Trecho do Livro: Vale Tudo – Tim Maia | Nelson Motta

Livros Vale Tudo Tim Maia Nelson Motta BooksLivro: Vale Tudo – Tim Maia

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O Sonho Americano, 1959, 75 kg.

Fulminado por um câncer na próstata, seu Altivo resistiu poucos meses e morreu em fevereiro de 1959, deixando Tim tristíssimo, mas também se sentindo mais livre para lutar por seu sonho de ir para os Estados Unidos.

O pai era antiamericanista ferrenho, detestava tudo que era americano, vivia dizendo que Tim tinha de conhecer o Brasil primeiro. Dona Maria também não gostava nada da idéia, ele não tinha nem 17 anos. Aconselhava-o a tentar a vida em Brasília, que estava sendo construída e cheia de oportunidades.

Com o rock decadente e sem chances de se integrar ao mundinho Zona Sul da bossa nova, Tim se sentia mais gordo e pobre do que nunca. Lembrou-se de conversas com o produtor Jacy Campos, na TV Tupi, nos tempos do “Clube do Rock”, sobre cursos de televisão nos Estados Unidos, como o que Jacy havia feito graças a uma bolsa de estudos. Voltou ao Cassino da Urca, procurou-o e conseguiu na Embaixada americana alguns folhetos de cursos de televisão. Queria ser diretor, gostava de som e de imagens, de novas tecnologias, de mandar. Claro, seria também o apresentador e artista principal de seu programa musical.

O único problema, além dos textos em inglês, era conseguir uma bolsa de estudos. O inglês foi resolvido por frei Cassiano, da igreja dos Capuchinhos. As condições e exigências, somadas a seu péssimo histórico escolar, reduziam suas esperanças de conseguir uma bolsa a zero. Restava-lhe tentar a vida nos Estados Unidos com a cara, a coragem e um dinheirinho arrecadado com os parentes e com a venda de tudo que tinha, inclusive o violão.

Certamente por intervenção da providência divina, a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu da agência de viagens Camilo Khan grandes descontos para levar um grupo de sacerdotes e paroquianos aos Estados Unidos. Assim que foi informado, frei Cassiano chamou Tim, encorajou-o e foi o primeiro a fazer uma doação para a viagem. Era preciso agir rápido, o avião partiria dentro de um mês. Mesmo com grandes descontos, a passagem, só de ida, custava muito dinheiro — e era pouco o tempo para Tim arrancá-lo de onde pudesse. Começou uma campanha em casa e durante duas semanas pediu qualquer dinheiro a qualquer pessoa que, por alguma obscura razão, se dispusesse a doá-lo ao ex-baterista dos Tijucanos do Ritmo.

Milagrosamente, por intermédio de frei Cassiano, que fechou a conta com uma doação extra do próprio bolso, Tim conseguiu pagar a passagem três dias antes da data fatal. No Divino e nas redondezas, o ex-marmiteiro anunciava a partida, se despedia e contava orgulhoso que faria um curso de televisão na New York University e moraria na casa de amigos de sua família, uma brasileira casada com um americano.

Prometia apaixonadamente a Marlene que ficaria famoso nos Estados Unidos, ganharia dinheiro e mandaria buscá-la para que fosse operada com as novas tecnologias americanas e pudesse voltar a andar.

Restava arranjar uma graninha para a chegada e para se agüentar nos primeiros dias. Na família, tinha conseguido três daquelas notas verdinhas de um dólar, que ele via pela primeira vez. Nas vésperas da viagem, encontrou Erasmo no Divino e ficou sabendo que a noite seria de chumbo grosso.

Uma velha casa de cômodos da rua do Matoso ia ser demolida. O último inquilino já havia saído, o pardieiro estava vazio e caindo aos pedaços e, como era muito antigo, todos os encanamentos eram de chumbo — e o chumbo valia 35 cruzeiros o quilo numa lojinha na Leopoldina. Não seria a primeira vez. Os garimpeiros de chumbo dividiam a casa por áreas e cada um ficava com a sua, para não ter briga. Só os canos de uma privada, tubos imensos de chumbo, garantiam uma semana de vida mansa e, para garotos pobres da Tijuca, farta.

Depois daquela noite, toda a turma comprou roupas novas na Ducal e Tim conseguiu mais 9 dólares, trocando os cruzeiros do chumbo a peso de ouro numa joalheria da Haddock Lobo. Achou que era pouco dólar para muito chumbo.

No dia 13 de agosto, uma sexta-feira, com 16 anos, 12 dólares no bolso e uma carta para a Sra. Cardoso, sem falar uma palavra de inglês, Tim embarcou num quadrimotor do Lóide Aéreo para uma longuíssima viagem até Nova York.

Tim evitava pensar na crendice popular que atribuía mau agouro à presença de padres a bordo, talvez por ligá-los à expectativa de uma extrema-unção momentos antes da queda fatal. Afinal, eles seriam inevitáveis em um vôo promovido pela Arquidiocese.

O dia já havia começado mal para ele no aeroporto do Galeão, quando chegara para o embarque. Despachou sua mala no balcão do Lóide, despediu-se da mãe e dos irmãos e seguiu para a fila de embarque apenas com uma pasta de couro marrom, presente do irmão Antonio. Tinha recusado a ridícula maletinha de lona azul e fecho ecler oferecida pela agência de viagem, que dava um ar de excursão escolar ao grupo.

Na sala de embarque encontrou três padres e um bispo, todos com as maletinhas de lona da Camilo Khan. Quando se encaminhava para a escada do avião, talvez por ser o mais jovem do grupo e o único que não carregava uma maleta azul, um dos sacerdotes lhe pediu que levasse a do bispo. E Tim subiu as escadas bufando com a pesadíssima, talvez cheia de Bíblias, maldita maleta azul do bispo.

O vôo foi atribulado, com o avião sacudido por fortes turbulências, pessoas vomitando, carrinhos de comida virando. Tim só se livrou da abominável maleta quando chegou a Nova York e o bispo entrou num táxi amarelo com os padres e se despediu:

“Obrigado, meu filho, que Deus o abençoe.”

Ia mesmo precisar. Ao contrário do que imaginara, sonhara e contara para todo mundo, não havia nenhuma família americana o esperando no aeroporto de Idlewild. De tanto contar e aumentar as suas histórias, acabara acreditando nelas e estava profunda e sinceramente decepcionado por não haver ninguém à sua espera.

Também não havia nenhum curso e nem qualquer amigo ou conhecido americano ou brasileiro, nem mesmo o frio que ele esperava encontrar no hemisfério norte. Estava um calor do cão, como na Tijuca em fevereiro, e um bafo quente o fazia suar em bicas e empapar a camisa e o paletó. Às onze da manhã, Tim pegou um táxi e repetiu algumas vezes o endereço da Sra. Cardoso até que o motorista jamaicano o entendesse. Ou quase.

Duas horas depois ainda rodavam pelas ruas de Terryton, uma área do Brooklyn — a mais de 40 quilômetros de distância da cidadezinha de Tarrytown, no condado de Westchester, onde morava a Sra. Cardoso — para onde o taxista o havia levado por engano, ou sotaque. Desesperado, vendo o taxímetro disparar e seu coração acelerar, sem encontrar o maldito endereço, Tim acabou batendo boca com o motorista, cada um xingando em sua língua. Terminou de mala na mão numa avenida do Brooklyn, louco de fome, de calor e de raiva e com menos 7 dólares no bolso.

Estava em um ponto de ônibus, com uma expressão tão apalermada e carente que atraiu a compaixão de uma senhora que esperava na fila e tentou descobrir de onde vinha e que estranha língua falava aquele jovem. Quando viu seu passaporte, foi até uma cabine telefônica e ligou 411 para informações, escreveu um endereço num papel e colocou Tim num ônibus que cruzaria o East River e o deixaria a duas quadras do Consulado do Brasil, na Quinta Avenida. E ainda lhe deu o dinheiro da passagem e explicou ao motorista onde ele deveria saltar. Tim cruzou a ponte do Brooklyn com o coração aos pulos e desceu na esquina da rua 42 com a Quinta Avenida. Caminhou algumas quadras olhando para cima, deslumbrado com a altura dos edifícios, assustado com a quantidade de carros na rua e de gente na calçada.

Um brasileiro menor de idade, com 5 dólares no bolso e sem ter onde ficar era encrenca na certa. A política do vice-cônsul exigia repatriação imediata, explicou o funcionário simpático a um Tim apavorado, segurando o passaporte com as duas mãos. Ofereceu-lhe um café e um bolinho, Tim se acalmou um pouco e lhe assegurou que estava sendo esperado, que deveriam estar preocupados com sua demora. O funcionário escreveu dois cartões: um com o endereço da senhora Cardoso em Tarrytown, outro, em inglês, dizendo quem ele era, de onde vinha e o apresentando à família. E pediu-lhe para esperar alguns minutos, pois quando saísse para o almoço o colocaria num táxi para a Grand Central Station, onde deveria pegar o trem para Tarrytown.

Com o cartão na mão, conseguiu chegar ao guichê e ao trem e uma hora depois desembarcava em Tarrytown, à beira do rio Hudson e à margem da rodovia 87, para começar a vida em uma terra estranha, sem falar a língua e sem conhecer ninguém. Sua única referência era a tal senhora Cardoso, que nem mesmo Cardoso se chamava, e sim O’Meara, sobrenome de seu marido americano, e era conhecida, sim, mas de uma família que era freguesa das marmitas dos Maia. E não tinha recebido nenhum pedido para receber Tim em sua casa, nem mesmo um aviso de que alguém chegaria do Brasil. O cartão no bolso de Tim apresentava-o como estudante de televisão e pedia abrigo e proteção. Mas, ao conseguir chegar ao endereço, a senhora O’Meara não estava, não havia ninguém em casa.

Um vizinho se aproximou para ajudar e Tim mostrou-lhe os cartões. Foi levado para a YMCA — Associação Cristã de Moços — próxima à casa dos O’Meara, onde pôde tomar uma chuveirada, trocar de roupa, comer e desabar em um sofá. Acordou assustado com um americano enorme, rindo muito e sacudindo-o pelos pés. Mostrou-lhe os cartões e o gringo fez sinal de que era a pessoa certa e de que ia levá-lo para a casa dos O’Meara, a poucas quadras dali. O casal era muito simpático e sorridente, ela se chamava Lilian e falava português com um sotaque carregado por seus trinta anos na América, e o marido William só falava inglês. O gringo que fora buscá-lo se chamava Richie e era irmão de William. Ao lado do casal, estava um garoto mais ou menos de sua idade, só que muito alto e magrelo, também simpático, Douglas.

Ao mostrar seu passaporte aos O’Meara, Tim se assustou quando eles começaram a rir, a bater palmas e a gritar “Oh, no! I can’t believe it!”

Todos riam muito e a mãe explicou que a data de nascimento de Tim era exatamente a mesma, dia, mês e ano, que a de Douglas, o filho único do casal O’Meara, que falava algumas palavras de português. Tim suspirou aliviado e feliz, foi recebido como um irmão, quase um gêmeo.

Jantou com a família em silêncio e, exausto de tantas emoções, dormiu como uma pedra no colchão mais macio em que já se deitara. Acordou com o sol entrando pela janela do quarto mais bonito e confortável em que já dormira, tomou um longo banho, deu good morning à família e sentou-se à mesa para seu primeiro breakfast americano. Depois saiu com brother Douglas para dar uma volta e descobriu que Tarrytown era uma graça de lugar.

O sol brilhava sobre as colinas que cercavam a cidadezinha e refletia nas águas lentas do Hudson. Cruzando a Main Street com Tim, Douglas contava que Tarrytown tinha menos de 4 mil habitantes, espalhados por uns 8 quilômetros quadrados. Muita gente trabalhava na vizinha fábrica de automóveis da General Motors, ali todo mundo se conhecia. Como na Tijuca, pensou Tim, Tarrytown era uma Tijuca rica e silenciosa. Mais adiante, Douglas parou e mostrou orgulhoso o Music Hall, uma imponente construção de mil oitocentos e tal, que, apesar do nome e para decepção de Tim, não apresentava shows de música. Era um cinema de oitocentos lugares, o maior da região, onde os filmes estreavam junto com os cinemas de Nova York.

Tim não entendia quase nada do que Douglas dizia, em português ou inglês, mas se sentia relaxado e feliz. As casas eram tão arrumadinhas e limpinhas, com seus jardinzinhos floridos de verão, que pareciam de brinquedo. Subiram pela Orchard Street, de onde se tinha uma visão deslumbrante do rio batido de sol, da ponte de Tappan Zee com suas seis pistas cheias de carros coloridos e, nas suaves colinas que cercavam a cidade e ao longo do rio, daquilo que Douglas mostrou com um gesto largo e apresentou como “Millionaire’s Colony”.

Eram diversas grandes mansões, algumas tão grandes que pareciam castelos, com jardins que eram quase parques, cercando de luxo e opulência uma cidadezinha de brinquedo. O nome não precisava de tradução, as casas diziam tudo. Uma delas, apontou Douglas, tinha 45 quartos, era do multimilionário John Rockefeller, de quem até Tim já ouvira falar.

Enquanto o tijucano Tim descobria a América, em Detroit, o negro Berry Gordy, operário da linha de montagem da Ford, pedia 800 dólares emprestados à mãe e fundava a Motown Records, que se tornaria a plataforma de lançamento do melhor funk, soul e rhythm-and-blues da década e seria uma legenda na indústria do disco e na cultura negra dos Estados Unidos.

Tim encontrava a América em ebulição e, assim como ele, pronta para grandes transformações. A Motown era apenas a ponta do iceberg negro que sacudiria a cultura americana. Liderado por Martin Luther King, o movimento pelos direitos civis avançava sobre a América segregada.

Os Estados Unidos tinham 180 milhões de habitantes e salário mínimo de um dólar por hora, a guerra fria com a União Soviética esquentava, a possibilidade de um holocausto nuclear se tornava um pesadelo para a América próspera e conservadora.

Nas ruas do Greenwich Village, em Nova York, Tim veria pela primeira vez jovens negros com orgulhosas carapinhas eriçadas e adereços africanos, testemunharia outras demonstrações de orgulho da raça e de rebeldia que jamais imaginou na Tijuca. E sentiria na pele, muito mais do que no Brasil, a chibata da discriminação.

No Brasil, Tim sempre se acreditara e se dissera mulato, mas logo descobriu que ali não havia essas sutilezas, se não era branco, negro era. Mas o pior era quando algum branquelo — ou um negro — o chamava de “spic”, que era tão ofensivo para os hispânicos quanto “nigga” para os negros. Tim se sentia um “spic nigga”.

Se lembrou da Tijuca, da rua do Matoso e do farmacêutico Timbó, inventor da miraculosa pasta Timbolina, que alisava os cabelos duros e crespos e permitia a ele, Erasmo e Roberto capricharem nos topetões indispensáveis ao look do rock-and-roll. Sem a Timbolina, comprou um creme alisante em uma farmácia e mudou radicalmente o look. Gostou do que viu no espelho; por causa dos olhos puxados, achou que ficara parecendo um havaiano negro. Mandou um postal para Erasmo contando as novidades e, por amor à bossa nova, chamou-o de Erasmo Gilberto e assinou Tim Jobim.

No fim de setembro, o tempo começou a esfriar e Tim comemorou festivamente seu décimo sétimo aniversário junto com seu “gêmeo americano”. E quase desmaiou quando recebeu o presente dos O’Meara: uma guitarra elétrica. Seus rocks e sambas encheram o ar de alegria e esquentaram a noite dos O’Meara e dos vizinhos. As tardes silenciosas de Tarrytown nunca mais seriam as mesmas.

Passou seu primeiro inverno tiritando de frio e enrolado em cobertores, mas nunca se esqueceria do seu deslumbramento com a nevasca que cobriu a cidade às vésperas do Natal. O chato foi dividir com Douglas, de pá na mão, a tarefa de tirar meio metro de neve da frente da casa, para que o carro dos O’Meara pudesse sair da garagem. Mas Tim não reclamava de nada, dava graças a Deus e às preces de dona Maria Imaculada por estar ali, com aquelas pessoas que lhe davam casa, comida e a máquina de lavar roupa.

Tim logo entendeu que falar bem a língua era fundamental para a sua sobrevivência. Com a ajuda de seu brother e de seu prodigioso ouvido musical, logo estava reproduzindo o sotaque, as cadências e sonoridades do inglês de rua, embora seu vocabulário ainda fosse pequeno e grande a confusão entre pronomes e tempos verbais. Primeiro aprendeu palavrões e gírias, depois entrou para um “curso de americanização” na Sleepy Hollow High School, e o resto veio rapidamente com a televisão, a música e a rua. Em pouco tempo, falava fluentemente e quase sem sotaque, com as gírias e os erros de concordância dos jovens negros e porto-riquenhos com quem convivia. Adotou o nome de Jimmy, the Brazilian.

Jimmy teve um Merry Christmas e ganhou presentes de todo mundo. Não estava habituado a beber, mas comemorou o New Year com um porre monumental e coletivo com os O’Meara, o seu primeiro em família. E começou a entender por que o pessoal da casa sempre ria tanto. E por que sempre acabavam brigando entre eles. Desde o dia da sua chegada, quando fora acordado pelo tio Richie às gargalhadas, trocando as pernas e com um bafo de álcool, Tim notara que todos ali eram chegados a um goró. O mais engraçado era que eles chamavam goró de spirits.

Os O’Meara eram gente boa e trabalhadora. Pelo menos até o fim da tarde. Depois que começavam a encher a cara de gim e de bourbon, tudo podia acontecer. Riam, choravam, brigavam, faziam as pazes, riam de novo. Eram irlandeses sanguíneos e passionais, sujeitos a chuvas e trovoadas.

Seu primeiro emprego foi como ajudante de caixa num pequeno supermercado de Orchard Street, um tipo de loja que não existia na Tijuca nem no Brasil, onde as pessoas enchiam um carrinho com o que queriam e depois pagavam no caixa. Para ele, acostumado a feiras, quitandas e armazéns, era novidade absoluta. Colocava as compras das madames em sacolas e ganhava gorjetas levando-as até os carros.

Tim passava as tardes no caixa vendo os gringos pegando nas prateleiras o que queriam, à vontade, sem ninguém fiscalizando ou prestando atenção, e se lembrava da marcação cerrada que o portuga do armazém da Tijuca e sua mulher exerciam sobre a molecada de dedos rápidos e olho grande. E mesmo assim não conseguiam evitar que, uma vez ou outra, um chiclete ou um chocolate desaparecessem à passagem de Tim e seus amigos. Era impossível resistir àquelas prateleiras cheias do bom e do melhor dando sopa em Tarrytown.

A cena musical americana fervia em 1960, uma nova onda negra estava se formando nos subterrâneos das grandes cidades. O rock parecia perder força, embora Elvis Presley estivesse mais forte — e romântico — do que nunca, voltando triunfalmente aos Estados Unidos depois de prestar serviço militar na Alemanha. Seu grande sucesso do ano foi “It’s Now or Never”, uma versão em inglês do clássico napolitano “O sole mio”, o rock começava a virar pizza, os jovens queriam novidades. Bob Dylan explodia no Village com um novo folk rebelde e sofisticado.

O estéreo revolucionava o mundo do disco, as paradas de sucesso eram invadidas por negros como Ray Charles (“Georgia on my Mind”) e Sam Cooke (“Chain Gang”), e The Marvelettes e Smokey Robinson and The Miracles estouravam os primeiros hits da Motown.

Depois de três meses, saiu do supermercado para lavar pratos em uma lanchonete. Começava a ganhar um dinheirinho e a ficar de saco cheio dos porres e brigas dos O’Meara. Comemorou festivamente seus 18 anos junto com Douglas, com uma grande bebedeira, e tomou a péssima decisão de abandonar o aconchego, mesmo turbulento, do lar e ir morar com dois amigos em um muquifo sem aquecimento, na parte mais pobre da cidade.

Para enfrentar o inverno, ganhara um velho sobretudo de lã de Douglas, que era bem maior do que ele. Miss Lilian cortou 20 centímetros na altura e fez uma bainha, mas mesmo assim ficou muito folgado no corpo — o que se revelaria de grande utilidade para Tim em tempos mais duros, de fome e desemprego, quando fizesse suas feiras informais no supermercado: o casacão era largo o suficiente para abrigar um frango.

Embora não estivesse desempregado — pelo contrário, passara de lavador de pratos a fritador de hambúrgueres, panquecas e steaks na lanchonete — e muito menos com fome, já que comia bastante a sua própria produção, começou a empreender incursões experimentais no supermercado, nas horas de maior movimento, fazendo pequenos produtos desaparecerem nos bolsos do casacão. Passava pela caixa, cumprimentava a garota, pagava seu bubblegum — que não existia no Brasil, onde só havia goma de mascar — e saía feliz e despreocupado pelas ruas de Tarrytown fazendo bolas cor-de-rosa de chicletes.

Também não tinha nenhuma dificuldade em surrupiar um chocolate ou um bolinho e comê-lo rapidamente no local, abaixado como quem amarra os sapatos. O supermercado era um jardim das delícias para Tim, que durante meses o freqüentou com assiduidade e discrição. Até que um dia foi pego pelo gerente com a mão na massa e a boca na botija. Foi sua primeira visita a uma delegacia americana e lhe custou o emprego na cozinha da lanchonete.

Desempregado, passando frio e queimado no supermercado, foi obrigado a buscar em outras lojas das redondezas a sua sobrevivência. Mantinha contato com os O’Meara e, de vez em quando, filava uma bóia em seu antigo lar, onde bebiam e brigavam como sempre.

Apertados no muquifo gelado, todos desempregados e vivendo de biscates, a convivência era marcada pela disputa do pouco que, às vezes, havia na geladeira. Afinal, Tim conseguiu um emprego de entregador de pizza, exaustivo nos fins de semana, mas capaz de lhe garantir boas gorjetas, almoço e jantar, embora o menu fosse sempre pizza com uma Coca-Cola grande — que enchia dois copos e ainda não existia no Brasil. Pelo menos podia variar entre mussarela, calabresa e peperoni.

Mas logo se cansou das entregas e, principalmente, das pizzas. E foi trabalhar em uma fábrica de câmeras fotográficas, onde plastificava 3 mil caixas por dia. A grana era melhorzinha, mas o trabalho era mecânico e animalesco. Tim achou melhor voltar ao ramo de alimentos, como garçom de um pequeno restaurante. Começou então a procurar algum emprego que lhe garantisse, além da comida, uma casa. Talvez em uma escola, um hospital, um asilo.

Mas acabou encontrando algo melhor: um jovem casal amigo dos O’Meara precisava de alguém para tomar conta de seu filho de 3 anos, duas noites por semana. Tim se tornou baby-sitter e só teve alegrias na nova profissão: adorava crianças e desenhos animados na televisão e tinha uma farta geladeira à sua disposição.

Uma noite o garoto dormiu e Tim levou um susto quando viu na televisão a data de 28 de setembro. Era o dia de seu aniversário. Estava perdendo a noção do tempo, fazendo 19 anos sozinho em uma terra estranha, trabalhando como babá. Teve vontade de chorar e se sentiu profundamente triste e deprimido.

Uma tarde estava saindo do Music Hall depois de ver um filme e se assustou quando alguém tocou no seu ombro e chamou “Sebastião, Sebastião”, um nome que havia anos ele não ouvia. Era alguém que vira sua foto no jornalzinho brasileiro de Nova York, publicada pelo jornalista brasileiro Louis Serrano, que fora procurado por sua irmã Luzia, a pedido da mãe, quando dava uma entrevista no programa de rádio de Luís de Carvalho. Dona Maria estava desesperada, dez meses sem notícias do filho, não sabia se estava vivo ou morto, se tinha enlouquecido como suas duas avós, e o jornalista se dispusera a procurá-lo com uma mensagem aflita de sua mãe. Tim se arrependeu amargamente de seu descaso e escreveu uma longa carta para dona Maria Imaculada, contando suas aventuras americanas e lhe pedindo desculpas e a sua bênção.

No final de 1961, conheceu o ítalo-americano Felix De Masi, também músico e cantor, e começaram a fazer planos de um conjunto vocal. Felix trouxe seu amigo Roger Bruno e Tim chamou Cornelius, um jovem negro que conhecera cantando num bar. Nasciam The Ideals, dois brancos e dois pretos cantando rhythm-and-blues, com vocais à Four Tops.

A temporada de ensaios no muquifo de Tim foi longa e barulhenta, pontuada por brigas no conjunto e reclamações de vizinhos. Mas o som estava ficando bom, as garotas começaram a aparecer, atraídas pelo look italiano e o som negro. Os ensaios foram se transformando em festas e logo Tim foi obrigado a se mudar, e os Ideals passaram a ensaiar na garagem da casa de Felix.

Os gringos, tanto os pretos como os brancos, gostavam de ouvir Tim tocar e cantar sambas e bossas nos ensaios. Com ele o som dos Ideals ganhava um tempero tropical e um ritmo contagiante. Começaram a se apresentar em bares e festas de Tarrytown, ganhando 10, 15 dólares, mas comendo, bebendo e se divertindo. Tim reforçava o orçamento cantando em festinhas de amigos de Douglas, onde ficava fazendo fundo musical enquanto a garotada dançava e fazia o making-out. O pessoal se agarrando no escurinho e Tim cantando “Olê mulé rendeira, olê mulé rendá”.

Logo Tarrytown estava pequena demais para Tim, e ele se mudou para Nova York, onde teria 19 endereços diferentes nos dois anos seguintes.

Morou em hotéis piolhentos e em abrigos para homeless cheios de bêbados e loucos, onde todo mundo roubava todo mundo. Dormiu em hospedarias com e sem travesseiro, em vãos de escada, sótãos, depósitos e até em apartamentos carpetados e com aquecimento. No verão, ainda dava para dormir no parque, mas no inverno, com 10 graus abaixo de zero e o vento cortante do rio, era impossível ficar pela rua. Os vagões do metrô eram aquecidos e Tim podia passar a noite viajando sem destino, só pelo calorzinho, mas só quando tinha os 10 cents do bilhete. Ao contrário dos cobradores dos bondes da Tijuca, as catracas do metrô nova-iorquino eram implacáveis.

Afinal, conseguiu um ótimo emprego: faxineiro em um asilo de velhinhos, onde tinha casa, comida, 40 dólares por semana e muita sujeira e porcaria para limpar. Mas podia se dedicar mais à música, a tocar violão, a ouvir discos nas lojas e a freqüentar bares do Village e do Harlem e os shows do legendário Apollo Theater, na rua 125.

Mas a vida na América não era apenas soul e R&B. O ex-bossa-novista Tim viu a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto ser aclamada nos Estados Unidos, no histórico e caótico concerto no Carnegie Hall. Tim leu as notícias e mentiu para os amigos que tinha assistido ao show do balcão graças a um ingresso milagroso. Estava orgulhoso da música brasileira, que começava a ser gravada por muitos jazzistas importantes como Stan Getz, Gerry Mulligan e Miles Davis.

No verão de 1963, Tim estava muito feliz, contava em cartas para Erasmo. Finalmente arranjara uma namorada: Jeannie, filha de um pastor presbiteriano, uma moreninha animada que era fã dos Ideals. Aos domingos, namorava e comia peru na casa do pastor. Apaixonado, compôs a bossa-soul “New Love”, em parceria com Roger Bruno, e começou a ensaiá-la com o grupo, reforçado pelo baterista Milton Banana. Seria a primeira gravação dos Ideals:

“Yes I loved, more than I was supposed to love…”

Mas o inverno estava chegando, o frio e o vento cortavam, Nova York congelava. Com três amigos, decidiu correr atrás do sol e do calor. Num carro roubado, fazendo pequenos furtos em uma cidade e vendendo em outra, cruzaram o país e passaram por nove estados.

Negro e latino ao mesmo tempo, Tim já sentira na pele o preconceito e a discriminação quando tentava alugar um apartamento em Nova York. Pelo telefone, com seu sotaque perfeito e educado, tudo corria bem. Mas quando se apresentava no local, a pia estava sempre entupida, o cano furado, o apartamento já havia sido alugado. Em estados sulistas, como Geórgia, Alabama, Mississippi, havia banheiros para brancos e coloreds e lugares separados em restaurantes.

A viagem foi marcada por muitas garrafas, cinco prisões, três ligeiras, por brigas, desacatos e bebedeiras, e uma de dez dias, por roubo de gasolina em um posto. E terminou mal, na penitenciária agrícola de Daytona, na Flórida, onde os quatro foram trancafiados depois de presos pela polícia rodoviária e condenados pelo juiz por “felonious possession of illegal substances and car theft”, com a perspectiva de uma longa etapa atrás das grades, ou pior: era a quinta anotação no seu criminal record.

Trancado na cela, cercado de bandidos, Tim se desesperava. Se envolveu em uma briga braba com outro detento, que terminou com ele mordendo ferozmente a orelha do adversário, que lhe apertava o saco com mão de ferro, um não largava do outro e os dois urravam de dor quando finalmente foram separados. Em setembro, quando fez 21 anos, foi transferido para outro pavilhão, com comida razoável e roupa lavada duas vezes por semana. E conheceu pelo rádio a música sensacional do fenômeno Little Stevie Wonder, de 12 anos. Mas ninguém lhe dizia nada, lhe deram um advogado que não fazia nada. Ele se preparava para o pior. E, na Flórida, o pior era a cadeira elétrica, tremia de pensar.

Depois de um inverno infernal, mourejando nas plantações de sol a sol, como um escravo de E o vento levou, um dia o carcereiro gritou “Maia”, e Tim tremeu. Acompanhou-o até a sala do diretor como um prisioneiro que vai para o corredor da morte.

Mas não foi mandado para a cadeira elétrica, apenas deportado para o Brasil.

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