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Trecho do Livro: Lições de um Cachorro Livre-Pensante | Ted Kerasote

Livros Licoes de um Cachorro Livre Pensante Ted Kerasote BooksLivro: Lições de um Cachorro Livre-Pensante

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Ele surgiu no meio da noite, aparecendo de repente diante dos faróis, um cachorro grande de pêlo dourado, ofegante, com as patas dianteiras batendo no chão numa pequena dança ansiosa. Por trás dele, altos choupos na floração de abril. Além do arvoredo, o rio San Juan corria rápido, escuro e cheio pelo degelo da primavera.

Era quase meia-noite, e estávamos procurando um lugar para colocar nossos sacos de dormir antes de começar a excursão fluvial pela manhã. Junto de mim na cabine da picape sentava-se Benj Sinclair, tendo a seus pés um amontoado de embalagens de comida de estrada impregnado com os odores de cachorro-quente, cebola frita e burritos. Benj, com rosto redondo e barriga saliente, tinha 37 anos, passara sua juventude no Corpo da Paz, na África Ocidental, e chegara a ter um estômago capaz de digerir qualquer coisa. Atrás dele, no banco traseiro, estava Kim Reynolds, instrutora de atividades ao ar livre do Colorado, conhecida por sua competência num caiaque e por sua longa trança de cabelos castanhos, que exalavam o odor suave de uma mulher saudável de 32 anos, que tinha suado no deserto e não usara desodorante. Assim como Benj e eu, ela tinha jantado uma pizza em Moab, Utah, 160 quilômetros estrada acima, onde a tínhamos encontrado. E assim como nós, ela exalava odores de alho, cebola, molho de tomate, manjericão, orégano e anchovas.

No carro ao lado estavam Pam Weiss e Bennett Austin. Eles tinham vindo de Jackson Hole, em Wyoming, até Moab no próprio carro, nos ajudaram a equipar a balsa e comprar suprimentos, comeram pizza conosco e, como nós, não usavam perfume. Pam tinha 36 anos e era esquiadora olímpica, e Bennett, com 25 anos, estava tentando acompanhar o ritmo dela. Eles tinham acabado de se apaixonar, e exalavam uma mistura de endorfinas e feromônios.

As pessoas quase nunca descrevem as outras nesses termos — observando seus cheiros em primeiro lugar —, afinal, somos basicamente criaturas visuais e dependemos dos olhos para obter informações. Diferente de nós, para o grande cachorro dourado, fazendo sua pequena dança nos faróis, a única impressão realmente importante eram nossas assinaturas olfativas, que flutuavam até ele enquanto abríamos as portas.

Acho que foi por essa razão — o cheiro — que ele veio direto para a minha porta, inclinou a cabeça para a frente com cautela e cheirou minha coxa. Que mistura de aromas subiu por seu longo focinho naquele primeiro momento de nosso encontro? Que memórias atávicas, que possibilidades foram desencadeadas em sua visão canina de mundo à medida que ele desemaranhava os mistérios do meu suor?

O grande cachorro — que agora parecia avermelhado na luz interior do carro e estava sem coleira — inspirou novamente e me estudou com consideração entusiasmada. Poderia ter sido o que eu comi e o resíduo sutil que deixara nos meus poros o que o levou a ficar tão interessado em mim? Era a única coisa que eu podia ver (observe meu uso humano de “ver”, mesmo descrevendo um fenômeno olfativo) que me diferenciava de meus amigos. Assim como eles, eu esquiava, andava de bicicleta e escalava, e era solteiro. Eu tinha acabado de completar 41 anos, e era um homem enxuto com cabelos castanhos e olhos também castanhos e brilhantes. Mas, quando comia carne, era de animais selvagens, não de animais domésticos — na maior parte alce e antílope, junto com o eventual tetraz, pato, ganso ou truta.

Era a essência metabolizada disso tudo que o intrigava — algum bafo que nossos ancestrais paleolíticos compartilharam? O olfato é nosso sentido mais antigo. Foi o tecido olfativo no topo de nossos feixes nervosos primitivos que se transformou em nossos hemisférios cerebrais, onde se aloja o pensamento. Talvez o cachorro — um ser que vive através de seu olfato — soubesse muito mais sobre nossa ligação do que eu podia imaginar.

Seus profundos olhos castanhos fizeram de mim uma avaliação luminosa e disseram: “Você precisa de um cachorro, e eu sou ele.”

Perturbado por sua análise excepcional de mim — eu vinha procurando um cachorro há mais de um ano —, passei a mão de maneira cordial e respondi: “Bom menino.”

Seu rabo abanou com força e ele não se mexeu, com os olhos ainda dizendo: “Você precisa de um cachorro.”

Enquanto saíamos dos carros e começávamos a tirar nossas coisas, não o vi mais direito. Vislumbrei sua cabeça, depois o rabo, em seguida um flanco castanho-avermelhado, se movendo entre pernas e sandálias.

Joguei meu colchonete e o saco na areia sob um choupo, deslizei dentro de seu calor macio, virei de lado e vi o cachorro cavando um ninho do meu lado. Diligentemente, ele cavou a areia com as patas dianteiras, jogando-a entre as patas traseiras antes de virar, virar, virar e se acomodar para me olhar. À luz das estrelas, pude ver uma sobrancelha subir e a outra descer.

É claro que “sobrancelha” não é o termo correto, visto que cachorros transpiram apenas através das patas e não precisam de sobrancelhas para manter o suor longe dos olhos, como nós. Mesmo assim, algumas raças de cachorros têm pêlos mais escuros sobre os olhos, o que poderia ser chamado de “marcadores de sobrancelhas”, e ele os tinha.

Os Hidatsa, uma tribo nativa norte-americana das Grandes Planícies, acreditam que esses tipos de cachorros, que eles chamam de “Quatro Olhos”, são particularmente dóceis e têm poderes mágicos. Stanley Coren, o sagaz psicólogo canino da Universidade da Colúmbia Britânica, também observou que esses cachorros com “quatro olhos” obtiveram sua reputação de poderes mágicos “porque suas expressões eram mais fáceis de ler do que as de outros cachorros. As manchas de cores contrastantes fazem com que os movimentos dos músculos sobre o olho fiquem muito mais visíveis”.

À luz das estrelas, o cachorro deitado ao meu lado levantou uma sobrancelha enquanto abaixava a outra, indicando curiosidade misturada à preocupação com seu destino.

— Boa noite — eu disse, fazendo-lhe um afago. Depois fechei os olhos.

Quando os abri de manhã, ele ainda estava encolhido em seu ninho, olhando diretamente para mim.

— Oi — eu disse.

Uma sobrancelha subiu e a outra desceu.

“Eu sou seu”, os olhos diziam.

Dei um suspiro, desprevenido para o jeito como seu rosto simpático, ligeiramente semelhante ao de um cão de caça — que ia da felicidade à preocupação —, deixou um corte no meu coração. Eu estivera observando milhares de samoiedos, bolas de pêlo branco com olhos pretos brilhantes e travessos. Era a raça perfeita para uma pessoa introspectiva como eu, pensava. Mas eu não conseguia levar um para casa. Também havia pensado seriamente nos labradores, seduzido por suas personalidades exuberantes e sabendo que um cachorro tão robusto e enérgico compartilharia com facilidade minha vida ao ar livre, assim como o perdigueiro que eu acreditava querer. Mas nenhum filhote de labrador me dera aquele repuxo no coração que significava “Nós somos uma equipe”.

A sobrancelha direita do cachorro deitado ao meu lado baixou enquanto ele me olhava. A esquerda subiu, sugerindo: “Sua demora teve um bom motivo.”

— Talvez — disse eu, sentindo ceder meu desejo por um cachorro de pedigree. — Talvez — falei novamente para o cachorro cujos olhos cruzavam com os meus, voltavam e ficavam. Ele tinha o jeito de um labrador amarelo-arruivado, pensei, pelo menos de certos ângulos.

Ao ouvir minha voz ele enfiou a cabeça sob meu braço e aproximou o focinho do meu nariz. Surpreendentemente, ele não tentou me lamber naquele gesto efusivo que muitos cachorros usam com alguém que percebem dominá-los, seja uma pessoa ou outro cachorro — uma herança, alguns acreditam, de lobos jovens pedindo comida aos pais e outros lobos adultos. Os adultos, por não terem mãos para carregar provisões, trazem carne no estômago. Os filhotes lambem suas bocas, e os adultos regurgitam a carne parcialmente digerida. Filhotes que acabam se tornando líderes abandonam o lamber subordinado. Lobos de posição inferior continuam a demonstrar o comportamento para lobos de posição superior, assim como muitos cachorros domésticos fazem com seres humanos. Essa autoconfiança canina me fez pensar. Será que ele não estava me lambendo porque nos considerava iguais? Ou será que minha linguagem corporal — nós dois no mesmo nível — lhe permitiu se sentir de certa forma como um igual? Ele cheirou minha respiração de modo circunspecto e eu, por minha vez, cheirei a dele. Era doce.

O que quer que ele tenha farejado na minha lhe agradou. “Eu sou seu”, os olhos disseram novamente.

Confuso com a certeza dele a meu respeito, me levantei e me afastei. Não queria abandonar meus planos de encontrar um filhote que só tivesse de seis a oito semanas de nascido e que eu pudesse formar do meu jeito. O cachorro percebeu minha firmeza e não me seguiu. Em vez disso, foi ao encontro das outras pessoas, cumprimentando-as com o rabo balançando e grandes sorrisos de sua boca cheia de dentes. “Bom dia, bom dia, dormiram bem?”, ele parecia dizer.

Mas enquanto eu organizava meu equipamento, não conseguia manter o olhar longe dele. Apesar das costelas à mostra, ele parecia saudável e forte, e tinha a aparência de quem vinha vivendo ao ar livre há bastante tempo, com o pêlo cheio de pedaços de folhas e galhos. Ele devia pesar uns 25 quilos, ainda não totalmente crescido, com seu couro cor de raposa caindo em dobras, esperando pelo cachorro adulto que viria a ser. Tinha uma estria de pêlo mais escuro ao longo da espinha, plumas douradas curtas na parte traseira das pernas e um babadouro de pêlo no peito semelhante a um smoking — apenas um contorno — cheio de manchas brancas. Suas orelhas eram macias, parecidas com flanela, e caíam ligeiramente abaixo da mandíbula. O focinho era preto brilhante, ele tinha lábios igualmente brilhantes e os dentes cintilavam. O rabo era grande e vigoroso.

Toda vez que eu o olhava, ele parecia manifestar sua ancestralidade de quatro olhos, mudando de forma diante de mim: num momento o labrador que eu queria; depois um leão da Rodésia, brilhando sob o sol distante de Kalahari; um instante depois se tornava um coiote de focinho comprido, nascido do deserto de pedras vermelhas e criado no meio desses desfiladeiros e cactos. Quando olhava diretamente para mim — uma sobrancelha erguida, a outra para baixo, sua face se enrugava de preocupação — ele realmente parecia ter algum traço de cão de caça. Obviamente, já pertencera a alguém, pois não tinha testículos e a cicatriz da castração fechara completamente, deixando o pêlo crescer de volta.

Enquanto eu preparava o café-da-manhã numa das mesinhas de piquenique, ele voltou a ficar junto de mim, sentado pacientemente a poucos metros de distância e se comportando impecavelmente, à medida que olhava a salsicha de alce ir das minhas mãos para a frigideira. Ele não emitiu um único som, embora um ligeiro tremor tenha passado por seu corpo.

Quando as fatias ficaram prontas, perguntei:

— Quer um pouco?

Um tremor o fez estremecer novamente. Seus olhos brilharam; mas ele não se mexeu. Eu parti um pedaço e ofereci a ele. Seu focinho fez um meneio de prazer; ele o apanhou cuidadosamente da ponta dos meus dedos e engoliu. O rabo varria a areia, para a frente e para trás, em sinal de apreciação.

— Este cachorro — disse a guarda do Departamento de Gerência de Terras Públicas, que enquanto comíamos chegara para verificar nossa permissão para navegar no rio — tem estado por aqui há alguns dias. Acho que foi abandonado, o que é estranho, porque ele é bonito e muito amigável.

Todos nós concordamos.

— De onde ele veio? — perguntei.

— Ele simplesmente apareceu — ela respondeu.

O cachorro observou essa conversa com atenção, olhando do rosto da guarda para o meu.

Apanhei um pau, querendo ver como ele ia buscar. No momento em que movi meu braço para trás, ele se encolheu de medo, recuou alguns passos e me olhou desconfiado.

— Às vezes ele tem medo — disse a guarda. — Acho que alguém batia nele.

Joguei o pau para longe dele, na direção do rio. Ele aprovou calmamente, depois olhou para mim, com a mesma calma. “Eu não vou buscar”, seu olhar dizia. “Isso é para cachorros.”

— Ele não vai buscar — a guarda falou.

— Eu percebi.

Ela verificou nossa bandeja para fogo e o vaso sanitário portátil — ambos exigidos pelo Departamento para balseiros que navegavam no rio San Juan — enquanto o cachorro ficava por perto, esperançoso mas procurando parecer discreto.

— Eu ficaria com este cachorro se pudesse — a guarda disse, observando que eu olhava para ele. — Mas nós não podemos ter cachorros.

— Talvez nós devêssemos levá-lo na descida do rio — eu me ouvi dizendo.

— Eu faria isso — ela falou.

Quando eu levantei a questão com os outros, eles concordaram que podíamos ter um mascote, um cachorro de rio, para nossa viagem. Levar um cachorro numa excursão ao ar livre não é uma idéia nova. Na verdade, é uma tradição norte-americana. Alexander Mackenzie tinha um vira-lata adotivo que o acompanhou em sua famosa primeira jornada através do continente até o Pacífico em 1793, pelo sul do Canadá. O cachorro não recebeu nome no diário de Mackenzie, mas foi mencionado várias vezes por sobreviver a nados em corredeiras e por matar novilhos de bisão. Meriwether Lewis também teve um cachorro em sua jornada com William Clark, subindo o rio Missouri e descendo o rio Colúmbia de 1803 a 1806. O aclamado Seaman, da raça terra-nova, protegeu o acampamento de ursos-cinzentos e caçou vários esquilos para a caçarola, além de abater renas, antilocapras e gansos. Apesar de membros da expedição terem comido dezenas de outros cachorros (comprados de índios) quando a caça rareou, nunca se pensou em colocar o Seaman na grelha. Ele, que foi um membro honorário da expedição até o fim, pode ter mantido a sanidade de Lewis, com tendência a depressão, naquela difícil jornada. Três anos após retornar à civilização, e sem mencionar o que aconteceu com seu cachorro, Lewis se suicidou. John James Audubon também tinha um terra-nova, um incansável excursionista chamado Plato, que o acompanhava pelo campo e apanhava muitos pássaros que o artista abatia para suas pinturas. Audubon dizia que ele era “um animal bem treinado e extremamente sagaz”.

Com precedentes tão respeitáveis, teria sido uma vergonha não levar este cachorro tão bonito e bem-comportado conosco. Que mal poderia acontecer? Ninguém levantou a questão do que faríamos com ele quando saíssemos do rio em Clay Hills, acima de Lake Powell, dali a seis dias. Veríamos depois, na hora. Entretanto, não estávamos no século XIX. Não íamos viver da terra; precisávamos comprar ração. Benj e eu fomos até a cidade vizinha de Bluff, em Utah, e voltamos com um saco de Purina Dog Chow e uma caixa de biscoitos para cachorros.

O único que não sabia que o cachorro ia conosco era, é claro, o próprio. Após carregar a balsa com bolsas impermeáveis e isopores de comida, bati no lado e disse a ele:

— Pode entrar. Agora você é um cachorro de rio.

Eu fora designado para remar a balsa no primeiro dia, enquanto os outros andassem de caiaque.

Cheio de dúvidas, ele olhou para a balsa. “Nem pensar”, seus olhos diziam, “isto parece perigoso”.

Tentei acariciá-lo, mas ele se afastou, emitindo um “rá-rá-rá”, meio de brincadeira, meio com medo, enquanto subia e descia as patas dianteiras naquela dança enérgica que fizera na noite anterior, quando aparecera diante dos faróis.

— Você vai gostar — eu disse. — Desfiladeiros ensombrados, lugares bacanas para acampar, gravuras rupestres, nadar todo dia, biscoitos de cachorro, Purina Dog Chow e — falei em uma voz bem persuasiva — salsicha de alce.

Abri meu saco de comida à prova d’água, cortei um pedaço da salsicha de alce de verão e lhe ofereci. Ele chegou perto, baixou a cabeça e pegou.

— Vamos lá, pula pra dentro!

Ele estremeceu, sabendo muito bem que estava sendo enganado, mas apesar disso deixando que eu lhe fizesse carinho, dividido entre o desejo de ir junto e o medo da balsa. Cuidadosamente, coloquei os braços em volta dele, por baixo de seu peito, e o levantei. Ganindo em protesto, ele lutou. Eu consegui colocá-lo na balsa, enquanto Benj tentava nos empurrar.

O cachorro pulou do barco, mas em vez de fugir dançou para cima e para baixo na margem, arfando freneticamente “rá-rá-rá, rá-rá-rá”, que eu interpretei como “eu quero ir, mas não sei para onde vamos, não gosto da balsa e estou com medo”.

Falei com ele num tom baixo e suave e consegui acalmá-lo o suficiente para poder acariciá-lo de novo. Descansando a cabeça no meu joelho, ele deu um grande suspiro, como alguém que está emocionalmente exausto. Por um momento, pude sentir suas muitas esperanças frustradas e seu medo das pessoas e seus equipamentos — não sem razão, considerando como ele se assustara quando levantei a vara para que a pegasse.

Os outros estavam em seus caiaques, prontos para partir. Cuidadosamente, coloquei meus braços ao redor dele de novo, mas quando o levantei ele lutou com força, ganindo desesperadamente. Coloquei-o no barco, e Benj nos empurrou enquanto eu segurava o cachorro, até a correnteza nos levar. Então eu o soltei e comecei a remar. Estávamos a poucos metros da margem. Com um salto e algumas pernadas ele conseguiria voltar com facilidade para a terra. Ficar ou ir embora — a escolha era dele. O cachorro pulou para a amurada da balsa, colocou as patas sobre ela e olhou rio acima sem mostrar medo da água em movimento. Ao contrário, ele olhava para a margem que se afastava como se visse seu continente natal sumir para baixo da linha do horizonte.

Sua ambivalência enchia minha mente de perguntas. Ele fora abandonado ou se perdera? Em qualquer um dos casos, ele estava esperando fielmente seu dono voltar? Sua amizade com relação a mim seria sua maneira de pedir ajuda para encontrar essa pessoa? Eu teria me enganado ao interpretar seu olhar que parecia dizer “Você é a pessoa que eu estava esperando”? Seu olhar saudoso para a margem era simplesmente a ligação a um lugar conhecido — um cenário conhecido onde ele poderia ter sido maltratado, mas mesmo assim um lar? Quantas almas maltratadas — caninas ou humanas — já permaneceram em lugares onde não eram amadas porque ficar era muito menos aterrorizador do que ir embora?

— Calma, calma — murmurei quando ele começou a tremer.

Acariciei sua cabeça e seus ombros. Virando, ele me olhou com uma expressão que nunca esquecerei. Era uma mistura de perda, medo do desconhecido e esperança.

É claro que muitos dirão que eu estava sendo antropomórfico. Outros poderiam argumentar que eu estava projetando minhas emoções. Mas o que eu estava fazendo — lendo sua linguagem corporal — era aquilo de que os psicólogos precisam para analisar seus clientes. Todos nós usamos as mesmas técnicas quando tentamos entender os sentimentos dos que estão à nossa volta — amigos, familiares e colegas. Não haveria relações humanas, ou elas ficariam extremamente empobrecidas, sem nossa tentativa de usar nossas próprias emoções como modelos — como pontos de partida — para entender os sentimentos de outros.

Porém algo mais estava acontecendo entre o cachorro e eu. Uma quantidade crescente de pesquisas com diversas espécies — papagaios, chimpanzés, marmotas, golfinhos, lobos e cachorros domésticos — já demonstrou que elas têm a capacidade física e cognitiva para transmitir uma vasta série de informações não só entre si, mas também a outras espécies, por vezes até usando construções gramaticais semelhantes às empregadas nas linguagens humanas. Indivíduos de algumas dessas espécies também conseguem se identificar com assinaturas vocais — em termos humanos, um nome.

Esses estudos corroboraram o que eu sinto sobre cachorros há muito tempo — que eles são falantes de uma língua estranha e que, se prestarmos atenção a suas vocalizações, expressões oculares e faciais e posturas em mudança constante, poderemos traduzir o que eles estão dizendo. Por vezes fazemos a interpretação imediata (“Estou com fome”), por vezes fazemos uma suposição razoável (“Estou triste”), e ocasionalmente precisamos usar uma figura de linguagem para superar a lacuna entre a cultura deles e a nossa (“Amo tanto você que meu coração poderia explodir”).

Donos de cachorros que têm “conversas” com seus animais sabem exatamente o que quero dizer. Aqueles que não têm — assim como aqueles que consideram absurda a idéia de conversar com um cachorro — talvez queiram considerar que o ser humano compartilhou uma parceria mais longa e mais íntima com cachorros do que com qualquer outro animal doméstico, começando antes da existência da civilização. Nesses tempos remotos — antes que a fala e a escrita atingissem a influência atual — cachorros tiveram uma oportunidade maior de se fazerem entender por humanos que ainda se sentiam confortáveis se comunicando além das fronteiras da palavra falada e escrita.

Charles Darwin, um observador tão interessado em cachorros domésticos quanto em pintassilgos das ilhas Galápagos, comentou sobre a igualdade relativa que no passado existiu entre cachorros e homens, e que continua existindo, se você a procura: “A diferença entre a mente de um homem e a dos animais mais desenvolvidos, embora grande, certamente é de grau e não de gênero.” Darwin chegou a dizer que “não há diferença fundamental entre o homem e os animais mais desenvolvidos em termos de faculdades mentais”, acrescentando que os outros animais vivenciam felicidade, surpresa, vergonha, orgulho, curiosidade, ciúme, suspeita, gratidão e magnanimidade. “Eles praticam trapaça e são vingativos”, afirmou ele, e têm “qualidades morais”, cujos elementos mais importantes são “amor e a clara emoção de simpatia”. Essas foram noções surpreendentes quando ele as revelou em 1871, e continuam sendo inesperadas atualmente, até para muitos que acreditam que animais conseguem pensar.

O cachorro afastou os olhos dos meus, olhou para a margem e soltou um suspiro resignado — eu viria a aprender que ele suspirava muito. Ao descer na balsa, ele fez uma breve inspeção em nosso equipamento e finalmente fixou o olhar no isopor colocado na proa, cercada de bolsas impermeáveis. Andou até ele, pulou sobre ele e deitou com as costas para mim. Deixou outro suspiro escapar. Todavia, em poucos minutos eu o vi olhando a ribanceira e os choupos com crescente interesse, sua cabeça virando para um lado e para outro enquanto ele observava que o campo se movimentava e ele aparentemente não.

— Bem legal, não é?

Ele virou as orelhas para trás, reconhecendo minha voz sem virar a cabeça.

Quando entramos no primeiro desfiladeiro e os paredões esconderam o céu, ele olhou rio acima e estremeceu — a terra tinha desaparecido. Ele se virou para ficar sentado e olhou em volta de maneira apreensiva. De repente, ele virou o focinho para o céu e soltou um uivo choroso, começando num registro grave e passando para um alto crescendo melancólico. Dos paredões do desfiladeiro veio o eco: “Aaauuuuu, aaauuuuu, aaauuuu.”

Aturdido, ele ergueu a cabeça para o cachorro invisível que respondera.

Onde ele se escondia? Olhou para cima e para baixo do rio e para os paredões ensombrados. Parecia nunca ter ouvido um eco antes. Logo depois, ele uivou de novo, e mais uma vez ficou surpreso ao ouvir sua voz ricochetear nos paredões. Ele olhou em volta desconfiado antes de soltar outro uivo — desta vez como um teste e não para reclamar de sua situação. Quando o eco voltou, uma expressão de começo de entendimento passou por seu rosto. Era incrível ver a compreensão iluminar seus olhos. Seus lábios se arquearam para cima num sorriso, e ele uivou de novo, um uivo longo e profundo, mas sem nenhuma tristeza. Imediatamente, ele levantou a cabeça para ouvir seu eco. Quando os paredões do desfiladeiro enviaram sua voz de volta, ele começou a balançar o rabo de um lado para outro com muito entusiasmo. Ele se virou e me deu um olhar de prazer surpreso — a mesma expressão que as pessoas usam quando se ouvem pela primeira vez.

Eu me aproximei e pus a mão em seu peito.

— Você é mesmo o cantor — disse a ele.

Jogando a cabeça para trás, ele riu mostrando os dentes.

A partir daquele momento, ele não olhou mais para trás. Sentou no isopor como uma esfinge, virando a cabeça para olhar as escarpas e os desfiladeiros laterais passarem. Fez caminhadas conosco subindo até várias habitações dos povos indígenas pré-históricos anasazi nos penhascos escarpados, e ficou quieto, prestando atenção enquanto examinávamos inscrições nas rochas. No caminho de volta ao rio, ele vagueava para longe, desaparecendo por longos minutos, e reaparecia conforme nos aproximávamos dos barcos, correndo em nossa direção através dos cactos sem olhar para o caminho tortuoso que estava percorrendo. Parecia estar bem confortável no deserto.

No acampamento naquela noite, ele supervisionou o traslado do equipamento da balsa para um lugar mais alto e ficou olhando quando começamos a desempacotar nossas bolsas impermeáveis. Depois, convencido de que não íamos partir, ele desapareceu. Eu o vislumbrei explorando um grande perímetro ao redor de nosso acampamento, mexendo com a pata em algum objeto de interesse, cheirando a vegetação e levantando a perna para marcá-la. Quando comecei a colocar seu jantar numa das panelas, ele logo apareceu, tendo ouvido o tinir da ração no metal. Ele engoliu o jantar com voracidade, olhou para mim e balançou o rabo. Levantando a cabeça, ele ergueu uma sobrancelha e claramente acrescentou: “A entrada estava ótima. Agora onde está o resto?”

Coloquei mais um pouco, e depois de devorar tudo ele me lançou o mesmo olhar: “É só isso?” O mesmo aconteceu depois do prato seguinte.

— Chega — eu disse a ele, cruzando as mãos e separando-as da maneira como um juiz de beisebol faz o sinal para “chegou seguro”.

Ele ficou prostrado.

— Ainda temos mais cinco dias — expliquei. — Você não pode comer tudo hoje. — Enquanto guardava a comida, eu disse: — Vamos lá, me ajude com a latrina.

Ele me seguiu quando eu levei para cima uma grande caixa de munição — vazia — e a coloquei num banco de pedra com vista panorâmica do rio. Depois de forrá-la com um saco plástico forte, fiz o uso inaugural enquanto o cachorro permaneceu sentado a uns dois metros de distância, balançando o rabo de satisfação à medida que os aromas sopravam em sua direção. O saco de cada dia tinha de ser selado e levado rio abaixo para ser jogado fora corretamente no final da viagem, e nós tínhamos trazido uma lata de desinfetante com alvejante para borrifar o conteúdo de modo a reduzir a produção de odores e gás metano. Foi o que fiz, deixando a lata e o rolo de papel higiênico ao lado da caixa. Quando voltei para o acampamento, o grande cachorro dourado me seguiu, com o focinho para cima, narinas dilatadas.

Na hora do jantar sentamos em círculo ao redor dos fogões e das panelas, e o cachorro deitou entre Benj e eu, olhando com atenção para cada um de nós quando falávamos. Estávamos conversando sobre como chamá-lo, além de “psiu”.

Bennett propôs “Merlin”, visto que o cachorro parecia ter algo de mágico. Benj, que estava abrindo uma garrafa de vinho, queria algo relacionado com nossa excursão, como “Merlot”. Ele serviu uma taça para cada um de nós e ofereceu um pouco para o cachorro cheirar. Ele virou a cabeça para trás assustado e olhou para a taça com desdém.

— Não é um bebedor — Benj comentou.

— Que tal “Hintza”? — sugeri. — Ele era o leão da Rodésia do livro A Story Like the Wind (Uma história como o vento), de Laurens van der Post. Ele parece com Hintza.

Houve várias tentativas para chamar o cachorro de Hintza, e todas provocaram uma expressão de dor em seu rosto, como se a segunda sílaba vibratória, “tza”, pudesse provocar-lhe algum tipo de desconforto auditivo.

— Nada de heróis literários — disse eu.

Alguém sugeriu o nome do rio, “San Juan”. Isso provocou negações generalizadas.

O céu escureceu revelando as estrelas, o rio sussurrava ao longo da margem abaixo de nós. Entramos em nossos sacos de dormir. Fiquei olhando o cachorro ainda sem nome andar até o rio, beber água e depois desaparecer. Não sei quanto tempo passou até eu sentir seu dorso de encontro ao meu. Ele estava quente e firme, e soltou um suspiro longo e satisfeito. De manhã não se encontrava mais lá, mas apareceu logo depois que eu acordei. Saltitando na minha direção, ele rodopiou com animação, mexendo as patas dianteiras e arfando alegremente.

Eu acariciei o pêlo de seu pescoço, e ele fechou os olhos de prazer, ficando relaxado e dócil sob minhas mãos.

Tomamos o café-da-manhã e levantamos acampamento. Benj, que fora o último a usar a latrina, levou-a até a praia. O cachorro o seguia.

— Já sei que nome dar a ele — Benj gritou, fazendo uma careta de nojo. — Monsieur le M_erde. — Ele comeu a m_rda que estava na caixa.

— Blergh — disse Kim.

— Não! — exclamei sem acreditar, olhando para o cachorro para ver se ele estava com a boca espumando ou mostrando algum outro sinal de ter sido envenenado pelo desinfetante. Ele parecia ótimo, balançando o rabo alegremente.

— Tem certeza, Benj? — perguntei. — Você realmente o viu comendo f_zes?

— Não, mas está vazia, e quem mais teria feito isso? Eu o vi voltando da latrina ao me aproximar.

— Ele podia estar em outro lugar. — Ajoelhei-me na areia e disse “venha cá” para o cachorro.

Ele veio direto até mim, e eu me abaixei bem e cheirei sua boca.

— Credo! — explodi, caindo de costas à medida que o fedor me desarmava. — Você é um cachorro desprezível.

Ele abanou o rabo, contente.

— Você deve estar com muita fome — acrescentei.

— O problema é — disse Pam — quem vai remar com ele?

Nós resolvemos tirar a sorte nos palitinhos, e Benj perdeu.

— Pelo menos — disse ele, olhando para o palito curto — alguém nesta excursão tem hábitos alimentares piores do que os meus.

Nós remamos rio abaixo, sentindo a brisa fresca da manhã, o sol brilhando nas pequenas ondas. Quando o desfiladeiro se alargou, abrindo-se numa margem com vegetação, o cachorro sentou-se com elegância no isopor. Algumas vacas pastavam na margem esquerda, levantando a cabeça para nos ver passar. Eram gado dos Navajo, pois toda a margem esquerda do rio San Juan está na divisa norte da nação Navajo, que cobre grande parte dos estados de Utah, Arizona e Novo México.

O cachorro deu-lhes uma olhada penetrante e entusiasmada, e pulou para longe do isopor. Voando com as pernas dianteiras e traseiras estendidas, ele bateu na água num cogumelo de espuma. Emergiu e começou a nadar rapidamente para a margem. Escalando a margem rochosa, ele se sacudiu uma vez e, enquanto as vacas olhavam sem acreditar, ele correu na direção delas. Elas fizeram a volta e correram rio abaixo.

Com o focinho e o rabo estendidos, ele as seguiu em caçada, seu pêlo molhado avermelhado e dourado reluzindo na luz do sol. Através de salgueiros e cactos, ele correu a toda a velocidade, diminuindo a distância rapidamente e separando o bezerro menor com um movimento de atacar de flanco típico de um especialista. Aproximando-se do traseiro do bezerro, ele o forçou para longe da manada e na direção dos penhascos. Estava claro que ele pretendia acuá-lo nas rochas e matá-lo.

Atônitos, ficamos olhando em silêncio. Fora isso, o que mais podíamos fazer? Gritar “Pára, cachorro!”?

Mas algo com relação a seu comportamento me dizia que ele não tinha se perdido completamente naquele estado de excitação no qual cachorros desaparecem quando se fixam em presas que fogem. Focados apenas no animal fugindo à frente deles, eles podem correr por quilômetros, perdendo a noção de onde eles ou seus donos possam estar.

Este cachorro não estava fazendo isso. Enquanto corria ao lado do bezerro aterrorizado, ele olhava de relance na direção da balsa e dos caiaques. Estávamos indo rio abaixo, onde uma curva nos deixaria fora de seu alcance de vista. E eu podia ver que ele calculava dois resultados que se excluíam mutuamente: o bezerro apetitoso e a aproximação de rochedos onde ele o encurralaria, ou os barcos que se afastavam rapidamente e a família que ele encontrara.

Eu o vi olhar novamente a curva do rio onde nós desapareceríamos — e foi exatamente ali que percebi que cachorros conseguem pensar abstratamente. O bezerro era real, uma refeição potencial neste momento. As pessoas do barco, a ração Purina Dog Chow e a afeição que partilhavam com ele não passavam de memórias do passado e idéias sobre o futuro, ou como quer que essas palavras se traduzam na mente de um cachorro.

Gratificação imediata… benefícios futuros. As escolhas pareciam claras. E veja bem, nós não o estávamos chamando ou acenando para ele. Sem dizer uma palavra, nós flutuávamos silenciosamente rio abaixo.

Ele optou pelo futuro. Interrompeu sua caça no meio do caminho e virou à direita, passando pelo grupo de vacas assustadas, que se reunira para se proteger. Chegando à margem, ele correu ao longo da borda de pedras, tentando ganhar o máximo de terreno possível antes de ter que nadar. Em meio aos salgueiros, ele pulou — de novo pernas esticadas para a frente e para trás, orelhas batendo como asas — antes de dar de barriga na água. Deslocando-se com determinação, ele manteve um caminho rio abaixo que interceptaria nossa rota.

Após uma longa distância percorrida — de boca aberta, respiração pesada, olhos virados para nós — ele alcançou o barco de Kim, nadou até a amurada e tentou subir com a pata. Ela agarrou o pêlo solto nas costas dele e puxou-o até a saia do caiaque. De repente ele pareceu muito magro e molhado, principalmente quando se virou para olhar as vacas com melancolia. Soltou um grande suspiro de desapontamento quando as rochas bloquearam a vista, então virou para mim, flutuando a 9 metros de distância. Mergulhando do barco de Kim, ele nadou até o meu. Eu o ajudei a subir e ele me lançou um olhar que parecia ser de angústia.

— Parece que você já fez isso antes — eu disse.

Seus olhos se afastaram dos meus. Sentindo sua culpa, tentei elogiá-lo.

— Você é um nadador e tanto.

Pela primeira vez, ele chegou perto e lambeu minha boca — só uma vez antes de se jogar dos meus braços e cair na água. O banho pelo menos tinha limpado seu bafo. Ele nadou até a balsa, deixando Benj puxá-lo para dentro. Em pé sobre o isopor, sacudiu-se vigorosamente, depois reclinou-se na posição de esfinge para deixar o sol secar seu pêlo.

Remando até a balsa, ouvi Benj conversando com o cachorro e chamando-o de Monsieur le M_rde. O cachorro olhou direto para a frente, sem lhe prestar atenção. Bennett chegou no outro lado da balsa.

— Merlin, você é um matador de vacas — ele gritou.

O cachorro moveu os olhos nervosamente até Bennett, depois os afastou.

Tive uma inspiração. Este cachorro, apesar de um pouco grosseiro, era um sobrevivente. De maneira reservada, ele tinha orgulho e dignidade. Me lembrava alguns caubóis que eu conhecia.

— Acho que devíamos chamá-lo de Merle — eu disse. É um nome bom e prático.

Ao ouvir minha voz, o cachorro me olhou, avaliando minhas intenções. Ele me olhou por um segundo antes de afastar o olhar. Parecia saber que caçar gado não o faria conquistar amigos. Muito provavelmente, ele já se penalizara por isso ou passara um susto. Cachorros que caçam gado em território Navajo costumam levar tiros. Talvez ele tivesse sido ferido de leve por uma bala ou alguém lhe tivesse dado uma segunda chance, deixando-o ir embora depois de uma surra. Talvez fosse por isso que ele tivera medo quando eu levantei o graveto. Agora o cachorro parecia esperar estoicamente por nossa repreensão, e talvez tenha sido por isso que ele tentara me aplacar, lambendo minha boca.

— Merle — eu disse em voz baixa e calma. — Merle. — Ele me deu outra olhada rápida, uma sobrancelha para cima, a outra para baixo.

— Esse nome vai servir para você?

O cachorro desviou o olhar para o rio, tentando me ignorar. Em seguida começou a tremer, não por causa da água fria, mas por medo.

No centro e no sul da Itália, durante a década de 1980, cerca de 800 mil cachorros viviam soltos em vilarejos, entre gado, carneiros, porcos, galinhas, cervos, javalis, lebres, outros cachorros domésticos e lobos selvagens. Para avaliar o impacto desses cachorros livres no gado e na vida selvagem, em particular na pequena e ameaçada população de lobos, uma equipe de cientistas capturou, colocou coleiras com rádio e depois observou um grupo de cachorros na região das montanhas Velino-Sirente em Abruzzo. O grupo consistia em nove adultos — quatro machos e cinco fêmeas — de quem acabaram nascendo quarenta filhotes, com apenas dois sobrevivendo até a vida adulta, uma prova dos muitos perigos que cachorros soltos enfrentavam enquanto tentavam arranjar a vida. Eles foram mortos por pessoas — basicamente pastores —, assim como por raposas, lobos e aves de rapina.

Contrariando a crença popular, os biólogos descobriram que os cachorros não caçavam animais silvestres ou gado. Em vez disso, eles procuravam comida em lixões, como fazia a maioria dos lobos. Visto que grandes grupos de cachorros não deixavam as alcatéias menores se alimentar, por vezes os lobos ficavam famintos. Os pesquisadores também observaram que uma pequena porcentagem dos cachorros caçava cervos e outros animais silvestres — a caça variava de acordo com o lugar. Nas ilhas Galápagos, por exemplo, cachorros foram vistos soltos caçando iguanas-marinhos. De vez em quando, os pesquisadores italianos acrescentaram, esses cachorros matavam gado, em particular bezerros.

Entre esses cachorros havia alguns indivíduos que os pesquisadores descreveram como “perdidos” e outros como “selvagens”. Os dois são muito diferentes. “Cachorros perdidos”, os cientistas escreveram, “mantêm laços sociais com humanos, e mesmo quando não têm um dono óbvio, procuram por um. Cachorros selvagens vivem bem sem qualquer contato com humanos e seus laços sociais, quando os têm, são com outros cachorros”. Sem dúvida Merle — o nome logo pegou — era um cachorro perdido, e suas experiências anteriores com pessoas aparentemente o deixaram tanto amigável como desconfiado.

Chegando em terra naquela noite ele foi bem discreto, ainda tentando avaliar, de certa distância, nossa reação ao incidente de sua caça ao bezerro. Mesmo quando enchi seu prato com ração, ele me analisou com cuidado. Eu bati no quadril e chamei:

— Vamos lá, chegou o rango. — Eu sacudi o prato, coloquei-o no chão, bati palmas e apontei para seu jantar.

A desconfiança dele desapareceu num minuto. Num salto, devorou a comida. Quando acabou, me deixou acariciar suas costas. Coloquei meu rosto entre seus ombros e soprei o pêlo, fazendo barulho. Isso o fez se retorcer de prazer. Então abri meu saco de almoço e cortei para ele um pedaço de salsicha de alce. Ele se sentou na areia, balançando o rabo de um lado para outro, enquanto eu lhe dei o pequeno pedaço. Ele o tirou de meus dedos com cuidado.

Eu sabia que talvez estivesse lhe enviando uma mensagem confusa, visto que tanto alces como bois são carne vermelha. Mas se nós ficássemos juntos, seria possível resolver isso com o tempo.

Durante os dias seguintes, ele ficava em cima do isopor e nadava entre os caiaques. Ele dormia entre nós e sentava-se junto do fogão, o mais educado e amigável dos cachorros. O rio se tornava agitado, passando por desfiladeiros profundos, e não apareceu mais gado para tentá-lo. Também mantivemos a latrina coberta. Merle nos seguia até ela e sentava por perto, sua expressão se tornando tristonha quando o usuário da latrina se levantava e fechava a tampa.

Certa vez, depois de subirmos até um platô bem acima do rio, Benj, que é um ávido herpetólogo, apanhou um lagarto espinhoso do deserto. Eu já tinha visto Merle caçar várias lebres — sem sucesso —, mas quando Benj lhe ofereceu o lagarto de 25 centímetros, com a língua entrando e saindo, para avaliar sua reação, Merle deu vários passos para trás, com os olhos cheios de preocupação. “Esse é um animal perigoso”, eles pareciam dizer, o que era em parte verdadeiro — embora lagartos espinhosos do deserto geralmente comam insetos, e às vezes outros lagartos, eles têm mandíbulas fortes que podem dar uma mordida desagradável. Benj se aproximou com o lagarto, mas Merle recuou. Ele bufou várias vezes, continuando a se afastar.

— Talvez ele já tenha sido mordido por um — Benj disse —, ou simplesmente não goste de répteis.

Alguns dias depois, vi Merle comportar-se de uma maneira que confirmava tudo o que Benj tinha dito. Enquanto Merle e eu caminhávamos ao longo de um terraço natural acima do rio, juntou-se a nós uma cobra cascavel, cuja trilha se curvava pela areia. Merle deu uma cheirada na trilha, levantou a cabeça bruscamente e estudou com cuidado o terreno à nossa frente.

— Cobra — eu disse, tentando lhe ensinar a palavra em inglês.

Ele me olhou de volta, com apenas a ponta do rabo se mexendo, reconhecendo o que eu dissera. Depois deu vários passos para o lado da trilha da cascavel e andou paralelamente a ela, bem atento.

Na volta para o acampamento, passamos por excremento de coiote — dois resíduos, cada um com cerca de 10 centímetros de comprimento e 2,5 centímetros de diâmetro. A reação de Merle a eles foi completamente diferente. Ele cheirou, depois deu uma mexida com a pata direita, separando-o com as unhas. Deu outra cheirada profunda, como um conhecedor de vinhos que, depois de girar a taça, está apreciando o buquê. Seu olhar ficou entusiasmado.

— Coyoté — eu disse, dando à palavra a pronúncia espanhola.

Ele bateu o rabo com força, levantou a perna e esguichou sobre as f_zes de coiote antes de jogar um pouco de poeira com as patas traseiras. Empertigando-se, trotou pela trilha com a cabeça se virando de um lado para outro, toda sua linguagem corporal dizendo: “Acabo com vocês se aparecerem por aqui.”

Sua familiaridade com as criaturas do deserto me impressionou; seu pêlo dourado me atraiu; seus olhos me conquistaram. Entretanto, durante todo o tempo em que ficamos juntos, e apesar de dormir ao meu lado, Merle não demonstrava sua afeição. Não colocava a cabeça no colo de ninguém; não lambia; não oferecia a pata. Embora ainda fosse filhote, era reservado e sério. A vida lhe ensinara que a confiança precisava ser merecida.

Na última manhã, quando avistamos a praia barrenta em Clay Hills e os carros que nos aguardavam, que uma empresa de transportes tinha trazido para nós, comecei a imaginar se esse cachorro perdido, com sua mistura de medo e serenidade, ficaria por perto ou partiria para o deserto. Certa vez eu conhecera um cachorro perdido no Nepal que pensei estar ligado a mim, mas ele me enganou completamente.

Assim como Merle, ele simplesmente apareceu, entrando em nosso acampamento no remoto vale Hunku, no sopé da grande linha divisória da qual se ergue o monte Everest. Era um mastim tibetano jovem, de cor preta e marrom, que os tibetanos chamam de Do Khyi, e que também era bem-educado e tinha um sentido altamente desenvolvido de como providenciar o próprio conforto. Ele seguia as pessoas de perto, aceitando nossa comida e dormindo bem junto de meu saco de dormir, à medida que meus companheiros e eu subimos o vale.

No começo do vale, quando entramos numa queda de gelo, o cachorro (que tínhamos batizado de “o Khyi”) afastou-se para a esquerda; logo voltou, nos enviando olhares suplicantes enquanto se afastava de novo, tentando fazer que o seguíssemos. Nós o ignoramos, mantendo nossa trilha, que o mapa nos mostrava ser a rota direta para o desfiladeiro que tínhamos de escalar. Depois de muitas horas tortuosas, emergimos da queda de gelo e encontramos o Khyi, sentado, esperando por nós, com um olhar que dizia “bem que eu tentei avisar” no rosto. Obviamente, ele já estivera ali antes e conhecia um atalho.

No dia seguinte tivemos de escalar o Amphu Labtsa, um desfiladeiro no início do vale que é a única maneira de se sair de Hunku sem voltar para trás. Fica 5.700 metros acima do nível do mar e para se chegar ali é preciso subir campos de neve cada vez mais íngremes, que o Khyi, ainda nos seguindo, subiu sem dificuldade. Todavia, quando o último campo de neve transformou-se numa vala cheia de protuberâncias de gelo, o Khyi se deteve. Nós tínhamos cordas fixadas para nossos quatro carregadores, e eu vinha por último, utilizando um jumar (uma ferramenta mecânica com dentes para ajudar na subida) na corda e empurrando o Khyi na minha frente, impulsionando-o por cima das protuberâncias de gelo.

Por fim, chegamos a uma protuberância de gelo longa e íngreme demais para o Khyi transpor mesmo com minha ajuda. Ele sentou, incapaz de subir ou descer. Se tentasse fazer um dos dois, certamente teria escorregado, levado um tombo e morrido. Da mesma forma que Merle, ele era um cachorro de quatro olhos, com duas manchas marrons na testa preta, diretamente acima dos olhos castanhos. Ele não conseguia mexer somente um, como Merle, porém quando os franzia adquiria uma expressão de sobriedade e liderança. Agora, eles pareciam dizer: “Vocês sabem o que temos de fazer.”

Tirei minha mochila e a abri bem. Visto que as cordas e o equipamento para escalar o gelo estavam sendo usados na montanha, agora eu tinha mais espaço. Levantando o Khyi pelas axilas, coloquei-o dentro da mochila pelo traseiro. Ele não protestou, e eu continuei a subir pelas cordas. Ele não era tão grande quanto Merle, talvez pesasse uns 20 quilos. Mesmo assim, considerando o equipamento que eu estava carregando, o peso total devia chegar a uns 30 quilos. Vez por outra, a carga me fazia perder a postura, meus crampons raspando no gelo enquanto eu balançava na corda.

O Khyi não se mexia. Quando virava para trás, ele me fitava com um olhar firme; o ângulo íngreme não o perturbava. Ele não me lambeu nenhuma vez.

No topo, usamos os crampons ao longo da crista do espinhaço, procurando por uma saída e descobrindo que tínhamos chegado a um impasse. A única descida possível era através de uma saliência cujo limite se ligava a um campo de neve escarpado, que por sua vez levava à geleira e ao vale distantes. Entretanto, a saliência ficava a cerca de 30 metros abaixo de nós e não podíamos descer até lá, um fato que ficou bem claro quando um dos carregadores, mexendo nervosamente sua mochila, deixou cair seu saco de dormir. Nós o olhamos ficar sempre menor enquanto despencava por várias centenas de metros através do espaço até bater na geleira.

A única maneira de descer, conforme vimos, era seguir a queda do saco de dormir — um rapel livre, com nada abaixo de nossos pés a não ser a queda estonteante. Visto que meus amigos tinham liderado a subida, eu me ofereci para liderar a descida. Quando saltei no espaço, tendo como objetivo a pequena saliência, o Khyi, imóvel até então, emitiu um pequeno ganido. Freando na corda, virei e o vi olhando para o abismo, os olhos esbugalhados. Ele me olhou e esganiçou de novo. Não gostava de ficar tão exposto.

Quando cheguei à saliência de 60 centímetros de largura, tirei-o da mochila, pois ele tinha começado a lutar. Ele correu para a direita, onde a saliência acabava, e para a esquerda, onde ela se unia ao profundo campo de neve, onde, era óbvio, ele não conseguiria andar. Ele sentou, como se tivesse perdido o fôlego, e olhou para o vale distante. Quando os outros chegaram, ele veio até mim, sentou junto à mochila e me deixou colocá-lo ali dentro. Era um cachorro sem ilusões.

Fizemos mais dois trechos de rapel até que o ângulo escarpado do campo de neve diminuísse. Tirei o Khyi da mochila, e sem olhar para trás ele correu para a noite que chegava, sua forma escura desaparecendo na geleira abaixo de nós.

Sem água e quase sem comida, acampamos num terreno pantanoso e arenoso, felizes por termos descido, e ávidos pela chegada da manhã, quando poderíamos atravessar a geleira e a morena em segurança. Quando o sol despontou, encontramos um gotejo de gelo derretido, e enquanto bebíamos nosso chá, o Khyi chegou trotando. Ele cumprimentou cada pessoa rapidamente com um balançar de rabo, depois sentou na minha frente. Olhando-me nos olhos, ele levantou a pata. Apertei seu ombro com a mão, e ele colocou a pata no meu braço num gesto de camaradagem. Olhou-me nos olhos por um longo momento, depois se virou e desapareceu no gelo.

Nunca voltei a vê-lo, embora um bom amigo o tenha conhecido na estação seguinte de escaladas, quando o Khyi se aproximou do acampamento, a poucos quilômetros de onde ele nos deixara. Foi sociável e bem-educado, e se apegou ao grupo de meu amigo, acompanhando-o até o topo dos 6 mil metros de altura de Island Peak.

Agora, enquanto flutuávamos na direção de Clay Hills, eu observava Merle sentado no isopor e imaginava se ele iria embora deserto afora para esperar o próximo grupo de turistas fluviais — como o Khyi, um aventureiro e oportunista canino, um cachorro perdido profissional, que gostava de viagens panorâmicas, os olhos luminosos já tendo falado a tantos outros: “Eu sou seu… em troca de um pouco de salsicha de alce e um passeio gratuito.”

Nós desmontamos a balsa e a colocamos na caminhonete de Benj. Prendemos os caiaques, e Merle observava cada movimento com atenção e sem o menor indício de que iria embora. Reunimo-nos num círculo, e ele olhou para nós com curiosidade.

— O que deveríamos fazer com ele? — perguntei.

Pam tinha uma pequena husky chamada Kira e não podia assumir a responsabilidade por outro cachorro. Bennett não tinha certeza sobre seu futuro. Benj morava e trabalhava na Escola de Ciências de Teton, onde cachorros não eram permitidos, e Kim disse que um cachorro não se encaixava no seu jeito de viver. Eu me perguntei se um cachorro realmente se encaixaria no meu, e o que faria com ele quando viajasse a trabalho. Quando expressei essa preocupação, Pam e Benj se ofereceram para tomar conta dele.

Merle olhou para mim por baixo de suas sobrancelhas franzidas. De repente me dei conta de que a idéia de deixá-lo nesta ribanceira poderia ser um dos maiores erros que eu poderia cometer na vida.

— Você quer se tornar um cachorro de Wyoming? — perguntei, pensando em como suas costas tinham se encostado nas minhas à noite e na expressão de seu rosto quando ele tinha entendido que os uivos ecoando nas paredes do cânion eram os seus.

Ele mexeu o rabo de maneira vagarosa e incerta, tendo sentido o teor difícil de nossa conversa.

Nossa decisão foi adiada momentaneamente, quando Pam e Bennett, precisando ir embora, começaram uma rodada de abraços conosco. Depois de partirem, Kim embarcou na caminhonete, assim como Benj. Eu mantive a porta aberta para Merle.

— Vamos embora. Agora você é um cachorro de Wyoming. Se quiser.

Um sorriso largo e sentimental abriu-se em seu rosto. “Quem, eu? Eu mesmo?”

— Sim, você mesmo — respondi carinhosamente. — Vamos embora, vamos para casa.

Ele entrou e sentou no chão, atrás dos bancos dianteiros.

Depois de uma hora, me virei e perguntei:

— Como vão vocês aí atrás?

Kim fez um sinal positivo com o polegar, e Merle, que tinha dormido, abriu um olho e deu uma batida de rabo contente.

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Trecho do Livro: A Arte de Correr na Chuva | Garth Stein

Garth Stein nasceu em Los Angeles. Depois de ter passado a infância em Seattle e vivido em Nova York durante dezoito anos, retornou a Seattle, onde vive com a família e o cão, Comet.

Bacharel e mestre em belas-artes pela Columbia University, trabalhou como documentarista por muitos anos. Também dirigiu, produziu e co-produziu filmes, muitos dos quais foram premiados.

Fã declarado de Ayrton Senna – a quem nunca chegou a conhecer –, o autor faz neste livro uma emocionante homenagem ao ídolo de muitos brasileiros.

Livros A Arte de Correr na Chuva Garth Stein BooksLivro: A Arte de Correr na Chuva

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Querido leitor,

No verão de 1986, tive o imenso prazer de participar do Grande Prêmio de Fórmula 1 de Detroit. Estava acompanhando um amigo que tinha acesso a todos os lugares do circuito. Lembro-me de ter ficado atrás de uma barreira de concreto, maravilhado com quão pequenos, embora incrivelmente poderosos, os carros de Fórmula 1 eram. Tão rápidos e tão perto – a apenas um braço de distância…

Um piloto era, obviamente, mais rápido que os outros. Ele largou na pole position e, depois de perder muitas posições por causa de um problema no pneu, retomou a liderança e venceu a corrida. Lembro-me de ter visto seu capacete verde passando. Nunca tive o prazer de conhecer Ayrton Senna, mas tive o prazer de assistir à sua corrida… e de vê-lo vencer de maneira gloriosa.

Sou fã de Fórmula 1 desde menino e sempre gostei muito de assistir às corridas na tevê. Mas não há nada como ser fisgado. O cheiro, o som. Já participei de corridas em clubes, e estar dentro de um carro potente faz a adrenalina ficar a mil. São estes os sentimentos que tentei capturar em A Arte de Correr na Chuva. Quando o personagem Enzo surgiu na minha mente e começou a conversar comigo, percebi que era a voz perfeita para conduzir estes sentimentos.

Um cachorro é um observador elementar. Não tendo como pronunciar palavras, analisa tudo o que está à sua volta. Os sentidos de um cão são apuradíssimos. Seu foco é singular. Enzo, o cachorro do meu romance, é um verdadeiro estudante do mundo ao seu redor. E também um fã devoto da Fórmula 1. Seu herói? Ayrton Senna, claro!

Escrever este livro foi mágico para mim. Estou comovido por saber que pessoas em todo o mundo irão, em breve, ter contato com Enzo e sentirão a mesma alegria lendo sobre ele como me senti escrevendo a respeito dele. E estou especialmente grato por meu livro ser publicado no Brasil.

Minhas saudações,

Garth Stein

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LabradorOs gestos são tudo que eu tenho; às vezes precisam ser de natureza ampla. E, apesar de passarem dos limites em algumas ocasiões e parecerem melodramáticos, são o que tenho para me comunicar claramente. Para me fazer entender sem que reste nenhuma dúvida. Não posso contar com as palavras, pois, horror dos horrores, minha língua é comprida, lisa e descoordenada, sendo, portanto, um instrumento absolutamente ineficiente para empurrar a comida dentro da minha boca enquanto mastigo, e ainda menos eficiente para produzir sons inteligentes e polissilábicos complexos que possam se unir para formar sentenças. E é por isso que estou aqui agora, esperando Denny chegar em casa — ele deverá chegar logo —, deitado nos ladrilhos do piso frio da cozinha em uma poça de minha própria urina.

Estou velho. E, embora esteja em condições de ficar ainda mais velho, não é assim que desejo ir embora. À base de injeções com remédios para a dor e esteróides para diminuir o inchaço das juntas. A visão nublada pela catarata. Tenho certeza de que Denny me daria um daqueles carrinhos que já vi na rua, aqueles que apóiam os quadris de modo que o cachorro consiga arrastar o traseiro quando as coisas começam a ficar realmente preocupantes. É uma situação constrangedora e degradante. Não sei se é pior do que vestir um cachorro com roupas de Halloween, mas está perto. Ele faria isso por amor, é claro. Tenho certeza de que faria qualquer coisa para me manter vivo pelo máximo tempo possível, com meu corpo se deteriorando, se desintegrando, se dissolvendo até que não restasse mais nada além do meu cérebro flutuando em um vidro cheio de líquido transparente, os globos oculares boiando na superfície e todos os tipos de cabos e tubos alimentando o que restasse. No entanto, eu não quero que me mantenham vivo. Porque sei o que vem depois. Eu vi na televisão. Um documentário sobre a Mongólia. Foi a melhor coisa que já vi na televisão, tirando o Grande Prêmio da Europa de 1993, é claro, a maior corrida de todos os tempos, em que Ayrton Senna mostrou que era um gênio na chuva. Depois do Grande Prêmio de 1993, o melhor programa a que assisti na televisão foi um documentário que explicava tudo, esclarecia pormenores, dizia toda a verdade: quando um cachorro termina a vida como cachorro, sua próxima encarnação será como homem.

Sempre me senti quase humano. Sempre soube que havia algo em relação a mim que era diferente dos outros cachorros. Certo, estou preso no corpo de um cachorro, mas trata-se apenas da carcaça. O que está dentro é que é importante. A alma. E a minha alma é muito humana.

Agora estou pronto para me tornar um homem, apesar de saber que perderei tudo que fui. Todas as minhas lembranças, toda a minha experiência. Gostaria de levá-las comigo para a minha nova vida — vivi tantas coisas com a família Swift… —, contudo não sou eu quem determina essas coisas. Que mais posso fazer senão me forçar a lembrar? Tentar gravar o que sei em minha alma, algo que não tem superfície, não tem lados, páginas ou forma de qualquer tipo. Levar as lembranças tão entranhadas nos bolsos da minha existência que, ao abrir os olhos e baixar o olhar para minhas novas mãos, com polegares capazes de se fechar em volta dos meus dedos, eu saberei. Já terei visto.

A porta abre e ouço seu chamado familiar:

— Ei, Zo!

Normalmente não resisto e deixo a dor de lado. Fico em pé, abano o rabo, penduro a língua e enfio o focinho no meio de suas pernas. É preciso ter força de vontade como a dos humanos para me controlar numa situação dessas, mas eu consigo. Eu me controlo. Não levanto; estou atuando.

— Enzo?

Ouço os passos, a preocupação em sua voz. Ele me encontra e olha para baixo. Levanto a cabeça, abano o rabo debilmente e o deixo ir ao chão. Cumpro meu papel.

Ele balança a cabeça e passa a mão pelo cabelo. Coloca de lado a sacolinha do mercado com seu jantar. Dá para sentir o cheiro de frango assado que vem de lá. Esta noite ele vai comer frango assado e salada de alface.

— Ah, Enz — ele suspira.

Ele estende o braço, agacha, toca a minha cabeça, passa a mão na dobra atrás da orelha, e eu levanto a cabeça. Dou uma lambida em seu braço.

— O que foi que aconteceu, garoto? — ele pergunta. Os gestos não bastam para explicar.

— Você consegue se levantar?

Eu tento e me atrapalho. Meu coração vai a mil, dispara, porque não, não consigo. Entro em pânico. Pensei que estivesse apenas fingindo, mas não consigo mesmo levantar. É a vida imitando a arte.

— Calma, garoto — ele diz com a mão no meu peito para eu me acalmar. — Peguei você.

Ele me levanta com facilidade, me carrega, e consigo sentir o cheiro do seu dia em seu corpo. Posso sentir tudo que ele fez. Seu trabalho, a loja de automóveis onde ele passa o dia inteiro atrás do balcão, em pé, sendo gentil com os clientes que gritam com ele porque seus BMWs não estão funcionando perfeitamente e eles gastam muito para mandar consertá-los; por isso ficam irritados e precisam gritar com alguém. Posso sentir o almoço. Ele foi até seu restaurante indiano preferido. Comida à vontade. Tudo que você conseguir comer. É barato, e às vezes ele leva um potinho e pega umas porções extras de frango assado em tandoor e arroz amarelo, e traz para o jantar. Dá para sentir o cheiro de cerveja. Ele parou em algum lugar. O restaurante mexicano no alto da colina. Posso sentir o cheiro de tortilla em seu hálito. Agora tudo faz sentido. Normalmente, tenho excelente percepção logo no primeiro contato, mas não estava prestando atenção por causa das minhas emoções.

Ele me coloca gentilmente na banheira e liga aquela coisa de lavar com a mão. Diz:

— Calma, Enz. — Continua: — Desculpe ter demorado. Eu devia ter vindo direto pra casa, mas os caras lá do trabalho insistiram. Eu disse para o Craig que estava saindo, e…

As palavras se perdem no ar e percebo que ele acha que aquele contratempo aconteceu porque ele se atrasou. Oh, não. Isso não devia estar acontecendo. É tão difícil a gente se fazer entender porque são tantas as partes subjetivas. Existe a explicação e existe a interpretação, e elas dependem tanto uma da outra que as coisas ficam muito complicadas. Eu não queria que ele se sentisse mal a respeito disso. Queria que ele visse o óbvio, que estava tudo bem em me deixar partir. Ele tinha passado por tanta coisa, e finalmente tudo havia chegado ao fim. Era preciso que eu não estivesse mais por perto para ele não se preocupar. Ele precisava que eu o libertasse para brilhar.

Ele é tão brilhante! É um ser iluminado. É bonito com suas mãos que sabem pegar coisas e sua língua que articula palavras e a maneira como ele fica em pé e mastiga a comida durante tanto tempo, amassando-a numa pasta antes de engolir. Vou sentir falta dele e da pequena Zoë, e sei que eles vão sentir minha falta. Mas não posso deixar que o sentimentalismo estrague meu grande plano. Depois que isso acontecer, Denny ficará livre para viver sua vida, e eu vou voltar para a Terra em uma nova forma, como homem, e vou encontrá-lo e cumprimentá-lo com a mão e comentar o quanto ele é talentoso, e então vou piscar para ele e dizer:

— Enzo mandou um “oi”.

Vou me virar e me afastar depressa, e ele vai gritar:

— Eu conheço você? Nós já nos encontramos antes?

Depois do banho, ele limpa o chão da cozinha enquanto fico olhando; ele me dá comida, que como muito depressa como sempre, e me coloca na frente da TV enquanto prepara seu jantar.

— Que tal uma fita? — ele pergunta.

— Sim, uma fita — respondo, mas é claro que ele não me ouve.

Ele coloca uma fita de vídeo de uma das suas corridas, liga o aparelho e nós assistimos. É uma das minhas favoritas. A pista está seca para a volta de aquecimento, e então, assim que a bandeira verde é erguida, indicando o início da corrida, o mundo desaba, uma chuva torrencial invade a pista, e todos os carros ao seu redor começam a rodar descontrolados na direção da grama, enquanto ele passa por eles como se a chuva não estivesse caindo em cima dele também, como se houvesse um feitiço mágico para tirar a água do seu caminho. Exatamente como no Grande Prêmio da Europa de 1993, quando Senna passou quatro carros na volta de abertura, quatro dos mais renomados pilotos do campeonato com seus renomados carros oficiais: Schumacher, Wendlinger, Hill e Prost; ele passou todos. Como se tivesse um feitiço mágico.

Denny é tão bom quanto Ayrton Senna. Mas ninguém o vê porque ele tem responsabilidades. Tem sua filha, Zoë, e tinha sua mulher, Eve, que ficou doente e morreu, e tem a mim. E mora em Seattle, quando deveria morar em outro lugar. Ele tem um emprego. Mas às vezes, quando sai, volta com um troféu e o mostra para mim, e me conta tudo sobre as corridas e como brilhou na pista e ensinou aos outros pilotos em Sonoma, ou Texas ou Ohio, como é dirigir na chuva. Quando a fita termina, ele fala:

— Vamos dar uma volta.

Luto para ficar em pé.

Ele ergue meu traseiro no ar e centraliza meu peso sobre as pernas; aí eu fico bem. Para mostrar, esfrego o focinho na sua coxa.

— Esse é o meu Enzo.

Saímos do apartamento; a noite está limpa, fria e clara, e com um ventinho. Mal chegamos ao fim do quarteirão e já voltamos porque meus quadris doem muito, e Denny percebe. Denny sabe. Quando chegamos em casa, ele me dá meus biscoitinhos da hora de dormir e eu me enrolo na minha cama no chão perto da dele. Ele pega o telefone e faz a ligação.

— Mike — diz ele. Mike é o amigo de Denny da loja onde os dois trabalham atrás do balcão. Relacionamento com o cliente, é como eles chamam o que fazem. Mike é um sujeito pequeno com mãos cor-de-rosa amigáveis, sempre lavadas e sem cheiro. — Mike, você pode me cobrir amanhã? Tenho que levar o Enzo até o veterinário de novo.

Temos ido muito ao veterinário ultimamente para pegar remédios diferentes que teoricamente deveriam me ajudar a me sentir mais confortável, mas isso não acontece, mesmo. E, como eles não fazem efeito, e considerando tudo que ocorreu ontem, coloquei em funcionamento o Plano Mestre.

Denny pára de falar por um momento, e, quando torna a conversar, a voz não parece ser sua. É rouca, como se estivesse resfriado ou com alguma alergia.

— Não sei — ele responde. — Não tenho certeza se é uma viagem de ida e volta.

Posso não ser capaz de formar palavras, mas consigo entendê-las. E fiquei surpreso com o que ele falou, apesar de já ter imaginado. Por um momento, fiquei surpreso com o fato de meu plano estar funcionando. É a melhor coisa para todos os envolvidos, eu sei. É o que Denny deve fazer. Ele já fez tanto por mim, durante toda a minha vida. Eu lhe devo isso, o direito de ficar livre. O direito de passar para outra etapa. Fizemos uma boa corrida, e agora acabou; qual é o problema?

Fecho meus olhos e, meio sonolento, escuto vagamente enquanto ele faz as coisas que costuma fazer todas as noites antes de dormir. A escova, a torneira, a descarga. Tantas coisas. As pessoas e seus rituais. Às vezes elas se apegam tanto às coisas!

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Ele me pegou no meio de uma porção de filhotes, um amontoado confuso de patas, Labrador 2orelhas e rabos, atrás de um celeiro, em um sítio malcheiroso perto de uma cidade no lado leste de Washington chamada Spangle. Não me lembro muito bem de onde tinha vindo, mas me lembro da minha mãe, um labrador pesadão com te_tas penduradas que balançavam para a frente e para trás enquanto meus irmãos de ninhada e eu andávamos atrás dela pelo quintal. Francamente, nossa mãe não parecia gostar muito da gente, e não se importava se estávamos comendo ou morrendo de fome. Ela parecia aliviada sempre que um de nós ia embora. Um animal a menos para latir e andar atrás dela para arrancar seu leite.

Nunca conheci meu pai. As pessoas da fazenda disseram a Denny que ele era uma mistura de poodle com pastor, mas eu não acredito. Nunca vi um cachorro que se parecesse com essa descrição na fazenda e, apesar de a dona ser bacana, o homem alfa era um canalha mesquinho capaz de olhar os outros nos olhos e mentir mesmo que ganhasse mais contando a verdade. Ele discorria longamente a respeito da inteligência relativa das raças de cães, e acreditava com veemência que os pastores e os poodles eram os mais espertos, e por isso seriam mais desejados — além de mais valorizados — quando “puxassem o labrador no temperamento”. Um monte de palavras inúteis. Todo mundo sabe que os pastores e os poodles não são particularmente espertos. Eles apenas respondem e reagem, não são pensadores independentes. Principalmente os pastores australianos de olhos azuis, que as pessoas tanto elogiam quando tentam pegar um frisbee. Certo, eles são espertos e rápidos, mas não conseguem ir além; são muito limitados.

Tenho certeza de que meu pai era um terrier. Porque os terriers resolvem os problemas. Eles fazem o que lhes mandam, mas apenas se estiverem de acordo com o que querem fazer. Havia um terrier desse tipo na fazenda. Um airedale terrier. Grande, castanho-escuro e forte. Ninguém mexia com ele. Não ficava conosco no espaço cercado atrás da casa. Ficava no celeiro, na descida da colina perto do lago, onde os homens iam consertar os tratores. No entanto, às vezes ele subia a colina, e, quando vinha, todos saíam da frente. Dizia-se na fazenda que era um cão de briga que o homem alfa mantinha separado porque havia matado um cachorro que se metera a farejar em sua direção. Era capaz de arrancar o pêlo da nuca de alguém por causa de um olhar qualquer. E, quando uma cadela estava no cio, ele a montava e fazia seu serviço sem se importar com quem estivesse olhando ou com o fato de estar causando incômodo. Sempre imaginei que ele poderia ser meu pai. Tenho sua cor castanho-escura e meu pêlo é meio crespo, e as pessoas comentam que devo ter uma parte terrier. Gosto de imaginar que procedo de uma fonte de genes privilegiados.

Lembro do calor que fazia no dia em que deixei a fazenda. Todos os dias eram quentes em Spangle, e eu havia determinado que o mundo era um lugar quente simplesmente porque nunca soubera o que era frio. Nunca tinha visto chuva, não sabia muita coisa sobre água. Água era aquele negócio nos baldes que os cães mais velhos tomavam, e era o negócio que o homem alfa jogava com a mangueira em cima dos cachorros que queriam começar a brigar. Mas no dia em que Denny chegou fazia calor demais. Eu e meus irmãos de ninhada estávamos lutando como de costume quando a mão de alguém entrou no meio e agarrou meu pescoço. De repente, eu balançava no ar.

— Este aqui — disse um homem.

Foi o primeiro vislumbre do que seria o resto da minha vida. Ele era esguio, com músculos definidos e enxutos. Não era um homem grande, mas tinha um semblante determinado. Seus olhos, azul-claros, possuíam um brilho inteligente. O cabelo era crespo e curto; a barba cerrada, escura e encaracolada, como um terrier irlandês.

— O favorito da ninhada — disse a senhora. Ela era legal; eu gostava quando nos aninhávamos em seu colo macio. — O mais doce. O melhor.

— Távamos pensando que nós podia ficar com ele — comentou o homem alfa, aproximando-se com suas botas grandes cobertas com a lama do lago onde estava arrumando uma cerca. Ele sempre falava isso. Caramba, eu era um bichinho com apenas 12 semanas de vida e já tinha ouvido aquela frase uma porção de vezes. Ele dizia isso para conseguir mais dinheiro.

— Eu poderia levá-lo?

— Por um bom preço — respondeu o homem alfa, desviando os olhos na direção do céu, de um azul muito claro por causa da luz do sol. — Por um bom preço.

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Labrador– Com muito cuidado. Como se tivesse casca de ovo nos pedais — Denny sempre diz — e você não quisesse quebrá-la. É assim que você dirige na chuva.

Quando assistimos às fitas de vídeo juntos — algo que fazemos desde o primeiro dia em que nos conhecemos —, ele explica essas coisas para mim. (Para mim!) Equilíbrio, expectativa, paciência. Isso tudo é vital. Visão periférica, para poder ver o que você nunca viu antes. Sensação sinestésica, para pilotar instintivamente. Mas o que eu mais gostava era quando ele falava em não ter lembranças. Nenhuma lembrança do que ele tinha acabado de fazer. Fossem boas ou ruins. Porque a lembrança é o tempo se dobrando sobre si mesmo. Lembrar é se desligar do presente. Para conseguir qualquer tipo de sucesso em corridas de carro, o piloto não pode lembrar.

É por isso que os pilotos gravam compulsivamente cada movimento seu, cada corrida sua, com câmeras no cockpit, vídeos do interior do carro, mapeamento de dados; um piloto não pode ser testemunha de sua própria grandeza. Isso é o que diz Denny. Ele diz que correr é fazer. É ser parte de um momento e não ter consciência de nenhuma outra coisa naquele momento. Os pensamentos ficam para depois. O grande campeão Julian SabellaRosa disse:

— Quando estou correndo, e minha mente e meu corpo estão trabalhando tão intensamente e tão bem juntos, preciso me assegurar de não pensar, ou posso cometer algum erro.

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Denny me levou para muito longe da fazenda em Spangle, para um bairro em Seattle Labrador 2chamado Leschi, onde ele morava em um pequeno apartamento alugado perto do lago Washington. Eu não gostava muito de viver em apartamento porque estava acostumado com espaços amplos e abertos, e, além disso, ainda era filhote; mas tínhamos uma varanda com vista para o lago, o que me dava grande prazer, pois sou um cão que adora a água, um grande nadador por parte de mãe.

Cresci depressa e, durante aquele primeiro ano, Denny e eu desenvolvemos uma profunda afeição um pelo outro, e também um sentimento de confiança. Foi por causa desse fato que fiquei surpreso quando ele se apaixonou por Eve tão depressa.

Ele a trouxe para casa e ela tinha um cheiro bom, como o dele. Quando ficavam cheios de bebidas fermentadas, agiam de modo engraçado: se agarravam como se houvesse roupa demais entre eles e ficavam se abraçando, se agarrando, se mordendo e enroscando os dedos e puxando os cabelos um do outro, encostando os ombros e os pés e trocando saliva. Caíam na cama e ele montava nela. Ela gritava:

— O campo é fértil; tome cuidado!

E ele respondia:

— Eu adoro a fertilidade.

E ele arava o campo até agarrar os lençóis com as mãos, para depois arquear as costas e gritar de prazer.

Quando levantava para ir ao banheiro, dava um tapinha na minha cabeça, que não ficava muito longe do chão, pois eu ainda era muito novo, com pouco mais de um ano, e estava um pouco intimidado e encolhido com todos aqueles gritos. Ela perguntava:

— Você não liga se eu o amar também, não é mesmo? Não vou ficar entre você dois.

Eu a respeitava por perguntar, mas sabia que ficaria entre nós, e considerava aquela negativa profilática apenas uma enganação. Tentava não agir de maneira pouco amistosa porque sabia o quanto Denny estava apaixonado por ela. No entanto, devo admitir que não apreciava sua presença. E por causa disso ela também não me apreciava. Éramos satélites em torno de Denny, lutando pela supremacia gravitacional. É claro que ela tinha a vantagem da língua e dos polegares, e, quando ela o beijava ou acariciava, de vez em quando olhava para mim e piscava, como se dissesse: Olhe para os meus polegares! Veja o que eles podem fazer!

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Filme publicitário do livro A Arte de Correr na Chuva
quando do seu lançamento:
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Trecho do Livro: Dewey – Um Gato Entre Livros | Vicki Myron e Bret Witter

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O dia 18 de janeiro de 1988 foi uma segunda-feira terrivelmente fria em Iowa. Durante a noite anterior, a temperatura chegara a nove graus abaixo de zero, isso sem contar o vento, que corta sob o seu casaco e comprime seus ossos. Era um congelamento letal, do tipo que faz com que a respiração seja um processo quase doloroso. O problema com as planícies, como todo mundo sabe em Iowa, é que não há nada para bloquear o vento. Ele sopra do Canadá pelas Dakotas diretamente para a cidade. A primeira ponte de Spencer, sobre o Little Sioux, construída no final dos anos 1800, teve de ser demolida porque o rio ficou tão gelado que todos temeram que os pilares pudessem desabar. Quando a torre de água da cidade incendiou, em 1893 — o envoltório de palha usado para evitar que o cano congelasse pegou fogo, e todos os hidrantes da vizinhança estavam completamente congelados —, um círculo de gelo com mais de sessenta centímetros de espessura e três metros de diâmetro escorregou do topo do tanque, esmagou o centro de recreação da comunidade e se despedaçou em cima da Grand Avenue. O inverno em Spencer é assim.

Eu nunca fui uma pessoa matinal, especialmente num dia escuro e nublado de janeiro, porém sempre fui dedicada. Havia poucos carros na estrada às sete e meia da manhã no trajeto de dez quarteirões até o trabalho, mas, como de costume, o meu era o primeiro carro no estacionamento. Do outro lado da rua, a Biblioteca Pública de Spencer estava morta — não havia luz, movimento ou som até eu ligar o interruptor que a trazia à vida. O aquecimento ligava automaticamente durante a noite, contudo a biblioteca ainda estava gelada no início da manhã. De quem fora a idéia de construir um prédio de concreto e vidro no norte de Iowa? Eu precisava de um café.

Fui para a sala dos funcionários — não passava de uma quitinete com um forno de microondas, uma pia, uma geladeira bagunçada demais para o gosto da maioria das pessoas, algumas cadeiras e um telefone para chamadas pessoais —, pendurei meu casaco e comecei a fazer café. Então dei uma olhada no jornal de sábado. A maior parte das matérias poderia afetar, ou ser afetada, pela biblioteca. O jornal local, The Spencer Daily Reporter, não saía no domingo nem na segunda-feira, de modo que segunda-feira era a manhã para informar-se das novidades que haviam acontecido no fim de semana.

“Bom dia, Vicki”, disse Jean Hollis Clark, a vice-diretora da biblioteca, tirando a echarpe e as luvas. “Está feio lá fora.”

“Bom dia, Jean”, respondi, deixando o jornal de lado.

No centro da sala dos funcionários, contra a parede do fundo, havia uma grande caixa de metal com uma tampa articulada. Ela tinha sessenta centímetros de altura e três mil e setecentos centímetros quadrados, mais ou menos o tamanho de uma mesa de cozinha para duas pessoas, ao serrar as pernas ao meio. Uma rampa de metal surgia do topo da caixa e desaparecia por dentro da parede. Na outra extremidade, na viela por trás do prédio, havia uma fenda de metal: a devolução de livros depois do expediente era feita por ali.

Você encontra todo tipo de coisa na caixa de devolução de uma biblioteca: lixo, pedras, bolas de neve, latas de refrigerante. As bibliotecárias não comentam sobre isso para não dar idéias às pessoas, mas todas as bibliotecas lidam com isso. As locadoras de vídeo provavelmente têm o mesmo problema. Coloque uma fenda em uma parede e você estará pedindo para ter encrenca, especialmente se, como acontecia na Biblioteca Pública de Spencer, a fenda era aberta para uma viela em frente à escola de ensino médio da cidade. Diversas vezes nos assustamos no meio da tarde com um barulho forte vindo da caixa coletora. Lá dentro encontrávamos uma bombinha.

Depois do fim de semana, a caixa estaria também cheia de livros. Assim, todas as segundas-feiras eu os punha em um de nossos carrinhos para que mais tarde os atendentes pudessem separá-los e guardá-los nas prateleiras, durante o dia. Quando voltei com o carrinho, nessa específica segunda-feira de manhã, Jean estava de pé, silenciosa, no meio da sala.

“Ouvi um barulho.”

“Que tipo de barulho?”

“Vindo da caixa de coleta. Acho que é um animal.”

“Um o quê?”

“Um animal. Acho que há um animal dentro da caixa de coleta.”

Foi então que escutei um ronco baixo que vinha debaixo da tampa de metal. Não parecia um animal. Parecia mais um velho tentando limpar o pigarro. Entretanto duvidei de que fosse um velho. A abertura no topo do deslizador não passava de alguns centímetros, certamente era muito apertada. Era um animal, tinha pouca dúvida quanto a isso, mas de que tipo? Ajoelhei, estendi a mão para a tampa e tive a esperança de que fosse um esquilinho listado.

A primeira coisa que senti foi um golpe de ar gelado. Alguém tinha entalado um livro na fenda de devolução, mantendo-a aberta. Estava tão frio dentro da caixa quanto na rua, talvez mais frio, já que a caixa era forrada de metal. Podia-se guardar carne congelada lá dentro. Eu ainda recuperava o fôlego quando vi o gatinho.

Ele estava encolhido no canto esquerdo da parede da frente da caixa, com a cabeça baixa e as pernas dobradas, tentando parecer o menor possível. Os livros estavam empilhados a esmo até o topo da caixa, escondendo-o parcialmente da vista. Ergui um deles com cuidado, para ver melhor. O gatinho olhou para mim, lenta e tristemente. Depois abaixou a cabeça e afundou-se em seu buraco. Ele não tentava parecer durão. Não tentava se esconder. Nem sequer penso que estava assustado. Apenas esperava ser salvo.

Sei que derreter pode ser um clichê, porém acho que foi o que realmente aconteceu comigo naquele momento: perdi todos os ossos do corpo. Não sou uma pessoa piegas. Criei minha filha sozinha, cresci numa fazenda e conduzi minha vida em épocas difíceis, contudo isso era tão, tão… Inesperado!

Ergui o gatinho da caixa. Minhas mãos praticamente o engoliam. Mais tarde, descobrimos que tinha oito semanas de idade, mas não parecia ter mais de oito dias, se muito. Estava tão magro que era possível ver todas as costelas. Eu sentia o coração dele bater, os pulmões incharem. O pobre bichinho estava tão fraco que mal conseguia erguer a cabeça. Ele tremia incontrolavelmente. Abriu a boca, porém o som, que veio um segundo mais tarde, era fraco e dissonante.

E frio. É disso que eu mais me lembro, porque não conseguia acreditar que um animal vivo pudesse estar tão frio. Parecia que não havia calor algum. Então aninhei o gatinho nos braços para partilhar um pouco de calor. Ele não lutou. Ao contrário, aconchegou-se ao meu peito e deitou a cabeça sobre meu coração.

“Ai, céus”, disse Jean.

“Pobrezinho”, falei, apertando-o mais.

“É muito fofo.”

Nenhuma das duas disse nada durante algum tempo. Apenas olhamos para o bichano. Finalmente, Jean disse: “Como você acha que ele foi parar ali?”.

Eu não estava pensando a respeito da noite passada. Pensava sobre o momento presente. Era cedo demais para ligar para o veterinário, que não chegaria antes de uma hora. Mas o gatinho estava tão frio. Mesmo no calor dos meus braços, eu o sentia tremer.

“Temos de fazer alguma coisa”, afirmei.

Jean agarrou uma toalha e envolvemos o bichinho até que ficasse só o nariz de fora, com os olhos espiando de dentro das sombras, incrédulo.

“Vamos dar um banho quente”, eu disse. “Talvez ele pare de tremer.”

Enchi a pia da sala dos funcionários com água quente, experimentando-a com o cotovelo enquanto segurava o gatinho nos braços. Ele escorregou para dentro da pia como um bloco de gelo. Jean encontrou um xampu no armário dos desenhos e eu esfreguei o bichinho vagarosa e ternamente, quase o acariciando. À medida que a água ficava mais cinzenta, o tremor violento do bichano se transformava num ronronar suave. Sorri. Esse gatinho era valente. Mas era tão novinho. Quando finalmente o suspendi da pia, parecia um recém-nascido: enormes olhos e grandes orelhas espetadas de uma cabeça minúscula e um corpo ainda menor. Molhado, indefeso e miando baixinho pela mãe.

Para enxugá-lo, usamos o secador utilizado para secar cola de artesanato. Em trinta segundos, eu segurava um lindo gato malhado cor de laranja e de pêlos longos. O bichinho estava tão sujo que achei que ele era cinzento.

Nessa altura, Doris e Kim tinham chegado e havia quatro pessoas na sala dos funcionários, todos arrulhando para o gatinho como para uma criança. Oito mãos o tocavam, aparentemente ao mesmo tempo. Os outros três membros conversavam entre si enquanto eu permanecia em silêncio, aninhando o bichano como um bebê e balançando-me de lá para cá, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra.

“De onde ele veio?”

“Da caixa coletora.”

“Não diga!”

“É menino ou menina?”

Olhei para cima. Eles todos me fitavam. “Menino”, respondi.

“É lindo.”

“Que idade tem?”

“Como entrou na caixa?”

Eu não estava escutando. Só tinha olhos para o gatinho.

“Está fazendo tanto frio.”

“É a manhã mais fria do ano.”

Uma pausa e então: “Alguém deve tê-lo deixado na caixa”.

“Que horror.”

“Talvez estivessem tentando salvá-lo. Do frio.”

“Não sei… Ele é tão indefeso.”

“É tão novinho.”

“É tão lindo. Oh, corta meu coração.”

Depositei-o sobre a mesa. O pobre gatinho mal se mantinha em pé. As saliências das quatro patas tinham sofrido geladuras e, ao longo da semana seguinte, ficariam brancas e descascariam. Mas, mesmo assim, o bichano conseguiu fazer algo realmente surpreendente. Ele se firmou na mesa e, lentamente, examinou cada rosto. Depois começou a capengar. À medida que cada pessoa estendia a mão para acariciá-lo, ele esfregava a cabecinha minúscula contra a mão e ronronava. Esqueça os eventos horríveis de sua jovem vida. Esqueça a pessoa cruel que o jogou dentro da caixa de coleta da biblioteca. Era como se, daquele momento em diante, ele quisesse agradecer pessoalmente a todos que conhecia por salvar-lhe a vida.

Já tinham se passado vinte minutos desde que eu tirara o bichinho de dentro da caixa de coleta. Tive bastante tempo para refletir sobre algumas coisas: a prática, que já fora comum, de manter gatos em bibliotecas, meu plano crônico para tornar a biblioteca mais amigável e atraente, a logística de tigelas, comida e detritos de gato, a expressão confiante na cara do gatinho quando ele se enterrou em meu peito e olhou-me nos olhos. Assim, eu estava mais do que preparada quando alguém finalmente perguntou: “O que faremos com ele?”.

“Bem”, respondi como se o pensamento tivesse acabado de me ocorrer, “talvez pudéssemos ficar com ele.”

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Trecho do Livro: Anjo de Quatro Patas | Walcyr Carrasco

Livros Anjo de Quatro Patas Walcyr Carrasco BooksLivro: Anjo de Quatro Patas

Meu irmão Cláudio resolveu ficar milionário criando cachorros. Ele e minha cunhada Bia fizeram as contas:

– Começamos com um casal. Na primeira ninhada a cadela terá uns dez filhotes. Vendemos oito e ficamos com mais um casal. Na outra teremos vinte cãezinhos. Adotamos mais dois e…

Pelas contas, estariam ricos dali a dois natais. Negociar com cães parecia melhor que jogar na loteria!

– Vamos fazer fortuna com os peludinhos! – entusiasmou-se meu irmão.

Optaram por um par de huskies siberianos. Huskies estavam na moda, após um filhote aparecer com destaque em uma novela de televisão. São lindíssimos. Se não conviveu com algum pessoalmente, você já deve tê-los visto em algum filme de esquimós. Matilhas de huskies puxam trenós na neve. Podem ter pêlo cinza, negro, branco ou cor de mel. Olhos azuis ou castanho-claros. São muito parecidos com lobos. Não latem, uivam! Possuem um charme indescritível. Qualquer pessoa se apaixona por um husky à primeira vista.

Inicialmente, os dois futuros milionários não possuíam amor especial pela raça. Parecia um bom investimento. Huskies eram vendidos a peso de ouro. Esse fenômeno ocorre com freqüência no circuito dos canis e pet shops. Raças viram moda, tal como um novo comprimento das saias ou a cor da estação. Quando eu era menino, o máximo era ostentar um pequinês bem peludinho. Em certa época se tornou chique raspar os pêlos dos poodles, deixando um topete na cabeça, um no rabo e um cinturão no corpo. Até hoje são conhecidos como cachorros de madame.

Dálmatas transformaram-se em coqueluche. Depois foi a vez dos huskies. Os filhotes eram disputadíssimos. Havia filas para adquiri-los.

Cláudio quase saiu no tapa para conseguir uma fêmea e um macho de bom pedigree, ainda filhotes. Foi vitorioso. Adquiriu o máximo em aristocracia canina. O pai de Luna, a fêmea, veio do Canadá e foi capa de uma revista canina. O macho, Thor, também ostentava um impressionante pedigree. Casal mais chique não poderia haver. Os filhotinhos eram adoráveis, mas exigiam cuidados. Bia, minha cunhada, passou semanas preparando mamadeiras e ajeitando cobertores. Se ventava ou chovia de noite, ela e meu irmão saíam da cama e enfrentavam as intempéries para abrigar melhor os pequenos huskies. Os cães sempre foram saudáveis, mas os humanos viviam espirrando. Finalmente minha cunhada, pintora, desfez o ateliê que havia em um quartinho dos fundos da casa em que vive no interior de São Paulo e montou uma suíte para huskies.

– Quando vender os filhotes, construo um ateliê com parede de vidro no quintal – planejou ela, pupilas transformadas em cifrões.

Ocorreu o inevitável. Diante de um filhotinho, ondas de amor brotam até do coração mais endurecido. Meu irmão e minha cunhada já são bem sensíveis. Não conseguiram nem tentaram resistir. Apaixonaram-se perdidamente pelos cães. Viviam com os dois no colo. Ainda não tinham filhos. Cantavam para os huskies, beijavam na testa, coçavam a barriga e comentavam, felizes como papais:

– Viu só o que a Luna fez? Pegou um osso e escondeu no quintal!

– Ai, que gracinha, o Thor nas duas patas para pedir comida. Ah, que guloso! Malandrinho! Malandrinho!

Registraram o canil com um derivado de seu sobrenome: Karras. Quando ia visitá-los, passava a tarde ouvindo comentários entusiasmados:

– Eu falo e parece que ela me entende!

– Cachorro é muito melhor que gente.

Meses depois, Luna não havia engravidado. Gastaram uma grana no veterinário em exames. O resultado:

– A cadela está bem, mas o macho é estéril.

Pode haver investimento pior do que começar um canil com um cachorro estéril? Pode sim, como vieram a demonstrar os fatos: negociar cachorro é negócio de cachorro.

Os dois não se conformavam.

– A gente tinha que escolher justo um filhote estéril?

Thor abanava o rabo. Imediatamente era perdoado.

– Não é sua culpa, querido, mas você nos deu um baita prejuízo! – explicava Bia.

– Uauuuauuuuuuuuuu – uivava Thor.

E os sonhos de riqueza rápida? Não desistiram.

– Só vai demorar um pouco mais para dar lucro – concluiu Cláudio.

Foram até outro canil e explicaram a situação. Pegaram emprestado um macho para uma gravidez em consórcio: a ninhada seria dividida meio a meio.

– Este é seu marido, Luna! – apresentou minha cunhada.

– Luna vai casar, Luna vai casar! – cantarolou meu irmão.

O noivou se aproximou. A noiva ergueu o rabo e arreganhou os dentes. O feliz consorte farejou seu tras*eiro.

Digamos que foi amor à primeira vista.

Semanas depois, Luna estava grávida.

Mais contas com o veterinário e remédios morderam a poupança dos futuros milionários. Os planos continuaram a todo vapor:

– Se ela tiver dez filhotes, damos cinco para o canil que emprestou o macho e ficamos com cinco.

– Vendemos todos. Quero pintar a casa e trocar a pia – lembrou minha cunhada.

– Melhor ficarmos com uma cadela e vendemos nove. Depois, emprestamos outros dois machos e se cada uma tiver dez…

Mais contas! Os sonhos de riqueza continuaram de vento em popa, mas era preciso investir. Os cães continuavam dando despesas. E haveria muitas mais pela frente. Seria preciso dinheiro para as vacinas, ração e veterinário dos filhotes até que fossem vendidos. Meu irmão aumentou o número de aulas que dava na universidade. Minha cunhada diminuiu os dias da faxineira e aumentou suas horas de trabalho doméstico.

Em uma noite fria, Luna foi para um canto, quieta. Estranha.

– Os filhotes devem nascer hoje – avisou o veterinário ao atender a ligação preocupada.

Os olhos de ambos brilharam de ternura misturada com ambição. (São assim os sentimentos humanos, um tanto contraditórios.)

– Se tivermos sorte, nascem uns doze – comentou Cláudio, esperançoso.

– Já ouvi falar de até quinze – concordou Bia, olhos faiscando.

Passaram a noite em claro. A cada cinco minutos minha cunhada ia verificar.

– Não nasceram ainda.

Deitava. Dali a pouco, saía da cama. Observava Luna. Adoçava a voz:

– Tudo bem, querida? Vai virar mamãe cachorra?

Ao amanhecer, iniciaram-se os sinais de parto. Emocionados, meu irmão e minha cunhada ficaram esperando o nascimento dos filhotinhos. Seus sentimentos oscilavam entre o amor desmedido pelos cães e as perspectivas financeiras. Nasceu o primeiro filhote, cor de mel.

– Ai, que coisa mais linda! – exclamou Bia.

– Já, já vem mais um. – anunciou meu irmão.

Ficaram olhando. Um minuto. Cinco. Dez. Vinte. Seus pescoços doíam com a expectativa. Bia encostou-se em um lado da parede, ele no outro.

– Que demora!

Luna acomodou-se amorosamente com a cria.

Mais meia hora.

Indiferente a suas preocupações, Luna descansava com o cachorrinho, um macho. As angústias do parto pareciam deixadas para trás.

Meu irmão e minha cunhada se olharam, surpresos.

– Só um?

– Ih… só um!

Mais tarde, o veterinário explicou:

– É raríssimo, mas pode acontecer ninhada de um só.

Nunca um projeto de riqueza desabou tão depressa! Meu irmão abriu uma cerveja e declarou:

– Acabou essa história de criar cachorros pra vender. Vamos ficar com o filhote.

Como não era possível dividir o cãozinho ao meio para entregar ao outro canil, ainda tiveram de desembolsar algum dinheiro por ele!

– O nome dele será Uno, porque foi único – declarou minha cunhada, com o cachorrinho no colo.

– Também podia ser Prejuízo – rosnou meu irmão.

Era só conversa. Ambos já estavam irremediavelmente apaixonados pelo pequeno husky.

Há males que vêm para o bem. Como disse antes, negociar cachorros pode ser um empreendimento de alto risco. Não basta querer dinheiro, é preciso ter muito amor porque as ciladas são inúmeras. Os fatos provaram que o prejuízo poderia ter sido muito maior. Bia e Cláudio tinham uma amiga que conseguiu concretizar planos exatamente iguais aos que eles possuíam no início da empreitada. Comprou dois casais, investiu em novos procriadores, encheu-se de filhotes e chegou a ganhar uma grana, que usou para ampliar os negócios. Tarde demais, descobriu que criar cães não é o mesmo que possuir uma mina de diamantes. Muitos compradores de huskies se decepcionaram. Eu, que amo a raça, posso contar com imparcialidade.

Apesar de grandes, da aparência de lobo e do uivo assustador, huskies não servem como cães de guarda. São dóceis. Adoram crianças. E não se consegue adestrá-los. Alguns treinadores cometem o erro de dizer que são burros. Coisa nenhuma. Possuem uma inteligência peculiar, uma personalidade forte. Francamente, não estão nem aí para ficar guardando os pertences dos humanos. No fundo, não nos pertencem. Eles, sim, são nossos legítimos donos!

Fogem e não sabem voltar para casa. Vieram das planícies geladas, onde não existiam fronteiras ou propriedades individuais. São oriundos da vastidão da neve. Sabem ir, ir, ir. Dificilmente conseguem voltar. Embora, como contarei mais tarde, Uno fosse uma exceção, pois sabia voltar pra casa. Portanto fogem e não voltam! Muitos proprietários de huskies se surpreenderam ao descobrir que eles são capazes de escalar muros como gatos (sim, são) e desaparecer para sempre, provavelmente adotados por uma nova família. Às vezes uivam longamente. E são teimosos!

A raça saiu de moda. O golden retriever tornou-se a nova coqueluche. Em todos os canis, os huskies deixaram de atrair compradores.

De repente a futura milionária, amiga de meu irmão, se viu com 300 filhotinhos encalhados! Sem comprador à vista! Gastou todas as economias vacinando e alimentando os trezentinhos. Com a poupança arrasada, implorava pela caridade alheia.

– Pode contribuir com um pacote de ração? – pedia aos amigos.

Pior. A maior parte dos filhotes costuma ser vendida até completar três meses. Depois disso o cachorro já está grande. A pessoa prefere um filhotinho para se acostumar na casa desde pequeno. A pobre ex-quase-milionária levava caixas de cães a todas as feiras de animais. Ficou com calos nos dedos fazendo lacinhos para enfeitar o cocoruto das fêmeas. Teve cãibras na boca de tanto sorrir para eventuais clientes. Cansou os braços de tanto botar filhotes no colo de criancinhas e murmurar:

– Olha só, ele gostou de você.

Fez liquidação no canil, oferecendo os huskies a preço de custo. Só se livrou de alguns. Ficou com 293 encalhados. Quem ama os cães não é capaz de soluções radicais. Gastou tudo o que tinha para alimentá-los, tentava mantê-los, mas alguns começaram a se reproduzir e… Segundo a última notícia, os cães continuavam crescendo fortes e saudáveis, devorando toneladas de ração. Já a grana…

Meu irmão e minha cunhada livraram-se desse destino. Ficaram com os três: Luna, Thor e Uno. Seria uma família feliz, se não fosse a eterna competição entre machos, que costumam se estranhar. No começo, Uno e Thor rosnavam um para o outro. Logo passaram a se atacar. Minha cunhada os separava com gritos e água fria. Uma loucura.

Chegou a minha vez de entrar na história.

Passei por uma fase difícil e dolorosa. Perdi uma pessoa querida após uma doença devastadora. Eu a acompanhei durante todo o desenrolar. Fui seu enfermeiro, seu amigo e seu amor. A experiência ainda não parecia terminada. Eu continuava abrindo sua parte do armário, pegava suas roupas e botava no nariz, tentando sentir seu cheiro, captar seus últimos sinais sobre a Terra. Olhava suas gavetas, seus papéis, as lembranças, bilhetes, postais que guardava. Se saía para um cinema, um papo com amigos, compras, o que fosse, me dava uma vontade enorme de voltar para o apartamento, como se ela ainda estivesse lá, me esperando. Ao entrar, voltava à realidade e dava um nó na garganta. Ia até suas coisas para novamente pegar, cheirar, ver e chorar, chorar e chorar…

– Nunca mais vou amar de novo! – dizia para mim mesmo, com plena convicção.

Era uma perda tão sofrida que não queria correr o risco de amar mais uma vez e novamente perder.

Eu me sentia no buraco. E não pretendia sair dele.

Muita gente me aconselhava a dar a volta por cima, a esquecer. Tinha horror de ouvir esses conselhos. Nada é pior do que perder alguém e ouvir:

– Não se desespere.

Só se eu não tivesse amado para não sofrer.

Somente um amigo, André, me deu razão.

– Se você tem que chorar, chore. Se quer se esconder, se esconda. Respeite seu momento.

Tinha que desocupar o apartamento repleto de recordações, onde cada móvel, cada parede me lembrava de uma passagem triste. Além do mais, era alugado. Há anos construía uma casa em um condomínio distante, de chácaras, em uma cidade próxima. Estava prestes a ser terminada. Sempre havia sonhado com a casa própria, mas a construção se arrastava havia anos. Tive pouca grana a maior parte da minha vida. Os financiamentos impunham juros e correções monetárias. Eram difíceis de obter. A maior parte dos imóveis, inacessível para meu bolso. Minha companheira fazia trabalhos eventuais na área de moda, mas nunca recebeu salário fixo. Era um tanto descabeçada. Quando recebia, comprava roupas novas, presentes para mim, comidas extravagantes. Eu segurava a estrutura: aluguel, comida, empregada, luz, água, impostos. A casa era fruto de um longo projeto. Economizei muito, durante anos. Com dificuldade comprei um terreno em um bairro distante. O país passava por sucessivos planos econômicos, um diferente do outro. Em um desses, meu terreno valorizou-se muito, porque em razão da baixa renda da poupança, todo mundo estava tirando dinheiro do banco e aplicando em imóveis. Era minha oportunidade. Resolvi vendê-lo. Fui até o dono da imobiliária:

– Quero vender o terreno para comprar um pequeno apartamento.

– Não prefere uma casa?

Meus olhos brilharam. Resumindo: havia uma casa em construção muito, mas muito mais distante ainda que o terreno, em um condomínio quase rural. A obra estava parada havia dois anos, mas já tinha as paredes e a laje. Maravilha das maravilhas, o terreno do fundo dava para uma reserva florestal onde corria um riacho com uma pequena cascata. O dono da imobiliária fez uma transação na qual entrou como parte principal o tal terreno, minha pequena poupança e até meu carro, com uns seis anos de uso. Saí da imobiliária a pé para pegar ônibus na estrada, mas proprietário de uma casa. Ou quase.

Casa? Eu nunca construíra coisa nenhuma. Imaginava que seria fácil terminá-la. Que fantasia! Nos dois anos seguintes, fui comprando o material pouco a pouco e concluindo a obra por partes. Comecei pelo telhado. Um amigo indicou um especialista, que foi até lá e perguntou:

– Como será o telhado?

- Assim – respondi desenhando no ar com os dedos.

Ele fez exatamente como mostrei e o telhado está lá até hoje. Talvez por milagre. Quando consegui, botei as janelas. Depois o piso, de tijolo. O terreno era enorme, com mais de 2 mil metros. Só tive dinheiro para plantar grama na metade. A outra continuou cheia de mato. Durante todo esse tempo fomos construindo a casa. Com a doença, tudo parou. Trabalhei em dobro e guardei dinheiro para emergências. Meu maior terror era ser obrigado a interná-la em um hospital público, onde eu não pudesse estar a seu lado e segurar sua mão quando partisse. Não tínhamos plano de saúde, pois na época não era algo tão comum quanto hoje. Juntava cada centavo para, quando chegasse a hora, pagar um hospital, mesmo simples, e acompanhá-la em seus últimos momentos. Mórbido? Quem amou e perdeu sabe do que estou falando. Minha necessidade de estar a seu lado e transmitir minha ternura era até física. Mas ela faleceu em casa. O dinheiro ficou no banco.

A melhor homenagem seria terminar a casa e mudar. A pedido de sua mãe, seu corpo fora cremado. As cinzas, espalhadas no próprio jardim do crematório. Não havia túmulo para visitar, um lugar para honrar sua memória. No jardim da casa em construção, porém, havia uma lembrança viva de seu amor. Vou explicar. Durante toda minha infância, os natais foram tristes. Minha mãe era dona de uma lojinha e passava a véspera de Natal trabalhando. No dia seguinte, exausta, fazia um almoço comum e botava algumas frutas secas na mesa. Hoje entendo que fazia o melhor possível. Devia estar exausta após dias de trabalho intenso. Quando menino era difícil ver meus amigos correndo para a ceia, para festas familiares, com parentes vestidos de Papai Noel ou comemorando de alguma outra maneira, enquanto eu ficava sozinho na porta do pequeno comércio de mamãe, admirando as luzes acesas em outras casas e os ruídos de festa. Sentia uma enorme necessidade de ter um Natal como o dos outros. Essa alegria, só tive como adulto. Estávamos sem dinheiro. Mesmo assim, ela resolveu que não podíamos passar sem uma árvore de Natal. Quase na véspera, saiu à luta. Encontrou um vendedor com alguns pinheirinhos sobrando. Pechinchou. Voltou com um pinheiro torto, que decoramos com algumas bolas vermelhas. Foi a primeira árvore de Natal de minha vida adulta, e eu nunca esquecerei seu carinho ao me oferecer a árvore. Depois do Dia de Reis, plantei o pinheiro em frente à casa em construção. Foi crescendo, ainda torto. Nossa árvore de Natal, que estaria sempre naquele lugar para me lembrar daquele gesto de carinho.

Gastei o dinheiro guardado para a doença deixando a casa em condições habitáveis. Estava exausto e precisava me mudar. A casa era a melhor opção: novo lugar, novos ares. Durante a doença, havia atingido o limite das minhas forças. Aprendi a dar remédios, ouvir instruções médicas, fazer curativos, passar horas do lado segurando sua mão, simplesmente para ela saber que eu estava lá. Nunca fui um tipo atlético. Mas a carregava no colo para ir ao banheiro e esperava a seu lado, enquanto fazia suas necessidades. Arrumava sua roupa e a levava de volta. Percebia seu corpo se tornar cada vez mais leve, consumido pelo câncer. Como meus sentimentos eram contraditórios! Dias e noites eu torcia pelo fim, porque era horrível contemplar seu sofrimento, mas ao mesmo tempo tinha esperanças de que ela não partisse nunca. Quando ela se foi, não consegui entender por que pedi a Deus que a levasse, pois me sentia rasgado por dentro, alucinado de dor. Como pude desejar o que não queria?

Eu a amava, amava tanto que nunca mais queria amar ninguém. Minha vida afetiva acabara. Estava fechado para o mundo e para o amor.

Mudar para longe parecia a solução ideal. Queria ficar solitário, no meu canto. Não tinha forças e muito menos vontade para reconstruir a vida afetiva, me apaixonar novamente, ir adiante. Sorria, triste, e pensava: “Parem o mundo que eu quero descer!”.

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Filme: Marley e Eu (Marley and Me) | Trailer

Marley & Eu (2008), comédia baseada no livro de grande sucesso Marley e Eu: a Vida e o Amor ao Lado do Pior Cão do Mundo. Filme dirigido por David Frankel e estrelado por Jennifer Aniston, Owen Wilson e Alan Arkin. Estréia nos cinemas prevista para o dia de Natal (Estados Unidos).

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Marley & Eu (Marley & Me) | Trailer
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