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Filme Comer, Rezar, Amar estreará em 2011 com Julia Roberts no elenco

O filme “Comer, Rezar, Amar”, baseado no livro Comer, Rezar, Amar, grande sucesso internacional de vendas da autora Elizabeth Gilbert, estreará em 2011 nos cinemas dos Estados Unidos.

A atriz Julia Roberts, vencedora do Oscar pelo seu papel no excelente filme Erin Brockovich, interpretará a escritora Elizabeth Gilbert. Até o momento também está confirmada a participação do ator Richard Jenkins, cujos últimos trabalhos foram nos filmes “Queime Depois de Ler” e “O Corajoso Ratinho Despereaux“.

O filme ainda está em pré-produção, será dirigido por Ryan Murphy (roteirista, produtor e diretor de vários episódios da série “Nip/Tuck”) e conta com o ator Brad Pitt como um dos produtores.
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Filme: Sherlock Holmes | Trailer

Sherlock Holmes, filme dirigido pelo inglês Guy Ritchie, mesmo diretor de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, “Snatch”, “RocknRolla” e “Revólver”. Película estrelada por Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams e Mark Strong. Estréia nos cinemas brasileiros prevista para o dia 8 de Janeiro de 2010.
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Sherlock Holmes | Trailer

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Trecho do Livro: Os Delírios de Consumo de Becky Bloom | Sophie Kinsella

Livros Delirios Consumo Becky Bloom Sophie Kinsella BooksLivro: Os Delírios de Consumo de Becky Bloom

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Tudo bem. Não entre em pânico. É só uma conta do VISA. Só um pedaço de papel; alguns números. Quero dizer, que poder têm uns poucos números para nos amedrontar?

Pela janela do escritório, olho para um ônibus descendo a Oxford Street. Quero abrir o envelope branco sobre minha escrivaninha desarrumada. “É só um pedaço de papel”, repito para mim mesma pela milésima vez. E não sou burra, sou? Sei exatamente qual é o valor desta conta do VISA.

Mais ou menos.

Vai ser cerca de… 200 libras. Talvez trezentas. Sim, talvez trezentas. Trezentas e cinqüenta no máximo.

Indiferente, fecho os olhos e começo a calcular. Teve aquele tailleur na Jigsaw. E aquele jantar com Suze no Quaglino’s. E aquele lindo tapete vermelho e amarelo. O tapete foi 200 libras, imagine. Mas definitivamente valeu cada centavo — todos o admiraram. Pelo menos a Suze.

E o tailleur da Jigsaw estava em liquidação — por 30% a menos. Portanto, na verdade, foi uma economia de dinheiro.

Abro meus olhos e estico a mão para a conta. Quando meus dedos alcançam o papel, lembro-me das novas lentes de contato. Noventa e cinco libras. Um bocado. Mas, afinal, tive que comprar, não tive? O que devo fazer, andar por aí sem enxergar nada?

E precisei comprar umas loções novas, uma caixinha bonitinha e um delineador hipoalergênico. Isto eleva para… quatrocentos?

De sua mesa de trabalho na sala ao lado, Clare Edwards olha para mim. Está separando todas as suas cartas em pilhas como faz todas as manhãs. Embrulha cada uma num elástico e as classifica com dizeres do tipo “Responder imediatamente” e “Responder sem urgência”. Odeio Clare Edwards.

— Tudo bem, Becky? — diz ela.

— Tudo bem — digo com um ar leve. — Só estou lendo uma carta.

Com um ar feliz, enfio a mão no envelope, mas meus dedos não tiram a conta. Ficam grudados nela enquanto minha mente fica tomada — como acontece todo mês — por um sonho secreto.

Quer saber do meu sonho secreto? Ele se baseia numa história que li uma vez no jornal a respeito de uma confusão ocorrida num banco. Gostei tanto que recortei e fixei na porta do meu armário. Duas contas de cartão de crédito foram enviadas para pessoas erradas e — imagine só — as duas pagaram a conta errada sem perceber. Elas pagaram as contas uma da outra sem nem mesmo examiná-las.

Desde que li aquela história, tenho um sonho secreto: que o mesmo acontecerá comigo. Alguma velhinha caduca em Cornwall vai receber minha conta colossal e pagar sem nem mesmo olhar para ela. E eu receberei sua conta de três latas de comida de gato, a 59 centavos cada uma. Que, naturalmente, pagarei sem questionar. Justiça é justiça, afinal.

Um sorriso toma conta do meu rosto quando olho pela janela. Estou convencida de que este mês isto vai acontecer — meu sonho secreto está para se tornar realidade. Mas quando, finalmente, tiro a conta do envelope — irritada com o olhar curioso de Clare — meu sorriso esmaece, depois desaparece. Uma quentura bloqueia minha garganta. Acho que pode ser pânico.

A folha fica preta com a quantidade de letras. Uma série de nomes familiares passam pelos meus olhos como um shopping. Quero entender mas eles se movem muito rapidamente. Thorntons, consigo enxergar por um instante. Thorntons Chocolates? Que diabos eu estava fazendo na Thorntons Chocolates? Eu deveria estar de dieta. Esta conta não pode estar certa. Isto não pode ser meu. Não posso ter gasto todo esse dinheiro.

Não se desespere, grito por dentro. O segredo é não entrar em pânico. É só ler cada nome devagar, um por um. Inspiro profundamente e me forço para ler com calma, começando do alto da lista.

WH Smith (tudo bem. Todo mundo precisa de artigos de papelaria)

Boots (idem)

Specsavers (essencial)

Oddbins (garrafa de vinho — essencial)

Our Price (Our Price? Ah, sim. O novo CD dos Charlatans. Bem, eu precisava tê-lo, não é?)

Bella Pasta (jantar com Caitlin)

Oddbins (garrafa de vinho — essencial)

Esso (gasolina não conta)

Quaglino’s (caro — mas foi imperdível)

Pret à Manger (naquele dia eu estava sem dinheiro vivo)

Oddbins (garrafa de vinho — essencial)

Rugs to Riches (o quê? Ah sim, o tapete. Tapete danadinho)

La Senza (roupa de baixo sexy para sair com James)

Agent Provocateur (uma roupa de baixo mais sexy ainda para sair com James. Ah. Eu precisava disso)

Body Shop (aquele negócio de escovar a pele que eu preciso usar)

Next (saia branca bem sem graça — mas estava em liquidação)

Millets…

Paro ali. Millets? Eu nunca entro na Millets. Que diabos estaria eu fazendo na Millets? Intrigada fixo o olhar no extrato, franzo a sobrancelha e procuro pensar — e então, de repente, a verdade aparece. É óbvio. Alguém mais está usando meu cartão.

Ah, meu Deus. Eu, Rebecca Bloom, fui vítima de um crime.

Agora tudo faz sentido. Algum criminoso roubou meu cartão de crédito e forjou minha assinatura. Quem sabe onde mais eles o usaram? Não é para menos que meu extrato está tão preto de números! Alguém resolveu farrear por Londres à custa do meu cartão — e achou que conseguiria escapar.

Mas como conseguiram? Procuro minha carteira de dinheiro na bolsa, abro-a — e ali está meu cartão VISA me fitando. Pego e olho para ele. Alguém certamente o roubou de minha carteira, usou — e depois devolveu. Deve ser alguém que conheço. Ah, meu Deus. Quem?

Examino pelo escritório com um olhar desconfiado. Quem quer que tenha sido não prima pela inteligência. Usar meu cartão na Millets! É quase uma piada. Como se algum dia eu fosse comprar ali.

— Nunca nem entrei na Millets! — digo alto.

— Entrou sim — diz Clare.

— O quê? — viro para ela, nada contente por ter sido interrompida. — Não, não entrei.

— Você comprou o presente de despedida de Michael na Millets, não foi?

Olho para ela e sinto meu sorriso desaparecer. Ah, estraga-prazeres. Claro. O casaco azul para Michael. O casaco de neve azul brega da Millets.

Três semanas atrás quando Michael, agente de nossa editora, foi embora, voluntariei-me para comprar-lhe o presente. Levei o envelope marrom cheio de moedas e notas para a loja e escolhi um casaco de neve (acredite-me, ele é esse tipo de homem). E, no último minuto, agora me lembro, decidi pagar com o cartão e guardar o trocado para meu uso.

Recordo-me muito bem de ter escolhido as quatro notas de 5 libras e tê-las cuidadosamente guardado na minha carteira, separando as moedas grandes e colocando-as no compartimento de moedas, despejando o resto do trocado no fundo da bolsa. “Ah, que bom”, lembro-me de ter pensado. “Não vou precisar ir ao caixa eletrônico.” Pensei que aquelas sessenta libras durariam semanas.

Então o que aconteceu? Não posso simplesmente ter gasto sessenta libras sem perceber, posso?

— Por que está perguntando afinal? — diz Clare inclinando-se para mim. Seus olhos de raios X brilhando atrás dos óculos. Ela sabe que estou olhando para minha conta do VISA.

— Nenhuma razão — digo eu e, de uma forma brusca, virando para a segunda folha do extrato.

Mas algo me interrompe. Em vez de fazer o de sempre — fixar os olhos no valor do Pagamento Mínimo e ignorar completamente o total — me vejo fixando o número no pé da página.

Novecentas e quarenta e nove libras, sessenta e três centavos. Em branco-e-preto bem nítido.

Em silêncio, contemplo durante trinta segundos, logo depois empurro a conta de volta para dentro do envelope. Naquele momento sinto como se aquele pedaço de papel não tivesse nada a ver comigo. Talvez se, por algum descuido, o deixasse cair no chão atrás do meu computador, ele desaparecesse. O pessoal da limpeza o varrerá e eu poderei dizer que nunca o recebi. Não podem me cobrar por uma conta que nunca recebi, podem?

Já estou redigindo uma carta mentalmente. “Prezado Gerente do cartão VISA. Sua carta confundiu-me. A que conta está se referindo precisamente? Nunca recebi nenhuma conta de sua parte. Não gostei do tom de sua carta e devo avisá-lo de que estou escrevendo para Anne Robinson da Watchdog.”

Ou sempre existe a opção de me mudar para o exterior.

— Becky? — Levanto a cabeça abruptamente e vejo Clare olhando para mim.

— Você já terminou o texto sobre o Lloyds?

— Quase — minto. Como ela está me observando, sinto-me forçada a trazê-lo para a tela do meu computador só para mostrar força de vontade. Mas a chata ainda está me observando.

“Quem economiza pode beneficiar-se do acesso instantâneo” — digito no computador, copiando diretamente de um release à minha frente. — “A conta também está oferecendo taxas de juros diferenciadas para quem investe mais de 5.000 libras.”

Digito um ponto final, tomo um gole de café e viro para a segunda página do release.

É isto que faço, por falar nisso. Sou jornalista de uma revista financeira. Sou paga para dizer às outras pessoas como administrar seu dinheiro.

Não é a carreira que eu sempre quis, claro. Ninguém que escreve sobre finanças pessoais jamais pensou em fazê-lo. Todos dizem que “caíram” nas finanças pessoais. Estão mentindo. O que eles querem dizer é que não conseguiram um emprego para escrever sobre nada que fosse mais interessante. Querem dizer que se candidataram para empregos em The Times, no Express, na Marie-Claire, na Vogue, na GQ e na Loaded, mas só receberam um fora.

Começaram então a candidatar-se para a Metalwork Monthly (uma publicação mensal do setor de metalurgia), a Cheesemakers Gazette (revista dos fabricantes de queijo) e a What Investment Plan? (publicação sobre investimentos), foram admitidos como assistentes editoriais insignificantes ganhando muito pouco, e ficaram agradecidos. E continuaram escrevendo sobre metalurgia, queijo ou poupança desde então — porque é tudo o que sabem. Eu comecei na revista com o título cativante de Personal Investment Periodical (publicação sobre investimentos pessoais). Aprendi como copiar um release, acenar com a cabeça em entrevistas coletivas e fazer perguntas de forma a parecer que sabia do que estava falando. Depois de um ano e meio — acredite se quiser — fui convidada para trabalhar na Successful Saving (uma publicação sobre investimentos bem-sucedidos).

Obviamente ainda não sei nada sobre finanças. As pessoas no ponto de ônibus sabem mais sobre esse assunto do que eu. As crianças nas escolas sabem mais do que eu. Há três anos desenvolvo essa atividade e ainda estou esperando que alguém me contrate para outro lugar.

Naquela tarde Philip, o editor, chama meu nome e eu pulo de medo.

— Rebecca? — diz ele. — Uma palavrinha. — E me chama à sua mesa. Sua voz parece mais baixa, quase num tom conspirador, e ele sorri para mim como se estivesse pronto para dar-me uma boa notícia.

Ah, meu Deus, penso. Promoção. Deve ser. Ele sabe que não é justo eu ganhar menos que Clare, então vai promover-me para o nível dela. Ou talvez acima. E está me dizendo discretamente para que Clare não fique enciumada.

Um sorriso amplo enfeita meu rosto, levanto e ando cerca de três metros ou coisa parecida até sua mesa, procurando ficar calma mas já planejando o que vou comprar com meu aumento salarial. Vou comprar aquele casaco trançado na Whistles. E umas botas pretas de salto da Pied à Terre. Talvez saia de férias. E pagarei aquela abominável conta do VISA de uma vez por todas. Sinto-me contente e aliviada. Eu sabia que tudo daria certo…

— Rebecca? — Ele joga um cartão para mim. — Não vou poder ir a esta entrevista coletiva — diz ele. — Mas talvez seja bem interessante. Você pode ir? É na Brandon Communications.

Percebo minha expressão alegre escorrer do meu rosto como geléia. Ele não está me promovendo. Não estou recebendo um aumento de salário. Sinto-me traída. Por que sorriu para mim daquele jeito? Devia saber que estava aumentando minhas esperanças. Seu sacana.

— Alguma coisa errada? — pergunta Philip.

— Não — murmuro. Mas não consigo sorrir. Na minha frente vejo meu novo casaco trançado e minhas botas de salto alto sumirem como num passe de mágica. Nenhuma promoção. Só uma entrevista coletiva sobre… Volto os olhos para o cartão de relance. Sobre uma nova cota de fundo. Como alguém consegue chamar aquilo de interessante?

— Poderá escrever sobre isso para a revista — diz Philip.

— Está bem — encolho os ombros num sinal de aceitação e me afasto.
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Trecho do Livro: O Rei da Noite | João Ubaldo Ribeiro

Livros O Rei da Noite Joao Ubaldo Ribeiro BooksLivro: O Rei da Noite

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- Eu disse que nunca mais punha os pés na rua, nunca mais ia a festinhas, nunca mais entrava num bar, eu disse!

- É, você disse. Você sempre diz isso. No dia seguinte você sempre diz isso.

- Então? Então? Então você devia levar isso em conta. Quando eu disser “hoje vou sair”, você diz “não vai”, pronto. Basta isso, eu atendo, você sabe que eu atendo.

- Você nem ouve, quanto mais atender. Você entrou em casa cantando “Rio Babilônia”, parou na porta, deu uns remelexos meio tipo Elvis Presley e gritou com o mesmo olhar com que às vezes fica na praia: “Mulher, vamos pra festa do Neville! Rio Babilôoooonia!”

- É, eu me lembro. Você foi sarcástica, muito sarcástica. Não é preciso ser tão sarcástica comigo e meus amigos.

- Eu, sarcástica? Eu só perguntei se você tinha certeza de que podia entrar mulher grávida.

- E então? Só porque era a festa do meu amigo Neville tinha de ser uma esbórnia, não foi isso que você quis insinuar?

- Absolutamente. Quem insinuou foi você, com aqueles seus… seus meneios aí na porta e com aquele olhar que não permitiriam na novela das oito.

- Eu não fiz olhar nenhum!

- Fez. E continuou a fazer praticamente a noite inteira. Mas acho que não tem importância, seus amigos já estão acostumados. Uma coisa de que ninguém pode lhe acusar é falta de coerência. Você faz invariavelmente as mesmas coisas.

- Eu beijei Ivan Chagas Freitas outra vez?

- Não, desta vez não, mas isto é um pormenor. E de mais a mais você chegou com ele, não acredito que o beijo se justificasse.

- Eu fui com ele? Claro, fui com ele. Lembro muito bem. Aliás, lembro muitíssimo bem, lembro de tudo. Chegamos juntos, o Ivan elegantíssimo, de smoking…

- Ivan não estava de smoking.

- Como não estava? Claro que estava, eu não sou maluco, vi perfeitamente. Eu até fiz uma brincadeira, falei: “Ivan, este smoking de teu pai caiu muito bem, muito bem.”

- Isso foi a foto do Ivan na festa do Ibrahim. Você viu a foto do Ivan de smoking.

- A foto? Bem, certo, mas o fato é que eu vi o Ivan de smoking, eu lembro de tudo perfeitamente. Nós entramos, abraçamos o Neville e aí batemos um papo com a Tônia Carrero, gostei muito dela.

- É, este foi um problema. A Tônia Carrero não estava lá.

- Como não estava? É claro que estava!

- Não. Estava uma senhora lá que você ficou chamando o tempo todo de “Tônia, mas veja você, Tônia, mas ora, Tônia”. Ela tentou avisar algumas vezes, mas você só dizia “querida Tônia, mas que mot d’esprit, que boutade, ha-ha-ha!”

- Não era a Tônia? Mas era a cara!

- Espero que a Tônia nunca saiba desta sua opinião. De qualquer forma, isso não teve importância, porque você elogiou muito a senhora, ela deve ter ficado satisfeita. Aliás, você elogiou todo mundo.

- Elogiei? Ah, elogiei? Bem, ótimo que eu elogiei, quer dizer que não tem vexame para lembrar.

- Nada, vexame nenhum. É bem verdade que você fez alguns elogios agressivos, mas todo mundo já deve conhecer a sua exuberância. Quer dizer, não sei se o Renato Machado ficou muito feliz, não tenho certeza.

- O Renato Machado? O que é que eu fiz com o Renato Machado? Eu não elogiei?

- Aos murros. Você fazia um elogio – “aí, Renatão!” – e dava um murrozinho afetuoso nele. Acho que deve ter dado uns seis ou sete; você estava muito entusiasmado com ele. “Que pronúncia, que pronúncia!”, dizia você. Até que ele se sentou e alegou nocaute e aí você parou.

- Mas é interessante, eu tenho a recordação completa de que sentamos direitinho, junto com o Ivan, a Dora e o Paulo César Saraceni e a Ana Maria, foi ou não foi?

- Mais ou menos. O Paulo César e a Ana Maria já estavam lá, ficaram sentados defronte da gente.

- Então? Lembro de tudo!

- E você ficava piscando o olho e jogando beijinhos para ela.

- Mentira! Na cara do Paulo César? Mentira! O Paulo César é meu amigo, eu jamais faria uma coisa dessas! Você quer solapar o meu relacionamento com os amigos! Mentira! Eu não faço essas coisas com ninguém, quanto mais com as mulheres de meus amigos!

- Mas é só isso que você faz. Agora, elas não ligam, eles também não. Afinal, quem é que vai ligar para um amigo que fica piscando um olho como se estivesse tendo um espasmo muscular, jogando beijinhos bicudos e escondendo a cara atrás do balde de gelo?

- Atrás do balde de gelo?

- Pois é, tenho a impressão de que você achava que assim disfarçava. Juntou gente em torno da mesa, para ver você disfarçando. Você se curvava todo, chamava “Aniiinha!”, piscava o olho e mergulhava a cara atrás do balde ligeirinho.

- Que horror!

- Horror nada, foi tudo muito divertido, um sucesso. Tanto assim que você só parou quando chegou o Daniel Filho.

- O Daniel? Não! Eu chorei outra vez?

- Não, vocês dançaram.

- Nós dançamos?

- Dançaram e cantaram. Cantaram uma musiquinha em inglês que dizia “wake up, wake up!” e que vocês achavam engraçadíssima, embolavam de rir. Até que houve o incidente com o pessoal da casa, na hora em que você exigiu que evacuassem a pista para que o Daniel pudesse dar uma demonstração do passo Tom Mix.

- O passo Tom Mix?

- Sim, é um passo que ele dá sacando dois revólveres e rodopiando. É até interessante. Mas o pessoal não quis atender ao seu pedido, apesar de você gritar “jogo-lhe a Rede Globo em cima, canalha!”. De qualquer forma, você conseguiu que o Daniel fizesse o passo no andar de cima e ainda imitasse Michael Jackson e Ney Matogrosso. A de Michael Jackson é até bastante boa, a do Ney…

- Disso eu me lembro, fiquei ali conversando com a Márcia enquanto ele dançava.

- Conversando não, ficou dizendo “Marcinha, você sabe que eu imito Ney Matogrosso muito melhor do que esse cara aí com quem você vive saindo e sou melhor diretor de televisão que ele e tenho um telão maior do que ele e…”

- Ele se aborreceu?

- Claro que não, inclusive ele sabe que você não imita lhufas e não tem telão nenhum.

- Nem sou diretor de tevê.

- Ah, isso não sei. Não foi isso o que você falou à Danuza Leão. Você disse a ela que estava realizando um especial sobre ela de duas horas e depois gritou: “Quero arrojar-me a teus pés!”

- E me arrojei?

- Quase. Ivan segurou você e a Danuza deu uns passinhos rápidos para trás, não houve maiores problemas e já estávamos mesmo na saída.

- Nunca mais eu saio, nunca mais boto os pés fora de casa, nunca mais entro num bar, nunca mais!

- Sim, querido. Mas não sei por quê. Todo mundo acha você o rei da noite, querido.

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Trecho do Livro: Doidas e Santas | Martha Medeiros

Livros Doidas e Santas Martha Medeiros BooksLivro: Doidas e Santas

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Falcatruas, alagamentos, violência urbana. Eu colocaria mais uma coisinha nessa lista de pequenas tragédias com que somos brindados diariamente: o tédio. A cada manhã, abrimos os jornais e é a mesma indecência política. Nas ruas, perdemos tempo com os mesmos engarrafamentos. Escutamos as mesmas queixas no local de trabalho. É sempre o mesmo, o mesmo. Como é bom quando algo nos surpreende.

Para quem vive na opressiva e cinzenta São Paulo, a novidade atende pelo nome de Cow Parade, a exposição ao ar livre de 150 esculturas em forma de vaca, em tamanho natural, feitas de fibra de vidro e decoradas com muita cor e insanidade por artistas plásticos, diretores de arte, designers e cartunistas. Um nonsense mais que bem-vindo, uma intervenção no nosso olhar acostumado. Espalhadas por ruas, praças, nos lugares mais inesperados, lá estão elas, vacas enormes, vacas profanas, vacas insólitas. Para quê? Para nada de especial, apenas para espantar o tédio, inspirar loucuras, lembrar que as coisas não precisam ser sempre iguais. Havia uma vaca no meio do caminho, no meio do caminho havia uma vaca. É poesia também.

Falando em poesia, há sempre uma nova e heróica coletânea sendo lançada no mercado editorial, tentando atrair aqueles leitores que evitam qualquer coisa que rime. Desta vez, não é coletânea de mulheres poetas ou de poetas do terceiro mundo, essas cortesias que nos fazem. Finalmente, o humor e a leveza baixaram no reino dos versos. O livro chama-se Veneno Antimonotonia e traz o subtítulo: Os melhores poemas e canções contra o tédio. Organizado por Eucanaã Ferraz, a antologia pretende combater o vazio, o medo, a falta de imaginação. É um convite para a vida, e um convite feito através das palavras de Drummond, Chico Buarque, Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Adriana Calcanhotto, Armando Freitas Filho, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, João Cabral de Melo Neto e outros ilustres, sem faltar Cazuza, claro, cuja canção Todo amor que houver nesta vida – uma das minhas letras preferidas – inspirou o título da obra.

Até hoje, pergunta-se: para que serve a arte, para que serve a poesia?

Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo “Veja bem…” e daí em diante é um blablablá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.

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Curtas: “Edna” | Thomas Giusiano e Mathieu Rey

Edna, curta-metragem francês de Thomas Giusiano e Mathieu Rey, retrata a personagem Carlitos (Charlie Chaplin) em busca da sua namorada. O filme faz referência ao universo cinematográfico de Steven Spielberg.

Edna
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Trecho do Livro: Anjo de Quatro Patas | Walcyr Carrasco

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Meu irmão Cláudio resolveu ficar milionário criando cachorros. Ele e minha cunhada Bia fizeram as contas:

– Começamos com um casal. Na primeira ninhada a cadela terá uns dez filhotes. Vendemos oito e ficamos com mais um casal. Na outra teremos vinte cãezinhos. Adotamos mais dois e…

Pelas contas, estariam ricos dali a dois natais. Negociar com cães parecia melhor que jogar na loteria!

– Vamos fazer fortuna com os peludinhos! – entusiasmou-se meu irmão.

Optaram por um par de huskies siberianos. Huskies estavam na moda, após um filhote aparecer com destaque em uma novela de televisão. São lindíssimos. Se não conviveu com algum pessoalmente, você já deve tê-los visto em algum filme de esquimós. Matilhas de huskies puxam trenós na neve. Podem ter pêlo cinza, negro, branco ou cor de mel. Olhos azuis ou castanho-claros. São muito parecidos com lobos. Não latem, uivam! Possuem um charme indescritível. Qualquer pessoa se apaixona por um husky à primeira vista.

Inicialmente, os dois futuros milionários não possuíam amor especial pela raça. Parecia um bom investimento. Huskies eram vendidos a peso de ouro. Esse fenômeno ocorre com freqüência no circuito dos canis e pet shops. Raças viram moda, tal como um novo comprimento das saias ou a cor da estação. Quando eu era menino, o máximo era ostentar um pequinês bem peludinho. Em certa época se tornou chique raspar os pêlos dos poodles, deixando um topete na cabeça, um no rabo e um cinturão no corpo. Até hoje são conhecidos como cachorros de madame.

Dálmatas transformaram-se em coqueluche. Depois foi a vez dos huskies. Os filhotes eram disputadíssimos. Havia filas para adquiri-los.

Cláudio quase saiu no tapa para conseguir uma fêmea e um macho de bom pedigree, ainda filhotes. Foi vitorioso. Adquiriu o máximo em aristocracia canina. O pai de Luna, a fêmea, veio do Canadá e foi capa de uma revista canina. O macho, Thor, também ostentava um impressionante pedigree. Casal mais chique não poderia haver. Os filhotinhos eram adoráveis, mas exigiam cuidados. Bia, minha cunhada, passou semanas preparando mamadeiras e ajeitando cobertores. Se ventava ou chovia de noite, ela e meu irmão saíam da cama e enfrentavam as intempéries para abrigar melhor os pequenos huskies. Os cães sempre foram saudáveis, mas os humanos viviam espirrando. Finalmente minha cunhada, pintora, desfez o ateliê que havia em um quartinho dos fundos da casa em que vive no interior de São Paulo e montou uma suíte para huskies.

– Quando vender os filhotes, construo um ateliê com parede de vidro no quintal – planejou ela, pupilas transformadas em cifrões.

Ocorreu o inevitável. Diante de um filhotinho, ondas de amor brotam até do coração mais endurecido. Meu irmão e minha cunhada já são bem sensíveis. Não conseguiram nem tentaram resistir. Apaixonaram-se perdidamente pelos cães. Viviam com os dois no colo. Ainda não tinham filhos. Cantavam para os huskies, beijavam na testa, coçavam a barriga e comentavam, felizes como papais:

– Viu só o que a Luna fez? Pegou um osso e escondeu no quintal!

– Ai, que gracinha, o Thor nas duas patas para pedir comida. Ah, que guloso! Malandrinho! Malandrinho!

Registraram o canil com um derivado de seu sobrenome: Karras. Quando ia visitá-los, passava a tarde ouvindo comentários entusiasmados:

– Eu falo e parece que ela me entende!

– Cachorro é muito melhor que gente.

Meses depois, Luna não havia engravidado. Gastaram uma grana no veterinário em exames. O resultado:

– A cadela está bem, mas o macho é estéril.

Pode haver investimento pior do que começar um canil com um cachorro estéril? Pode sim, como vieram a demonstrar os fatos: negociar cachorro é negócio de cachorro.

Os dois não se conformavam.

– A gente tinha que escolher justo um filhote estéril?

Thor abanava o rabo. Imediatamente era perdoado.

– Não é sua culpa, querido, mas você nos deu um baita prejuízo! – explicava Bia.

– Uauuuauuuuuuuuuu – uivava Thor.

E os sonhos de riqueza rápida? Não desistiram.

– Só vai demorar um pouco mais para dar lucro – concluiu Cláudio.

Foram até outro canil e explicaram a situação. Pegaram emprestado um macho para uma gravidez em consórcio: a ninhada seria dividida meio a meio.

– Este é seu marido, Luna! – apresentou minha cunhada.

– Luna vai casar, Luna vai casar! – cantarolou meu irmão.

O noivou se aproximou. A noiva ergueu o rabo e arreganhou os dentes. O feliz consorte farejou seu tras*eiro.

Digamos que foi amor à primeira vista.

Semanas depois, Luna estava grávida.

Mais contas com o veterinário e remédios morderam a poupança dos futuros milionários. Os planos continuaram a todo vapor:

– Se ela tiver dez filhotes, damos cinco para o canil que emprestou o macho e ficamos com cinco.

– Vendemos todos. Quero pintar a casa e trocar a pia – lembrou minha cunhada.

– Melhor ficarmos com uma cadela e vendemos nove. Depois, emprestamos outros dois machos e se cada uma tiver dez…

Mais contas! Os sonhos de riqueza continuaram de vento em popa, mas era preciso investir. Os cães continuavam dando despesas. E haveria muitas mais pela frente. Seria preciso dinheiro para as vacinas, ração e veterinário dos filhotes até que fossem vendidos. Meu irmão aumentou o número de aulas que dava na universidade. Minha cunhada diminuiu os dias da faxineira e aumentou suas horas de trabalho doméstico.

Em uma noite fria, Luna foi para um canto, quieta. Estranha.

– Os filhotes devem nascer hoje – avisou o veterinário ao atender a ligação preocupada.

Os olhos de ambos brilharam de ternura misturada com ambição. (São assim os sentimentos humanos, um tanto contraditórios.)

– Se tivermos sorte, nascem uns doze – comentou Cláudio, esperançoso.

– Já ouvi falar de até quinze – concordou Bia, olhos faiscando.

Passaram a noite em claro. A cada cinco minutos minha cunhada ia verificar.

– Não nasceram ainda.

Deitava. Dali a pouco, saía da cama. Observava Luna. Adoçava a voz:

– Tudo bem, querida? Vai virar mamãe cachorra?

Ao amanhecer, iniciaram-se os sinais de parto. Emocionados, meu irmão e minha cunhada ficaram esperando o nascimento dos filhotinhos. Seus sentimentos oscilavam entre o amor desmedido pelos cães e as perspectivas financeiras. Nasceu o primeiro filhote, cor de mel.

– Ai, que coisa mais linda! – exclamou Bia.

– Já, já vem mais um. – anunciou meu irmão.

Ficaram olhando. Um minuto. Cinco. Dez. Vinte. Seus pescoços doíam com a expectativa. Bia encostou-se em um lado da parede, ele no outro.

– Que demora!

Luna acomodou-se amorosamente com a cria.

Mais meia hora.

Indiferente a suas preocupações, Luna descansava com o cachorrinho, um macho. As angústias do parto pareciam deixadas para trás.

Meu irmão e minha cunhada se olharam, surpresos.

– Só um?

– Ih… só um!

Mais tarde, o veterinário explicou:

– É raríssimo, mas pode acontecer ninhada de um só.

Nunca um projeto de riqueza desabou tão depressa! Meu irmão abriu uma cerveja e declarou:

– Acabou essa história de criar cachorros pra vender. Vamos ficar com o filhote.

Como não era possível dividir o cãozinho ao meio para entregar ao outro canil, ainda tiveram de desembolsar algum dinheiro por ele!

– O nome dele será Uno, porque foi único – declarou minha cunhada, com o cachorrinho no colo.

– Também podia ser Prejuízo – rosnou meu irmão.

Era só conversa. Ambos já estavam irremediavelmente apaixonados pelo pequeno husky.

Há males que vêm para o bem. Como disse antes, negociar cachorros pode ser um empreendimento de alto risco. Não basta querer dinheiro, é preciso ter muito amor porque as ciladas são inúmeras. Os fatos provaram que o prejuízo poderia ter sido muito maior. Bia e Cláudio tinham uma amiga que conseguiu concretizar planos exatamente iguais aos que eles possuíam no início da empreitada. Comprou dois casais, investiu em novos procriadores, encheu-se de filhotes e chegou a ganhar uma grana, que usou para ampliar os negócios. Tarde demais, descobriu que criar cães não é o mesmo que possuir uma mina de diamantes. Muitos compradores de huskies se decepcionaram. Eu, que amo a raça, posso contar com imparcialidade.

Apesar de grandes, da aparência de lobo e do uivo assustador, huskies não servem como cães de guarda. São dóceis. Adoram crianças. E não se consegue adestrá-los. Alguns treinadores cometem o erro de dizer que são burros. Coisa nenhuma. Possuem uma inteligência peculiar, uma personalidade forte. Francamente, não estão nem aí para ficar guardando os pertences dos humanos. No fundo, não nos pertencem. Eles, sim, são nossos legítimos donos!

Fogem e não sabem voltar para casa. Vieram das planícies geladas, onde não existiam fronteiras ou propriedades individuais. São oriundos da vastidão da neve. Sabem ir, ir, ir. Dificilmente conseguem voltar. Embora, como contarei mais tarde, Uno fosse uma exceção, pois sabia voltar pra casa. Portanto fogem e não voltam! Muitos proprietários de huskies se surpreenderam ao descobrir que eles são capazes de escalar muros como gatos (sim, são) e desaparecer para sempre, provavelmente adotados por uma nova família. Às vezes uivam longamente. E são teimosos!

A raça saiu de moda. O golden retriever tornou-se a nova coqueluche. Em todos os canis, os huskies deixaram de atrair compradores.

De repente a futura milionária, amiga de meu irmão, se viu com 300 filhotinhos encalhados! Sem comprador à vista! Gastou todas as economias vacinando e alimentando os trezentinhos. Com a poupança arrasada, implorava pela caridade alheia.

– Pode contribuir com um pacote de ração? – pedia aos amigos.

Pior. A maior parte dos filhotes costuma ser vendida até completar três meses. Depois disso o cachorro já está grande. A pessoa prefere um filhotinho para se acostumar na casa desde pequeno. A pobre ex-quase-milionária levava caixas de cães a todas as feiras de animais. Ficou com calos nos dedos fazendo lacinhos para enfeitar o cocoruto das fêmeas. Teve cãibras na boca de tanto sorrir para eventuais clientes. Cansou os braços de tanto botar filhotes no colo de criancinhas e murmurar:

– Olha só, ele gostou de você.

Fez liquidação no canil, oferecendo os huskies a preço de custo. Só se livrou de alguns. Ficou com 293 encalhados. Quem ama os cães não é capaz de soluções radicais. Gastou tudo o que tinha para alimentá-los, tentava mantê-los, mas alguns começaram a se reproduzir e… Segundo a última notícia, os cães continuavam crescendo fortes e saudáveis, devorando toneladas de ração. Já a grana…

Meu irmão e minha cunhada livraram-se desse destino. Ficaram com os três: Luna, Thor e Uno. Seria uma família feliz, se não fosse a eterna competição entre machos, que costumam se estranhar. No começo, Uno e Thor rosnavam um para o outro. Logo passaram a se atacar. Minha cunhada os separava com gritos e água fria. Uma loucura.

Chegou a minha vez de entrar na história.

Passei por uma fase difícil e dolorosa. Perdi uma pessoa querida após uma doença devastadora. Eu a acompanhei durante todo o desenrolar. Fui seu enfermeiro, seu amigo e seu amor. A experiência ainda não parecia terminada. Eu continuava abrindo sua parte do armário, pegava suas roupas e botava no nariz, tentando sentir seu cheiro, captar seus últimos sinais sobre a Terra. Olhava suas gavetas, seus papéis, as lembranças, bilhetes, postais que guardava. Se saía para um cinema, um papo com amigos, compras, o que fosse, me dava uma vontade enorme de voltar para o apartamento, como se ela ainda estivesse lá, me esperando. Ao entrar, voltava à realidade e dava um nó na garganta. Ia até suas coisas para novamente pegar, cheirar, ver e chorar, chorar e chorar…

– Nunca mais vou amar de novo! – dizia para mim mesmo, com plena convicção.

Era uma perda tão sofrida que não queria correr o risco de amar mais uma vez e novamente perder.

Eu me sentia no buraco. E não pretendia sair dele.

Muita gente me aconselhava a dar a volta por cima, a esquecer. Tinha horror de ouvir esses conselhos. Nada é pior do que perder alguém e ouvir:

– Não se desespere.

Só se eu não tivesse amado para não sofrer.

Somente um amigo, André, me deu razão.

– Se você tem que chorar, chore. Se quer se esconder, se esconda. Respeite seu momento.

Tinha que desocupar o apartamento repleto de recordações, onde cada móvel, cada parede me lembrava de uma passagem triste. Além do mais, era alugado. Há anos construía uma casa em um condomínio distante, de chácaras, em uma cidade próxima. Estava prestes a ser terminada. Sempre havia sonhado com a casa própria, mas a construção se arrastava havia anos. Tive pouca grana a maior parte da minha vida. Os financiamentos impunham juros e correções monetárias. Eram difíceis de obter. A maior parte dos imóveis, inacessível para meu bolso. Minha companheira fazia trabalhos eventuais na área de moda, mas nunca recebeu salário fixo. Era um tanto descabeçada. Quando recebia, comprava roupas novas, presentes para mim, comidas extravagantes. Eu segurava a estrutura: aluguel, comida, empregada, luz, água, impostos. A casa era fruto de um longo projeto. Economizei muito, durante anos. Com dificuldade comprei um terreno em um bairro distante. O país passava por sucessivos planos econômicos, um diferente do outro. Em um desses, meu terreno valorizou-se muito, porque em razão da baixa renda da poupança, todo mundo estava tirando dinheiro do banco e aplicando em imóveis. Era minha oportunidade. Resolvi vendê-lo. Fui até o dono da imobiliária:

– Quero vender o terreno para comprar um pequeno apartamento.

– Não prefere uma casa?

Meus olhos brilharam. Resumindo: havia uma casa em construção muito, mas muito mais distante ainda que o terreno, em um condomínio quase rural. A obra estava parada havia dois anos, mas já tinha as paredes e a laje. Maravilha das maravilhas, o terreno do fundo dava para uma reserva florestal onde corria um riacho com uma pequena cascata. O dono da imobiliária fez uma transação na qual entrou como parte principal o tal terreno, minha pequena poupança e até meu carro, com uns seis anos de uso. Saí da imobiliária a pé para pegar ônibus na estrada, mas proprietário de uma casa. Ou quase.

Casa? Eu nunca construíra coisa nenhuma. Imaginava que seria fácil terminá-la. Que fantasia! Nos dois anos seguintes, fui comprando o material pouco a pouco e concluindo a obra por partes. Comecei pelo telhado. Um amigo indicou um especialista, que foi até lá e perguntou:

– Como será o telhado?

- Assim – respondi desenhando no ar com os dedos.

Ele fez exatamente como mostrei e o telhado está lá até hoje. Talvez por milagre. Quando consegui, botei as janelas. Depois o piso, de tijolo. O terreno era enorme, com mais de 2 mil metros. Só tive dinheiro para plantar grama na metade. A outra continuou cheia de mato. Durante todo esse tempo fomos construindo a casa. Com a doença, tudo parou. Trabalhei em dobro e guardei dinheiro para emergências. Meu maior terror era ser obrigado a interná-la em um hospital público, onde eu não pudesse estar a seu lado e segurar sua mão quando partisse. Não tínhamos plano de saúde, pois na época não era algo tão comum quanto hoje. Juntava cada centavo para, quando chegasse a hora, pagar um hospital, mesmo simples, e acompanhá-la em seus últimos momentos. Mórbido? Quem amou e perdeu sabe do que estou falando. Minha necessidade de estar a seu lado e transmitir minha ternura era até física. Mas ela faleceu em casa. O dinheiro ficou no banco.

A melhor homenagem seria terminar a casa e mudar. A pedido de sua mãe, seu corpo fora cremado. As cinzas, espalhadas no próprio jardim do crematório. Não havia túmulo para visitar, um lugar para honrar sua memória. No jardim da casa em construção, porém, havia uma lembrança viva de seu amor. Vou explicar. Durante toda minha infância, os natais foram tristes. Minha mãe era dona de uma lojinha e passava a véspera de Natal trabalhando. No dia seguinte, exausta, fazia um almoço comum e botava algumas frutas secas na mesa. Hoje entendo que fazia o melhor possível. Devia estar exausta após dias de trabalho intenso. Quando menino era difícil ver meus amigos correndo para a ceia, para festas familiares, com parentes vestidos de Papai Noel ou comemorando de alguma outra maneira, enquanto eu ficava sozinho na porta do pequeno comércio de mamãe, admirando as luzes acesas em outras casas e os ruídos de festa. Sentia uma enorme necessidade de ter um Natal como o dos outros. Essa alegria, só tive como adulto. Estávamos sem dinheiro. Mesmo assim, ela resolveu que não podíamos passar sem uma árvore de Natal. Quase na véspera, saiu à luta. Encontrou um vendedor com alguns pinheirinhos sobrando. Pechinchou. Voltou com um pinheiro torto, que decoramos com algumas bolas vermelhas. Foi a primeira árvore de Natal de minha vida adulta, e eu nunca esquecerei seu carinho ao me oferecer a árvore. Depois do Dia de Reis, plantei o pinheiro em frente à casa em construção. Foi crescendo, ainda torto. Nossa árvore de Natal, que estaria sempre naquele lugar para me lembrar daquele gesto de carinho.

Gastei o dinheiro guardado para a doença deixando a casa em condições habitáveis. Estava exausto e precisava me mudar. A casa era a melhor opção: novo lugar, novos ares. Durante a doença, havia atingido o limite das minhas forças. Aprendi a dar remédios, ouvir instruções médicas, fazer curativos, passar horas do lado segurando sua mão, simplesmente para ela saber que eu estava lá. Nunca fui um tipo atlético. Mas a carregava no colo para ir ao banheiro e esperava a seu lado, enquanto fazia suas necessidades. Arrumava sua roupa e a levava de volta. Percebia seu corpo se tornar cada vez mais leve, consumido pelo câncer. Como meus sentimentos eram contraditórios! Dias e noites eu torcia pelo fim, porque era horrível contemplar seu sofrimento, mas ao mesmo tempo tinha esperanças de que ela não partisse nunca. Quando ela se foi, não consegui entender por que pedi a Deus que a levasse, pois me sentia rasgado por dentro, alucinado de dor. Como pude desejar o que não queria?

Eu a amava, amava tanto que nunca mais queria amar ninguém. Minha vida afetiva acabara. Estava fechado para o mundo e para o amor.

Mudar para longe parecia a solução ideal. Queria ficar solitário, no meu canto. Não tinha forças e muito menos vontade para reconstruir a vida afetiva, me apaixonar novamente, ir adiante. Sorria, triste, e pensava: “Parem o mundo que eu quero descer!”.

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Cenas: Scrubs (Erasure – A Little Respect)

Talvez uma das mais marcantes cenas da famosa série de comédia Scrubs, criada por Bill Lawrence, onde as personagens volta e meia estão em meio a canção A Little Respect, da dupla Erasure. Série de TV estrelada por Zach Braff, Sarah Chalke, Donald Faison, Neil Flynn, Ken Jenkins, John C. McGinley e Judy Reyes.

Scrubs
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Trecho do Livro: O Mundo é Bárbaro | Luis Fernando Verissimo

Livros O Mundo e Barbaro Luis Fernando Verissimo BooksLivro: O Mundo é Bárbaro

Como seria

Como seria se os portugueses tivessem sido postos para correr — ou para nadar, no caso — naquele 22 de abril, e nunca mais se animassem a chegar perto destas praias, nem eles nem quaisquer outros brancos? Como seria o Brasil, hoje, habitado exclusivamente por índios? Imagine uma reunião dos presidentes do Mercosul, todo mundo posando para a fotografia de terno e gravata e o brasileiro nu. Haveria vantagens e desvantagens em viver numa eterna Pindorama. Para começar pelo mais grave, pelo menos para mim: eu não existiria. Aposto que você também não. Devo ter sangue índio, se a cara da minha avó paterna não estava mentindo, mas o resto é um coquetel do que veio depois: português, negro, alemão, italiano. Em compensação, também não existiria o Eurico Miranda.

Como seria se os holandeses tivessem derrotado os portugueses e colonizado todo o Brasil? Para começar, nossos padrões de beleza seriam completamente outros. Em vez de morenas, nossas mulheres seriam loiras de cabelo escorrido, e a brasileira mais conhecida no mundo seria alguma longilínea do tipo nórdico, chamada Gisele ou coisa parecida. Nem dá para imaginar.

Como seria se os franceses tivessem conseguido consolidar a sua civilização subequatorial por aqui? Sei não, talvez a comida não melhorasse tanto assim — também se come mal na França, e vá encontrar uma boa feijoada com couve e torresmo —, mas quem nos assegura que hoje não teríamos uma Carla Bruni como primeira-dama, congressistas que ficassem sentados em seus lugares em vez de se aglomerarem na frente da mesa, um serviço público muito melhor e pelo menos mais quatro feriados nacionais (Dia da Bastilha, Dia do Armistício de 18, Dia do Armistício de 45, Dia do Queijo Fedorento etc.) por ano? Talvez fôssemos corruptos do mesmo jeito, já que deve ser alguma coisa na água. Mas as conversas grampeadas seriam em francês! Quer dizer, uma coisa de outro nível.

Meus dois pedidos

Agora posso contar. Fui eu que consegui a vitória do Internacional no Campeonato Mundial Interclubes, no Japão, em 2006.

Foi assim. Recebi uma oferta do Diabo pela minha alma. Veio por e-mail, de sorte que nem vi a sua cara. Ele procurava na internet pessoas dispostas a trocar sua alma pelo que quisessem. Respostas para 666belzebu.com. A pessoa empenhava sua alma ao Diabo, para entregar na saída, e em troca poderia pedir duas coisas. Mas só duas coisas.

Perguntei como eu poderia ter certeza que ele cumpriria a sua parte no trato. Depois da minha alma empenhada, contrato assinado com sangue etc., ele poderia simplesmente não atender aos meus pedidos. Ele propôs que fizéssemos um teste. Que eu pedisse alguma coisa impossível. Que o meu pedido fosse um delírio, algo totalmente fora da realidade. Se ele cumprisse o prometido, eu saberia que sua oferta era para valer. E só então lhe entregaria a minha alma. Concordei.

Qual seria o meu primeiro pedido? Pensei imediatamente no Internacional. Está certo, antes pensei na Luana Piovani, mas aí achei que poderia dar confusão. Em seguida pensei no Internacional. Um Campeonato do Mundo para o Internacional! Decisão contra o Barcelona. Sua resposta veio num e-mail conciso:

“Feito.”

E foi o que se viu. Vitória sobre o Barcelona contra todas as probabilidades. Inter campeão do mundo. O trato com o Diabo era, por assim dizer, quente. E eu podia fazer meu segundo pedido. Um bicampeonato do mundo para o Inter? Concluí que estava sendo egoísta demais. Estava pensando só na alegria dos colorados — e passageira, pois não poderia pedir vitórias do Internacional em todos os campeonatos, para sempre — e esquecendo o meu país. Deveria pedir, pela minha alma, algo que desse alegria a todos, inclusive gremistas. O quê? Quero que o Brasil se transforme num país escandinavo. Agora! Um país organizado, sem crime, sem fome, sem injustiça, sem conflitos, magnificamente chato. Era isso: minha alma por um país aborrecido!

Foi o que botei no meu e-mail para o Diabo. Ele respondeu perguntando se eu tinha pensado bem no que estava pedindo. Eu deveria saber que a adaptação seria difícil. A conversão da moeda, a língua, o frio, os hábitos diferentes… E que seria impossível preservar tudo o que nos faz simpáticos, e criativos, e divertidos — enfim, brasileiros no bom sentido — sem a bagunça e o mau caráter. Ou ser escandinavo só durante o expediente e brasileiro depois das seis. Era mesmo o que eu queria?

“É”, respondi. “Chega desta irresponsabilidade tropical, desta indecência social disfarçada de bonomia, desta irresolução criminosa que passa por afabilidade, deste eterno adiamento de tudo. Faça-nos escandinavos, já!” O Diabo: “Tem certeza? Já?”

Eu: “Bom… Depois do carnaval.”

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Henfil e O Pasquim

Henfil (Henrique de Souza Filho) foi um cartunista mineiro, criador de alguns dos mais conhecidos personagens de história em quadrinhos no Brasil, e teve importante atuação política na história do país.

Henfil O Pasquim 01Nasceu em Minas Gerais, no município de Ribeirão das Neves. Mudou-se com a família para Belo Horizonte ainda na infância e trocou as brincadeiras com os amigos pelos desenhos. Em meados da década de 1950, juntamente com o irmão Betinho, aderiu ao movimento da esquerda católica, trazido ao Brasil por missionários dominicanos franceses. Inspirado nesses frades, criou os personagens Fradinhos (Fradins: Fradim Baixim e Fradim Cumprido), que logo fizeram sucesso.

Trabalhou como quadrinhista na revista Alterosas, cujo diretor, o escritor Roberto Drummond, sugeriu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida. Foi para o Rio de Janeiro e publicou seus quadrinhos no Jornal dos Sports. Logo depois passou a colaborar no jornal O Pasquim – um dos principais veículos de resistência civil ao regime militar, consagrando-se nacionalmente. A produção de histórias em quadrinhos e cartuns do mineiro Henfil já possuía então sua marca registrada: um desenho humorístico político, crítico e sátiro, com personagens tipicamente brasileiros.

Com o aumento da repressão política do regime militar, a censura agia fortemente sobre a redação do Pasquim. Para se proteger da repressão do governo e também para tratar sua hemofilia, Henfil exilou-se nos Estados Unidos, retornando ao Brasil em 1975.

Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da campanha pelas Diretas Já. Casou-se três vezes. Henfil era hemofílico e foi contaminado com o vírus da AIDS numa transfusão de sangue. Morreu no Rio de Janeiro em janeiro de 1988. Estima-se que, em 26 anos de carreira, Henfil tenha produzido entre 20 mil e 30 mil cartuns. Suas tiras foram divulgadas em vários países do mundo sob o título “The Mad Monks”.

Seu maior sonho era fazer desenho animado. Segundo ele, só assim suas idéias não morreriam, pois seus bonecos poderiam andar, cantar e falar, o que não acontecia quando ele desenhava e sua idéia virava papel, tinta e nanquim.

O dia 4 de janeiro lembra a morte do desenhista Henfil em 1988, com seus poucos 44 anos, e é também o Dia do Hemofílico.

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“Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente”
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Henfil
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Henfil O Pasquim 02

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O Pasquim

O significado do nome não é dos mais lisonjeiros: Pasquim é um jornal difamatório espalhado clandestinamente. O nome do tablóide surgiu do cartunista Jaguar que, junto com Henfil, Ziraldo, Millôr Fernandes, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Glauber Rocha, Ivan Lessa e alguns outros singulares, formavam a linha de frente da Patota do Pasquim.

O jornal O Pasquim surgiu no Rio de Janeiro em 1969 (chegou às bancas em 26 de junho daquele ano). Com sua irreverência, humor e anarquia, deu uma nova roupagem e linguagem ao jornalismo brasileiro. Apresentou uma forma mais coloquial à publicidade e causou um forte abalo nos níveis da hipocrisia nacional, pois enfrentou a censura e a cadeia com o riso aberto.

Ninguém ficou rico com o Pasquim, embora ele tenha vendido nos seus melhores tempos, entre 1969 e 1973, até 250 mil exemplares, um volume acima do razoável, se lembrarmos que os jornais de tiragem nacional rodam hoje, quase 40 anos depois, com toda a informatização, a facilidade de distribuição e as fortes campanhas de assinantes, cerca de 300 mil exemplares.

O comportamento da chamada Patota do Pasquim era tão anárquico quanto o conteúdo do jornal. E o que ganharam gastaram entre prisão, brigas, festas e altas dosagens etílicas. Os militares e a elite brasileira tentaram sufocá-lo diversas vezes e de formas variadas mas, quando conseguiram, ele já havia disseminado uma nova forma de comportamento nos meios de comunicação. Como disse o cartunista Jaguar, um dos fundadores do Pasquim: “a imprensa tirou o paletó e a gravata, ou, como diz o Olivetto, passamos a escrever e nos comunicar com língua de gente, do povo.”

A última edição do Pasquim foi a de número 1.072, publicada em 11 de novembro de 1991.

Em abril de 2008, Jaguar e outros vinte jornalistas – que foram perseguidos durante os anos repressivos da Ditadura Militar – tiveram seus processos de anistia aprovados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Ele e o cartunista Ziraldo receberam as maiores indenizações: cada um recebeu 1 milhão de reais.

Abaixo segue a entrevista de Henfil a revista Veja em 28 de Abril de 1971.

Veja: Henfil, modéstia à parte, você se considera o maior humorista do Brasil?

HENFIL: Não. Eu não sou o maior humorista do Brasil. E não falo por modéstia, não. O maior humorista brasileiro, o humorista mais completo do país, no meu entender, é o Millôr Fernandes, que está aí mesmo na revista. Ele é um cara que tá de antena ligada para tudo quanto é assunto. É um cosmopolita da informação. Ele bebe água em anúncio classificado, em televisão, em enciclopédia, em revistinha imbecil, em jornal. E, se estou aprendendo, não posso ser maior do que ele, que também leva sobre mim a vantagem do maior tempo de serviço. E tem o Ziraldo, o Jaguar, o Fortuna. Quer dizer, um pessoal pelo qual eu tenho o maior respeito, inclusive está na minha frente há muitos anos. Eu sou uma novidade. E novidade normalmente faz barulho.

Veja: O criador do contestador Baixinho, segundo consta, tem um dos maiores salários do país. Afinal, que contestação é essa?

HENFIL: Realmente, eu ganhava muito bem. Era um cara que tinha uma soma de salários muito boa. Mas isso me deu uma série de problemas. Um deles: o excesso de segurança. Eu acho que para criar é preciso estar inseguro, estar a perigo o tempo todo. A insegurança, o perigo, é que faz com que o cara crie. A maioria dos meus personagens, eu os criei numa época em que estava a perigo, tentando abrir caminho profissionalmente. Depois, não criei nada de novo. Quando vi que o negócio era esse, resolvi cortar o mal pela raiz. Deixei 90% dos lugares onde trabalhava. Cortei definitivamente os trabalhos em publicidade, que são justamente aqueles que rendem mais, passei a trabalhar só em três veículos que me interessam: Jornal do Brasil, onde faço uma charge política para um público mais sofisticado, O Pasquim, onde eu faço grossura para um público relativamente indefinido (não sei se é elite, porque todo mundo lê – inclusive tem uma penetração violenta no interior), e o Jornal dos Sports, onde eu faço charge para o povão. Estou ganhando 90% menos por tática: para criar melhor. Não há maior perigo para um cara que cria do que a estabilidade.

Veja: Henfil, o fradinho baixinho é a exteriorização de suas neuroses?

HENFIL: Como habitante deste planeta industrial, obviamente eu sou neurótico. E o Baixinho é apenas a exteriorização de meus impulsos. Descarrego nele as minhas reações impulsivas, inclusive aquelas de que muitas vezes eu discordo depois.

Veja: Você já levou o Baixinho ao psicanalista?

HENFIL: Levei ao reflexologista, o negócio do condicionamento. O pessoal lá da clínica brincava comigo: Você vai perder a graça, pois seu humor é fruto de suas neuroses. Se isto for verdade, pensei, vou passar fome depois de curado. Mas aconteceu o inverso. Ao me libertar de uma série de tensões, de problemas, fiquei mais descontraído. O Baixinho ficou ainda mais baixinho e eu fiquei mais espontâneo.

Veja: Se o Baixinho é você, quem é o Cumprido?

HENFIL: O Baixinho sou eu. Hoje. O Cumprido também sou eu – numa versão antiga. Vamos dizer que eu andei e o Cumprido ficou para trás. É isso. O Cumprido é como eu era: um cara carola, infantil, ingênuo, aquele mineiro com aquela formação religiosa antiga, mórbida. A religião do terror, na qual tudo é pecado (o raio que está caindo é castigo de Deus). Do pecado mortal, venial e original. O Cumprido ficou nessa fase. Agora eu me identifico com o Baixinho, que é exatamente como eu sou hoje: toda uma negação desse meu passado. E de uma maneira muito agressiva, porque esse meu passado me incomoda bastante. Não acho nada gostoso ser um cara que já foi da cruzada eucarística, que quase foi congregado mariano. Minha mãe me formava para eu ser padre. Fui salvo pelos dominicanos, que me deram uma nova formação, uma nova visão da Igreja, de justiça, de liberdade, de alegria. A outra era uma visão tétrica. O Baixinho procura, através da agressão, do ridículo, me checar e ao meio em que vivo. Já vi: não era só eu o carola: meio mundo é carola, fariseu, hipócrita. Então eu passei a anarquizar, a agredir essa gente, como o Baixinho agride.

Veja: Se o Baixinho é considerado o mau caráter da dupla dos fradinhos, o Henfil é mau caráter?

HENFIL: Não. Eu não sou mau caráter. De jeito nenhum. Eu seria mau caráter se as ações do Baixinho, pelas quais sou responsável, fossem gratuitas. Mas não são. Ele está sempre provocado: pela frescura com a criança, o relacionamento que se tem com a criança, por exemplo. O pessoal acha o Baixinho um tremendo mau caráter porque ele está sempre agredindo as crianças não é isso? O problema é que existe um negócio que me provoca: a paparicação das crianças até os dois, três anos. Elas são os reizinhos, as princesinhas da casa. Daí em diante o negócio começa a mudar: o cace*te começa a comer em cima, elas são mandadas para a guerra do Vietnam. Quer dizer: eu sou a favor do adulto. Não quero essa discriminação de idades. Por isso agrido a carolice com as crianças, que é negócio de fariseu: paparica agora para ser bucha de canhão depois. O Baixinho agride esse relacionamento falso, hipócrita. Procura escandalizar: chega e dá uma cocada numa criança. Aí todo mundo acha aquilo um sadismo tremendo. Mas se por acaso eu fizer o Baixinho mandar um rapaz para a guerra, ninguém acha graça. Meu negócio é esse, mostrar, com a ajuda do sadismo, um troço que, na base da poesia, não entra na cabeça de ninguém. Minha política é simples: poesia não, sadismo sim.

Veja: Como foi que os Fradinhos nasceram?

HENFIL: Nasceram graças à insistência de um cara lá de Minas, que praticamente me obrigou a criar os personagens para a revista Alterosa, que ele dirigia. Quer dizer: ele queria que eu criasse um personagem. Como na época, 1964, eu convivia muito com os frades dominicanos, acabei vestindo os personagens com o hábito deles. Curioso é que o Roberto Drumond, o jornalista, foi o único sujeito a acreditar em mim, numa época em que nem eu acreditava. Eu era um péssimo desenhista. Meus desenhos poderiam servir, no máximo, para um catálogo de esquizofrênicos, ou uma coleção de desenhos de débil mental. Eu pedia demissão todo o mês mas o Roberto não aceitava e ainda metia minha família no meio para me obrigar a continuar. Também não durou muito, pois quatro números e quatro meses depois a revista fechou.

Veja: Você matou os Fradinhos e depois os ressuscitou. Por que tentou acabar com eles e por que desistiu? As criaturas foram mais fortes do que o criador?

HENFIL: Foi o seguinte: eu trabalho há três anos no Jornal dos Sports, fazendo uma charge diária de quase uma página. Quer dizer: em três anos temos aí umas mil e tantas charges. Pois bem, até hoje ninguém escreveu ou falou que eu estava chato, que precisava modificar, renovar: o povo tem uma raiz cultural muita firme, muito bacana. Ele vai se identificando com o negócio e passa a ser mesmo até contra mudanças radicais. Não gosta de estar mudando todo dia. Sabe que até as galinhas põem menos ovos quando trocadas de galinheiro. Essas mudanças sucessivas acabam desestruturando, arrasando o cara. O povão é assim: nestes três anos de Jornal dos Sports nunca me pediu para eu mudar minhas galinhas de galinheiro. No Pasquim é diferente. Seus leitores não pertencem ao povão, mas da classe média alta para a burguesia: estudantes, profissionais liberais, enfim um pessoal com um nível cultural um pouquinho mais elevado e com uma formação cultural principalmente estrangeira. Um pessoal de moda, que muda de filósofo, de Marcuse, como quem muda de camisa. Que muda de músico, de cantor, como quem muda de cueca. Esse pessoal fica mudando, só mudando, porque não tem raiz nenhuma – devido à formação estrangeira vive de costas para o Brasil. O sonho desse pessoal todo é pegar uma bolsa de estudo para a Europa, e ir passear ou trabalhar nos Estados Unidos. Resultado, dezesseis números, isto é, quatro meses, depois de Os Fradinhos estrearem no Pasquim, começaram a chegar as cartas de reclamação.

Veja: O que pretendiam as cartas?

HENFIL: Elas diziam: É preciso mudar, é preciso renovar, esse negócio está chato, o Henfil está sem imaginação. Fiquei mordido com o negócio. Meu primeiro golpe foi retirar o Baixinho, que era o personagem de que eles mais gostavam. Foi minha primeira vingança. Quando o Baixinho saiu, comecei a receber montes de cartas indignadas. De protesto em protesto, eu que já tinha o negócio mais ou menos engatilhado, fiz o Baixinho voltar. A volta foi anunciada na primeira página. O pessoal ficou na maior alegria ao reencontrar o Baixinho nos primeiros quadrinhos. A alegria durou pouco: no penúltimo quadrinho, um caminhão atropelou e matou os dois fradinhos. Foi minha segunda vingança. Aí é que foi aquela indignação total: era nome feio em todas as cartas. Houve até um cara, de Vitória, que prometeu vir ao Rio para me dar uma bolacha. O fato é que eu atingi o que queria: mostrei pra todo mundo que por trás dos Fradinhos havia um criador que tudo sabia e tudo queria a respeito deles.

Veja: Por que o Baixinho é muito mais popular que o Cumprido?

HENFIL: É fácil: a gente vive num clima mundial de sadismo. Em cada esquina o sujeito está levando cace*te (não confundir com cassetete) na cabeça. Então nada mais óbvio que o pessoal se identifique com o personagem sádico ou por projeção ou por sublimação. Mas é bom que se diga que a maioria dos leitores é formada por Cumpridos, por tremendos Cumpridos. O escândalo que o Baixinho produz neles é que me leva a ter essa idéia. Com um detalhe: o maior desejo deles é serem iguais ao Baixinho.

Veja: Os Fradinhos são o Henfil você já disse. Mas fisicamente eles se inspiraram em alguém?

HENFIL: Sim. Em dois frades dominicanos, de quem eu gostava muito. Um era gordinho, baixinho, moleque – o frei Rato; o outro, cumprido, magrelo e muito místico – o frei Patrício.

Veja: Você é mineiro e foi criado no melhor estilo TFM (Tradicional Família Mineira): muita religião, tabus e preconceitos. Qual a influência disso no seu humor?

HENFIL: Eu sou um reflexo da minha criação. Inclusive agradeço muito a minha mãe, a minha família, à TFM pelo que eu posso produzir hoje. O negócio lá em casa era terrível: era comemorar dia de santo por dia de santo. Quer dizer, todo dia era aquela chamada religião do terror: eu tinha um medo danado do fogo do inferno. Em dia de tempestade a gente queimava palha benta, entrava debaixo da mesa com medo do castigo de Deus em cima da cidade. Depois da confissão voltava para casa rezando uma estranha objurgatória – Deus pra cá, capeta pra lá – acompanhada de um movimento com a mão direita. Quando eu dizia Deus pra cá, levava a mão ao peito. Quando dizia Capeta pra lá, a retirava, num gesto de expulsão. Mas, durante a caminhada, acabava havendo um desencontro entre as palavras e os gestos. E quando eu percebia, entrava em pânico e voltava correndo para confessar de novo, pois pra mim era como se eu tivesse dito que estava com o capeta. Era uma religião mórbida. A repressão que eu sofria por causa disso obviamente desabrochou o masoquismo: foi criado o masoquismo Henfil. E, como todo mundo sabe, masoquismo e sadismo são a mesma coisa. Logicamente isso influenciou o meu trabalho. Não nego isso em nenhum momento e até faço propaganda do tipo de enredo que os fradinhos vivem. Tá o Cumprido neste esquema antigo e tá no Baixinho o meu protesto, a minha agressão a esse tipo de vida que eu levava. Eu agradeço a esse tipo de educação que eu tive e que já superei. O negócio é que eu assimilei e consegui dar um tratamento comercial às minhas neuroses. Hoje vendo as minhas neuroses nas páginas do Pasquim. Mas, olhando bem, a posição crítica em que me coloco me dá certo crédito de sadio. Sou crítico, logo sou sadio, portanto não sou tão neurótico assim.

Veja: O humorista deve fazer o humor pelo humor ou esse humor deve ter um fim? (Nesse caso, que fim?)

HENFIL: Acho bacana responder a essa pergunta. Justamente porque não sou um cara gratuito. Acho que o meu trabalho tem um fim. A época do humor pelo humor já passou. Hoje o humor é jornalístico, tem de ser engajado, de ser quente. A fase da comunicação pura e simples acabou. O humor agora é de identificação. O meu objetivo é a identificação. Procuro dar o meu recado através do humor. Humor pelo humor é sofisticação, é frescura. E nesta eu não tou: meu negócio é pé na cara. E levo o humorismo a sério. Faço a maior preparação para detonar as minhas bombas de humor. Reservo horário, ambiente, me concentro, expulso criança de perto, dou tiro em vizinho com o rádio ligado alto – o diabo. Quer dizer: para detonar. Mas mantenho sempre a preocupação de que todos me entendam. Evito erudição, intelectualismo. Não sou artista plástico: meu negócio é me fazer entender da maneira mais fácil, rápida e direta possível.

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