul, onde Sir Charles Latrom havia morrido: um saco de dormir, uma mochila com mudas de roupas, produtos de limpeza e assim por diante. Também havia uma valise de lona com uma armação resistente de madeira, acolchoada com paina, contendo vários instrumentos; e havia uma pistola num coldre.
A decocção esfriou depressa no ar rarefeito e tão logo atingiu a temperatura do corpo, ela a colocou cuidadosamente numa taça de metal de boca larga e levou-a até o fundo da caverna. O daemon macaco largou a pinha e foi junto com ela.
Cuidadosamente, a Sra. Coulter colocou a taça sobre uma rocha e se ajoelhou junto de Lyra. O macaco dourado se abaixou ao lado dela, pronto para agarrar Pantalaimon, se este acordasse.
O cabelo de Lyra estava úmido, seus olhos se moviam atrás das pálpebras cerradas. Ela estava começando a despertar: a Sra. Coulter tinha sentido seus cílios se mexerem quando a beijara e sabia que não dispunha de muito tempo antes que Lyra despertasse totalmente.
Enfiou a mão sob a cabeça da menina e com a outra afastou as mechas úmidas de cabelo de sua testa. Os lábios de Lyra se entreabriram e ela gemeu baixinho; Pantalaimon se aconchegou mais junto de seu peito. Os olhos do macaco dourado não se descravavam do daemon de Lyra e seus pequeninos dedos negros repuxavam a beirada do saco de dormir.
Depois de um olhar da Sra. Coulter, ele largou o saco de dormir e se afastou um palmo para trás. A mulher levantou a filha com delicadeza de modo que seus ombros saíssem do chão e a cabeça balançou ligeiramente. Então Lyra respirou fundo e seus olhos se entreabriram, piscando pesados.
— Roger — murmurou. — Roger. . . onde está você. . . não consigo ver. . .
— Ssh — sussurrou sua mãe —, ssh, minha querida, beba isso.
Levando a taça até a boca de Lyra, ela a inclinou para deixar que uma gota umedecesse os lábios da menina. A língua de Lyra percebeu isso e se moveu para lambê-los, e então a Sra. Coulter deixou que um pouco mais do líquido pingasse em sua boca, com muito cuidado, deixando-a engolir cada gole antes de lhe dar mais.
Passaram-se vários minutos, mas finalmente a taça ficou vazia e a Sra. Coulter tornou a deitar a filha. Tão logo a cabeça de Lyra repousou no chão, Pantalaimon voltou a se acomodar em volta de seu pescoço. Seu pêlo vermelho-dourado estava tão úmido quanto os cabelos de Lyra. Ambos estavam de novo profundamente adormecidos.
O macaco dourado foi saltitando graciosamente até a entrada da caverna e sentou-se, mais uma vez vigiando o caminho. A Sra. Coulter umedeceu uma flanela numa bacia de água fria e passou no rosto de Lyra, depois, abriu o saco de dormir e lavou seus braços, pescoço e ombros, porque Lyra estava acalorada. Então sua mãe pegou um pente e com delicadeza desembaraçou o cabelo de Lyra, afastando-o da testa
e repartindo-o cuidadosamente.
Ela deixou o saco de dormir aberto de modo que a menina pudesse se refrescar e abriu a trouxa que Ama havia trazido: algumas bisnagas achatadas de pão, um retângulo de chá prensado, um pouco de arroz meio grudento, embrulhado numa folha larga. Estava na hora de acender a fogueira. O frio nas montanhas era intenso durante a noite. Trabalhando metodicamente, ela cortou algumas achas de lenha, preparou a fogueira e acendeu um fósforo. Aquilo era outra coisa a respeito da qual teria que pensar: os fósforos estavam acabando e
a nafta para o fogareiro também; teria que manter a fogueira acesa dia e noite, dali por diante.
Seu daemon estava aborrecido. Não gostava do que ela estava fazendo e quando tentou manifestar sua preocupação ela não lhe deu atenção. Ele deu-lhe as costas, o desprezo evidente em cada linha de seu corpo enquanto continuava a descascar pinhas na escuridão. Ela nem reparou e continuou a trabalhar atenta e habilmente para aumentar a fogueira e preparar uma panela para esquentar água para fazer um chá.
A despeito disso, o ceticismo dele a afetava e enquanto ia desmanchando o chá prensado na água, repetidamente perguntou a si mesma o que achava que estava fazendo e se teria enlouquecido, o que aconteceria quando a igreja descobrisse. O macaco dourado tinha razão. Ela não estava apenas escondendo Lyra: estava cobrindo os olhos para esconder a verdade de si mesma.
Saindo da escuridão o garotinho veio, esperançoso e assustado, sussurrando uma vez após a outra:
— Lyra, Lyra, Lyra. . .
Atrás dele havia outros vultos, ainda mais indistintos do que ele, ainda mais silenciosos. Pareciam ser de um mesmo grupo e do mesmo tipo, mas não tinham rostos que fossem visíveis ou vozes que falassem; e a voz dele se elevou um pouco acima de um sussurro e seu rosto ficou sombreado e borrado como algo semi-esquecido.
— Lyra. . . Lyra. . .
Onde estavam eles?
Numa grande planície onde nenhuma luz brilhava no céu escuro cor de chumbo e onde uma neblina obscurecia o horizonte em todas as direções. O solo era de terra nua, socada e achatada por milhões de pés, embora esses pés tivessem menos peso que penas; de modo que deveria ter sido o tempo que o achatara daquele jeito, embora o tempo tivesse parado naquele lugar; de modo que as coisas deviam ser assim mesmo. Aquele era o fim de todos os lugares e o último de todos os mundos.
— Lyra. . .
Por que estavam ali?
Eram prisioneiros. Alguém havia cometido um crime, embora ninguém soubesse qual era o crime, quem o havia cometido, nem que autoridade o havia julgado.
Por que o garotinho continuava a chamar pelo nome de Lyra?
Esperança.
Quem eram eles?
Fantasmas.
E Lyra não conseguia tocá-los, por mais que tentasse. Desnorteadas, suas mãos se moviam procurando, tentando, de um lado para o outro, e o garotinho continuava parado ali suplicando.
— Roger — chamou ela, mas sua voz saiu num sussurro. — Ah, Roger, onde está você? O que é este lugar?
— É o mundo dos mortos, Lyra — respondeu ele. — Não sei o que fazer, não sei se estou aqui para sempre e não sei se fiz coisas más ou o que, porque tentei ser bom, mas detesto estar aqui, estou com medo de tudo isso,
detesto —
E Lyra disse:
— Eu.
—–
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Primeiro Capítulo: O Connaisseur Acidental - Uma Viagem Irreverente Pelo Mundo do Vinho | Lawrence Osborne
Livro: O Connaisseur Acidental
Brasil | World
Introdução: uma questão de gosto
Cresci na Grã-Bretanha nos anos 1970, antes de o vinho virar moda. Portanto, beber vinho não fazia parte dos meus hábitos. Como quase toda criança católica, minha primeira lembrança dessa bebida está no altar, e era sempre uma brincadeira ver o quanto do sacramento podíamos engolir quando chegava a nossa vez de degustar a hemoglobina de Nosso Senhor. Era uma coisa azeda, e sua insipidez misturava-se a sensações enjoativas: os dedos sebosos de nossos padres, cálices de estanho vagabundo e hóstias borrachudas, massudas, com textura de isopor.
Agora acho que esse vinho sagrado era um Beaujolais de Sainsbury barato, uma opção econômica nos anos 1970, vendido no varejo a três dólares a garrafa, porque com seu gosto de framboesa azeda vinha também um aroma fantasmagórico de banana madura, que, desde então, sempre associei à infeliz decomposição de Nosso Senhor na cruz.
Para muitos na Grã-Bretanha, vinho era algo exótico, sobretudo na pequena cidade-dormitório de Haywards Heath, onde fui criado, ao sul de Londres. Naquela época, a principal cadeia de lojas de vinhos era a Unwin’s, e a Unwin’s de Haywards Heath era um lugar para se comprar caixas de Smirnoff e garrafas azuis de Liebfraumilch, porém quase mais nada, além daquelas garrafas de Beaujolais de três dólares. Todas as bebidas eram classificadas com a palavra árabe álcool, que, essencialmente, as reduzia ao nível de um pecado químico, e sua venda era proibida aos domingos.
A loja de vinhos, com suas vitrines cheias de garrafas bojudas de Mateus rosé em invólucros de palha, era um local meio iníquo, um local onde pedreiros imigrantes ibéricos talvez saciassem em segredo seu vício. Em nossa casa, nunca se bebia vinho. O almoço de domingo era regado a xerez e sucos de frutas reconstituídos, mas nunca a vinho. A própria palavra “vinho” criava uma certa tensão em muitas reuniões inglesas.
Essa alienação deixou uma marca inevitável. Como a maioria dos falantes de inglês, adquiri por vinho um interesse consumista, mas não instintivo. Sempre fui perseguido pela mesma pergunta: será que sei mesmo o que estou bebendo e por quê? Aliás, como sei que meu paladar é autêntico? O vinho é um jogo perigoso. Daí, um palpitezinho sinistro vem se insinuar na minha cabeça quando estou bebendo vinho: Não confio no meu próprio gosto.
Poucas coisas nos deixam mais inseguros em relação ao paladar do que vinho. Cerca de 75 mil vinhos diferentes fabricados hoje no mundo sustentam uma indústria de 50 bilhões de dólares, mas só há um punhado de especialistas autênticos para nos ajudar a classificá-los. A linguagem de sua competência pode nos convencer quando os lemos, mas só aumenta nossa confusão quando provamos de fato um vinho. Suas enciclopédias nos dizem o sabor que devemos sentir, mas nunca como cada um de nós pode se apropriar da experiência. O gosto é o que define nossa personalidade, mas tem a solidez de uma bolha de sabão.
O que é gosto, então? No íntimo, nos orgulhamos do nosso gosto. Porém, não há assunto mais terrível de analisar. E não há gosto mais ingrato de analisar do que gosto em matéria de vinho. O vinho é o exercício supremo nessa habilidade misteriosa, nessa zona de prazer cheia de nuanças. Nada exige mais paladar do que vinho. Dentre todos os alimentos, os melhores vinhos são os que provocam as reações fisiológicas mais complexas.
O vinho é hoje um dos fetiches de consumo dominantes do mundo ocidental, com sua própria indústria jornalística, onde tudo é discutido. Somos bombardeados de todos os lados por conversas de vinho. Aimé Guibert, o célebre fabricante francês, disse: “Durante milênios, o vinho foi o centro da civilização ocidental. Sempre foi um mistério. Hoje transformou-se em commodity.”
Os guias de vinho, aquelas enciclopédias irrefutáveis do gosto, estão em toda parte. Do Wine Enthusiast e do Wine Buyer’s Guide, de Robert Parker, à Encyclopedia of Wine (1964), de Frank Schoonmaker, às obras dos connaisseurs do século XIX, George Saintsbury, e do século XX, Gerald Asher, à clássica Encyclopedia of Wines and Spirits, de Alexis Lichine, e à Larousse Encyclopedia of Wine. Tantas enciclopédias, tão pouco tempo!
Mas aí é que está o problema. Gosto não se aprende em livros; não é transmitido de uma pessoa a outra. Aí reside sua profundidade. Na escola, os mestres tolos, ao falar de poemas dos quais não gostavam, usavam o velho axioma latino: De gustibus non disputandum est - gosto não se discute. E não se explica. O gosto é um coral perverso: transforma-se lenta e inexoravelmente em formas imprevisíveis, justo porque é uma ramificação da própria vida. Adquirir gosto, então, não é resultado de estudo; é um talento para viver a vida.
A desconfiança em nosso próprio paladar é o que nos define como bebedores acidentais. E, quanto mais tentei dar os meus passinhos em direção à condição de conhecedor acidental, mais fiz papel de bobo.
Uma vez, estava sozinho em um restaurante chamado Le Verger des Papes, bem embaixo das ruínas do castelo de Châteauneuf-du-Pape, no baixo Ródano, no coração de uma região vinícola mundialmente famosa. A casa estava deserta a não ser por um sujeito magro de aspecto professoral na mesa ao lado, que comia uma salada. O garçom veio me perguntar o que eu queria beber. Examinei a lista e não reconheci absolutamente nada, uma proeza e tanto, já que a lista continha praticamente todos os Châteauneufs-du-Pape conhecidos que existem. Bati o olho no nome Beaucastel: o item mais caro da lista. Pedi-o.
Quando já estava na metade do Beaucastel, que custava o dobro da refeição inteira, achei que devia puxar uma conversa de vinho com o garçom. Caçoamos do Beaucastel. Nenhum de nós sabia nada sobre esse vinho, mas o garçom me deu algumas opiniões que deve ter lido no jornal.
- Você não sente - disse ele - um gosto engraçado de galinheiro nos vinhos do Ródano? Especialmente no Beaucastel?
- Galinheiro? - Será que ele estava me fazendo de palhaço?
- Até os grandes vinhos, sabe, têm um cheirinho de galinheiro. Muita gente acha.
Ofereci-lhe um copo do Beaucastel. Tornei a degustá-lo, agora procurando desesperadamente traços de galinheiro sublimado. O garçom piscou para mim: estaria sugerindo que eu havia sido enganado?
- Sente o gosto? - disse. - Um gostinho de titica, hein?
- Bem - eu disse -, talvez eu consiga sentir um gosto de galinheiro.
Eu não conseguia sentir nada daquilo. Mas giramos a taça e tomamos pequenos goles, e concordamos que o elemento galinheiro era responsável pela complexidade do vinho.
Então o homem da mesa ao lado despertou, endireitou-se na cadeira e disse:
- Brettanomyces!
Pronunciou devagar essa palavra extraordinária, com o garfo no ar e nos enviando um sorriso amarelo.
- Como?
- Brettanomyces. - Vi que tinha o nariz bem vermelho e devia estar ainda mais bêbado que eu. - A brett - prosseguiu - é uma levedura. O sabor de galinheiro vem de uma levedura chamada brett. A brett está em toda parte nos vinhos do Ródano. Especialmente no Beaucastel.
- É muito bom - eu disse bestamente.
Ele e o garçom riram.
- Estou vendo - disse o professor beberrão - que o senhor é um homem de gosto. Os homens de gosto são poucos e raros.
A ironia era delicadamente destilada de suas frases, e ele limpou o bigode com um guardanapo enquanto lhe servi um copo também.
- Bem - disse ele -, um brinde aos galinheiros!
A palavra “taste” [gosto] vem do francês arcaico taster “sentir”, cujo equivalente em inglês medieval era tasten. A própria palavra francesa vem do latim taxare, “avaliar, tocar”.
Em última instância, todas essas palavras derivam do latim tangere, “tocar”. No sentido de “julgamento estético”, porém, “taste” só chegou ao inglês em 1674, e a palavra “tasteful” [gostoso] data somente de 1786. A noção inglesa de “gosto” é, essencialmente, uma invenção do século XVIII.
O século XVIII era obcecado pelo gosto. O gosto tornou-se a maior de todas as manias burguesas, e dezenas de tratados sobre esse assunto, como era de se prever, foram publicados, quase nenhum deles legível. O mais famoso de todos foi a Fisiologia do gosto, do Dr. Jean Anthelme Brillat-Savarin, publicado em Paris, em 1826. Muitos o consideram a Bíblia gastronômica; outros acham que é tão superestimado quanto as memórias de Casanova. Mas será que nos revela alguma coisa sobre gosto?
O médico começa admitindo que este é um tema difícil. “Não é fácil”, admite com tristeza, “determinar precisamente que partes constituem o órgão do paladar. É mais complicado do que parece.”
O gosto, teoriza, divide-se em três classes (os teóricos do século XVIII quase sempre dividem tudo em três):
No homem físico, é o aparato pelo qual ele distingue vários sabores. No homem moral, é a sensação que estimula aquele órgão no centro de sua sensibilidade, que é influenciado por qualquer corpo saboroso. Por fim, em seu próprio significado material, gosto é uma propriedade inerente a qualquer substância que pode influenciar o órgão e originar uma sensação.
Era claro para Brillat-Savarin que a língua era o músculo central do paladar. Mas ele também observou que as pessoas desprovidas desse órgão sutil ainda tinham paladar, por assim dizer. Em Amsterdã, ele conhecera um estafeta cuja língua havia sido cortada por mercadores de escravos argelinos. Comunicando-se por meio de bilhetes, o médico e o homem da língua amputada mantiveram um debate animado sobre o paladar. O estafeta ainda sentia o gosto das coisas, embora engolir fosse uma tortura. Mesmo assim, o médico concluiu que as línguas não são todas iguais. E embora, como ele diz, “o espaço entre algo chamado bom e algo considerado excelente não seja muito grande”, algumas línguas são dotadas de mais papilas gustativas que outras.
Considerando tudo, diz Brillat-Savarin, a língua humana é a glória da criação. Prova a “supremacia do homem”. Diante da afirmação do frenologista Dr. Gall, de que alguns animais podem ter línguas melhores que as nossas, Brillat-Savarin explode: “Esta doutrina é chocante de ouvir e cheira a heresia.”
Ele observa que a língua humana é capaz de feitos espantosos. Os amantes romanos da boa mesa sabiam dizer se um peixe havia sido pescado entre as pontes da cidade ou mais abaixo no Tibre; os paladares franceses podiam detectar facilmente o sabor especial da coxa em que um faisão se apóia quando descansa. E a apreciação do vinho era um caso à parte. Tudo isso, conclui Brillat-Savarin, prova que “o homem deve ser proclamado o grande gourmand da Natureza”. A língua humana, além do mais, não tem igual no mundo animal.
Mas será que os provadores de vinho têm línguas ainda mais magistrais que as da espécie humana em geral? Robert Parker, o todo-poderoso crítico americano, insinua que, no caso da língua dele, sim. Segue a mesma linha de argumentação de Brillat-Savarin, de que algumas línguas - como a dele - possuem mais papilas do que outras.
Porém, a língua humana não varia de indivíduo para indivíduo; suas estruturas anatômicas são constantes. Nenhum biólogo poderia dizer em que medida a língua de Robert Parker é, digamos, diferente do temível órgão de Joey Buttafuoco. O paladar, ao que parece, é biologicamente universal.
Anatomicamente, uma papila gustativa consiste em cerca de vinte células longas e finas, com um minúsculo pêlo projetando-se de cada célula para a superfície da língua por um poro. As células gustativas contêm filamentos nervosos que transmitem impulsos para o centro do paladar no cérebro. Apesar de todas as sutilezas de que é capaz o paladar humano, essas papilas só sentem quatro sabores elementares: doce, azedo, salgado e amargo. Curiosamente, só as papilas mais sensíveis ao sabor salgado estão distribuídas por igual na língua. As papilas sensíveis ao sabor doce concentram-se na ponta da língua, os sabores azedos são detectados nas laterais, e os amargos, na parte posterior.
Hoje há todo um ramo de pesquisa científica conhecido como prazeres do gosto. Durante algum tempo, pareceu ser uma via de investigação promissora, sobretudo porque a razão da atração dos animais por coisas doces fascina os cientistas.Minha língua é igual à de uma vaca? De um tamanduá? Eu lambo as frutas como um chimpanzé? Mas, afinal de contas, essas perguntas são quixotescas. Para descobrir meu próprio gosto em termos de vinho, eu teria que jogar fora os livros e a ciência, e entrar no mundo do vinho e da bebida. Pois, apesar de sua universalidade biológica, o gosto não possui uma verdade subjetiva mensurável, uma essência - como observou Susan Sontag, “não tem um sistema nem provas”. Só pode ser desenvolvido pela ação, o que vale dizer, pelo próprio prazer.
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Primeiro Capítulo: O Rei do Inverno | Bernard Cornwell
Livro: O Rei do Inverno
Brasil | World
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Primeira Parte
Um nascimento no inverno
Há muito e muito tempo, numa terra chamada Britânia, estas coisas aconteceram. O bispo Sansum, a quem Deus deve abençoar acima de todos os santos vivos e mortos, diz que estas memórias deveriam ser lançadas no poço sem fundo junto com todas as outras imundícies da humanidade decaída, pois são as histórias dos últimos dias antes que a grande escuridão baixasse sobre a terra que chamamos de Lloegyr, que significa Terras Perdidas, o país que um dia foi nosso mas que nossos inimigos agora chamam de Inglaterra. Estas são as histórias de Artur, o Senhor das Guerras, o Rei que Nunca Existiu, o Inimigo de Deus e — que o Cristo vivo e o bispo Sansum me perdoem — o melhor homem que conheci. Como chorei por Artur!
Hoje está frio. Os morros são de uma palidez mortal e as nuvens escuras. Teremos neve antes do anoitecer, mas Sansum certamente nos recusará a bênção de um fogo aceso. É bom para mortificar a carne, diz o santo. Agora estou velho, mas Sansum, que Deus ainda lhe dê muitos anos, é ainda mais velho, de modo que não posso usar a idade como argumento para destrancar o depósito de lenha. Sansum dirá apenas que o sofrimento é uma oferenda a Deus que sofreu mais do que todos nós, e assim, nós, os seis irmãos, tremeremos no semi-sono, amanhã o poço estará congelado e o irmão Maelgwyn terá de descer pela corrente para bater com uma pedra no gelo antes que possamos beber.
Mas o frio não é a pior aflição de nosso inverno, e sim que os caminhos gelados farão com que Igraine não visite o mosteiro. Igraine é nossa rainha, casada com o rei Brochvael. É morena e esguia, muito jovem, e tem uma agilidade que parece o calor do sol num dia de inverno. Vem aqui rezar para ter um filho, mas passa mais tempo conversando comigo do que rezando para Nossa Senhora ou Seu filho abençoado. Conversa comigo porque gosta de ouvir as histórias de Artur, e no verão passado contei tudo que pude lembrar e, quando não pude lembrar mais, ela me trouxe um maço de pergaminhos, um frasco de tinta feito de chifre e um feixe de penas de ganso para escrever. Artur usava penas de ganso no capacete. Estas penas de escrever não são tão grandes, nem tão brancas, mas ontem segurei o maço de penas diante do céu de inverno e por um glorioso momento de culpa pensei ter visto seu rosto abaixo das plumas. Durante aquele momento o dragão e o urso rosnaram sobre a Britânia para aterrorizar de novo os pagãos, mas então espirrei e vi que segurava um punhado de penas sujas de bosta de ganso e pouco adequadas para escrever. A tinta é igualmente ruim; mera fuligem de lâmpada misturada com goma de casca de macieira. Os pergaminhos são melhores. São feitos de pele de carneiro, que sobraram da época dos romanos e já estiveram cobertos por uma escrita que nenhum de nós sabe ler, mas as mulheres de Igraine rasparam as peles até ficarem brancas. Sansum diz que seria melhor se tanta pele de carneiro fosse transformada em sapatos, mas as peles raspadas são finas demais para ser moldadas, e além disso Sansum não ousou ofender Igraine e com isso perder a amizade do rei Brochvael. Este mosteiro não fica a mais de um dia de viagem dos lanceiros inimigos, e até mesmo nosso pequeno armazém poderia tentar aqueles inimigos que ficam do outro lado do riacho Negro, além dos morros e até no vale de Dinewrac se os guerreiros de Brochvael não recebessem a ordem de nos proteger. Mas não creio que mesmo a amizade de Brochavel faria Sansum se reconciliar com a idéia de o irmão Derfel escrever um relato sobre Artur, o Inimigo de Deus, e assim Igraine e eu mentimos ao santo abençoado dizendo que estou escrevendo uma tradução do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo para a língua dos saxões. O santo abençoado não fala a língua do inimigo, nem sabe ler, por isso podermos enganá-lo por tempo suficiente para que esta narrativa seja escrita.
E ele precisará ser enganado, já que, pouco depois de eu começar a escrever nesta pele mesma, o santo Sansum entrou na sala. Ficou perto da janela, olhou para o céu opaco e esfregou as mãos magras.
— Eu gosto do frio — disse ele, sabendo que eu não.
— Eu o sinto mais na mão que me falta — respondi gentilmente. É a minha mão esquerda que falta e estou usando o coto do pulso para firmar o pergaminho enquanto escrevo.
— Toda dor é uma lembrança abençoada da Paixão de nosso querido Senhor — disse o bispo, como eu esperava, depois se encostou na mesa para olhar o que eu tinha escrito. — Fale o que dizem as palavras, Derfel.
— Estou escrevendo a história no nascimento do Menino Jesus — menti.
Ele olhou para a pele, depois colocou uma unha suja sobre seu próprio nome. Sansum é capaz de decifrar algumas letras, e o nome dele deve ter se destacado do pergaminho tão claramente quanto um corvo na neve. Em seguida riu como uma criança e torceu com os dedos uma madeixa de meus cabelos brancos.
— Eu não estava presente no nascimento de Nosso Senhor, Derfel, no entanto este é o meu nome. Você está escrevendo heresia, seu sapo do inferno?
— Senhor — falei humildemente enquanto seu aperto mantinha meu rosto curvado para perto do trabalho. — Comecei o Evangelho registrando que é apenas pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e com a permissão de seu santo mais sagrado, Sansum — e aqui apontei para o nome dele —, que posso anotar essa boa nova de Cristo Jesus.
Ele puxou meu cabelo, arrancando alguns fios, depois se afastou.
— Você é fruto de uma prostituta saxã, e nenhum saxão jamais foi digno de confiança. Tome cuidado, saxão, para não me ofender.
— Glorioso senhor — falei, mas ele não ficou para ouvir mais. Houve um tempo em que Sansum se ajoelhava diante de mim e beijava minha espada, mas agora é um santo e eu sou apenas o mais miserável dos pecadores. E um pecador com frio, porque a luz fora de nossa paredes é oca, cinzenta e cheia de ameaça. A primeira neve cairá logo.
E existia neve quando começou a história de Artur. Foi há uma vida inteira, no último ano do reino do Grande Rei Uther. Aquele ano, segundo a contagem do tempo feita pelos romanos, era 1233 depois da fundação da cidade deles — ainda que nós, na Britânia, costumemos datar nossas datas a partir do Ano Negro, que foi quando os romanos abateram os druidas em Ynys Mon. Segundo essa contagem, a história de Artur começa no ano 420, ainda que Sansum, que Deus o abençoe, numere nossa época a partir da data do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo ele acredita, aconteceu 480 invernos antes de essas coisas começarem. Mas como quer que você conte nos anos, foi há muito, muito tempo, numa terra chamada Britânia, e eu estava lá.
E foi assim.
Começou com um nascimento.
Numa noite fria, quando o reino estava imóvel e branco sob uma lua minguante.
E no salão, Norwenna gritava.
E gritava.
Era meia-noite. O céu estava claro, seco e brilhante de estrelas. A terra congelada, dura como ferro, os riachos travados pelo gelo. A lua minguante era um mau presságio, e em sua luz carrancuda as longas terras do oeste pareciam brilhar com um tremeluzir pálido e frio. Nenhuma neve tinha caído há três dias, e não acontecera nenhum degelo, de modo que o mundo inteiro estava branco a não ser onde as árvores tinham sido sopradas pelo vento e agora estavam pretas e intricadas contra a terra devastada pelo inverno. Nosso hálito virava névoa, mas não era soprado para longe porque não existia vento nessa clara meia-noite. A terra parecia morta e imóvel, como se tivesse sido abandonada por Belenos, o Deus Sol, e deixada à deriva no vazio interminável e frio entre os mundos. E frio estava; um frio cortante, mortal. Agulhas de gelo pendiam compridas das traves no grande salão de Caer Cadarn e do portão em arco por onde, mais cedo, o séquito do Grande Rei tinha lutado através da neve para trazer nossa princesa a este alto lugar de reis. Caer Cadarn era onde ficava a pedra real; era o lugar de aclamação e portanto o único local, segundo insistia o Grande Rei, onde seu herdeiro poderia nascer.
Norwenna gritou de novo.
Nunca vi o nascimento de uma criança, nem, que Deus permita, verei. Vi uma égua dar à luz e vi cascos abrirem caminho para o mundo, e ouvi o ganido fraco de uma cadela parindo e senti os movimentos de um gato que nascia, mas nunca vi o sangue e o muco que acompanha os gritos de uma mulher. E como Norwenna gritava!, mesmo tentando não gritar, pelo menos foi o que as mulheres disseram depois. Algumas vezes os guinchos se interrompiam subitamente e deixavam um silêncio pairando em toda a alta fortaleza, e o Grande Rei podia levantar sua cabeça grandiosa de entre as peles e ouvir com tanta atenção quanto se estivesse num bosque com os saxões por perto, só que agora prestava atenção na esperança de que o silêncio súbito marcasse o instante do nascimento, quando seu reino teria de novo um herdeiro. Ele ouvia, e no silêncio da fortaleza gelada escutávamos o barulho áspero da respiração terrível de sua nora e uma vez, só uma, houve um gemido patético, e o Grande Rei meio se virou como se fosse dizer algo, mas então os gritos recomeçaram e sua cabeça baixou sobre as peles grossas, de modo que somente os olhos podiam ser vistos brilhando na caverna sombria formada pelo pesado capuz e a gola de pele.
— O senhor não deveria estar nas muralhas, Grande Senhor — disse o bispo Bedwin.
Uther balançou a mão enluvada como a sugerir que Bedwin podia ir para dentro, onde os fogos estavam acesos, mas que o Grande Rei Uther, o Pendragon da Britânia, não iria se mexer. Queria ficar nas muralhas de Caer Cadarn para olhar a terra gelada e o ar onde espreitavam os demônios, mas Bedwin estava certo, o Grande Rei não deveria estar montando guarda contra demônios naquela noite inclemente. Uther estava velho e doente, mas a segurança do reino dependia de seu corpo inchado e de sua mente lenta e triste. Há apenas seis meses ele estava vigoroso, mas então veio a notícia da morte de seu herdeiro, Mordred — o mais amado de seus filhos e o único nascido da esposa e que permanecia vivo — fora cortado por um machado saxão e sangrara até a morte sob o morro do Cavalo Branco. A morte deixara o reino sem herdeiro, e um reino sem herdeiro é um reino condenado, mas esta noite, se os Deuses quisessem, o herdeiro de Uther nasceria da viúva de Mordred. A não ser que fosse uma menina, claro, e nesse caso toda a dor era em vão e o reino estava condenado.
A cabeça grandiosa de Uther se levantou das peles que estavam com uma crosta de gelo onde seu hálito havia tocado nos pêlos.
— Tudo está sendo feito, Bedwin? — perguntou Uther.
— Sim, Grande Senhor, tudo. — O bispo Bedwin era o conselheiro de maior confiança do rei e, como a princesa Norwenna, era cristão. Norwenna, protestando por ter sido tirada da quente vila romana na localidade próxima de Lindinis, tinha gritado com o sogro dizendo que só iria a Caer Cadarn se ele prometesse manter longe as feiticeiras dos Deuses antigos. Ela insistira num nascimento cristão, e Uther, desesperado por um herdeiro, tinha concordado com a exigência. Agora os sacerdotes de Bedwin estavam entoando suas orações numa câmara ao lado do salão onde água benta tinha sido espargida, uma cruz fora pendurada sobre a cama do nascimento e outra posta sob o corpo de Norwenna. Bedwin explicou:
— Estamos rezando à abençoada Virgem Maria que, não tendo conspurcado seu corpo sagrado com qualquer conhecimento carnal, tornou-se a santa mãe de Cristo e…
— Basta — rosnou Uther. O Grande Rei não era cristão e não gostava de que qualquer homem tentasse transformá-lo num, mas aceitava que o Deus cristão provavelmente tinha tanto poder quanto a maioria dos outros. Os acontecimentos desta noite estavam testando essa tolerância até o limite.
E era por isso que eu estava lá. Eu era uma criança à beira de me tornar homem, um cumpridor de mandados imberbe que se agachava, gélido, ao lado da cadeira do rei nas muralhas de Caer Cadarn. Tinha vindo de Ynys Wydryn, a fortaleza de Merlin, que ficava no horizonte norte. Minha tarefa, se fosse ordenado, era pegar Morgana e suas auxiliares que esperavam na enlameada cabana de um pastor de porcos ao pé da encosta oeste de Caer Cadarn. A princesa Norwenna poderia querer a mãe de Cristo como sua parteira, mas Uther estava a postos com os Deuses mais antigos, caso o mais novo fracassasse.
E o Deus cristão fracassou. Os gritos de Norwenna diminuíram, mas os gemidos ficaram mais desesperados até que finalmente a mulher do bispo Bedwin veio do salão e se ajoelhou trêmula ao lado da cadeira do Grande Rei. O bebê, disse Ellin, não queria sair, e a mãe, pelo que ela temia, estava morrendo. Uther desconsiderou o último comentário. A mãe era nada, apenas a criança importava, e somente se fosse um menino.
— Grande Senhor… — começou Ellin nervosamente, mas Uther não estava mais ouvindo.
Ele deu um tapa na minha cabeça.
— Vá, garoto. — E então saí de sua sombra, saltei no interior da fortaleza e corri entre as construções, pela brancura sombreada pela lua. Os guardas do portão oeste me olharam passar correndo, e em seguida eu estava escorregando e caindo pela rampa de gelo da estrada oeste. Eu cortava a neve, rasguei o manto num toco de árvore e caí com força sobre algumas sarças pesadas de gelo, mas não senti nada, a não ser o peso gigantesco do destino de um reino sobre meus ombros jovens.
— Lady Morgana! — gritei enquanto me aproximava da cabana. — Lady Morgana!
Ela devia estar esperando, porque a porta da cabana se abriu imediatamente e seu rosto com a máscara de ouro brilhou ao luar.
— Vá! — gritou ela para mim. — Vá! — Então me virei e comecei a subir de volta o morro enquanto ao meu redor um punhado dos órfãos de Merlin se esforçavam para andar na neve. Estavam carregando panelas que batiam umas nas outras enquanto corriam, mas quando a encosta ficou íngreme e perigosa demais eles eram forçados a jogar as panelas adiante e subir atrás, usando mãos e pés. Morgana seguia mais devagar, atendida por sua escrava Sebile que carregava os feitiços e ervas necessários. — Acenda os fogos, Derfel! — gritou ela para mim.
— Fogo! — gritei sem fôlego enquanto atravessava o portão. — Fogo nas muralhas! Fogo!
O bispo Bedwin protestou contra a chegada de Morgana, mas o Grande Rei se virou em fúria contra o conselheiro, e o bispo se rendeu humilde à fé mais antiga. Seus sacerdotes e monges receberam a ordem de sair da capela feita às pressas, de carregar archotes para todas as partes das muralhas e lá empilhar os archotes com lenha e madeira arrancada das cabanas que se agrupavam dentro do muro norte da fortaleza. Os fogos estalaram, depois chamejaram gigantescos na noite, e sua fumaça pairou no ar, formando uma cúpula que confundiria os espíritos malignos e os manteria longe deste lugar onde uma princesa e seu filho estavam morrendo. Nós, os jovens, corríamos pelas fortificações batendo panelas para fazer o grande barulho que entonteceria ainda mais os malignos.
— Gritem — ordenei aos filhos de Ynys Wydryn, e outras crianças ainda vieram das cabanas dentro da fortaleza para somar seus ruídos aos nossos. Os guardas batiam com as lanças nos escudos, e os sacerdotes empilhavam mais lenha numa dúzia de piras flamejantes enquanto o resto de nós gritávamos nossos desafios ruidosos contra as fúrias malignas que cortavam a noite para amaldiçoar o trabalho de parto de Norwenna.
Morgana, Sebile, Nimue e uma menina foram para o salão da frente. Norwenna gritou, mas não soubemos se gritava em protesto contra a vinda das mulheres de Merlin ou porque a criança teimosa estava partindo seu corpo ao meio. Mais gritos soaram enquanto Morgana expulsava os auxiliares cristãos. Jogou as duas cruzes na neve e lançou no fogo um punhado de artemísia, a erva da mulher. Mais tarde, Nimue me contou que elas puseram bolotas de ferro na cama úmida para espantar os espíritos malignos que já estavam alojados ali, e puseram sete pedras-de-águia em volta da cabeça da mulher que se retorcia, para trazer os bons espíritos da morada dos Deuses.
Sebile, a escrava de Morgana, pôs um galho de bétula sobre a porta do salão e balançou outro sobre o corpo da princesa que se contorcia. Nimue se agachou perto da porta e urinou na soleira para manter as fadas malignas longe do salão, depois pegou um pouco da urina com a mão em concha e levou até a cama de Norwenna, onde borrifou-a sobre a palha como mais uma precaução para que a alma da criança não fosse roubada na hora do nascimento. Morgana, com a máscara dourada brilhando à luz das chamas, afastou as mãos de Norwenna com tapas para poder forçar um amuleto feito de âmbar raro entre os seios da princesa. A menina, uma das enjeitadas sob a proteção de Merlin, esperava cheia de terror ao pé da cama.
A fumaça das fogueiras recém-ateadas turvava as estrelas. Criaturas que acordaram na floresta ao pé de Caer Cadarn uivavam para o barulho que tinha irrompido acima, enquanto o Grande Rei Uther erguia os olhos para a lua que ia morrendo e rezava para que não tivesse chamado Morgana tarde demais. Morgana era filha natural de Uther, a primeira dos quatro bastardos que o Grande Rei havia gerado em Igraine de Gwynedd. Sem dúvida, Uther preferiria que Merlin estivesse ali, mas ele tinha sumido há meses, ido para lugar nenhum, ido, algumas vezes nos parecia, para sempre, e Morgana, que aprendera com Merlin, devia tomar o lugar dele nesta noite fria em que batíamos panelas e gritávamos até ficar roucos para afastar os inimigos malignos de Caer Cadarn. Até mesmo Uther se juntou a nós fazendo barulho, ainda que o som de seu cajado batendo na borda da muralha fosse muito fraco. O bispo Bedwin estava de joelhos, rezando, enquanto sua mulher, expulsa da sala do parto, chorava, uivava e pedia ao Deus cristão para perdoar as feiticeiras pagãs.
Mas a feitiçaria deu certo, porque nasceu uma criança viva.
O grito dado por Norwenna na hora do nascimento foi pior do que qualquer um que o precedera. Foi o urro de um animal atormentado, um lamento para fazer toda a noite soluçar. Nimue me disse mais tarde que Morgana tinha causado essa dor enfiando a mão no canal do nascimento e arrancando o bebê para este mundo com o uso de força bruta. A criança veio sangrenta de dentro da mãe atormentada, e Morgana gritou para a menina pegar a criança enquanto Nimue amarrava e cortava o cordão. Era importante que o bebê fosse segurado primeiro por uma virgem, e por isso a menina tinha sido levada ao salão, mas ela ficou apavorada e não queria chegar perto da palha sangrenta onde Norwenna agora ofegava, e onde o recém-nascido, manchado de sangue, parecia natimorto.
— Pegue-o! — gritou Morgana, mas a menina fugiu em lágrimas. Assim, Nimue pegou o bebê da cama e limpou sua boca, para que ele pudesse respirar ofegante pela primeira vez.
Todos os presságios eram muito ruins. A lua com halo estava minguando e a virgem fugira do bebê que agora começava a chorar alto. Uther ouviu o barulho e o vi fechar os olhos enquanto rezava aos Deuses para ter recebido um menino.
— Posso? — perguntou hesitante o bispo Bedwin.
— Vá — disse Uther com rispidez, e o bispo desceu rapidamente a escada de madeira, arrebanhou a túnica e correu pela neve pisoteada até a porta do salão. Ficou ali alguns segundos, depois correu de volta para a muralha, acenando.
— Boas novas, Grande Senhor, boas novas! — gritava Bedwin enquanto subia desajeitadamente pela escada de mão. — Notícia excelente!
— Um menino. — Uther antecipou a notícia soltando as palavras junto com a respiração.
— Um menino! — confirmou Bedwin. — Um belo menino!
Eu estava agachado perto do Grande Rei e vi lágrimas surgirem em seus olhos virados para o céu.
— Um herdeiro — disse Uther num tom de espanto, como se na verdade não tivesse ousado esperar que os Deuses o favorecessem. Enxugou as lágrimas com a mão coberta pela luva de pele. — O reino está salvo, Bedwin.
— Deus seja louvado, Grande Senhor, ele está salvo — concordou Bedwin.
— Um menino — disse Uther, e então, de repente, seu corpo enorme foi sacudido por uma tosse terrível que o deixou ofegante. — Um menino — disse de novo quando a respiração se estabilizou.
Morgana veio depois de um tempo. Subiu a escada e prostrou o corpo atarracado na frente do Grande Rei. Sua máscara de ouro brilhava, escondendo o horror que havia por baixo. Uther tocou o ombro dela com o cajado.
— Levante-se, Morgana. — Em seguida ele enfiou a mão debaixo do manto e pegou um broche de ouro para recompensá-la.
Mas Morgana não quis aceitar.
— O menino é aleijado — disse ela numa voz agourenta. — Tem um pé torto.
Vi Bedwin fazer o sinal-da-cruz, porque um príncipe aleijado era o pior presságio que essa noite poderia trazer.
— É muito ruim? — perguntou Uther.
— Só o pé — disse Morgana em sua voz áspera. — A perna é bem formada, Grande Senhor, mas o príncipe jamais correrá.
Bem do fundo de seu manto de pele cheio de dobras Uther deu um risinho.
— Os reis não correm, Morgana. Eles andam, governam, cavalgam e recompensam seus súditos bons e honestos. Aceite o ouro. — Ele estendeu de novo o broche para ela. Era uma peça de ouro grosso, maravilhosamente moldada na forma do talismã de Uther, um dragão.
Mas Morgana continuou não querendo aceitar.
— E o menino é o último filho que Norwenna poderá ter, Grande Senhor. Nós queimamos as secundinas e elas não soaram nem uma vez. — As secundinas eram sempre postas no fogo, de modo que o som estalado que elas fizessem diria quantos outros filhos a mulher teria. — Eu ouvi com atenção, e elas permaneceram silenciosas.
— Os Deuses as queriam silenciosas — disse Uther, irritado. — Meu filho está morto — prosseguiu em voz monótona —, então quem mais poderia dar a Norwenna um filho homem em condições de ser rei?
Morgana fez uma pausa.
— O senhor? — disse ela enfim.
Uther riu diante do pensamento, depois o riso virou uma gargalhada e finalmente outro ataque de tosse que o fez se curvar para a frente numa dor que rasgava os pulmões. A tosse finalmente passou e ele inspirou trêmulo enquanto balançava a cabeça.
— O único dever de Norwenna era parir um filho homem, Morgana, e isso ela fez. Nosso dever é protegê-lo.
— Com toda a força de Dumnonia — acrescentou Bedwin, ansioso.
— Os recém-nascidos morrem com facilidade — alertou Morgana aos dois homens, em sua voz opaca.
— Este não — disse Uther com ferocidade. — Este não. Ele irá até você, Morgana, em Ynys Wydryn, e você usará suas habilidades para garantir que ele viva. Ande, pegue o broche.
Finalmente Morgana aceitou o broche do dragão. O bebê aleijado ainda estava chorando, e a mãe gemia, mas sobre as muralhas de Caer Cadarn os que batiam panelas e cuidavam das fogueiras estavam comemorando a notícia de que nosso reino tinha um herdeiro de novo. Dumnonia tinha um edling, e o nascimento de um edling significava grandes festas e presentes generosos. A palha da cama, ensangüentada pelo parto, foi trazida e jogada numa fogueira para que as chamas estalassem ruidosas. Uma criança havia nascido; tudo que essa criança precisava agora era de um nome, e desse nome não poderia haver dúvida. Nenhuma. Uther se levantou da cadeira e ficou de pé, enorme e sério sobre a muralha de Caer Cadarn para pronunciar o nome de seu neto recém-nascido, o nome de seu herdeiro e o nome do edling de seu reino. O bebê nascido no inverno teria o nome do pai.
Iria se chamar Mordred.
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Primeiro Capítulo: O Vingador | Frederick Forsyth
Livro: O Vingador
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O OPERÁRIO
O homem que corria sozinho agachou-se na ladeira e mais uma vez lutou contra sua inimiga, a dor. Aquele esporte era uma tortura e uma terapia, e era justamente por isso que o praticava.
Os especialistas dizem que, dentre todas as disciplinas esportivas, o triatlo é a mais brutal e impiedosa. O decatleta precisa dominar um número maior de habilidades, e possuir mais força bruta para as provas de arremesso, mas no que diz respeito a vigor e capacidade de suportar a dor, existem poucas provações como o triatlo.
O homem que corria sob o sol nascente de Nova Jersey havia, como sempre, iniciado o treinamento muito antes da alvorada. Dirigira sua picape até o lago e largara a bicicleta de corrida no caminho, acorrentando-a a uma árvore como medida de segurança. Às 05:02, pusera o cronômetro no pulso, abaixando a manga da roupa de mergulho de neoprene para cobri-lo, e entrara na água gelada. Praticava o triatlo olímpico, com distâncias medidas no sistema métrico.
Primeiro, 1.500 metros de natação; saindo da água, despir-se rápido para camiseta e bermudas e montar na bicicleta de corrida. Depois, quarenta quilômetros curvado sobre o guidom, o tempo todo pedalando o mais depressa possível. Há tempos medira os 1.600 metros ao redor do lago de ponta a ponta, e sabia exatamente que árvore na margem oposta marcava o ponto em que deixara a bicicleta. Ele tinha marcado seus quarenta quilômetros pelas estradas do campo, sempre naquela hora vazia, e sabia que árvore era o ponto para abandonar a bicicleta e começar a correr. Dez quilômetros correndo e então alcançava a porteira de fazenda que indicava mais dois quilômetros até o fim do percurso. Naquela manhã tinha acabado de passar pela porteira. Os dois últimos quilômetros eram ladeira acima, e representavam o desafio final, o trecho excruciante.
Doía tanto porque os músculos necessários eram todos diferentes. Os ombros, peito e braços poderosos de um nadador não costumam ser requeridos por um ciclista ou um maratonista. São apenas quilos extras a ser carregados.
Os movimentos acelerados das pernas e do quadril de um ciclista são diferentes dos tendões e músculos que conferem ao corredor o ritmo e a cadência para engolir os quilômetros com os pés. A repetição dos ritmos de um exercício não combina com a do outro. O triatleta precisa de todos eles, e depois tenta combinar os desempenhos de três atletas especializados, um após o outro.
Aos 25 anos isso é um evento cruel. Aos 51 é uma tortura que merecia indiciação sob a Convenção de Genebra. O corredor tinha passado dos 51 em janeiro último. Arriscou olhar o pulso e fez uma careta. Nada bom: estava vários minutos abaixo de seu recorde. Ele se esforçou mais para combater sua inimiga.
Os atletas olímpicos buscavam realizar aquele percurso em menos de duas horas; o corredor de Nova Jersey tinha conseguido chegar a duas horas e meia. Ele estava quase alcançando esse tempo agora, e ainda faltavam dois bons quilômetros.
As primeiras casas de sua cidade natal despontaram numa curva da Rodovia 30. Pennington era uma aldeia muito antiga, anterior à Revolução. Era cortada pela Rodovia 30, que se projetava da Interestadual 95, que começava em Nova York e cruzava o estado até Delaware, Pensilvânia e Washington. Dentro da cidade, a Rodovia 30 era chamada de Main Street.
Não tem muita coisa em Pennington, uma das milhares de cidadezinhas limpas e aconchegantes que compõem o coração ignorado e subestimado dos Estados Unidos da América. Um único cruzamento principal no centro onde a West Delaware Avenue cruza a Main Street, várias igrejas das três congregações cristãs, um First National Bank, algumas lojas, e residências afastadas da rua espalhadas ao longo das vias duplas arborizadas.
O corredor seguiu até a encruzilhada. Ainda faltava meio quilômetro. Era cedo demais para tomar uma xícara de café no Cup of Joe, ou um desjejum completo no Vito´s Pizza - mas mesmo se estivessem abertos, o corredor não teria parado. A sul da junção o corredor passou por uma casa de tábuas brancas e teto de telhas vermelhas, uma relíquia da época da Guerra Civil com uma tabuleta que indicava que ali era o escritório do Sr. Calvin Dexter, advogado. Ele atendia nessa casa, exceto nas ocasiões em que viajava para cuidar de sua outra carreira. Os clientes e vizinhos aceitavam que ele viajasse para pescar de vez em quando, sem nada saber sobre o pequeno apartamento que ele tinha sob outro nome em Nova York.
Ele forçou suas pernas doloridas pelos últimos 450 metros para alcançar a entrada da Chesapeake Drive, no lado sul da cidade. Ele morava ali, e a esquina marcava o fim de seu Calvário auto-infligido. Diminuiu a velocidade, parou e abaixou a cabeça, debruçando-se contra uma árvore para sugar oxigênio para seus pulmões murchos. Duas horas e 36 minutos. Muito longe do seu melhor.
O fato de que provavelmente não havia ninguém num raio de centenas de quilômetros, com 51 anos ou não, capaz de chegar sequer perto disso, estava fora de questão. A questão, que ele não ousava explicar aos vizinhos que o aplaudiam e o animavam, era usar a dor para combater a outra dor, a dor perene, a dor que nunca ia embora, a dor da criança perdida, do amor perdido, da vida perdida.
O corredor entrou em sua rua e caminhou os últimos 180 metros. À sua frente viu o entregador de jornais arremessar um embrulho pesadíssimo em sua varanda. O garoto acenou enquanto passava de bicicleta e Cal Dexter acenou de volta. Mais tarde ele montaria em sua scooter e iria resgatar a caminhonete. Com a scooter na carroceria, dirigiria de volta para casa, pegando a bicicleta de corrida ao longo da estrada. Mas primeiro precisava de um banho, algumas barras energéticas e o conteúdo de várias laranjas.
Pegou o embrulho e o abriu. Conforme esperava, ali estavam o jornal local, outro de Washington, o grosso Sunday Times de Nova York e, embrulhada em plástico, uma revista técnica.
Calvin Dexter, o advogado magro, de cabelos claros e sorriso amistoso de Pennington, Nova Jersey, não havia nascido para ser nenhuma dessas coisas,embora tivesse realmente nascido no estado.
Foi criado numa favela de Newark, infestada de baratas e ratos, e veio ao mundo em janeiro de 1950, fruto da união de um operário de construção com uma garçonete da lanchonete local. Seus pais, segundo a moralidade daquela época, não haviam tido qualquer escolha senão casar-se depois que um encontro num baile e alguns copos a mais de bebida barata fizeram a situação sair do controle e resultara na concepção de Calvin. No começo, ele não sabia nada disso. Bebês jamais sabem como ou por meio de quem chegaram aqui. Eles precisam descobrir e, às vezes, da maneira mais difícil.
O pai era um homem bom, ao seu jeito. Depois de Pearl Harbor fora voluntário para as forças armadas, mas revelara-se mais útil como operário de construção, trabalhando em território americano, onde o esforço de guerra envolvera a criação de milhares de novas fábricas, docas e escritórios federais na área de Nova Jersey.
Era um homem rude, rápido com os punhos, a única lei em muitos trabalhos operários. Mas tentava viver na linha, trazendo para casa o envelope com seu salário fechado, tentando educar seu filho pequeno a amar a bandeira, a Constituição e Joe DiMaggio.
Mais tarde, depois da Guerra da Coréia, as oportunidades de trabalho desapareceram. Apenas a desgraça industrial permanecia, e os sindicatos estavam à mercê da Máfia.
Calvin tinha cinco anos quando sua mãe foi embora. Era jovem demais para entender o motivo. Não sabia nada sobre o casamento sem amor de seus pais, e aceitava com a resistência filosófica dos muito jovens que os adultos sempre gritavam e discutiam daquela forma. Não sabia nada sobre o caixeiro-viajante que tinha prometido a ela luzes mais brilhantes e vestidos mais bonitos. Ele simplesmente recebeu a notícia de que sua mãe tinha “ido embora”.
Ele havia aceitado que agora seu pai ficasse em casa todas as noites, cuidando dele ao invés de tomando algumas cervejas depois do trabalho, olhando melancólico para a televisão. Só quando chegou à adolescência ele soube que sua mãe, depois de ter sido abandonada pelo caixeiro-viajante, tinha tentado voltar, mas fora rejeitada pelo pai zangado e amargurado.
Estava com sete anos quando seu pai teve uma idéia para resolver ao mesmo tempo o problema de moradia e a necessidade de buscar trabalho em lugares distantes. Saíram do bairro pobre em Newark e compraram um trailer de segunda mão. O trailer foi sua casa por dez anos.
Pai e filho mudaram de trabalho em trabalho, morando no trailer, o garoto freqüentando qualquer escola local que o aceitasse. Era a época de Elvis Presley, Del Shannon, Roy Orbison, os Beatles, vindos de um país de que Cal jamais tinha ouvido falar. Era a época de Kennedy, da Guerra Fria, do Vietnã. Os trabalhos apareciam e eram completados. Eles se moveram através das cidades ao norte de East Orange, Union e Elizabeth. Depois foram trabalhar nos arrabaldes de New Brunswick e Trenton. Durante algum tempo moraram em Pine Barrens enquanto Dexter Senior era capataz num projeto modesto. Depois seguiram para o sul, em direção a Atlantic City. Entre seus oito e dezesseis anos, Cal freqüentou nove escolas em muitos anos. Sua educação formal daria para preencher um selo de correio.
Mas ele aprendera muitas outras coisas, além da educação formal das escolas. Sabia o linguajar e o jeito dos malandros de rua, e brigar também. Como sua mãe, não era alto, tendo parado de crescer com 1,64m. Também não era pesado e musculoso como o pai, mas seu corpo esguio era cheio de vigor e os punhos eram velozes e poderosos. Certa vez desafiou um lutador numa feira circense, nocauteou o sujeito e levou para casa o prêmio de vinte dólares.
Um homem que cheirava a pomada barata procurou seu pai e sugeriu que o garoto passasse a freqüentar seu ginásio com vistas a se tornar um boxeador, mas eles se mudaram para uma nova cidade e um novo trabalho.
Não havia dinheiro para viagens, e assim, quando o ano letivo acabava, o garoto simplesmente ia para o canteiro de obras com o pai. Ali ele fazia café, entregas, e trabalhos estranhos. Um desses trabalhos envolveu um homem que usava uma pala verde acima dos olhos. Ele ofereceu-lhe um serviço que consistia em levar envelopes a vários endereços através de Atlantic City e ficar de bico calado. Assim, durante as férias de verão de 1965, Cal foi entregador de apostas.
Mesmo estando na base da pirâmide social, um garoto esperto pode olhar para cima. Cal Dexter sabia entrar de graça nos cinemas e se maravilhar com o glamour de Hollywood, os cenários panorâmicos do Velho Oeste, o deslumbre dos musicais, as palhaçadas de Dean Martin e Jerry Lewis.
Ele também via nos comerciais de televisão apartamentos elegantes com cozinhas em aço inoxidável, famílias sorridentes nas quais os pais pareciam amar um ao outro. Via as limusines e carros esportivos nos outdoors na rodovia.
Cal não tinha nada contra os operários nas obras. Eles eram rudes e brutos, mas todos gentis com ele, ou pelo menos quase todos. Nas obras ele também usava um capacete de proteção, e o consenso geral era que depois que saísse da escola iria seguir os passos do pai. Mas ele tinha outras idéias. Qualquer que fosse a vida que ele tivesse, Cal jurou, seria longe do ruído e da poeira de cimento que infestavam as obras.
Então compreendeu que não tinha nada a oferecer em troca dessa vida melhor, mais endinheirada e confortável. Ele pensou no cinema, mas presumiu que todos os astros eram homens muito altos, sem saber que a maioria tinha exatamente sua altura. Este pensamento só lhe ocorreu porque alguma garçonete disse que ele parecia um pouco com James Dean, mas os operários morreram de rir quando ouviram isso, e então abandonou a idéia.
Esportes e atletismo podiam tirar um jovem das ruas e colocá-lo na estrada para a fama e a fortuna, mas ele sempre havia trocado de colégios tão rápido que nunca tivera a chance de participar de nenhum time escolar.
Qualquer coisa que envolvesse uma educação formal, quanto mais qualificações, estava fora de questão. Assim, restavam outros tipos de empregos de classe trabalhadora: garçom, carregador, garagista, motorista de furgão de entregas. A lista era interminável, mas, considerando as perspectivas oferecidas pela maioria, era melhor que ele continuasse com construção. A brutalidade pura e os riscos apresentados pelo trabalho tornavam a atividade mais bem remunerada que a maioria das outras.
Outra opção era o crime. Qualquer pessoa criada nas docas ou nos canteiros de obras de Nova Jersey estava ciente de que o crime organizado, e a participação em gangues, poderia conduzir a uma vida de apartamentos grandes, carros velozes e mulheres fáceis. E todo mundo sabia que isso quase nunca dava em cadeia. Ele não era ítalo-americano, e portanto jamais poderia aspirar à aristocracia da Máfia, mas havia anglo-saxões brancos e protestantes que se davam bem.
Aos dezessete anos largou os estudos e no dia seguinte começou a trabalhar com o pai num canteiro de obras nas cercanias de Camden. Um mês depois, o operador da motoniveladora ficou doente. Não havia quem o substituísse. Era um trabalho especializado. Cal olhou para o interior do veículo. Parecia fazer sentido.
- Posso operar esse negócio - disse Cal.
O capataz ficou indeciso. Era contra as regras. Se algum inspetor visse, seu emprego viraria fumaça. Em contrapartida, todos os operários estavam de braços cruzados, esperando que montanhas de terra fossem movidas.
- Tem um montão de alavancas nesse aparelho.
- Confie em mim - disse o garoto.
Ele levou cerca de vinte minutos para descobrir para que servia cada alavanca. Começou a mover areia. Isso significava um adicional em seu salário, mas ainda assim não era uma carreira.
Em janeiro de 1968 fez vinte anos e os vietcongues lançaram a ofensiva do Tet. Cal estava vendo televisão num bar em Camden. Depois dos noticiários entraram vários comerciais e então um pequeno filme de recrutamento feito pelo exército. Ele mencionava que, se você se apresentasse como voluntário, o exército lhe daria uma educação. No dia seguinte, foi até o posto das forças armadas em Camden e disse:
- Quero ingressar no exército.
Naquela época, todo jovem americano era, salvo em algumas circunstâncias muito incomuns ou exílio voluntário, suscetível ao recrutamento compulsório logo depois de seu 18.º aniversário. O desejo de quase todo adolescente, e do dobro desse número de pais, era se livrar disso. O primeiro-sargento atrás da mesa estendeu a mão para que o jovem lhe desse seu cartão de recrutamento.
- Eu não tenho - disse Cal Dexter. - Sou voluntário.
E isso atraiu a atenção de todos os presentes.
O primeiro-sargento deslizou um formulário até ele, olhando fixamente em seus olhos, como um furão que não quer deixar escapar um coelho.
- Bem, isso é muito bom, rapaz. É uma atitude muito inteligente. Quer um conselho de um veterano?
- Claro.
- Inscreva-se para três anos, ao invés de para os dois requeridos. Assim, terá chances de posicionamentos melhores e escolhas de carreira mais interessantes. - Ele se inclinou à frente, como se fosse compartilhar de um segredo de estado. - Inscrito para três anos, você pode até escapar de ir pro Vietnã.
- Mas eu quero ir pro Vietnã - disse o rapaz de calças jeans desbotadas.
O primeiro-sargento pensou sobre isso e disse, lentamente:
- Certo. - Ele sentiu vontade de acrescentar “gosto não se discute”, mas disse simplesmente: - Levante a mão direita…
Trinta e três anos depois, o ex-operário colocou quatro laranjas no liquidificador, enxugou de novo a testa suada, e levou a pilha de jornais e o suco até a sala de estar.
Primeiro ele abriu a revista técnica. Vintage Airplane é um periódico de circulação restrita, e em Pennington só podia ser obtida através de um pedido especial. A revista é dedicada aos apaixonados por aviões clássicos e da Segunda Guerra Mundial. O corredor correu as páginas até a pequena seção de classificados e estudou os anúncios de requisição. Ele parou o copo de suco a meio caminho da boca, pousou-o na mesinha e leu o anúncio de novo. Ele dizia:
“VINGADOR. Precisa-se. Oferta séria. Sem limite de preço. Favor ligar.”
Não havia nenhum modelo de Grumman Avenger, um avião torpedeiro-bombardeiro da guerra do Pacífico, à venda em lugar nenhum. Todos estavam em museus. Alguém tinha descoberto o código de contato. Havia um número. Devia ser um celular. A data era 13 de maio de 2001.
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Primeiro Capítulo: Uma Questão Pessoal | Kenzaburo Oe
Livro: Uma Questão Pessoal
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Bird estremeceu e observou melhor os detalhes do mapa. O oceano ao redor da África era do mesmo azul do céu lavado das madrugadas de inverno. Melancólico de provocar lágrimas. As latitudes e longitudes não haviam sido traçadas mecanicamente, com o auxílio de um compasso, por exemplo. Eram imprecisas mas belas, porque executadas à mão. Traços grossos, em tinta negra. O continente propriamente dito parecia o crânio de um homem com a cabeça inclinada. A cabeça gigantesca parecia contemplar com afeição a Austrália dos coalas, das gazelas e dos cangurus. A África em miniatura, com a distribuição demográfica do continente, impressa na parte inferior do mapa, era como uma cabeça de cadáver começando a decompor-se; outra, mostrando as vias de comunicação, era uma cabeça escalpelada com finas artérias à mostra. Aquelas duas pequenas Áfricas sugeriam morte violenta.
- Quer que retire o atlas do mostruário?
- Não, o que eu quero não é este. Estou procurando os mapas rodoviários da África Ocidental, da África Central e da África Meridional, os mapas Michelin - disse Bird.
A vendedora se agachou em frente a uma estante cheia de mapas Michelin de todos os tipos. Começava a vasculhá-los apressadamente quando Bird, revelando-se conhecedor, acrescentou:
- São os mapas de número cento e ointenta e dois e cento e oitenta e cinco.
O que Bird examinava entre suspiros era uma das páginas de um espesso atlas mundial. Respeitável, encadernado em couro, uma peça de antiquário. Ele já verificara o preço daquele volume luxuoso semanas antes. Valia umas cinco vezes seu salário de professor de cursinho. Contando as receitas de sua atividade secundária como intérprete, poderia obtê-lo em três meses de trabalho. Mas precisava sustentar a si próprio, à mulher e ao ser que em breve viria ao mundo. Era um chefe de família.
A vendedora separou dois conjuntos de mapas de capa vermelha e os depositou sobre o balcão. Tinha mãos pequenas e sujas e dedos feios. Lembravam as patas de um camaleão agarradas a um tronco ressequido. Bird viu o logotipo Michelin por entre os dedos dela: o homem batráquio de borracha rodando um pneu estrada afora provocou nele o sentimento de que a compra dos mapas era uma tolice. Porém aqueles mapas teriam um uso prático importante. Bird perguntou sobre o outro mapa, o da edição luxuosa do mostruário, pelo qual continuava interessado.
- Por que o atlas está sempre aberto no mapa da África?
Cautelosa, a vendedora preferiu não responder.
Por que ele estaria sempre aberto na página da África?, Bird se perguntava.
Preferência da vendedora, por achar aquela página a mais bonita do livro? Talvez. Mas o mapa de um continente mutável como o africano se desatualiza com muita rapidez. Provoca a caducidade de qualquer atlas. Deixar o atlas aberto na página da África seria, pura e simplesmente, proclamar a obsolescência da obra inteira. Que mostrassem o mapa de um continente politicamente estabilizado, sem a mínima possibilidade de desatualização. Mas qual deles? O continente americano, ou seja, o norte-americano?
Bird interrompeu suas conjecturas para pagar pelos dois mapas de capa vermelha, depois avançou na direção da escada, passando cabisbaixo entre a estátua de bronze de uma mulher nua e rechonchuda e uma árvore plantada num vaso. O baixo-ventre da estátua de bronze estava lustroso e úmido, ensebado pelas mãos dos carentes de sexo. Brilhava como um nariz de cachorro. Quando estudante, também ele costumava alisar aquela barriga ao passar. Agora, não tinha coragem nem de olhar o rosto da mulher de bronze. Vira o médico e as enfermeiras, de mangas arregaçadas, lavando e esfregando os braços com desinfetante. E, nua, estendida ali ao lado, sua mulher. O médico tinha braços peludos.
Bird atravessou o congestionado setor de revistas do andar térreo. Enfiou cuidadosamente o embrulho contendo os mapas no bolso externo do paletó, protegendo-o enquanto caminhava. Pela primeira vez, comprava mapas de uso prático como aqueles.
Quando vou conseguir pisar o solo africano? Erguer o rosto, ver o céu da África através das lentes dos óculos escuros? Chegará mesmo esse dia? Ele não acreditava. Quem sabe, neste exato momento, eu não tenha perdido para sempre essa chance? Quem sabe não estou dando adeus à única e última oportunidade da minha juventude? Mas fazer o quê?
Inconformado, empurrou com violência a porta da livraria e saiu para a rua, para o lusco-fusco da tarde. Início de verão, pairava no ar uma nebulosidade, fruto da poluição aliada às sombras do crepúsculo. A vitrina exibia livros de capa dura recém-importados. Lá no alto, um eletricista que trocava lâmpadas de néon pulou e caiu agachado diante de Bird. Ele recuou, assustado, e se deteve, observando a própria imagem refletida no vidro da ampla vitrina às escuras. Estava envelhecendo com a rapidez de um corredor de curta distância. Bird, vinte e sete anos e quatro meses. Recebera o apelido aos quinze anos de idade e desde então nunca deixara de ser Bird. Flutuando desajeitadamente à superfície do lago escuro da vitrina, como um afogado. Bird, baixo e magro, a própria imagem do pássaro. Seus amigos haviam engordado assim que se formaram e começaram a trabalhar. Até os magros teimosos haviam deixado de sê-lo depois do casamento. Bird, contudo, continuara magro. Só o ventre estava um pouco mais saliente. Andava sempre encurvado e de ombros encolhidos. Não mudava de posição nem quando estava parado. Jeito de velho, desses que um dia foram atletas.
Não só os ombros encolhidos lembravam as asas dobradas de um pássaro. O próprio rosto era o de um pássaro. Nariz afilado e liso, fortemente encurvado, com o aspecto de um bico de ave; olhos inexpressivos, com um brilho duro de goma-laca, que se arregalavam de vez em quando como se estivessem apavorados. Lábios finos e rijos, sempre cerrados. A linha da face e do queixo formava um ângulo muito agudo. Cabelos avermelhados, subindo ao céu como uma labareda. Aos quinze anos, Bird já era assim. Nada se alterara aos vinte. Até quando, aquele jeito de pássaro? Faria parte da espécie humana cujo rosto e físico se conservam irremediavelmente imutáveis dos quinze aos sessenta? Sendo assim, estaria fadado a conviver com aquela imagem da vitrina pelo resto da vida. Idéia realmente angustiante e repulsiva, que lhe dava náuseas. Pássaro decrépito e cansado, cheio de filhos, o seu futuro…
Foi aí que, do fundo daquele lago escuro, surgiu uma mulher de aspecto positivamente estranho. Corpulenta, de ombros largos, tão alta que sua cabeça ficava acima do reflexo da cabeça de Bird. Com a sensação de que havia um monstro às suas costas Bird finalmente se voltou, na defensiva. A mulher estava agora diante dele, com ar indagador, examinando-o com atenção. Bird devolveu o olhar, mas percebeu que pouco depois a ansiedade estampada no rosto dela era afastada por um sopro de indiferença. Ela esboçara um contato, com algum intuito. E de repente se dera conta de que Bird não correspondia bem ao tipo presumido. A essa altura ele já percebera o que havia de estranho naquela mulher. Uma cabeleira encaracolada, por demais vistosa, envolvia-lhe o rosto, digno de um anjo dos quadros de anunciação de Fra Angelico. E pontas de barba malfeita que emergiam, trêmulas, rompendo a fantástica espessura da maquilagem, em especial sobre o lábio superior.
- Oi! - cumprimentou a mulherona com uma voz retumbante, masculina e jovial, embaraçada pelo engano que cometera.
- Oi! - respondeu Bird, apressando um sorriso, a voz um tanto desafinada e estridente. Outra das razões de seu apelido.
Após seguir com o olhar o travesti que dava meia-volta sobre o salto alto e se afastava, Bird começou a caminhar no sentido oposto. Atravessou uma ruela estreita e cruzou com extremo cuidado uma larga avenida por onde circulavam bondes. Repentes de aflição aguçavam-lhe a cautela. Um passarinho aflito. O apelido, sem dúvida, era muito adequado.
O sujeito me tomou por um homossexual, quando me viu contemplando minha própria imagem na vitrina. Achou que eu estava à espera de um encontro. Terrível engano. Mas percebeu imediatamente o erro quando me voltei, e isso salva minha honra. Assim tranqüilizado, Bird agora achava graça do bizarro da situação. Oi! - nas circunstâncias, não havia saudação mais adequada, não é mesmo? Aquele travesti deve ser um intelectual refinado.
Nascia uma súbita simpatia pelo jovem fantasiado de mulher. Será que ele encontraria um companheiro homossexual para a noite? Faria uma abordagem bem-sucedida? Quem sabe. Talvez devesse ter encontrado coragem para acompanhar o travesti.
Atravessou a avenida e entrou numa rua repleta de lanchonetes e bares. Estava imaginando o que teria acontecido se tivesse acompanhado o outro até uma espelunca qualquer. Com certeza estariam agora ambos nus e deitados, conversando como bons irmãos. Estaria nu apenas para deixar o outro à vontade. Teria revelado que sua mulher estava em trabalho de parto. Diria também que havia muito tempo sonhava viajar pela África, e que o maior de todos os seus sonhos era publicar um livro de aventuras depois de regressar. Os céus da África, esse seria o título. E diria que com o nascimento da criança ele ficaria confinado numa jaula - a família. Já era prisioneiro de fato dessa jaula desde que se casara, mas a porta, que ainda lhe parecia estar aberta, seria definitivamente trancada pelo filho que estava para nascer. Sua viagem solitária pela África ficaria impossível. E aquele travesti removeria, uma por uma, todas as sementes da neurose que o atormentava. Compreenderia, sem dúvida. O rapaz saíra pelas ruas da cidade fantasiado de mulher em busca de uma companhia homossexual. O empenho em ser fiel às distorções de sua personalidade o levara àquilo. Gente como ele com certeza teria olhos e ouvidos sensíveis para os temores enraizados nas profundezas do subconsciente.
Amanhã de manhã poderíamos fazer a barba juntos, lado a lado, ouvindo o noticiário pelo rádio, partilhando o mesmo pote de sabão. O travesti era moço, mas parecia ter barba cerrada. Bird sorriu, interrompendo o fio do pensamento. Dificilmente teria passado uma noite com o rapaz, mas podia ao menos tê-lo convidado para um trago. Nesse momento avançava por uma rua em que bares de terceira se enfileiravam um ao lado do outro para acolher a multidão de bêbados que buscavam aqueles lugares. Estava com sede e com vontade de beber, mesmo desacompanhado. Torcendo o pescoço longo e fino, Bird percorreu com os olhos os dois lados da rua, à escolha de um bar. Na verdade, não estava muito à vontade. O que não diria sua sogra, se fosse ver a mulher e o filho recém-nascido cheirando a bebida! Não queria dar a impressão, nem a ela nem ao sogro, de ter voltado a beber. Decepcioná-los de novo, não!
No momento, o sogro de Bird lecionava numa pequena faculdade particular, mas até se aposentar fora chefe do departamento de inglês da universidade onde Bird estudava, e o fato de Bird ter conseguido, jovem como era, uma colocação como professor devia-se mais à proteção do sogro do que à sorte. Ele adorava aquele velho, e também o venerava. Bird jamais conhecera alguém com a generosidade do sogro e não queria desapontá-lo outra vez.
Aos vinte e cinco anos de idade, Bird se casara, em maio. Naquele verão, durante quatro semanas, entregara-se ao uísque. De repente se achara solto e à deriva num oceano do álcool, Robinson Crusoé embriagado. Estudante de pós-graduação, abandonara suas obrigações. Deixara de comparecer à faculdade e ao emprego de meio período para se enfurnar em sua quitinete ouvindo discos e ingerindo uísque o dia inteiro e a noite inteira também, é claro. Dias de horror, em que nada fizera que comprovasse sua condição de ser humano vivente a não ser ouvir música, tomar uísque e curtir o sono intranqüilo dos ébrios. Passadas quatro semanas, ressuscitara das setecentas horas de embriaguez para se descobrir miseravelmente lúcido. Completamente destroçado, uma cidade arrasada pela guerra. Alcoólatra com escassa possibilidade de recuperação, restava-lhe cultivar novamente os campos áridos de seu relacionamento. Primeiro consigo mesmo, em seguida com o seu mundo.
Bird encaminhara um pedido de desligamento do curso de pós-graduação e fora trabalhar como professor de cursinho, emprego obtido graças ao sogro. Agora, dois anos depois, aguardava o parto da mulher. Surgisse aquele Bird no quarto do hospital, com álcool nas veias, a sogra fugiria espavorida, levando a filha e o neto!
Ele próprio se mantinha precavido contra a atração do álcool ainda presente, já atenuada mas pertinaz. Ressurgindo das quatro semanas no inferno do uísque, tentara diversas vezes descobrir o que o arrastara para as setecentas horas de bebedeira. Jamais chegara a uma conclusão. E desde que não conseguira atinar com as causas do súbito mergulho às profundezas da bebida, sempre havia o perigo de voltar para lá a qualquer momento. Não tinha como organizar uma defesa enquanto não compreendesse o que haviam sido aquelas quatro semanas.
Numa das obras sobre a África que lia com tanta avidez, deparara com o seguinte trecho do diário de uma expedição ao continente:
“As histórias de bebedeiras dos nativos, objeto dos relatos de todos os exploradores e até hoje comuns nas aldeias africanas, revelam a existência de um vazio na vida das pessoas deste belo país. Insatisfações básicas ainda impelem os habitantes das aldeias africanas à autodestruição desesperada”.
O trecho provinha de um texto referente aos nativos das aldeias do Sudão agreste. Ao lê-lo, Bird percebeu que vinha evitando ir fundo na pesquisa das carências da própria vida, das raízes de sua insatisfação. Sabendo que elas existiam, porém, acautelava-se com a bebida.
Bird chegou a uma praça de onde as ruas se irradiavam, no centro do bairro de casas noturnas. O relógio elétrico do grande teatro à sua frente indicava sete da noite, hora de ligar para a sogra no hospital e saber do estado da mulher. Vinha ligando de hora em hora desde as três da tarde. Olhou em volta e viu que havia na praça diversas cabinas de telefone público, todas ocupadas. Ele se exasperava, não tanto pela ansiedade em saber como estava a mulher, mas pela preocupação com os nervos da sogra, que aguardava a ligação junto ao telefone destinado aos acompanhantes. Um sentimento obsessivo de que estava sendo tratada com descortesia pelo hospital se apossara dela desde o momento em que levara a filha para lá. Talvez o telefone esteja sendo usado por algum parente de alguém internado. Pobre esperança. Bird retrocedeu pela rua para examinar bares, cafeterias, pequenos restaurantes e lojas de artigos ocidentais. Havia o recurso de entrar numa daquelas casas e pedir para usar o telefone. Contudo, queria evitar os bares e já jantara. Seria o caso de comprar um remédio para o estômago?
Saiu em busca de uma farmácia e acabou diante de uma loja de aspecto peculiar, numa esquina. Na entrada via-se um cartaz enorme com a fotografia de um caubói sacando o revólver do coldre, pronto para atirar. Uma tabuleta anunciava, em letras rebuscadas: Gun Corner. Estava afixada sobre a cabeça de um índio que o caubói pisava com sua bota de esporas. No interior da loja viam-se diversos jogos instalados em caixas de cor acinzentada, embaixo de bandeiras das nações e de enfeites de papel rendado verdes e amarelos pendurados no teto. Uma rapaziada muito mais jovem do que Bird se movimentava de um lado para o outro. Espiando pelos vidros da porta, emoldurados por fitas vermelhas e índigo, ele avistou um telefone vermelho instalado bem ao fundo.
Bird passou entre um jukebox que berrava um rock’n'roll já fora de moda e uma máquina de venda automática de Coca-Cola e penetrou na Gun Corner. As paredes de madeira estavam sujas de barro ressequido. Imediatamente, teve a sensação de que fogos de artifício espoucavam dentro de seus ouvidos. A muito custo, conseguiu chegar até o telefone, passando pelo labirinto de adolescentes, máquinas automáticas, dardos e um tiro ao alvo em animais em miniatura: numa caixa, contendo um pequeno cenário de bosque, corças marrons, lebres brancas e enormes sapos verdes se moviam, transportados por uma correia. No momento em que Bird ia passando, uma colegial, cercada de amigas que riam alegremente, acabava de acertar um sapo, acrescentando cinco pontos ao total registrado pela máquina. Bird introduziu uma moeda no telefone e discou o número já memorizado do hospital. Escutou com um ouvido o som remoto da chamada e com o outro o rock’n'roll misturado ao ruído de milhares de patas de caranguejo correndo juntas - os adolescentes, maravilhados com seus brinquedos automáticos, esfregavam continuamente o assoalho gasto com as solas, macias como luvas, de seus sapatos italianos. Qual seria a opinião da sogra sobre aquela confusão toda? Deveria desculpar-se também pela barulheira, além de se desculpar pelo atraso na ligação?
Depois de quatro chamadas, atendeu a voz da sogra, um arremedo infantil da voz da mulher. Afinal Bird esqueceu as desculpas e perguntou logo pelo estado da mulher.
- Não, ainda não nasceu. Ela está morrendo de sofrimento, e nada! A criança não nasce!
Bird ficou alguns instantes atônito e sem palavras, ob
