Trecho do Livro: Os Segredos da Capela Sistina | Benjamin Blech e Roy Doliner

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O que é a Capela Sistina?

No dia 18 de fevereiro de 1564, o Renascimento morreu em Roma.

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, conhecido por todos simplesmente como “Michelangelo”, faleceu aos 89 anos em sua casa modesta, onde é hoje a Piazza Venezia. Seu corpo foi preparado para o sepultamento na vizinha Basílica dos Santos Apóstolos. Atualmente, esta igreja, cujo nome italiano é Santissimi Apostoli, é uma amálgama de várias épocas e estilos: seu andar superior data do século XIX, o do meio é do Barroco seiscentista e o andar térreo é em estilo puramente renascentista da segunda metade do século XV. Porém, o mais interessante a respeito do local proposto para o sepultamento de Michelangelo é que a parte original da igreja – a única que existia em 1564 – foi desenhada por ninguém menos que Baccio Pontelli, o mesmo homem que planejou a estrutura da Capela Sistina. O local onde Michelangelo deveria ser enterrado é importante também por outras razões.

Abaixo do andar térreo da igreja há uma cripta que abriga os túmulos de São Tiago e São Filipe, dois dos apóstolos, ou seja, da época de Jesus. Se pudéssemos escavar mais profundamente, encontraríamos logo abaixo da cripta vestígios da antiga Roma imperial, e abaixo desta, da Roma republicana, e talvez finalmente algum resquício da Roma da Idade do Bronze.

Isto faz com que a igreja seja uma metáfora de toda a Cidade Eterna: um lugar com camadas e camadas de história, de inúmeras culturas acumuladas, de confrontos entre o sagrado e o profano, entre o santo e o pagão, e de uma multiplicidade de segredos ocultos.

Entender Roma é perceber que é uma cidade repleta de segredos, com mais de três milênios de mistérios. E não há nenhuma parte de Roma que encerra mais segredos do que o Vaticano.

O próprio nome “Vaticano” tem uma origem surpreendente. Não vem do latim ou do grego, nem tem origem bíblica. Na verdade, a palavra que associamos à Igreja tem origem pagã. Há mais de 28 séculos, antes mesmo da lendária fundação de Roma por Rômulo e Remo, havia um povo chamado de etrusco. Muito do que pensamos ser da cultura e civilização romanas na verdade vem dos etruscos, e apesar de ainda estarmos tentando compreender sua língua complexa, já descobrimos muito a respeito deles. Sabemos que, assim como os hebreus e os romanos, os etruscos não enterravam seus mortos dentro dos muros de suas cidades. Por este motivo, eles construíram um cemitério enorme em uma encosta de uma colina fora dos limites de sua antiga cidade, no local que posteriormente se tornaria a cidade de Roma. O nome da deusa etrusca pagã que protegia sua necrópole, ou cidade dos mortos, era Vatika.

Vatika tem vários outros significados correlatos em etrusco antigo. Era o nome de uma uva de gosto amargo que crescia naturalmente na encosta, usada pelos camponeses na fabricação do vinho que adquiriu a má fama de ser um dos piores e mais ordinários do mundo antigo. O nome deste vinho, que também se referia à colina onde era produzido, era Vatika. Era ainda o nome de uma erva estranha que crescia naturalmente na encosta do cemitério. Quando ingerida, provocava alucinações e delírios semelhantes aos efeitos do cogumelo peiote. Por isso, vatika representava o que hoje chamaríamos de “um barato louco”, e deste modo, a palavra se incorporou ao latim como sinônimo de “visão profética”.

Bem mais tarde, no local foi construído o circus (o circo particular ou estádio) de Nero, o imperador louco. Foi neste circo, segundo a tradição da igreja, que São Pedro foi executado, crucificado de cabeça para baixo e enterrado em uma área próxima. Este local se tornou o lugar de visitação de um número tão grande de peregrinos, que o imperador Constantino, ao converter-se parcialmente ao cristianismo, fundou ali um santuário, que os romanos continuaram a chamar de colina Vaticana. Um século depois de Constantino, os papas começaram a erguer neste lugar o palácio papal.

O que significa “Vaticano” nos dias de hoje? Por causa de sua história, este nome tem conotações variadas. Pode se referir à Basílica de São Pedro; ao Palácio Apostólico dos papas, com mais de 14 mil aposentos; ao complexo dos Museus Vaticanos com mais de 2 mil salas; à hierarquia sociopolítico-religiosa, considerada a liderança espiritual de cerca de um quinto da raça humana; ou ao menor país do mundo, a Città del Vaticano (Cidade do Vaticano). É de fato estranho se pensarmos que o menor país do planeta, com uma área aproximada de um oitavo do Central Park de Nova York, abriga a maior e mais valiosa igreja do mundo, o maior e mais suntuoso palácio do planeta e um dos maiores museus da Terra.

SUBSTITUINDO O TEMPLO

O local mais fascinante de todos, porém, é provavelmente um situado dentro dos muros da antiga fortaleza da Cidade do Vaticano, cujo significado simbólico quase todos os visitantes ignoram. Sua importância teológica pode ser mais bem compreendida se percebermos que esta realização católica era algo expressamente proibido aos judeus. No Talmude, a coletânea antiga de comentários sagrados dos grandes sábios judeus que se estendem por mais de cinco séculos, a lei claramente proíbe qualquer pessoa de construir uma réplica em tamanho real do Templo Sagrado de Jerusalém em outro local que não seja o próprio monte do Templo (Tratado Megilá, 10a). Esta lei foi decretada para impedir sangrentos cismas religiosos, como os que aconteceram mais tarde no Cristianismo (entre o catolicismo romano, a ortodoxia oriental e grega e o protestantismo, e seus séculos de guerras mutuamente destrutivas) e no Islã (entre sunitas e xiitas, que tristemente continuam se matando uns aos outros em vários pontos do planeta).

Há seis séculos, porém, um arquiteto católico que não estava sob o jugo das leis talmúdicas fez exatamente o que era proibido. Ele desenhou e construiu uma incrível cópia em tamanho real do compartimento mais recôndito do templo, o Santo dos Santos, do Templo Sagrado do rei Salomão em Jerusalém – exatamente no meio da Roma renascentista. Para chegar às medidas e proporções exatas, o arquiteto estudou os escritos do profeta Samuel da Bíblia Hebraica, nos quais ele descreve o primeiro Templo Sagrado, cúbito por cúbito (1 Reis 6:2). Esta reprodução maciça do heichal, a parte posterior do primeiro Templo, ainda existe hoje. É chamada de la Cappella Sistina – a Capela Sistina. É este o destino de mais de quatro milhões de visitantes por ano, que vêm para ver os incríveis afrescos de Michelangelo e reverenciar um local sagrado do cristianismo.

Antes da criação desta réplica do templo judeu, existiu durante a Idade Média uma outra capela exatamente no mesmo local. Era chamada de la Cappella Palatina (Capela Palatina), ou Capela Palaciana. Como todos os governantes europeus tinham suas próprias capelas reais para rezar em particular com seu séquito real, julgou-se necessário que o papa também tivesse uma em seu próprio palácio. O objetivo era mostrar o poder da Igreja, que tinha de ser visto como maior que o de qualquer soberano secular. Não é nenhuma coincidência o fato de que a palavra palatina derive da colina Palatina, lar dos seres humanos mais poderosos da história ocidental naquela época – os imperadores pagãos da antiga Roma. Segundo a tradição romana, foi na colina Palatina que Rômulo fundou a cidade em 21 de abril de 753 a.C. Desde então, todos os governantes de Roma moraram na colina Palatina, construindo palácios espetaculares, um após o outro. A Igreja estava determinada a provar que era o novo poder reinante na Europa e esperava espalhar a cristandade, ou seja, o império do cristianismo, por todo o globo. Esta capela foi projetada para ser um indício da glória e do triunfo futuros, e por isso o papa desejava que sua opulência ofuscasse todas as outras capelas reais da Terra.

Além da magnífica Palatina, existia também a Niccolina, uma pequena capela particular estabelecida pelo papa Nicolau V em 1450 e decorada pelo grande pintor renascentista Fra Angelico. Esta é uma pequena sala em uma das partes mais antigas do Palácio Papal, com a capacidade de abrigar o papa e alguns de seus assessores pessoais. Por esta razão, a Palatina também era chamada de Cappella Maggiore, ou Capela Maior, porque podia abrigar toda a corte papal e seus convidados mais importantes.

A história da Capela Sistina, entretanto, teve início com um pontífice que desejou que a capela fosse ainda maior e mais suntuosa que a Cappella Palatina.

O GRANDE PLANO DO PAPA SISTO IV

O nome de batismo de Sisto era Francesco della Rovere. Nasceu em uma família humilde do noroeste da Itália, em uma cidade próxima a Gênova. O sacerdócio foi o seu caminho natural, pois quando jovem tinha inclinação intelectual, mas nenhum dinheiro. Ele se tornou um monge franciscano e aos poucos galgou os degraus da escada administrativa e educacional da Igreja, e por fim chegou a ser cardeal, em Roma no ano de 1467. Foi eleito sem muito alarde por um conclave de apenas 18 cardeais e adotou o nome de Sisto IV, o primeiro papa com este nome em mais de mil anos. Seus primeiros atos nada tiveram a ver com as várias crises que o Vaticano enfrentava: ele se ocupou inicialmente em suprir sua família com títulos, propriedades e privilégios. Ele dotou vários de seus sobrinhos de uma riqueza obscena, ordenando-os como cardeais (um deles tinha apenas 16 anos) ou casando-os com representantes de famílias nobres e ricas. Porém, isto estava longe de ser incomum. Durante a Idade Média, o Renascimento e até o final do século XVIII, os papas corruptos costumavam escolher seus sobrinhos mais decadentes para fazer todo o trabalho sujo necessário para elevar o status material de todas as suas famílias de “abastado” para “astronomicamente rico”. Em italiano medieval, a palavra para “sobrinho” é nepote, e o sistema de poder e corrupção absolutos tornou-se conhecido como nepotismo. O sobrinho mais famoso de Sisto foi Giuliano, que mais tarde se tornou o papa Júlio II, o homem que forçou Michelangelo a pintar o teto da Capela Sistina.

Quando o papa Sisto IV iniciou seu reinado em 1471, a Capela Palatina corria o risco de desmoronar. Era uma construção pesada, assentada em um local perigoso, o solo mole do antigo cemitério etrusco da encosta da colina Vaticana. Esta situação simbolizava perfeitamente a crise da própria igreja quando Sisto assumiu o poder: estava repleta de complôs, escândalos e cismas. Governantes estrangeiros, como Luís XI da França, guerreavam contra o Vaticano pelo direito de escolher e nomear cardeais e bispos. Territórios inteiros da Itália rejeitavam a jurisdição papal. O pior de tudo, porém, era a ameaça dos turcos otomanos, que estavam a caminho. Apenas 18 anos antes, Constantinopla caíra nas mãos dos muçulmanos, marcando a morte do Império Cristão Bizantino. As ondas de choque reverberaram por toda a Europa cristã. Em 1480, os otomanos invadiram a península Itálica e capturaram a cidade de Otranto na costa sudeste. Mataram o arcebispo e muitos padres na catedral, forçaram a conversão dos habitantes da cidade, decapitaram 800 que se recusaram a se converter e serraram o bispo ao meio. Depois disso, atacaram várias outras cidades da costa. Muitos temiam que Roma pudesse sofrer o mesmo destino de Constantinopla.

Apesar de todas estas ameaças à existência do cristianismo, Sisto gastou grandes quantidades do ouro do Vaticano na revitalização dos esplendores de Roma, reconstruindo igrejas, pontes, ruas, fundando a Biblioteca Vaticana e começando uma coleção de arte que se tornaria o Museu Capitolino, hoje o mais antigo do mundo em funcionamento. Seu projeto mais famoso, porém, foi a reconstrução da Capela Palatina.

Há muito sobre a história da Capela Sistina que parece obra do destino. Segundo as fontes mais confiáveis, o trabalho de renovação da capela teve início em 1475. Neste mesmo ano, na cidade toscana de Caprese, nasceu Michelangelo Buonarroti. Seus destinos se uniriam ainda mais fortemente nos anos a seguir.

A NOVA CAPELA

O papa Sisto decidiu não apenas reconstruir a capela papal decadente, mas aumentá-la e torná-la mais suntuosa. Ele contratou um jovem arquiteto florentino de nome Bartolomeo (“Baccio”) Pontelli. A especialidade de Pontelli era a construção e o reforço de fortalezas, como as das cidades de Ostia e Senigallia, ainda em boas condições. Isto era especialmente importante para Sisto, pois o pontífice tinha medo tanto dos muçulmanos turcos quanto das turbas católicas de Roma. Foi desenhado o projeto de uma capela enorme, maior que a maioria das igrejas, com um bastião de fortaleza no topo para a defesa do Vaticano.

Talvez nunca saibamos ao certo de quem foi a idéia de construir a Capela Sistina como uma cópia do Templo Sagrado dos judeus. Sisto, instruído nas Escrituras, conhecia as dimensões exatas, encontradas nos escritos sobre o profeta Samuel no segundo Livro dos Reis. Com isto em mente, ele talvez tenha se sentido ansioso para dar expressão concreta ao conceito teológico de “sucessionismo”, uma idéia que já ocupava um lugar de destaque no pensamento cristão. Sucessionismo significa que uma fé pode substituir outra anterior que deixou de ter efeito. Em termos religiosos, é comparável ao que Darwin mais tarde postularia na teoria da evolução: os dinossauros deram lugar aos homens de Neandertal, por sua vez substituídos pelo homo sapiens totalmente desenvolvido. A crença, segundo o sucessionismo, era de que as filosofias pagãs greco-romanas foram substituídas pelo judaísmo, por sua vez superado pela Igreja triunfante, a fé verdadeira que invalida todas as outras. O Vaticano pregava que os judeus, por terem matado Jesus e rejeitado seus ensinamentos, foram punidos com a perda de seu Templo Sagrado, da cidade de Jerusalém e também de sua terra natal. Além disso, foram condenados a vagar pela Terra para sempre, como um alerta divino a todos que se recusassem a obedecer a Igreja. É importante observar que este ensinamento foi rejeitado e proibido categoricamente no Segundo Concílio do Vaticano de 1962.

Baccio Pontelli não era um grande erudito religioso; entretanto, era um florentino; e naquela época, Florença se mostrava uma das cidades mais liberais e tolerantes, não só da Itália, como também da Europa. A comunidade judaica local, embora contasse com apenas algumas centenas de pessoas, era bem aceita e muito influente na pulsante vida cultural e intelectual da cidade. Pontelli deve ter conhecido muitos artistas e arquitetos habituados a incorporar temas judaicos em seus trabalhos.

Independente de quem teve a idéia, a nova Capela Palatina foi elaborada para substituir o antigo templo judeu, na qualidade de Novo Templo Sagrado da Nova Ordem Mundial da Nova Jerusalém, que a partir de então seria a cidade de Roma, a capital do cristianismo. Suas medidas são 40,93 metros de comprimento por 13,41 de largura e 20,70 de altura, exatamente como as do heichal, a seção posterior retangular e longa do primeiro Templo Sagrado completado pelo rei Salomão e seu arquiteto, o rei Hiram de Tiro (Líbano) no ano 930 a.C.

Um fato ainda mais notável, que a maioria dos visitantes não percebe, é que em conformidade com a intenção de reproduzir o local sagrado que existia na antiga Jerusalém, o santuário foi construído em dois níveis. A metade ocidental, que abriga o altar e a área particular destinada ao papa e seu séquito, tem cerca de 15 centímetros a mais de altura do que a metade oriental, originalmente reservada aos espectadores comuns. Esta seção mais alta corresponde ao recesso mais recôndito do Templo Sagrado original, o Kodesh Kodoshim, o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote podia entrar, e somente uma vez ao ano, no Yom Kippur, o Dia da Expiação ou Dia do Perdão. O sumo sacerdote passava simbolicamente pela parochet, a cortina espessa e decorada de linho torcido, chamada pelos evangelhos de véu, para fazer as orações de grande importância pelo perdão e pela redenção do povo. Para mostrar exatamente onde este véu era localizado no Templo de Jerusalém, foi construída uma enorme parede divisória de mármore branco em forma de grade, com sete “chamas” de mármore no topo, para corresponder à menorá sagrada, o candelabro de sete braços que iluminava o santuário judeu nos templos bíblicos.

DO TETO AO CHÃO

O teto original era ilustrado com um tema simples, comum em muitas sinagogas: um céu noturno pontilhado de estrelas douradas. A cena é uma alusão ao sonho que Jacó teve enquanto dormia sob as estrelas (Gênesis 28: 11-19), logo após fugir da casa de seu pai. Esta passagem narra que Jacó teve uma visão de “uma escada pela qual anjos subiam e desciam”. Ele deu ao lugar onde dormiu o nome de Beit-el, a Casa de Deus. Segundo a tradição judaica, este teria sido o local exato onde o templo foi erigido. Ao fazer esta referência simbólica à história do sonho de Jacó, o teto expressava uma outra ligação com o Templo Sagrado de Jerusalém.

Para tornar a capela ainda mais singular, foi dada grande atenção também ao seu piso. Trata-se de uma obra-prima impressionante que geralmente passa despercebida aos olhos do visitante comum, pois sua visão é encoberta pelos pés de milhares de turistas e ignorada por causa dos afrescos do teto, mundialmente conhecidos. O piso é uma retomada no século XV do estilo medieval de mosaico cosmatesco. A família Cosmati desenvolveu sua técnica inconfundível em Roma nos séculos XII e XIII. Este estilo decorativo era uma criação imaginativa de formas geométricas e espirais em peças cortadas de mármore e vidro colorido (muitas delas “recicladas” de templos e palácios romanos pagãos). Há exemplos maravilhosos destas decorações e assoalhos cosmatescos autênticos em alguns dos conventos e das igrejas e basílicas mais antigas e belas em Roma e no sul da Itália. Um dos últimos artesãos da família Cosmati foi levado a Londres no século XIII para fazer os mosaicos místicos do assoalho da abadia de Westminster.

É de consenso geral que estes assoalhos muito especiais eram apreciados não apenas por sua beleza e riqueza de cores e materiais, que incluíam o pórfiro roxo, de valor inestimável, mas também por sua espiritualidade esotérica. Muito já se escreveu sobre estes mosaicos, e disso já se ocuparam teólogos, arquitetos e até mesmo matemáticos. Em parte, os mosaicos conferem a qualquer santuário uma sensação de espaço, ritmo e fluidez de movimento. Indubitavelmente, eles também servem como instrumento de meditação, de maneira semelhante aos labirintos comuns nas igrejas da Idade Média. Na Capela Sistina, o piso é uma variação destes assoalhos cosmatescos, pois foram elaborados dois séculos após a renomada família Cosmati finalizar o seu último projeto. Seu desenho teve como base algumas partes que restaram de uma capela anterior, mas adquiriram um estilo e um significado próprios.

O desenho do piso da Sistina foi elaborado para servir a quatro funções principais. Primeiro, embeleza a capela com uma graça toda especial. Segundo, ajuda arquitetonicamente a definir o espaço, ao mesmo tempo em que o alonga e dá a sensação de fluidez de movimento. Ela também “dirige” os movimentos e a ordem dos ritos durante uma missa da corte papal, mostrando onde o papa deve se ajoelhar, onde a procissão deve parar durante o canto de certos salmos e hinos, onde os celebrantes do serviço religioso devem ficar, onde o incenso deve ser colocado, entre outras coisas. Por fim, a função menos conhecida de todas é de instrumento de meditação cabalística, que mais uma vez conecta a capela às fontes judaicas antigas. Dentro dela, há uma gama variada de símbolos místicos: as esferas da Árvore da Vida, os caminhos da alma, as quatro camadas do universo e os triângulos de Filo de Alexandria.

Cabala significa literalmente em hebraico “aquilo que se recebe”, e se refere às tradições místicas que compreendem os segredos da Torá, as verdades esotéricas que revelam o conhecimento mais profundo do mundo, da humanidade e do Todo-Poderoso. Filo era um místico judeu de Alexandria, no Egito, que escreveu dissertações sobre a Cabala no século I da era cristã. Ele é comumente considerado o elo central entre a filosofia grega, o judaísmo e o misticismo cristão. Seus triângulos apontam para cima ou para baixo para mostrar o fluxo de energia entre a ação e a recepção, o masculino e o feminino, Deus e a humanidade, e entre o mundo inferior e o superior. Na verdade, o nome latino para este tipo de decoração com mosaicos é opus alexandrinum (obra alexandrina) por ser repleto de simbolismo cabalístico concebido originalmente por Filo de Alexandria.

Por causa deste nome latino, muitos historiadores da arte e arquitetos crêem erroneamente que o piso em estilo cosmatesco teria se originado em Alexandria, no Egito, ou que foi popularizado pelo papa Alexandre VI Borgia, no final do século XV. Entretanto, não há nenhuma prova de que este tipo de desenho tenha existido na antiga Alexandria; e quanto à alegada relação com o papa Alexandre VI, este entrou em cena mais de duzentos anos após o auge do piso cosmatesco. Acreditamos que a conclusão mais lógica é a de que foi a ligação com a Cabala alexandrina que deu o seu nome ao desenho cosmatesco.

Uma outra ligação com o templo judeu é o fato notável de que o Selo de Salomão é um símbolo recorrente nos pisos cosmatescos, e encontrado nos desenhos do piso da Capela Sistina. Este símbolo era considerado a chave para a sabedoria esotérica antiga dos judeus. O selo, composto de uma combinação dos dois triângulos de Filo sobrepostos, apontando para cima e para baixo, é chamado hoje de Magen David, ou Estrela de Davi. A estrela é praticamente um emblema universal do judaísmo, e foi escolhida para ser a figura central da bandeira do estado moderno de Israel. Porém, no final do século XV, ainda não era um símbolo representativo do povo judeu, mas de seu conhecimento místico arcano. Até mesmo Rafael escondeu um Selo de Salomão em seu afresco místico gigante A Escola de Atenas.

O entendimento do significado mais profundo do selo enquanto parte da Capela Sistina requer uma contextualização. A evidência arqueológica mais antiga do uso judeu deste símbolo é a de uma inscrição atribuída a Josué ben Asayahu no final do século VII a.C. A lenda por trás desta associação com o rei Salomão – e daí o seu outro nome, Selo de Salomão – é bastante fantasiosa e muito provavelmente falsa. Nas lendas medievais judaicas, muçulmanas e cristãs, assim como em um dos contos das Mil e Uma Noites, o Selo de Salomão, com seu formato hexagonal, era um anel-sinete mágico que supostamente pertencera ao rei e que lhe concedia o poder sobre os demônios (ou jinni), ou de falar com os animais. Segundo alguns pesquisadores, a razão pela qual este símbolo é mais comumente atribuído ao rei Davi é porque o hexagrama representa a carga astrológica da hora do nascimento de Davi ou de sua unção como rei. Porém, o significado mais profundo e certamente o mais correto é a interpretação mística que o associa ao sete, o número sagrado, com suas seis pontas ao redor de seu centro.

O número sete tem uma importância religiosa especial no judaísmo. Na Criação, temos os seis dias seguidos do sétimo, o Sabá, o dia de descanso declarado santo por Deus e dotado de uma bênção singular. Todo sétimo ano é um ano sabático, no qual a terra não pode ser cultivada, e após sete ciclos de sete anos, o ano Jubileu traz liberdade aos que tinham sido vendidos como escravos e aos que se tornaram escravos por causa de dívidas, e o retorno das propriedades aos seus donos originais. Porém, o fato mais importante de todos para a compreensão do significado do uso do número sete nos mosaicos do chão da Capela Sistina é a sua ligação com a menorá do antigo Templo, cujas sete lâmpadas de óleo se apóiam em três braços que saem de cada lado de uma haste central. Já foi sugerido enfaticamente que a Estrela de Davi se tornou um símbolo padrão nas sinagogas justamente por ser elaborada segundo o esquema 3+3+1: um triângulo para cima, um para baixo e o centro; e isto corresponde precisamente à estrutura da menorá. Esta menorá é exatamente o item representado tão vividamente no Arco de Tito, construído para celebrar a vitória do Império Romano sobre o que considerava um povo derrotado do qual nunca mais se ouviria falar.

Entretanto, graças a artistas, como os da família Cosmati e Michelangelo, o simbolismo judeu continuaria a ser conhecido cada vez mais, por meio de todas as suas obras mais famosas. O segredo mais estranho da capela mais católica do mundo é que o mosaico gigante de seu chão está repleto de Estrelas de Davi.

OS AFRESCOS ORIGINAIS DO SÉCULO XV — AS APARÊNCIAS ENGANAM

A atração principal da nova capela, porém, não era nem o seu chão nem o seu teto, mas as suas paredes. Partindo da parede frontal do altar, começam duas séries de painéis – uma sobre a vida de Moisés e outra sobre a de Jesus, duas histórias bíblicas contadas de maneira semelhante ao formato de histórias em quadrinhos.

Para pintar tantos afrescos de execução tão trabalhosa, foi trazida uma equipe formada pelos principais pintores de afrescos do século XV. Se quisermos ser mais precisos, diríamos que a equipe foi enviada. É importante saber disso por conta de quem os enviou: ninguém menos que Lorenzo de’ Medici, o homem mais rico de Florença e seu governante não-oficial. Ele foi o mesmo homem que mais tarde descobriria Michelangelo e o criaria como um de seus filhos.

O papa Sisto IV odiava Lorenzo e sua família, e lutara contra eles por muitos anos. Sisto desejava tomar o controle de Florença, capital do livre-pensamento, e de sua grande riqueza, para que pudesse então assumir o controle de toda a Itália central. Em 1478, o papa tentou eliminar Lorenzo e todo o clã de’ Medici de uma vez por todas. Sisto deu início a uma primeira versão de assassinato mafioso. A única diferença é que esta conspiração em particular era algo que nem mesmo o Poderoso Chefão ousaria empreender. Sisto planejou assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano na Catedral de Florença, em frente ao altar principal, durante a missa de Páscoa. Um elemento ainda mais blasfemo do plano era o sinal escolhido para marcar o momento da matança: a elevação da hóstia. Até mesmo assassinos profissionais de sangue frio recusaram este trabalho, e o papa teve de contar com a ajuda de um padre e do arcebispo de Pisa. Estes dois tramaram os detalhes juntamente com Girolamo Riario, o sobrinho mais corrupto de Sisto. O papa se recusou a ouvir os pormenores, dizendo de maneira evasiva: “Façam o que for necessário, contanto que ninguém seja morto”. Entretanto, ele ordenou a seu líder militar Federico da Montefeltro, o duque de Urbino, que reunisse 600 soldados nas colinas ao redor de Florença e esperasse pelo sinal da morte de Lorenzo. O ataque vergonhoso seguiu conforme o planejado… até certo ponto. Giuliano de’ Medici morreu no local, ferido com 19 punhaladas. Lorenzo, embora ferido gravemente, conseguiu escapar por um túnel secreto e sobreviveu. O sinal para a invasão de Florença nunca foi dado. Os florentinos enfurecidos, ao invés de se levantar contra o clã de’ Medici, como Sisto esperava, assassinaram os conspiradores. Foi necessário que o próprio Lorenzo intercedesse pessoalmente para que os cidadãos não matassem o cardeal Raffaele Riario, outro sobrinho do papa que não tivera nenhum envolvimento no golpe. Dois anos mais tarde, o papa cedeu e o Vaticano e Florença declararam uma trégua. Foi exatamente nesta ocasião que a nova capela estava pronta para ser redecorada.

Por que então Lorenzo enviou seus pintores mais talentosos para decorar a capela, glorificando o homem que matara seu amado irmão e tentara também assassiná-lo? Segundo as fontes oficiais, este gesto foi uma “oferta de paz”, um ato de perdão e reconciliação. Porém, a explicação oficial é equivocada. O motivo real é essencial para se entenderem as mensagens dos afrescos, de conteúdo nem um pouco conciliatório.

Lorenzo de fato enviou a elite artística: Sandro Botticelli, Cosimo Rosselli, Domenico Ghirlandaio, que mais tarde seria professor de Michelangelo por um breve período, e Perugino, pintor da Umbria, que posteriormente seria mestre de Rafael. Além de ter de revestir todas as quatro paredes da capela com as séries de painéis sobre a vida de Moisés e a de Jesus, eles foram encarregados de acrescentar uma faixa superior de pinturas retratando os primeiros trinta papas e também um grande afresco da Assunção da Virgem Maria ao Céu na parede frontal do altar, entre as duas janelas. Com tantos afrescos a executar, a equipe de artistas posteriormente trouxe Pinturicchio, Luca Signorelli, Biagio d’Antonio e alguns assistentes. Este grupo compõe a lista do “Quem é quem” dos principais pintores de afrescos da pintura italiana do século XV. Todos eles eram florentinos orgulhosos, com exceção de Perugino e seu pupilo Pinturicchio.

O papa planejara o seu próprio desenho com várias camadas de simbolismo para a capela. Este tinha o objetivo de ilustrar o sucessionismo para o mundo, provando que a Igreja era a herdeira legítima do monoteísmo, por substituir o judaísmo. Para atingir este intento, cada painel da história de Moisés foi emparelhado com um da história de Jesus. A série de painéis de afrescos da parte norte narra a vida de Jesus, de esquerda para direita, na ordem cristã. A série da parte sul conta a história de Moisés, mas da direita para a esquerda, na ordem hebraica. Esta disposição resultou em oito “pares”:

A descoberta de Moisés bebê no Nilo | O nascimento de Jesus na manjedoura

A circuncisão do filho de Moisés | O batismo de Jesus

A ira de Moisés e sua fuga do Egito | As tentações de Jesus

A separação das águas do mar Vermelho | O milagre de Jesus caminhando sobre as águas

Moisés no monte Sinai | O sermão da montanha de Jesus

A revolta de Coré | Jesus entregando as chaves a Pedro

O último discurso e morte de Moisés | A última ceia de Jesus

Anjos defendendo o túmulo de Moisés | Jesus ressurgido do túmulo

Algumas das “conexões” requerem um esforço de imaginação, mas a idéia era demonstrar que a vida de Moisés serviu apenas para prenunciar a vida de Jesus.

Um outro objetivo do papa era promover o culto da Virgem Maria. Sisto IV queria dedicar a capela à Assunção de Maria ao Céu, celebrada todos os anos no calendário católico no dia 15 de agosto. Por este motivo, Perugino pintou o afresco gigante da subida de Maria ao Céu na parede do altar, retratando o próprio papa Sisto IV ajoelhado diante dela.

O último desejo do papa – e provavelmente o mais caro de seu coração – era glorificar e solidificar a sua própria autoridade suprema e a de sua família, os della Rovere. O papado ainda se refazia de séculos de cismas, escândalos, antipapas, intrigas e assassinatos. Havia apenas cinquenta anos que a corte pontifícia retornara a Roma, após o assim chamado “exílio babilônico” dos papas em Avignon, na França. O papa Sisto estava ansioso para demonstrar não só a supremacia do cristianismo sobre o judaísmo e da autoridade divina dos papas sobre o mundo cristão, como também a sua superioridade pessoal sobre todos os papas que o precederam. Foi por esta razão que, por sua ordem, Aarão, o primeiro sumo sacerdote dos judeus, e Pedro, o primeiro papa, foram vestidos de roupas azuis e douradas, as cores heráldicas da família della Rovere. É por isso também que a capela está repleta de desenhos de carvalhos e bolotas em todos os cantos: “rovere” significa “carvalho”, e esta árvore é o símbolo do brasão da família. Pelo mesmo motivo, Sisto também colocou o seu próprio retrato acima da série de pinturas dos primeiros trinta papas, bem no centro da parede frontal, junto à Virgem Maria no Céu.

Com isto em mente, voltemos à nossa questão: por que Lorenzo enviou seus melhores artistas a Roma para executar este trabalho de auto-engrandecimento para o homem que tramara contra ele e sua família? Conforme demonstraremos, a resposta é muito simples: para sabotar a amada capela de Sisto.

Muito provavelmente, foi Botticelli o agitador e coordenador do grupo do projeto de pintura dos afrescos. Os textos oficiais sobre a Capela Sistina apontam Perugino como o líder, mas uma análise rápida demonstra que ele – o único que não era de Florença – não fazia parte da trama. Seu estilo e esquema de cores são completamente diferentes de todos os outros painéis, e seu simbolismo não contém nenhuma mensagem antipapal; ao passo que, por toda a capela, os outros artistas parecem livres para dar vazão às suas críticas.

Cosimo Rosselli tinha um cachorrinho branco que se tornou o mascote dos artistas da Toscana. Não sabemos se permitiam que o cachorro brincasse dentro da capela enquanto os pintores trabalhavam, mas podemos vê-lo fazendo travessuras em todos os painéis de afrescos, exceto os de Perugino, da Umbria. Na Última Ceia, ele aparece saltando junto aos pés de seu dono. No afresco Adoração do Bezerro de Ouro, ele parece na verdade estar saindo do painel e entrando na capela.

Temos que admitir que a presença de um cachorro no santuário não é um grande insulto, e não é mais que uma possível impureza ritual. Porém, os florentinos inseriram imagens bem mais fortes em seus trabalhos para seu ajuste de velhas contas com o papa. Botticelli era quem tinha o maior ressentimento. Após a execução dos conspiradores que atacaram os irmãos de’ Medici, Botticelli fizera um afresco mostrando seus cadáveres pendurados na catedral para exibição pública. Esta pintura continha legendas sarcásticas atribuídas ao próprio Lorenzo de’ Medici. Como parte do tratado de paz oficial entre o Vaticano e Florença em 1480, Sisto insistiu para que este afresco fosse totalmente destruído. Botticelli certamente não estava inclinado a esquecer ou perdoar isso. Por esta razão, em seu painel da Fuga de Moisés do Egito, ele inseriu um carvalho – o símbolo da família della Rovere – acima das cabeças dos arruaceiros pagãos que Moisés afugenta. Perto dos carneiros inocentes e da visão sagrada da Sarça Ardente, entretanto, ele colocou uma laranjeira com um cesto de laranjas, o símbolo da família florentina de’ Medici. Na Revolta de Coré, Botticelli vestiu o rebelde Coré de azul e dourado, as cores do clã della Rovere, e bem ao fundo retratou dois barcos: um naufragado, representando Roma, e um outro navegando tranquilamente, com a bandeira de Florença orgulhosamente tremulando em seu topo. No quadro das Tentações de Cristo, ele inseriu o amado carvalho de Sisto em dois lugares: um junto a Satanás quando este é desmascarado, e outro cortado e pronto para ser queimado no Templo.

Biagio d’Antonio, outro filho orgulhoso de Florença, não queria ser deixado para trás. Em seu painel, a Separação das Águas do Mar Vermelho, ele mostra o mau faraó usando as cores da família della Rovere e uma construção de aparência suspeita, semelhante à própria capela, sendo tragada pelas águas vermelhas revoltas.

A nova capela, ainda chamada de Palatina, foi consagrada na festa da Assunção de Maria em 15 de agosto de 1483. O papa, orgulhoso, oficiou a cerimônia. Ele estava contente e totalmente alheio à grande quantidade de insultos secretos contra ele.

Sisto IV podia ser tudo, menos um grande estrategista ou diplomata. Ele fez várias alianças precipitadas e conflituosas, e estava claramente mais preocupado em aumentar a riqueza e o poder de sua família do que em fortalecer a Igreja. Felizmente, a invasão muçulmana da Itália chegou a um fim inesperado. Maomé II, o sultão do Império Otomano, morreu na primavera de 1481, mas Sisto tomou os créditos do fim da invasão para si. Ele faleceu um ano mais tarde, feliz e sem saber que Lorenzo conseguira ridicularizar sua intenção de fazer da capela um serviço à sua egolatria.

Visto em retrospecto, é surpreendente notar o quanto os primeiros artistas puderam agir livremente dentro da Capela Sistina. Entretanto, o verdadeiro mestre das mensagens ocultas surgiria uma geração mais tarde… e com muito mais a dizer.
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