Trecho do Livro: A Auto-Estrada | Stephen King

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Ele continuava fazendo as coisas sem se permitir pensar sobre elas. Era mais seguro assim. Era como ter um disjuntor na cabeça que era acionado sempre que parte dele tentava perguntar: Mas por que você está fazendo isso? Um pedaço da sua mente ficava escuro. Ei, Georgie, quem apagou as luzes? Ops, fui eu. Deve ser algum problema na fiação. Só um segundo. A chave é religada. As luzes voltam. Mas o pensamento desapareceu. Tudo está bem. Vamos continuar, Freddy — onde estávamos?

Ele estava andando até o ponto de ônibus quando viu a placa que dizia:

LOJA DE ARMAS DO HARVEY

REMINGTON WINCHESTER COLT SMITH & WESSON

CAÇADORES SÃO BEM-VINDOS

Nevava um pouco de um céu cinza. Era a primeira neve do ano e ela caía na calçada como punhados brancos de bicarbonato de sódio, então derretia. Ele viu um menininho com um gorro vermelho de lã passar com a boca aberta e a língua para fora, tentando pegar um floco. Vai só derreter, Freddy, pensou ele, olhando para o garoto, mas o menino continuou do mesmo jeito, com a cabeça jogada para trás, apontando para o céu.

Ele parou em frente à Loja de Armas do Harvey, hesitante. Havia uma máquina de jornais com edições de última hora na entrada, e a manchete dizia:

FRÁGIL CESSAR-FOGO CONTINUA

Abaixo dessas palavras, na máquina, havia uma placa branca suja que informava:

POR FAVOR, PAGUE PELO SEU JORNAL!
ESTA MÁQUINA É ALUGADA
O REVENDEDOR PAGA POR TODOS OS EXEMPLARES

Estava quente lá dentro. A loja era comprida, mas não muito larga. Havia apenas um corredor. Depois da porta, à esquerda, havia um mostruário de vidro cheio de caixas de munição. Ele reconheceu os cartuchos calibre 22 imediatamente, pois tivera um rifle .22 de apenas um tiro quando era criança em Connecticut. Passou três anos querendo aquele rifle e, quando enfim o ganhou, não conseguia pensar em nada para fazer com ele. Atirou em algumas latas, depois em um gaio-azul. A morte do pássaro não foi limpa. Ele ficou caído na neve, cercado por uma mancha de sangue rosa, seu bico abrindo e fechando devagar. Depois disso, ele pendurou o rifle na parede e ele ficou lá por três anos, até ser vendido para um garoto da rua por nove dólares e uma caixa de papelão de livros de piadas.

As outras munições lhe eram menos familiares. Calibre 36, .30-06 e algumas que pareciam balas de canhão em miniatura. Que tipo de animal você matava com aquilo?, ele se perguntou. Tigres? Dinossauros? Ainda assim, elas o fascinavam, paradas lá dentro do mostruário de vidro como docinhos em uma loja de artigos gerais.

O balconista ou dono estava conversando com um gordo de calças verdes e camisa do Exército também verde. Eles falavam sobre uma pistola que estava em cima de outro mostruário de vidro, desmontada. O gordo puxou o ferrolho para trás com o polegar e os dois olharam para a câmara lubrificada. O gordo disse algo e o balconista ou dono riu.

— Automáticas sempre travam? Isso você aprendeu com seu pai, Mac. Admita.

— Harry, você é um cascateiro de marca maior.

Você é um cascateiro, Fred, pensou ele. De marca maior. Sabia disso, Fred? Fred disse que sabia.

À direita, havia um mostruário de vidro que corria por toda a extensão da loja. Estava cheio de rifles pendurados. Conseguiu reconhecer as espingardas de dois canos, mas todo o resto era um mistério para ele. Ainda assim, algumas pessoas — como os dois no balcão do outro lado, por exemplo — dominavam aquele mundo com a mesma facilidade com que ele dominara contabilidade geral na faculdade.

Ele adentrou mais a loja e olhou para o interior de um mostruário cheio de revólveres. Viu algumas pistolas de ar comprimido, algumas .22, uma .38 com cabo de madeira, algumas .45 e uma arma que reconheceu como sendo uma Magnum .44, a arma que Dirty Harry carregava naquele filme. Ele tinha ouvido Ron Stone e Vinnie Mason falando sobre o filme na lavanderia, e Vinnie dissera: Nunca que eles iriam deixar um policial carregar uma arma daquelas na cidade. Dá para abrir um buraco em um homem a mais de um quilômetro e meio de distância com ela.

O gordo, Mac, e o balconista ou dono, Harry (como Dirty Harry), montaram a arma de volta.

— Me dê uma ligada quando aquela Menschler chegar — disse Mac.

— Pode deixar… mas seu preconceito contra automáticas é irracional — disse Harry. (Ele decidiu que Harry devia ser o dono — um balconista jamais chamaria um cliente de irracional.) — Você precisa daquela pistola Cobra para a semana que vem?

— Seria bom — disse Mac.

— Não posso prometer.

— Você nunca pode… mas é o melhor vendedor de armas da cidade, e sabe disso.

— Claro que sei.

Mac deu um tapinha na arma em cima do mostrador de vidro e se virou para ir embora. Esbarrou nele — Preste atenção, Mac. Sorria quando fizer uma coisa dessas — e continuou andando até a porta. O jornal estava enfiado debaixo do braço de Mac, e ele conseguia ler:

FRÁGIL CES

Harry se voltou para ele, ainda sorrindo e balançando a cabeça.

— Posso ajudá-lo?

— Espero que sim. Mas vou logo avisando, não entendo nada de armas.

Harry deu de ombros.

— E tem alguma lei que obrigue você a entender? É presente para alguém? De Natal?

— É, isso mesmo — disse ele, aproveitando a deixa. — Eu tenho um primo… Nick, é o nome dele. Nick Adams. Ele mora em Michigan e se amarra em armas. Sabe como é. Adora caçar, mas é mais que isso. É tipo um, bem, um…

— Um hobby? — perguntou Harry, sorrindo.

— É, isso. — Ele tinha quase dito fetiche. Baixou os olhos para a caixa registradora, onde um adesivo de pára-choque velho estava colado. O adesivo dizia:

SE ARMAS FOSSEM ILEGAIS, SÓ OS FORA-DA-LEI TERIAM ARMAS

Ele sorriu para Harry e disse:

— Isso é bem verdade, sabia?

— Com certeza — disse Harry. — Este seu primo…

— Bem, é meio uma questão de quem tem mais bala na agulha. Nick sabe que eu adoro andar de barco e, juro pra você, ele me deu de presente um motor Evinrude de sessenta cavalos de potência no Natal passado. Mandou pra mim por Correio Expresso. Eu dei a ele um colete de caça. Me senti o cocô do cavalo do bandido.

Harry assentiu com simpatia.

— Bem, eu recebi uma carta dele há umas seis semanas, e ele parecia uma criança que ganhara um passe livre para o circo. Parece que ele e mais uns seis amigos juntaram uma grana e compraram uma viagem para um lugar no México, tipo uma zona de tiro livre…

— Uma reserva onde a caça é liberada?

— É, isso aí. — Ele deu uma risadinha. — Você atira o quanto quiser. Eles criam os animais lá. Veados, antílopes, ursos, bisões. Tem de tudo.

— O lugar se chama Boca Rio?

— Pior que eu não me lembro. Acho que o nome era um pouco maior do que isso.

Os olhos de Harry ficaram um pouco sonhadores.

— Aquele cara que acabou de sair, eu e mais dois fomos para Boca Rio em 1965. Eu matei uma zebra. Mandei colocar a cabeça dela na sala de jogos lá de casa. Foi a coisa mais divertida que fiz na vida, sem comparação. Invejo o seu primo.

— Bem, eu conversei com a minha mulher — disse ele — e ela falou vá em frente. Tivemos um ano muito bom na lavanderia. Trabalho na lavanderia Blue Ribbon, lá em Western.

— Sim, eu sei onde fica.

Ele achou que poderia continuar conversando com Harry o dia inteiro, bordando as verdades e as mentiras em uma bela e reluzente tapeçaria. Deixe o mundo pra lá. Que se danem a falta de gasolina, o preço da carne nas alturas e o frágil cessar-fogo. Vamos conversar sobre primos que nunca existiram, certo, Fred? É isso aí, Georgie.

— Conseguimos a conta do Hospital Central este ano, além do hospício e de três novos motéis.

— O Quality Motor Court na Franklin Avenue é de vocês?

— É, sim.

— Fiquei lá algumas vezes — disse Harry. — Os lençóis estavam sempre limpinhos. Engraçado, você nunca pensa em quem lava os lençóis quando fica em um motel.

— Bem, tivemos um bom ano. E então eu pensei, talvez eu possa dar a Nick um rifle e uma pistola. Sei que ele sempre quis uma Magnum .44, lembro que ele já falou dela…

Harry pegou a Magnum e a deitou com cuidado em cima do mostruário de vidro.

Ele a apanhou. Gostou do peso dela. Parecia coisa de gente grande. Ele a colocou de volta no mostruário de vidro.

— A câmara desta… — começou a falar Harry.

Ele riu e ergueu uma das mãos.

— Nem precisa me vender. Já estou convencido. Um leigo sempre se convence sozinho. Quanta munição eu devo levar com ela?

Harry deu de ombros.

— Que tal dar dez caixas para o seu primo? Se quiser, ele sempre pode comprar mais. O preço desta arma é 289 dólares mais o imposto, mas eu lhe vendo por 280, com a munição incluída. O que você acha?

— Maravilha — disse ele, falando sério. E então, porque parecia necessário algo mais, acrescentou: — É uma bela arma.

— Se ele estiver indo para Boca Rio, vai ser bem aproveitada.

— Agora o rifle…

— O que ele tem?

Ele deu de ombros e espalmou as mãos.

— Sinto muito. Não sei mesmo. Duas ou três espingardas e algo que ele chama de automática…

— Remington? — perguntou-lhe Harry tão depressa que ele teve medo; era como se estivesse andando com água até a cintura e tivesse afundado de repente num buraco.

— Acho que sim. Posso estar errado.

— As Remington são as melhores — disse Harry, meneando a cabeça e voltando a acalmá-lo. — Até quanto você quer gastar?

— Bem, vou ser franco com você. O motor deve ter custado quatrocentos para ele. Eu gostaria de chegar pelo menos a quinhentos. Seiscentos no máximo.

— Você e esse seu primo se dão bem mesmo, hein?

— Crescemos juntos — disse ele, com sinceridade. — Acho que daria meu braço direito para Nick se ele pedisse.

— Bem, deixe-me lhe mostrar uma coisa — falou Harry. Ele pegou uma chave do molho no seu chaveiro e foi até um dos armários de vidro. Abriu-o, subiu em um banco e desceu um rifle longo e pesado com uma coronha entalhada. — Isso talvez vá um pouco além do que você quer gastar, mas é uma bela arma.

Harry a entregou para ele.

— O que é?

— Este é um Weatherbee calibre 460. Atira munição mais pesada do que eu tenho na loja no momento. Eu teria que encomendar quantos cartuchos você quisesse de Chicago. Eles chegariam daqui a mais ou menos uma semana. É uma arma perfeitamente equilibrada. O impacto dessa belezinha é de mais de três toneladas e meia… é como bater em algo com um ônibus de aeroporto. Se você atingir um veado na cabeça com ela, vai ter que levar o rabo como troféu.

— Não sei — disse ele, soando em dúvida, embora já estivesse decidido a levar o rifle. — Sei que Nick quer troféus. Faz parte do…

— É claro que faz — disse Harry, pegando o Weatherbee e abrindo a câmara. O buraco parecia grande o suficiente para caber um pombo-correio dentro. — Ninguém vai para Boca Rio atrás de carne. Então seu primo vai mirar na barriga. Com essa arma, você não precisa se preocupar em seguir o animal por 20 quilômetros de planalto, com o bicho sofrendo o tempo todo e você ainda por cima perdendo a hora da janta. Essa belezinha vai espalhar as tripas dele por um raio de 6 metros.

— Quanto?

— Bem, vou ser sincero. Não consigo repassá-la na cidade. Quem quer uma maldita de uma arma antitanque quando não há mais nada para se caçar além de faisões? E se você colocá-los na mesa, parece que está comendo fumaça de cano de descarga. No varejo, ela sai por 950 dólares, no atacado, 630. Eu vendo pra você por setecentos.

— Isso dá… quase mil pratas.

— Nós damos dez por cento de desconto em compras acima de trezentos dólares. Isso já baixa de volta para novecentos. — Ele deu de ombros. — Dê essa arma para seu primo, eu garanto que ele não tem uma. Se tiver, compro de volta por 750. Pode escrever o que eu digo, pra você ver como eu tenho certeza.

— Sério?

— Sem dúvida. Sem dúvida. Claro que, se for demais para o seu bolso, é demais para o seu bolso. Podemos olhar outras armas. Mas se ele for realmente fissurado, não devo ter mais nada que ele já não tenha em dobro.

— Entendo. — Ele colocou uma expressão pensativa no rosto. — Você tem um telefone?

— Claro, nos fundos. Quer ligar para sua esposa e conversar a respeito?

— Acho que seria melhor.

— Claro. Venha.

Harry o conduziu até um quarto de fundos entulhado. Havia um banco e uma mesa de madeira riscada cheia de peças de armas, molas, produtos de limpeza, panfletos e frascos rotulados com balas de chumbo dentro.

— Lá está o telefone — disse Harry.

Ele se sentou, pegou o telefone e discou enquanto Harry voltava para pegar a Magnum e colocá-la na caixa.

— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST — disse a voz alegre, gravada. — A previsão desta tarde é de pancadas de neve que tendem a diminuir até uma neve fraca à noite…

— Alô, Mary? — disse ele. — Olhe, estou aqui na Loja de Armas do Harvey. Isso, é sobre aquele negócio do Nicky. Comprei aquela pistola de que a gente falou, sem problemas. Tinha uma bem no mostruário. Então o cara me mostrou um rifle…

— …clareando amanhã à tarde. Hoje à noite, mínima de um grau negativo a 4 graus e, amanhã, máxima de 7 a 9 graus. Probabilidade de chuva à noite…

— …então, o que você acha que eu devo fazer? — Harry estava parado no batente da porta, atrás dele; ele conseguia ver sua sombra.

— É — falou ele. — Eu sei disso.

— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST, e não deixe de ouvir as Notícias das Seis com Bob Reynolds, de segunda a sexta, às seis da tarde, para mais informações sobre o tempo. Até logo.

— Você não está brincando, eu sei que é muito dinheiro.

— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST. A previsão desta tarde é de pancadas de neve que tendem a diminuir…

— Tem certeza, querida?

— Probabilidade de chuva hoje à noite: oitenta por cento. Amanhã…

— Bem, está certo. — Ele se virou no banco, sorriu para Harry e fez um círculo com o polegar e o indicador direitos. — Ele é gente boa. Me garantiu que Nick não teria um daqueles.

— …amanhã à tarde. Hoje à noite, mínima…

— Eu também te amo, Mare. Tchau. — Ele desligou. Nossa, Freddy, você mandou bem. Eu sei, George. Eu sei.

Ele se levantou.

— Por ela tudo bem se eu disser ok. Então, ok.

Harry sorriu.

— O que você vai fazer se ele lhe der um Thunderbird?

Ele retribuiu o sorriso.

— Eu devolvo sem abrir.

Enquanto eles andavam de volta, Harry perguntou:

— Cheque ou cartão?

— American Express, se você aceitar.

— Pra mim é dinheiro.

Ele pegou seu cartão. No verso, escrito na tira especial, lia-se:

BARTON GEORGE DAWES

— Tem certeza que a munição chega a tempo para eu mandar tudo para o Fred?

Harry ergueu os olhos do formulário de compra.

— Fred?

O sorriso dele se alargou.

— Nick é Fred e Fred é Nick — disse ele. — Nicholas Frederic Adams. É uma brincadeira com o nome. De quando éramos garotos.

— Ah. — Ele sorriu com educação, como fazem as pessoas quando estão por fora da piada. — Pode assinar aqui?

Ele assinou.

Harry pegou outro livro debaixo do balcão, um livro pesado com uma corrente de aço enfiada na extremidade superior esquerda, perto da lombada.

— E o seu nome e endereço aqui, para o governo.

Ele sentiu seus dedos se apertarem em volta da caneta.

— Claro — disse ele. — Olhe só para mim, nunca comprei uma arma na vida e já sou um maníaco. — Ele escreveu seu nome e endereço no livro:

Barton George Dawes 1.241 Crestallen Street West

— Eles se metem em tudo — falou.

— Isso não é nada perto do que gostariam de fazer — disse Harry.

— Eu sei. Sabe o que eu ouvi no noticiário um dia desses? Eles querem aprovar uma lei que obriga os motociclistas a usar um protetor bucal. Um protetor bucal, onde já se viu? E por acaso é da conta do governo se um homem quiser correr o risco de arrebentar seu tratamento de canal?

— No meu modo de ver, não mesmo — disse Harry, colocando seu livro debaixo do balcão.

— Ou então essa extensão da auto-estrada que estão construindo lá em Western. Algum topógrafo metido a besta diz “Ela vai passar por aqui”, e o estado manda um monte de cartas dizendo “Sentimos muito, mas a extensão 784 vai passar por aqui. Você tem um ano para encontrar uma casa nova”.

— É uma vergonha.

— E é mesmo. O que quer dizer “domínio eminente” para alguém que viveu vinte anos na mesma droga de casa? Criou os filhos nela e voltou para ela das viagens que fez? Isso é só um termo jurídico qualquer que eles inventaram para sacanear melhor a gente.

Cuidado. Cuidado. Mas o disjuntor não foi rápido o suficiente e acabou escapando um pouco.

— Você está bem? — perguntou Harry.

— Estou. Não devia ter comido aquele sanduíche de baguete no almoço. Fico cheio de gases.

— Tome um desses — disse Harry, tirando um frasco de comprimidos do bolso da camisa. O rótulo dizia:

ANTIÁCIDOS ROLAIDS

— Obrigado — disse ele, pegando um e jogando-o para dentro da boca, ignorando o pedacinho de algodão no comprimido. Olhe para mim, estou em um comercial de tevê. Um comprimido absorve 47 vezes seu próprio peso de excesso de ácido gástrico.

— Para mim, eles sempre adiantam — disse Harry.

— Sobre a munição…

— Sim. Uma semana. No máximo duas. Vou encomendar setenta cartuchos para você.

— Bem, por que você não deixa essas armas guardadas aqui? Coloque uma etiqueta com meu nome nelas, ou algo assim. Acho que é bobagem, mas não quero que elas fiquem na minha casa. Bobagem minha, não é?

— Cada um na sua — disse Harry, sem mudar de tom.

— Ok. Vou lhe dar meu telefone do trabalho. Quando as balas chegarem…

— Cartuchos — interrompeu Harry. — Cartuchos ou projéteis.

— Cartuchos — disse ele, sorrindo. — Quando eles chegarem, me dê uma ligada. Daí eu pego as armas e tomo as providências para enviá-las. Eu posso mandar armas por Correio Expresso, não posso?

— Claro. Seu primo só vai ter que assinar para recebê-las.

Ele escreveu seu nome em um dos cartões de Harry. O cartão dizia:

Harold Swinnerton
849-6330
LOJA DE ARMAS DO HARVEY

— Ei — disse ele. — Se você é o Harold, quem é Harvey?

— Harvey era meu irmão. Ele morreu há oito anos.

— Sinto muito.

— Todos nós sentimos. Ele veio para cá um dia, abriu a loja, esvaziou a caixa registradora e então teve um infarto e morreu. Um dos homens mais gentis que você poderia conhecer. Conseguia derrubar um cervo a 200 metros de distância.

Ele estendeu o braço por cima do balcão e eles trocaram um aperto de mãos.

— Eu ligo — prometeu Harry.

— Cuide-se bem.

Ele saiu para a neve novamente, passando pelo FRÁGIL CESSAR-FOGO CONTINUA. Nevava um pouco mais forte e ele tinha deixado as luvas em casa.

O que você estava fazendo lá dentro, George?

Claque, fez o disjuntor.

Quando chegou ao ponto de ônibus, aquilo poderia ter sido um incidente sobre o qual ele lera em algum lugar. Nada mais que isso.

Crestallen Street West era uma rua longa que descia em curva e costumava oferecer uma bela vista do parque e uma vista maravilhosa do rio até o progresso intervir na forma de um programa de construção de arranha-céus. Eles tinham sido erguidos na Westfield Avenue dois anos antes e bloquearam boa parte da vista.

O número 1.241 era uma casa de vários níveis com uma garagem lateral para um carro. Tinha um longo jardim da frente que no momento estava seco e esperando que a neve — neve de verdade — o cobrisse. A entrada para carros era de asfalto, recém-aplicado na primavera anterior.

Ele entrou e ouviu a tevê ligada, o novo modelo de gabinete da Zenith que eles tinham comprado no verão. Havia uma antena motorizada no telhado que ele mesmo tinha instalado. Mary não quis que ele fizesse aquilo, por conta do que supostamente estava para acontecer, mas ele insistiu. Se ela podia ser montada, argumentara ele, também podia ser desmontada quando eles se mudassem. Bart, não seja bobo. Vai ser só uma despesa a mais… trabalho a mais para você. Mas ele a venceu pelo cansaço e ela finalmente disse que sim, só para “agradá-lo”. Era isso que ela falava nas raras ocasiões em que ele fazia questão o suficiente de algo para forçá-lo contra o melaço pegajoso das suas argumentações. Dessa vez, vou “agradar” a você.

Naquele momento, ela assistia a Merv Griffin conversando com uma celebridade. A celebridade era Lorne Greene, que falava sobre sua nova série policial, Griff. Lorne dizia a Merv como estava adorando fazer o programa. Logo uma cantora negra da qual ninguém nunca tinha ouvido falar apareceria para cantar uma música. I Left My Heart in San Francisco, talvez.

— Olá, Mary — gritou ele.

— Olá, Bart.

Correspondência na mesa. Ele a folheou. Uma carta para Mary da sua irmã ligeiramente psicopata de Baltimore. Uma fatura de cartão de crédito — 38 dólares. Um extrato bancário: 49 débitos, 9 créditos, saldo 954,47 dólares. Que bom que ele havia usado o American Express na loja de armas.

— O café está quente — gritou Mary. — Ou você quer um drinque?

— Um drinque — disse ele. — Deixe que eu pego.

Três outras correspondências: um aviso de atraso da biblioteca. Facing the Lions, de Tom Wicker. Wicker tinha dado uma palestra em um almoço no Rotary Club um mês antes. Havia anos eles não viam um palestrante tão bom.

Uma mensagem pessoal de Stephan Ordner, um dos manda-chuvas administrativos da Amroco, a corporação que passara a ser dona da Blue Ribbon quase inteira. Ordner queria que ele fosse até lá conversar sobre o negócio de Waterford — sexta estava bom, ou ele estava planejando viajar no feriado de Ação de Graças? Se estiver, me ligue. Se não, traga Mary. Carla sempre gosta de encontrá-la e blablablá, conversa fiada etc. et al. E outra carta do Departamento de Estradas.

Ele ficou um bom tempo parado olhando para ela sob a luz cinza da tarde que atravessava as janelas e então colocou toda a correspondência no aparador. Preparou um uísque com gelo e foi com ele até a sala de estar.

Merv ainda estava conversando com Lorne. A cor da nova tevê Zenith era mais do que boa; era quase sobrenatural. Ele pensou: se nossos mísseis balísticos intercontinentais forem tão bons quanto nossas televisões em cores, um dia teremos um big bang dos infernos. O cabelo de Lorne era prateado, o tom mais impossível de prateado que se pode imaginar. Ah, se eu arranco essa sua peruca, pensou ele e deu uma risadinha. Não sabia dizer por que a imagem de Lorne Greene careca era tão engraçada. Um pequeno ataque histérico tardio por conta do episódio na loja de armas, talvez.

Mary ergueu os olhos com um sorriso nos lábios.

— Qual é a graça?

— Nada — disse ele. — Coisa da minha cabeça.

Ele se sentou ao lado dela e apertou sua bochecha. Ela era uma mulher alta, de 38 anos, e naquela crise de aparência em que a beleza juvenil está decidindo o que vai ser na meia-idade. Ela comia bastante, mas seu metabolismo acelerado a mantinha magra. Não estaria apta a tremer diante da idéia de vestir um traje de banho em uma praia dali a dez anos, independente do destino que os deuses resolvessem dar ao resto do seu caso. Isso o fazia ter consciência da sua barriga de cerveja. Ora, Freddy, todo executivo tem barriga de cerveja. É um símbolo de sucesso, como um Delta 88. Isso mesmo, George. Tome cuidado com o velho coração e com os tubinhos de câncer e você chega aos 80.

— Como foi seu dia? — perguntou ela.

— Bom.

— Você foi ver o lugar novo em Waterford?

— Hoje não.

Ele não ia a Waterford desde o final de outubro. Ordner sabia — um passarinho devia ter lhe contado —, e daí a mensagem. O lugar novo era uma fábrica de tecidos vazia e o corretor irlandês espertinho encarregado da negociação não parava de ligar para ele. Temos que fechar este contrato, vivia lhe dizendo. Vocês não são os únicos em Westside de olho na propriedade. Estou indo o mais rápido que posso, disse ele ao irlandês espertinho. Você precisa ter paciência.

— E quanto àquele lugar em Crescent? — perguntou-lhe Mary. — A casa de alvenaria?

— Está cara demais pra gente — disse ele. — Estão pedindo 48 mil.

— Por aquele lugar? — perguntou ela, indignada. — Que assalto!

— Com certeza. — Ele bebeu um gole generoso do seu drinque. — O que a velha Bea de Baltimore tem para contar?

— O de sempre. Agora está fazendo hidroterapia de conscientização em grupo. É ou não é uma piada? Bart…

— Com certeza — ele se apressou a dizer.

— Bart, temos que correr. Vinte de janeiro já está chegando e vamos acabar na rua.

— Estou indo o mais rápido que posso — disse ele. — Precisamos ter paciência.

— Aquela casinha colonial na Union Street…

— …está vendida — completou ele, terminando seu drinque.

— Bem, é disso que eu estou falando — disse ela, irritada. — Ela teria servido perfeitamente para nós dois. Com o dinheiro que a Prefeitura está nos dando por esta casa e pelo terreno, poderíamos ter saído na frente.

— Eu não gostei dela.

— Você não parece estar gostando de muita coisa ultimamente — disse Mary, com uma amargura surpreendente. — Ele não gostou — falou ela para a tevê. A cantora negra estava na tela, cantando Alfie.

— Mary, estou fazendo todo o possível.

Ela se virou para encará-lo, séria.

— Bart, eu sei como você se sente a respeito desta casa…

— Não, não sabe — disse ele. — Nem um pouco.
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