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Poesia: Não-coisa | Ferreira Gullar

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume…
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

Ferreira Gullar
Brasil | World
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Poesia: Noivado | Machado de Assis

Vês, querida, o horizonte ardendo em chamas?
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.

Como um bafo suavíssimo da noite,
Vem sussurrando o vento,
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o cálix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma;
Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que o amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desde o teu sombrio e mudo asilo;
Encontrarás aqui o amor tranqüilo…
Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte oposto
A lua, como lâmpada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de bálsamos rescende
A c’roa do noivado.

Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão contigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No entanto eu preparei teu leito à sombra
Do limoeiro em flor; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e mole alfombra.

Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até à morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Firmes, entre o fragor da tempestade,
Gozaremos o bem que amor encerra,
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.

Machado de Assis
Brasil | World

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Bibliografia: os livros de Jorge Amado

Jorge Leal Amado de Faria nasceu em 1912, em Itabuna, no Estado da Bahia. Foi um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX, com obras traduzidas em dezenas de idiomas e adaptadas com sucesso para o cinema, o teatro e a TV.

Amado foi superado (em número de vendas) apenas por Paulo Coelho, mas, em seu estilo - o romance ficcional -, não há paralelo no Brasil. Ele é o autor mais adaptado da televisão brasileira. Escritor profissional, viveu exclusivamente dos direitos autorais de seus livros. Recebeu no estrangeiro os seguintes prêmios: Prêmio Internacional Lênin (Moscou, 1951); Prêmio de Latinidade (Paris, 1971); Prêmio do Instituto Ítalo-Latino-Americano (Roma, 1976); Prêmio Risit d’Aur (Udine, Itália, 1984); Prêmio Moinho, Itália (1984); Prêmio Dimitrof de Literatura, Sofia - Bulgária (1986); Prêmio Pablo Neruda, Associação de Escritores Soviéticos, Moscou (1989); Prêmio Mundial Cino Del Duca da Fundação Simone e Cino Del Duca (1990); e Prêmio Camões (1995).

No Brasil: Prêmio Nacional de Romance do Instituto Nacional do Livro (1959); Prêmio Graça Aranha (1959); Prêmio Paula Brito (1959); Prêmio Jabuti (1959 e 1970); Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do Pen Club do Brasil (1959); Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1959); Troféu Intelectual do Ano (1970); Prêmio Fernando Chinaglia, Rio de Janeiro (1982); Prêmio Nestlé de Literatura, São Paulo (1982); Prêmio Brasília de Literatura - Conjunto de Obras (1982); Prêmio Moinho Santista de Literatura (1984); prêmio BNB de Literatura (1985).

Recebeu também diversos títulos honoríficos, nacionais e estrangeiros, entre os quais: Comendador da Ordem Andrés Bello, Venezuela (1977); Commandeur de l’Ordre des Arts et des Lettres, da França (1979); Commandeur de la Légion d’Honneur (1984); Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (1980) e do Ceará (1981); Doutor Honoris Causa pela Universidade Degli Studi de Bari, Itália (1980) e pela Universidade de Lumière Lyon II, França (1987). Grão Mestre da Ordem do Rio Branco (1985) e Comendador da Ordem do Congresso Nacional, Brasília (1986).

Foi membro correspondente da Academia de Ciências e Letras da República Democrática da Alemanha; da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Paulista de Letras; e membro especial da Academia de Letras da Bahia.

Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001. Foi cremado, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência, na Rua Alagoinhas, em 10 de agosto, dia em que completaria 89 anos.

Bibliografia de Jorge Amado:

O país do Carnaval
(1931, romance)

Cacau
(1933, romance)

Suor
(1934, romance)

Jubiabá
(1935, romance)

Mar morto
(1936, romance)

Capitães da areia
(1937, romance)

A estrada do mar
(1938, poesia)

ABC de Castro Alves
(1941, biografia)

O cavaleiro da esperança
(1942, biografia)

Terras do sem fim
(1943, romance)

São Jorge dos Ilhéus
(1944, romance)

Bahia de Todos os Santos
(1945, guia da cidade)

Seara vermelha
(1946, romance)

O amor do soldado
(1947, peça teatral)

O mundo da paz
(1951, guia de viagem)

Os subterrâneos da liberdade (vol. 1, 2 e 3)
(1954, romance)

Gabriela cravo e canela
(1958, romance)

A morte e a morte de Quincas Berro D’Água
(1961, romance)

Os velhos marinheiros
(1961, romance)

Os pastores da noite
(1964, romance)

Dona Flor e seus dois maridos
(1966, romance)

Tenda dos milagres
(1969, romance)

Tereza Batista cansada de guerra
(1972, romance)

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
(1976, romance)

Tieta do agreste
(1977, romance)

Farda, fardão, camisola de dormir
(1979, romance)

Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras
de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco
(1979, contos)

O menino grapiúna
(1981, memória)

A bola e o goleiro
(1984, infantil)

Tocaia grande
(1984, romance)

O sumiço da santa: uma história de feitiçaria
(1988, romance)

Navegação de cabotagem
(1992, memória)

A descoberta da América pelos turcos
(1992, romance)

O Milagre dos pássaros
(1997, romance)

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A Canção do Africano | Castro Alves

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão…

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar…
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr’a não o escutar!

“Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

“O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

“Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar…

“Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro”.

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P’ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

Castro Alves
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Semana de Arte Moderna: Manifesto da Poesia Pau-Brasil

Reunidos em São Paulo em 1922, intelectuais e artistas brasileiros rebelam-se contra o academicismo predominante na época e pronunciam-se por uma cultura baseada nas raízes nacionais.

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.
Toda a História bandeirante e a História comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos.
Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senagâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases. Negras de jóquei. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil. (…)
A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.
Só não se inventou uma máquina de fazer verso - já havia o poeta parnasiano.
Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: - a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne a Mallarmé, Rodin e Debussy até agora; 2ª o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.
O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.
Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatos destrutivos.
A síntese.
O equilíbrio.
O acabamento de carrosserie.
A invenção.
Uma nova perspectiva.
Uma nova escala.
Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil.
O trabalho contra o detalhe naturalista - pela “síntese” contra a morbidez romântica pelo “equilíbrio” geômetra e pelo acabamento” técnicos; contra a cópia, pela “invenção” e pela “surpresa”.
Uma nova perspectiva:
O estado de inocência substituindo o estado de graça que pode ser uma atitude do espírito.
O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.
A reação contra todas as indigestões de sabedoria.
O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.
Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística.
Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem antologia.
Bárbaros crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.”

Dica de leitura: Poesia, Mito e História no Modernismo Brasileiro

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O Moço do Saxofone | Lygia Fagundes Telles

Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone.

Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava.

— O que é isso? — eu perguntei ao tipo das giletes. Era o meu primeiro dia de pensão e ainda não sabia de nada. Apontei para o teto que parecia de papelão, tão forte chegava a música até nossa mesa. Quem é que está tocando?

— É o moço do saxofone.

Mastiguei mais devagar. Já tinha ouvido antes saxofone, mas aquele da pensão eu não podia mesmo reconhecer nem aqui nem na China.

— E o quarto dele fica aqui em cima?

James meteu uma batata inteira na boca. Sacudiu a cabeça e abriu mais a boca que fumegava como um vulcão com a batata quente lá no fundo. Soprou um bocado de tempo a fumaça antes de responder.

— Aqui em cima.

Bom camarada esse James. Trabalhava numa feira de diversões, mas como já estivesse ficando velho, queria ver se firmava num negócio de bilhetes. Esperei que ele desse cabo da batata, enquanto ia enchendo meu garfo.

— É uma música desgraçada de triste — fui dizendo.

— A mulher engana ele até com o periquito — respondeu James, passando o miolo de pão no fundo do prato para aproveitar o molho. — O pobre fica o dia inteiro trancado, ensaiando. Não desce nem para comer. Enquanto isso, a cabra se deita com tudo quanto é cristão que aparece.

— Deitou com você?

— É meio magricela para o meu gosto, mas é bonita. E novinha. Então entrei com meu jogo, compreende? Mas já vi que não dou sorte com mulher, torcem logo o nariz quando ficam sabendo que engulo gilete, acho que ficam com medo de se cortar…

Tive vontade de rir também, mas justo nesse instante o saxofone começou a tocar de um jeito abafado, sem fôlego como uma boca querendo gritar, mas com uma mão tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Então me lembrei da moça que recolhi uma noite no meu caminhão. Saiu para ter o filho na vila, mas não agüentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a idéia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a mãe. No fim, para não me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos já estava me endoidando. Pomba, não desejo ao inimigo aquele quarto de hora.

— Parece gente pedindo socorro — eu disse, enchendo meu copo de cerveja. — Será que ele não tem uma música mais alegre?

James encolheu o ombro.

— Chifre dói.

Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o moço do saxofone tocava num bar, voltava só de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher.

—- Mas por quê? — perguntei, bebendo mais depressa para acabar logo e me mandar dali. A verdade é que não tinha nada com isso, nunca fui de me meter na vida de ninguém, mas era melhor ouvir o tro-ló-ló do James do que o saxofone.

— Uma mulher como ela tem que ter seu quarto — explicou James, tirando um palito do paliteiro. — E depois, vai ver que ela reclama do saxofone.

— E os outros não reclamam?

— A gente já se acostumou.

Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James começasse a escarafunchar os dentões que lhe restavam. Quando subi a escada de caracol, dei com um anão que vinha descendo. Um anão, pensei. Assim que saí do reservado dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Mudou de roupa, pensei meio espantado, porque tinha sido rápido demais. E já descia a escada quando ele passou de novo na minha frente, mas já com outra roupa. Fiquei meio tonto. Mas que raio de anão é esse que muda de roupa de dois em dois minutos? Entendi depois, não era um só, mas uma trempe deles, milhares de anões louros e de cabelo repartidinho do lado.

— Pode me dizer de onde vem tanto anão? — perguntei à madame, e ela riu.

— Todos artistas, minha pensão é quase só de artistas…

Fiquei vendo com que cuidado o copeiro começou a empilhar almofadas nas cadeiras para que eles se sentassem. Comida ruim, anão e saxofone. Anão me enche e já tinha resolvido pagar e sumir quando ela apareceu. Veio por detrás, palavra que havia espaço para passar um batalhão, mas ela deu um jeito de esbarrar em mim.

— Licença?

Não precisei perguntar para saber que aquela era a mulher do moço do saxofone. Nessa altura o saxofone já tinha parado. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. O vestido vermelho não podia ser mais curto. Abancou-se sozinha numa mesa e de olhos baixos começou a descascar o pão com a ponta da unha vermelha. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Pomba, que tive vontade de ir lá, agarrar ela pelo queixo e saber por que estava rindo. Fiquei rindo junto.

— A que horas é a janta? — perguntei para a madame, enquanto pagava.

— Vai das sete às nove. Meus pensionistas fixos costumam comer às oito — avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho. — O senhor gostou da comida?

Voltei às oito em ponto. O tal James já mastigava seu bife. Na sala havia ainda um velhote de barbicha, que era professor parece que de mágica e o anão de roupa xadrez. Mas ela não tinha chegado. Animei-me um pouco quando veio um prato de pastéis, tenho loucura por pastéis. James começou a falar então de uma briga no parque de diversões, mas eu estava de olho na porta. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. Não demorou nada e o raio do saxofone desandou a tocar.

— Sim senhor — eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.

— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!

Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.

— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?

James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente — resmungou ele, tirando um palito. — Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta. Um outro já tinha acabado com a vida dela!

Agora a música alcançava um agudo tão agudo que me doeu o ouvido. De novo pensei na moça ganindo de dor na carroceria, pedindo ajuda não sei mais para quem.

— Não topo isso, pomba.

— Isso o quê?

Cruzei o talher. A música no máximo, os dois no máximo trancados no quarto e eu ali vendo o calhorda do James palitar os dentes. Tive ganas de atirar no teto o prato de goiabada com queijo e me mandar para longe de toda aquela chateação.

— O café é fresco? — perguntei ao mulatinho que já limpava o oleado da mesa com um pano encardido como a cara dele.

— Feito agora.

Pela cara vi que era mentira.

— Não é preciso, tomo na esquina.

A música parou. Paguei, guardei o troco e olhei reto para aporta, porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o aninho de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o paletó. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua.

— Sim senhor!

— Sim senhor o quê? — perguntou James.

— Quando ela entra no quarto com um tipo, ele começa a tocar, mas assim que ela aparece, ele pára. Já reparou? Basta ela se enfurnar e ele já começa.

James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.

— Mulher é o diabo…

Levantei-me e quando passei junto da mesa dela, atrasei o passo. Então ela deixou cair o guardanapo. Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos.

— Ora, não precisava se incomodar…

Risquei o fósforo para acender-lhe o cigarro. Senti forte seu perfume.

— Amanhã? — perguntei, oferecendo-lhe os fósforos. — Às sete, está bem?

— É a porta que fica do lado da escada, à direita de quem sobe.

Saí em seguida, fingindo não ver a carinha safada de um dos anões que estava ali por perto e zarpei no meu caminhão antes que a madame viesse me perguntar se eu estava gostando da comida. No dia seguinte cheguei às sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira. O mulatinho já amontoava nas cadeiras as almofadas para os anões. Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse alguém. Mas ninguém apareceu. Na primeira porta, aquela à direita da escada, bati de leve e fui entrando. Não sei quanto tempo fiquei parado no meio do quarto: ali estava um moço segurando um saxofone. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. Não parecia nem espantado nem nada, só me olhava.

— Desculpe, me enganei de quarto — eu disse, com uma voz que até hoje não sei onde fui buscar.

O moço apertou o saxofone contra o peito cavado.

— E na porta adiante — disse ele baixinho, indicando com a cabeça.

Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Que situação, pomba. Se pudesse, agarrava aquela dona pelo cabelo, a estúpida. Ofereci-lhe cigarro.

— Está servido?

— Obrigado, não posso fumar.

Fui recuando de costas. E de repente não agüentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.

— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?

— Eu toco saxofone.

Fiquei olhando primeiro para a cara dele, que parecia feita de gesso de tão branca. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos botões, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu saísse para começar a tocar. Limpou com um lenço o bocal do instrumento, antes de começar com os malditos uivos.

Bati a porta. Então a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a mão dela segurando a maçaneta para que o vento não abrisse demais. Fiquei ainda um instante parado, sem saber mesmo o que fazer, juro que não tomei logo a decisão, ela esperando e eu parado feito besta, então, Cristo-Rei!? E então? Foi quando começou bem devagarinho a música do saxofone. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Na rua, tropecei num dos anões metido num impermeável, desviei de outro, que já vinha vindo atrás e me enfurnei no caminhão. Escuridão e chuva. Quando dei a partida, o saxofone já subia num agudo que não chegava nunca ao fim. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminhão saiu meio desembestado, num arranco.

Lygia Fagundes Telles

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Caricatura: Jimi Hendrix (caricature)
Caricatura Jimi Hendrix Caricature Sebastian Kruger
Jimi Hendrix por Sebastian Kruger

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Curtas: For The Birds (Pixar) | Ralph Eggleston

Curta-metragem de Ralph Eggleston.

For The Birds

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Poemão do Chico Faminto na hora da Fome Zero | Millôr Fernandes

E, como é, onde é que estamos?
Estamos numa floresta
Em que até santo não presta
Quem puder que se defenda
Quem não compra que se venda
Acho que é um mar profundo
Mais que isso, até sem fundo,
Do meio pra cima imundo.
Robalo come tainha
Tubarão come cação
Bonito come sardinha
E traíra o próprio irmão
Depois todos são comidos
Por cação e tubarão
E esses reis da crueldade
Tudo que comem descomem
Através do próprio homem
Nos mercados da cidade.
Tem razão o bom patrão
Viver não é só comida
Estive fazendo as contas
É só metade da vida
Mas eu ficava contente
Comendo só uma vez
Bem, uma vez por mês,
Só quem não vê nem miséria
No banquete universal
Só eu nessa comilança
Não ponho nada na pança
E sou muito boa boca
Como o fino, o trivial,
O que me vier eu traço
Olha aqui, meu pai do céu,
Qualquer coisa, sabe, vai,
Quero a fruta e o bagaço
Como a casca e o caroço
Só não quero coisa pouca
Menos do que o essencial
Como até açúcar sem sal
Qualquer coisa dá pra mim
Do refinado ao chinfrim
Aqui como como aqui,
E a vocês que são cabanos
Eu digo sem desdenhá-los
Em Roma eu como os romanos.

Millôr Fernandes
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Vidas: Nelson Rodrigues

Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980)
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Dramaturgo, romancista e jornalista pernambucano. Um dos principais autores do teatro brasileiro, sua obra aborda temas polêmicos, como o tabu do incesto, o adultério e a morte.
Nasce no Recife e muda-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Aos 13 anos começa a trabalhar em jornal. Em 1941 escreve a primeira peça, A Mulher sem Pecado. Revoluciona o teatro nacional com Vestido de Noiva (1943). O texto fragmentário apresenta ações simultâneas em tempos diferentes e a coexistência de três planos (realidade, memória e alucinação). Sua obra teatral é assim classificada pelo crítico Sábato Magaldi: peças psicológicas (nas quais se incluem as duas primeiras), peças mitológicas (Anjo Negro e Álbum de Família) e tragédias cariocas (A Falecida e O Beijo no Asfalto). Suas obras causam polêmica ao abordar temas sexuais e morais, como incesto e virgindade, infidelidade e traição, de forma mórbida, obsessiva e moralista. Sua vida pessoal é marcada por tragédias, como o assassinato do irmão e o filho torturado pelo regime militar de 1964, que ele defendia. Escreve os romances Meu Destino É Pecar e O Casamento. Deixa 17 peças. Em 1968 publica suas crônicas nos livros As Confissões de Nelson Rodrigues e O Óbvio Ululante. Escreve a sua última grande peça, A Serpente, em 1978 e falece dois anos depois.

Ao longo de sua trajetória artística, Nelson Rodrigues é alvo de uma polêmica que o faz conhecer tanto o sucesso absoluto, como em Vestido de Noiva, 1943, cuja encenação por Ziembinski marca o surgimento do teatro moderno no Brasil, quanto a total execração, como em Anjo Negro, 1948, ousada montagem para a época pelo Teatro Popular de Arte. Distante de qualquer modismo, tendência ou movimento, cria um estilo - e quase um gênero - próprio e é hoje considerado o maior dramaturgo brasileiro.

A primeira peça de Nelson já traz uma evidente carga psicológica, em que o jogo neurótico invade e transforma as relações. O que move a ação de A Mulher sem Pecado é o ciúme, doença aceita nos extratos mais recatados da sociedade. A narrativa se mantém dentro do comportamento social e dos cânones realistas, só permitindo ao espectador acesso ao mundo interior das personagens através desse filtro. Na encenação do texto pela bem comportada companhia Comédia Brasileira, em 1942, o que é o latente estilo rodriguiano passa despercebido.

Em Vestido de Noiva, Nelson cria um artifício dividindo a ação em três planos - a memória, o coma e o real - permitindo ao espectador acessar toda a complexidade da psique da personagem central. O texto sugere insuspeitas perversões psicológicas, mas a temática não ultrapassa a traição entre irmãs e o apelo da vida mundana sobre a fantasia feminina. A encenação realizada por Ziembinski com o grupo Os Comediantes, em 1943, torna-se um marco histórico, passando por várias remontagens no decorrer das próximas décadas.

Em Álbum de Família, texto seguinte, escrito em 1945, Nelson elabora um mergulho radical na inconsciência primitiva de suas personagens, que se tornam arquétipos, trabalhando sua narrativa sobre as verdades profundas e inimagináveis do ser humano a partir da célula da família. Aqui o tema se aloja em um dos maiores tabus sociais - o incesto em todas as direções, entre irmãos, mãe e filho, pai e filha. O autor nomeia seu estilo de “teatro desagradável” e reconhece que este teatro, que se inicia a partir de Álbum de Família, inviabiliza a repetição do sucesso de Vestido de Noiva, porque “são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si só, de produzir o tifo e a malária na platéia”.

A rejeição à obra de Nelson Rodrigues, de motivação eminentemente moral, começa com a censura a algumas de suas peças. Álbum de Família, de 1945, só virá a ser encenada 22 anos depois de escrita. Anjo Negro, de 1946, sofre tentativas de censura religiosa, mas consegue ir à cena dois anos depois, polêmica montagem, novamente encenada por Ziembinski, pelo Teatro Popular de Arte, encabeçados por Maria Della Costa e Sandro Polloni.

Nelson volta mais uma vez a ser encenado por Ziembinski em 1950, com Dorotéia. A encenação e o texto, da intitulada “farsa irresponsável” pelo autor, não são compreendidos pelo público, saindo rapidamente de cartaz. Em 1951 é a vez de Valsa Nº 6, um monólogo em que uma jovem de 15 anos, golpeada mortalmente, recupera, em estado de choque, o mundo a sua volta. A peça é escrita para ser interpretada por Dulce Rodrigues, irmã do autor, e é dirigida por Henriette Morineau.

Em 1953, A Falecida, primeira tragédia carioca de Nelson retratando a peculiaridade da Zona Norte do Rio de Janeiro, é encenada por José Maria Monteiro, com a Companhia Dramática Nacional - CDN, tendo Sônia Oiticica e Sergio Cardoso como protagonistas. Na seqüência, surge Senhora dos Afogados, escrito antes de Dorotéia e Valsa Nº 6, em 1947. A montagem que, inicialmente estrearia no Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, tem seu curso interrompido após meses de ensaios, sendo retomada em 1954 pela CDN, com direção de Bibi Ferreira. Ao final da estréia, ao subir, em uma extremidade do palco, o autor, e, na outra, a diretora, o público vira-se na direção dele e vaia, volta-se para ela e aplaude, exaltando o espetáculo para repudiar o texto. A causa do horror do público é outra vez a relação incestuosa, o amor da filha pelo pai, que faz com que a mãe se vingue traindo o marido com o noivo da filha, motivando assassinatos entre os membros da família.

Perdoa-me por me Traíres, a história de uma órfã adolescente que vive sob a repressão de um casal de tios, que ao final descobre ser fruto de um incesto, causa escândalo na cena carioca, em 1957. Sendo produzida pelo ator e autor Glaucio Gill, o elenco traz o próprio Nelson Rodrigues e Abdias do Nascimento, líder do Teatro Experimental do Negro - TEN.

Ainda em 1957, Nelson escreve Viúva, porém Honesta, outra “farsa irresponsável”, sátira violenta tendo como alvo os jornalistas e a crítica especializada. Menos de dois meses após o lançamento de Perdoa-me, a produção de Viúva, com direção do alemão Willy Keller e cenários e figurinos de Fernando Pamplona, vem a ser a resposta do autor à má recepção da opinião pública à peça anterior.

Em 1958, a Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso retoma Vestido de Noiva, numa versão renovada, bem distinta da primeira de Ziembinski, merecendo elogios dos jornais.

Os Sete Gatinhos, “a divina comédia”, retoma o tema de família suburbana carioca, agora se decompondo drasticamente a partir da revelação de que a única filha acima de qualquer suspeitas é, em realidade, uma pervertida. A peça tem novamente Willy Keller na encenação, e é produzida pelo irmão de Nelson, Milton Rodrigues.

Em 1961, José Renato, fundador do Teatro de Arena, encena, no Teatro Nacional de Comédia, TNC, a próxima peça de Nelson, Boca de Ouro, escrita em 1959, e que, em 1969, tivera uma estréia mal-sucedida na mão de Ziembinski, que cismara em interpretar o papel-título. As várias faces de Boca de Ouro, o bicheiro cafajeste da Zona Norte, que surgem de conhecidos seus a partir de depoimentos após a sua morte, ganham brilho e verossimilhança na interpretação de Milton Moraes.

O Beijo no Asfalto é escrita sob encomenda de Fernanda Montenegro a Nelson. Em 21 dias, o autor apresenta mais uma de suas tragédias cariocas, agora abordando a sordidez não só da imprensa, mas também da polícia, numa trama forjada que destrói a reputação de um homem, acusado de homicida e homossexual. O Teatro dos Sete estréia o espetáculo em 1961, sob a direção de Fernando Torres, com cenografia de Gianni Ratto, contando com Fernanda, Sergio Britto, Oswaldo Loureiro, Ítalo Rossi, entre outros.

Martim Gonçalves, animador do Teatro Novo, monta em 1962 Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária. A trama gira em torno das hesitações de um humilde contínuo, entre casar-se com a filha de um magnata e vítima de um estupro bárbaro, ou manter-se fiel a seus sentimentos por uma prostituta pobre que sustenta a mãe louca e as três irmãs, papel reservado a Tereza Raquel, que se destaca no conjunto.

Em 1965, Ziembinski retoma a parceria com Nelson, para lançar Toda Nudez Será Castigada, a história de um homem conservador que se apaixona por uma prostituta, que acaba por traí-lo com o próprio filho. Ela suicida-se após a fuga do rapaz com um outro homem, e deixa uma gravação revelando toda a verdade ao marido. Para incorporar a protagonista Geni, muitas atrizes são consultadas, mas recusam o papel, que é tomado com paixão por Cleyde Yáconis.

Tendo encenado cinco peças de Nelson Rodrigues, Ziembinski é aquele que, entre os diretores que realizam as primeiras encenações do autor, não se limita a montar o texto mas se serve dele para construir uma linguagem própria, na maioria das vezes em busca de um expressionismo que, em vez de situar a ação em ambientes decorativos, cria, com auxílio primordial da cenografia e da iluminação, espaços a serem utilizados pela marcação cênica.

Em 1967, é a vez de subir a cena a terceira peça de Nelson, Álbum de Família, escrita em 1945 e logo proibida pelos censores, liberada somente 20 anos depois. O Teatro Jovem, de Kleber Santos, assume a montagem, tendo Vanda Lacerda, José Wilker e Thelma Reston, entre outros, no elenco.

Os compromissos jornalísticos, a decepção com a receptividade de suas peças e os problemas de saúde fazem com que Nelson deixe de escrever para o teatro durante oito anos. Seu penúltimo texto dramático é Anti-Nelson Rodrigues, de 1973, e, ao contrário das anteriores, dá um final feliz aos protagonistas da trama. Neila Tavares, responsável por convencer o dramaturgo a escrever para ela, incorpora a personagem Joice, sob a direção de Paulo César Pereio.

A última peça de Nelson Rodrigues, A Serpente, é escrita em 1978. Duas irmãs casam-se no mesmo dia, uma é feliz no casamento e a outra não consegue sequer perder a virgindade em sua lua-de-mel. A bem-sucedida empresta o marido à irmã, trazendo paixão, ciúmes e morte para a relação fraternal. Sobre a peça paira um certo rótulo de “maldita”, superstição conhecida dentro da classe teatral, tendo, no mínimo, três expectativas de montagem frustradas. O espetáculo acaba por estrear em 1980, dirigida por Marcos Flaksman, no Teatro do BNH, no Rio de Janeiro, casa de espetáculos que ganha o nome de Teatro Nelson Rodrigues, após a morte do autor.

Os textos de Nelson Rodrigues ganham dezenas de remontagens ao longo das próximas décadas. Léo Jusi, Ivan de Albuquerque, Osmar Rodrigues Cruz, Roberto Lage, Eduardo Tolentino de Araújo, Emílio Di Biasi, Antunes Filho, Antônio Abujamra, Antônio Pedro, Paulo Betti, Gabriel Villela, Moacyr Góes, Luiz Arthur Nunes e Marco Antonio Braz, são alguns diretores que encenam a sua própria versão das obras de Nelson, às vezes até adaptando seus romances, contos e crônicas jornalísticas para o teatro.

Nelson Rodrigues tem vinte de suas histórias transpostas para a tela do cinema, algumas em duas versões, como Boca de Ouro, de Nelson Pereira dos Santos, 1962, e de Walter Avancini, 1990, e Bonitinha, mas Ordinária, de R. P. de Carvalho, 1963, e de Braz Chediak, 1980. Algumas das realizações mais bem-sucedidas são A Falecida, de Leon Hirszman, 1965, e O Casamento, de Arnaldo Jabor, 1975. Suas crônicas para O Jornal, sob o pseudônimo de Suzana Flag, são publicadas em livros, como Meu Destino é Pecar, As Escravas do Amor e O Homem Proibido. Escreve também para os periódicos Última Hora, Flan, Correio da Manhã, O Globo e Manchete Esportiva. Assinando artigos sobre esporte, não priva o leitor de seu estilo dramático, atendo-se muitas vezes ao sentido da rivalidade, ao significado do gol, ao efeito do suor sobre a subjetividade da platéia brasileira.

Na maioria das obras do autor, a realidade tem apenas o papel de situar a ação, que se concentra de fato sobre o universo interior das personagens. O jogo entre a verdade interior - nem sempre psíquica - e a máscara social é outro elemento recorrente em sua dramaturgia. as personagens podem se desmascarar ao longo da narrativa - como em Beijo no Asfalto ou Toda Nudez Será Castigada - ou estarem francamente libertos de qualquer censura interna ou externa como em Álbum de Família - e, nesse caso, a supressão das leis da conveniência que permite o convívio termina em tragédia absoluta, restando pouca vida ao final da narrativa. A morte, como em toda a tragédia, ronda as tramas do autor e, via de regra múltipla, marca o último ato. Com exceção de Viúva, porém Honesta e Anti-Nelson Rodrigues, a morte, nas demais 15 peças, atinge as personagens centrais e toda a narrativa se desenha em torno da inevitabilidade desse destino.

Sobre a assimilação e receptividade da obra rodriguiana na cena nacional, escreve seu maior estudioso, o crítico Sábato Magaldi: “Nelson Rodrigues tornou-se desde a sua morte, em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos de idade (ele nasceu em 23 de agosto de 1912), o dramaturgo brasileiro mais representado - não só o clássico da nossa literatura teatral moderna, hoje unanimidade nacional. Enquanto a maioria dos autores passa por uma espécie de purgatório, para renascer uma ou duas gerações mais tarde, Nelson Rodrigues conheceu de imediato a glória do paraíso, e como por milagre desapareceram as reservas que, às vezes, teimavam em circunscrever sua obra no território do sensacionalismo, da melodramaticidade, da morbidez ou da exploração sexual.

Parece que, superado o ardor polêmico, restava apenas a adesão irrestrita. As propostas vanguardistas, que a princípio chocaram, finalmente eram assimiláveis por um público maduro para acolhê-las. Ninguém, antes de Nelson, havia apreendido tão profundamente o caráter do país. E desvendado, sem nenhum véu mistificador, a essência da própria natureza do homem. O retrato sem retoques do indivíduo, ainda que assuste em pormenores, é o fascínio que assegura a perenidade da dramaturgia rodrigueana”.

Entrevista concedida a revista Veja em 13/03/1974, ao lançar a peça O Anti-Nelson Rodrigues.

Veja - Por que o título O Anti-Nelson Rodrigues?
Nelson Rodrigues - Minha carreira no teatro tem sido um esforço para contrariar minha imagem tradicional. Disse o poeta Rainer Maria Rilke que a celebridade é a soma de mal-entendidos criados e recriados em torno de uma pessoa e de sua obra. Entendo que sou uma vítima de equívocos. Talvez um outro equívoco seja o título O Anti-Nelson Rodrigues. Desta vez, creio que mostro um ângulo de minha personalidade que ninguém reconhece. Ou que poucos reconhecem.

Veja - E qual é este ângulo?
Nelson Rodrigues - Uma profunda e inconsolável nostalgia da pureza. Eu digo pureza em todos os sentidos. Inclusive a física. Por exemplo: eu acredito na virgindade. Acho e sempre achei que a virgindade pode ter o sentido de uma doação ao ser amado. É perfeitamente idiota achar que ser ou não ser virgem seja um fato físico. Pode ser físico para os gatos de telhado e as cadelas de esquina, mas não para o ser humano. Acredito, inclusive, que o homem seria menos infeliz, menos sofrido, menos marcado, se o mundo levasse a sério a virgindade masculina. Lembro-me de um senhor ilustre que, em discurso, fazia, não uma declaração de bens, mas uma declaração de costumes: Eu me casei virgem. Acho perfeitamente cabível que o homem se case virgem.

Veja - Mas, voltando à peça…
Nelson Rodrigues - Ela mostra de uma maneira mais sensível uma coisa que existe em todo meu teatro: uma imensa compaixão por meus personagens. Muitas vezes, fazendo uma peça, num momento de crueldade eu vacilo e tenho vontade de amenizar a violência de certas situações. Mas a verdade é que escrevo, não para negar as atrocidades da vida, mas para ter pena - e pena da cabeça aos pés - por todos que matam e por todos que se matam, pelos homicidas e pelos suicidas. Isto está presente e visível em O Anti-Nelson Rodrigues.

Veja - Qual foi sua sensação de voltar a escrever para o teatro?
Nelson Rodrigues - Eu queria fazer O Anti-Nelson Rodrigues. Mas, diante da peça viva, desencadeada no palco, sinto que devo ser Nelson Rodrigues até o fim.

Veja - O que é que isto quer dizer?
Nelson Rodrigues - A peça sou eu mesmo. Me deixa uma certa perplexidade constatar que sou fiel a tudo que já fiz e que pertence á minha vida. A vida de todo o mundo. A personagem Teresa, esta pobre espantosa senhora*, como se parece com as senhoras da vida real! É a mãe devoradora, mutiladora em seu amor assassino. Eu a sinto como a mãe geral, a mãe do Dia das Mães, a mãe do ano.

Veja - Sua mãe era assim?
Nelson Rodrigues - Digo isso e, ao mesmo tempo, penso em minha mãe, tão diferente. Tão absurdamente boa, solidária, irmã. Meiga, prostrada em adoração. Realmente, nem todas as mães são assim, mas as mães que não são assim constituem uma seletíssima minoria. É uma em dez mil. Uma em vinte mil. E Gastão, o pai, odiado por seu filho e marcado pela obsessão da morte, não tem medo da morte. Pelo contrário, a deseja. Não conheço nada mais falso do que o instinto de conservação. É um instinto que Deus negou ao homem. Na verdade, cada um de nós vive criando pretextos para morrer. O cigarro que se fuma, a cerveja que se bebe, que é isso, senão a nostalgia da morte? O homem é triste, não porque morre, mas porque vive. * Teresa (interpretada pela atriz Sônia Oiticica) é a mãe pela qual Oswaldinho (José Wilker) tem desejos incestuosos ao mesmo tempo que vota um ódio cansativo ao seu pai, o milionário Gastão (Nelson Dantas). Por outro lado, Oswaldinho persegue Joice (Neila Tavares), uma recatada donzela suburbana, filha de Salim Simão (Paulo César Peréio). Ela acaba se entregando a Oswaldinho por amor e não pelos 350 000 cruzeiros oferecidos.

Veja - Quanto tempo levou para escrever O Anti-Nelson Rodrigues?
Nelson Rodrigues - Um mês.

Veja - E foi fácil?
Nelson Rodrigues- A peça já estava dentro de mim. Eu só começo a escrever uma peça quando a tenho na carne e na alma.

Veja - Que foi que fez o senhor voltar a escrever para o teatro?
Nelson Rodrigues - Primeiro foi uma jovem atriz - Neila Tavares que eu chamo - ponha aspas - Minha Duse. Começou a me perseguir. Queria uma peça porque queria. E a peça tinha que ser de Nelson Rodrigues. Eu tinha a peça nas minhas entranhas. Só faltava escrevê-la. O trabalho mais simples foi a execução.

Veja - O que o senhor achou da encenação?
Nelson Rodrigues - Achei Paulo César Peréio, o diretor, um homem de extrema sensibilidade e imaginação. A maioria absoluta dos novos diretores brasileiros imita os defeitos de José Celso Martinez Corrêa. José Celso imita, também, os próprios defeitos. Por isso são raros os que têm criação própria, como Antunes Filho e, agora, Paulo César de Campos Velho, que nós chamamos de Peréio. Ele salvou-se de José Celso.

Veja - Fez falta passar oito anos sem escrever para o teatro?
Nelson Rodrigues - Fez uma falta desesperadora.

Veja - E por que não escrevia? A gente de teatro não o procurava?
Nelson Rodrigues - Todos me procuravam. Por fim, instalou-se nos meios teatrais esta falsa verdade: eu não voltaria mais ao teatro. A verdade é que tenho mil projetos dramáticos. Se pudesse, faria uma peça por dia.

Veja - É verdade que o senhor está pensando em escrever uma peça de nove atos? Qual seria o tema?
Nelson Rodrigues - Estou apaixonado por essa idéia. Seria uma peça feita com a memória do autor. Profunda, desesperadamente autobiográfica. Resta saber se tenho pureza bastante para escrevê-la.

Veja - Por que pureza?
Nelson Rodrigues - Digo pureza porque uma confissão plena, integral, exige um santo.

Veja - Seu recesso teatral não foi motivado por um certo boicote?
Nelson Rodrigues - Não foi bem isso. Durante cerca de vinte anos, fui o único autor obsceno do Brasil. Os atores me representavam com o maior desprezo e ressentimento. Faziam uma concessão ao meu nome, que supunham importante. A minha peça Senhora dos Afogados. por exemplo, foi ensaiada durante um mês no Teatro Brasileiro de Comédia. Diga-se de passagem que o TBC foi o maior mistificador do teatro brasileiro. Tinha horror de nossos autores, não fez absolutamente nada por nossa dramaturgia. O problema do TBC era um só: bilheteria. No fim de um mês de ensaios, dirigidos por Ziembinsky, a grande atriz Cacilda Becker, minha amiga pessoal, declarou: Eu não faço esta peça. Digo isto com absoluta ternura e admiração pela sua memória. Mas é um fato histórico que pode e deve ser contado. E assim, Senhora dos Afogados foi expulsa do TBC com grande vantagem para a peça.

Veja - Quando falei de boicote não estava pensando no TBC. Não houve, ou há, uma certa má vontade dos diretores mais jovens para consigo?
Nelson Rodrigues - O que há é o seguinte: umas cinco peças minhas foram levadas em São Paulo por cinco diretores novos. Foi um massacre teatral. Fui incompreendido, como se escrevesse em chinês de cabeça para baixo. Antunes Filho é que iniciou um novo período para minhas peças no teatro paulista.

Veja - Há uma crise no teatro brasileiro?
Nelson Rodrigues - O que há é que Marx e Brecht realmente cretinizaram toda uma geração de diretores, atores e autores brasileiros. Evidentemente não são todos. Mas é uma sólida e abundantíssima maioria.

Veja - Que considera o senhor um reacionário?
Nelson Rodrigues - Muitos me chamam de reacionário. É exatamente o que sou: um reacionário. Já disse na televisão - e, portanto, para 1 milhão de pessoas - que sou reacionário. Reacionário porque não tenho nada de estalinista.

Veja - Mas, além de não ser estalinista, o que é ser reacionário?
Nelson Rodrigues - Faço este comentário sabendo que reacionário - sublinhe a palavra - é o termo mais sujo, mais corrompido, mais idiota… Reacionária, de fato, seria a Rússia, que assassinou todas as liberdades e matou a pauladas 90 milhões de sujeitos desde 1917. A Rússia que enfia nos hospícios os intelectuais vagamente dissidentes. Ou a China, cuja Revolução Cultural acha a música de Beethoven capitalista. Portanto, como não sou estalinista, acho justo que me chamem de reacionário e que eu próprio me confesse reacionário. Tanto mais que acho a liberdade mais importante do que o pão.

Veja - O que acha o senhor do momentoso assunto da volta dos anjos, que Veja tem destacado em alguns de seus últimos números?
Nelson Rodrigues - Sou a favor dos anjos. Acredito que tenho o meu anjo da guarda e creio plenamente na proteção que ele me assegura.

Veja - Pesquisas e estudos recentes, nos Estados Unidos e na Inglaterra, têm indicado a possibilidade de novos tempos para o homem, graças às fórmulas de combate ao Mal apresentadas pelo monge Falcus. O senhor crê nelas?
Nelson Rodrigues - Sou um homem de absoluta fé e de uma credulidade infinita. Torço pela viabilidade dessas fórmulas salvadoras.

Veja - Foi o senhor que introduziu o palavrão no teatro brasileiro?
Nelson Rodrigues - Fui. Só que eu não fazia o palavrão gratuito, do som pelo som. O outro era chamado nome feio e tinha maior justificativa psicológica e poética.

Veja - Qual era seu valor literário?
Nelson Rodrigues - O valor do palavrão… conseguiram degradá-lo. Havia, antes, uma certa cerimônia, uma certa compostura entre o palavrão e o brasileiro. Agora, meninas de doze anos, até mesmo dez, dizem palavras que fariam corar Bocage.

Veja - O que o senhor sente não será uma nostalgia do pecado? Da coisa proibida?
Nelson Rodrigues - Eu tenho uma profunda nostalgia do velho palavrão. Quando percebi que as mulheres começavam a dizer palavrões, eu me tornei na vida real o homem mais antipornográfico do Brasil. Eu não digo mais palavrões.

Veja - Por que?
Nelson Rodrigues - Tiraram a dignidade e o dramatismo do palavrão.

Veja - O senhor declarou, há pouco tempo, em uma entrevista, que, quando há amor, o sexo só atrapalha. Na mesma entrevista, disse que só concebe o sexo havendo amor. Não haverá uma contradição nisso?
Nelson Rodrigues - O sexo atrapalha, mas isso não quer dizer que ele impeça. Não há problema. O homem só começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos. Ou ignorando-os, ou tomando uma posição contra. Até hoje eu não sei por que os temos, por que os toleramos.

Veja - E que há de mal com eles?
Nelson Rodrigues - Eles são próprios de cães de rua, de gatos de telhado, de preás, de bezerras…

Veja - De gente não?
Nelson Rodrigues - Não. O homem não deseja uma mulher só pelo fato de ele ser homem e de ela ser mulher. Mas porque há entre ele e ela uma série de afinidades. Há uma escolha. Mas para o cachorro, na hora do cio, qualquer cachorra serve. Nada é mais absurdo do que a educação sexual. Ela só tem sentido se os alunos fossem gatos, preás, bezerros e vacas premiadas. Para o ser humano se deve dar educação para o amor. Mas falar em sexo, sem uma palavra sobre amor, é de uma mistificação e de uma burrice inomináveis.

Veja - E castidade? Ultimamente o senhor tem falado muito nela.
Nelson Rodrigues - É absolutamente impossível a satisfação sexual. A atividade sexual só leva ao desespero, á angústia, á procura de algo que jamais será encontrado.

Veja - E o senhor não vê nela nenhum prazer?
Nelson Rodrigues - Há prazer. Mas não há satisfação. O sujeito continua cada vez mais insatisfeito. O desejo é triste.

Veja - O jeito, então, seria ignorar o desejo?
Nelson Rodrigues - Seria. A única coisa que pode pacificar o sexo é o amor.

Veja - O senhor disse que a tragédia não é morrer, mas estar vivo. A vida, então, não tem jeito?
Nelson Rodrigues - Só tem jeito pelo amor. A única solução vital é o amor. O homem que ama é eterno, porque seu amor continua para além da vida e para além da morte.

Veja - O senhor fala, às vezes, de seus inimigos íntimos. Quais são os principais?
Nelson Rodrigues - Eu nunca falei de inimigos íntimos. É uma expressão muito convencional. Falo, sim, de irmãos íntimos. Você sabe que os irmãos são sempre íntimos. E falo, também, do desconhecido íntimo. É o sujeito que eu encontro na rua e que me chama de Nosso Nelson…

Veja - O que quer dizer que o senhor não tem inimigos?
Nelson Rodrigues - Me recuso a ter inimigos. Acho que o ódio de um homem para com outro homem cria entre eles uma relação, uma dependência homossexual.

Veja - O senhor não sente uma certa saudade de quando era escritor maldito?
Nelson Rodrigues - Mas, meu bem, eu continuo sendo um autor maldito. Ninguém é menos oficial do que eu. Não sei o que é a glória, porque nunca provei de seu mel. Sou contestado pelos imbecis de todas as tendências.

Veja - Há futuro para o teatro no Brasil?
Nelson Rodrigues - Acho que nossos dramaturgos têm que trabalhar. Façam peças. O futuro do teatro brasileiro é o trabalho de seus autores. Só assim teremos um repertório nacional.

Veja - Repito a pergunta: há futuro?
Nelson Rodrigues - O negócio deles é Marx, José Celso, Brecht e politização.

Veja - Política em vez de teatro?
Nelson Rodrigues - É todo mundo preocupado com o Terceiro Mundo. São todos alienados. Nas passeatas, que foi um momento sublime do ridículo, falavam de tudo, menos do Brasil. Nunca um negro entrou numa passeata. Era o filho da alta burguesia, filho das classes dominantes fazendo uma brincadeira ideológica.

Veja - O senhor diz que só há sentimentos profundos nos subúrbios, na zona norte. Isso não faz parte do Terceiro Mundo?
Nelson Rodrigues - Eu sou um homem que só se interessa pelo Brasil. O Terceiro Mundo só me dá tédio. A fome da África não me interessa. Só a nossa.

Veja - Por falar em Brasil: como vai ele?
Nelson Rodrigues - Acho que está formidável. Começou, finalmente, o nosso desenvolvimento. Quem não vê isso nega a evidência objetiva e até espetacular.

Fonte: Abril e Itaú

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Pombo-Correio | Carlos Drummond de Andrade

Pombo-Correio
Os garotos da Rua Noel Rosa
onde um talo de samba viça no calçamento,
viram o pombo-correio cansado
confuso
aproximar-se em vôo baixo.Tão baixo voava: mais raso
que os sonhos municipais de cada um.
Seria o Exército em manobras
ou simplesmente
trazia recados de ai! amor
à namorada do tenente em Aldeia Campista?

E voando e baixando entrançou-se
entre folhas e galhos de fícus:
era um papagaio de papel,
estrelinha presa, suspiro
metade ainda no peito, outra metade
no ar.

Antes que o ferissem,
pois o carinho dos pequenos ainda é mais desastrado
que o dos homens
e o dos homens costuma ser mortal
uma senhora o salva
tomando-o no berço das mãos
e brandamente alisa-lhe
a medrosa plumagem azulcinza
cinza de fundos neutros de Mondrian
azul de abril pensando maio.

3235-58-Brasil
dizia o anel na perninha direita.
Mensagem não havia nenhuma
ou a perdera o mensageiro
como se perdem os maiores segredos de Estado
que graças a isto se tornam invioláveis,
ou o grito de paixão abafado
pela buzina dos ônibus.
Como o correio (às vezes) esquece cartas
teria o pombo esquecido
a razão de seu vôo?

Ou sua razão seria apenas voar
baixinho sem mensagem como a gente
vai todos os dias à cidade
e somente algum minuto em cada vida
se sente repleto de eternidade, ansioso
por transmitir a outros sua fortuna?

Era um pombo assustado
perdido
e há perguntas na Rua Noel Rosa
e em toda parte sem resposta.

Pelo quê a senhora o confiou
ao senhor Manuel Duarte, que passava
para ser devolvido com urgência
ao destino dos pombos militares
que não é um destino.

Carlos Drummond de Andrade
Brasil | World

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Curtas: “Eu Tenho Um Sonho (I Have a Dream)” - Segmentos 1, 2, 3 e 4 | Tigre de Fogo

Curta-metragem de Tigre de Fogo. Este vídeo foi produzido para a exibição aos alunos de uma escola pública do ensino fundamental. Fez parte de um projeto sobre cidadania e direitos humanos que minha esposa, professora de História, apresentou aos seus alunos de quinta a oitava série.

“Eu Tenho Um Sonho (I Have a Dream)” - Segmento 1
“Eu Tenho Um Sonho (I Have a Dream)” - Segmento 2
“Eu Tenho Um Sonho (I Have a Dream)” - Segmento 3
“Eu Tenho Um Sonho (I Have a Dream)” - Segmento 4

Sobre os segmentos:

1. O segmento é breve e apresenta um poema do genial poeta português Fernando Pessoa.

2. As imagens, inclusive as do discurso do Dr. Martin Luther King Jr., foram extraídas de diversas fontes. A música de fundo é a belíssima “Gortoz A Ran-J’Attends”, composta por Hans Zimmer e interpretada de forma impecável por Denez Prigent e Lisa Gerrard.

3. As fotografias são, em grande parte, do mestre Sebastião Salgado. A música de fundo é a versão de uma das canções do Metallica: “Fade to Black”, interpretada de forma magnífica pelos quatro violoncelos do grupo finlandês Apocalyptica.

4. A música de fundo é “Relampiano”, do genial Lenine, e as imagens em sua grande maioria são do magnífico filme “Baraka”, de Ron Fricke.

Este vídeo trata de temas humanitários e não tem nenhum propósito comercial, apenas educacional.

This video is about humanitarian subjects and do not have any commercial purpose, it´s educational only.

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Curtas: “Bath Time” | Carlos Fernandez Puertolas

Curta-metragem de Carlos Fernandez Puertolas.

Bath Time

 

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Curtas: “Women In Art” | Philip Scott Johnson

Curta-metragem de Philip Scott Johnson. 500 anos de pinturas retratando a beleza feminina na arte ocidental.

Women In Art

 

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Natal: Poema de Natal | Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes
Brasil | World

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Curtas: True/Faubourg Saint-Denis | Tom Tykwer

Curta-metragem de Tom Tykwer, diretor de “Corra Lola, Corra” e “Perfume”, entre outros.

True/Faubourg Saint-Denis

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Lista dos Vencedores do Prêmio Nobel de Literatura

2007 - Doris Lessing
2006 - Orhan Pamuk
2005 - Harold Pinter
2004 - Elfriede Jelinek
2003 - J. M. Coetzee
2002 - Imre Kertész
2001 - V. S. Naipaul
2000 - Gao Xingjian
1999 - Günter Grass
1998 - José Saramago
1997 - Dario Fo
1996 - Wislawa Szymborska
1995 - Seamus Heaney
1994 - Kenzaburo Oe
1993 - Toni Morrison
1992 - Derek Walcott
1991 - Nadine Gordimer
1990 - Octavio Paz
1989 - Camilo José Cela
1988 - Naguib Mahfouz
1987 - Joseph Brodsky
1986 - Wole Soyinka
1985 - Claude Simon
1984 - Jaroslav Seifert
1983 - William Golding
1982 - Gabriel García Márquez
1981 - Elias Canetti
1980 - Czeslaw Milosz
1979 - Odysseus Elytis
1978 - Isaac Bashevis Singer
1977 - Vicente Aleixandre
1976 - Saul Bellow
1975 - Eugenio Montale
1974 - Eyvind Johnson, Harry Martinson
1973 - Patrick White
1972 - Heinrich Böll
1971 - Pablo Neruda
1970 - Alexandr Solzhenitsyn
1969 - Samuel Beckett
1968 - Yasunari Kawabata
1967 - Miguel Angel Asturias
1966 - Shmuel Agnon, Nelly Sachs
1965 - Mikhail Sholokhov
1964 - Jean-Paul Sartre
1963 - Giorgos Seferis
1962 - John Steinbeck
1961 - Ivo Andric
1960 - Saint-John Perse
1959 - Salvatore Quasimodo
1958 - Boris Pasternak
1957 - Albert Camus
1956 - Juan Ramón Jiménez
1955 - Halldór Laxness
1954 - Ernest Hemingway
1953 - Winston Churchill
1952 - François Mauriac
1951 - Pär Lagerkvist
1950 - Bertrand Russell
1949 - William Faulkner
1948 - T.S. Eliot
1947 - André Gide
1946 - Hermann Hesse
1945 - Gabriela Mistral
1944 - Johannes V. Jensen
1939 - Frans Eemil Sillanpää
1938 - Pearl Buck
1937 - Roger Martin du Gard
1936 - Eugene O’Neill
1934 - Luigi Pirandello
1933 - Ivan Bunin
1932 - John Galsworthy
1931 - Erik Axel Karlfeldt
1930 - Sinclair Lewis
1929 - Thomas Mann
1928 - Sigrid Undset
1927 - Henri Bergson
1926 - Grazia Deledda
1925 - George Bernard Shaw
1924 - Wladyslaw Reymont
1923 - William Butler Yeats
1922 - Jacinto Benavente
1921 - Anatole France
1920 - Knut Hamsun
1919 - Carl Spitteler
1917 - Karl Gjellerup, Henrik Pontoppidan
1916 - Verner von Heidenstam
1915 - Romain Rolland
1913 - Rabindranath Tagore
1912 - Gerhart Hauptmann
1911 - Maurice Maeterlinck
1910 - Paul Heyse
1909 - Selma Lagerlöf
1908 - Rudolf Eucken
1907 - Rudyard Kipling
1906 - Giosuè Carducci
1905 - Henryk Sienkiewicz
1904 - Frédéric Mistral, José Echegaray
1903 - Bjørnstjerne Bjørnson
1902 - Theodor Mommsen
1901 - Sully Prudhomme

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Curtas: Alien Song | Victor Navone

Curta-metragem de Victor Navone, animador dos estúdios Pixar. A música tema é “I Will Survive”, de Gloria Gaynor.

Alien Song

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Curtas: “One Man Band” | Mark Andrews & Andrew Jimenez

Curta-metragem dos estúdios Pixar, escrito e dirigido por Mark Andrews e Andrew Jimenez. Foi indicado ao Oscar na categoria Melhor Curta Animado, em 2006.

Cinema Curta metragem One Man Band Short Film Mark Andrews Andrew Jimenez Pixar Animation Studios 3D Filme A Banda de Um Homem So

One Man Band

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O desenho de Rob Gonsalves

Telas Pinturas de Rob Gonsalves Canvas Images

Telas Pinturas de Rob Gonsalves Canvas Images

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Vidas: Vinicius de Moraes

Pics Photos Pictures Fotos Vinicius de Moraes Morais MPB Bossa NovaPoeta, compositor e diplomata fluminense. É um dos mais importantes poetas do modernismo pós-1930 e letristas da bossa nova. Nasce Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes (19/10/1913 - 9/7/1980) na cidade do Rio de Janeiro.

Forma-se oficial da reserva no serviço militar e conclui o curso de direito em 1933. Em 1928 compõe com os irmãos Tapajós, iniciando-se na música popular antes mesmo do primeiro livro, a coletânea de poemas O Caminho para a Distância (1933). Publica também Forma e Exegese (1935) e Ariana, a Mulher (1936). Em 1938 vai estudar na Inglaterra e lança Novos Poemas.

De volta ao Brasil, ingressa no Ministério das Relações Exteriores em 1943. Assume o primeiro posto diplomático em 1946 em Los Angeles e permanece nos Estados Unidos até 1950. Em 1953 compõe o primeiro samba, Quando Tu Passas por Mim, e publica a peça Orfeu da Conceição em 1954. Em 1956 conhece Tom Jobim, que faz as músicas para a peça Orfeu.

Publica o Livro de Sonetos em 1957. Duas de suas primeiras composições com Tom Jobim (Chega de Saudade e Outra Vez) são gravadas por Elizeth Cardoso no disco Canção do Amor Demais (1958), com acompanhamento ao violão de João Gilberto, e são consideradas o marco inicial da bossa-nova. É de Vinicius a letra de Garota de Ipanema, a música brasileira mais executada e conhecida em todo o mundo.

Entre 1955 e 1956, prepara o roteiro do filme Orfeu Negro, do diretor francês Marcel Camus, que ganha o Oscar de Hollywood de 1959 como melhor filme estrangeiro. No início dos anos 60, começa a compor com outros músicos, como Pixinguinha, Carlos Lyra, Edu Lobo, Francis Hime e Dorival Caymmi.

Com Baden Powell, cria afro-sambas famosos, como Canto de Ossanha e Berimbau. É aposentado do serviço diplomático em 1968, supostamente p