Trecho do Livro: Eclipse | Stephenie Meyer

Eclipse é o terceiro livro da série Crepúsculo, criada por Stephenie Meyer. O livro já está em pré-venda e será lançado dia 16/01/2009.
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Livros Eclipse Stephenie Meyer BooksLivro: Eclipse

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Prólogo

Todos os subterfúgios que tentamos foram em vão.

Com gelo no coração, eu o vi se preparar para me defender. Sua intensa concentração não demonstrava sinal algum de dúvida, embora eles estivessem em maior número. Eu sabia que não podíamos esperar qualquer ajuda — naquele momento, era certo que a família dele lutava pela própria vida assim como ele lutava pela nossa.

Será que um dia eu saberia o resultado desse outro combate? Descobriria quem haviam sido os vencedores e os perdedores? Eu viveria tempo suficiente para isso?

As probabilidades não eram muito boas.

Olhos negros, selvagens com o desejo feroz por minha morte, esperavam o momento em que meu protetor estivesse distraído. O momento em que eu certamente morreria.

Em algum lugar, longe, muito longe na floresta fria, um lobo uivou.
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1. ULTIMATO

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Bella,

Não sei por que você está fazendo Charlie levar bilhetes ao Billy como se estivéssemos na segunda série, se eu quisesse falar com você teria atendido o

Foi você quem escolheu, tá legal? Não pode ter as duas coisas quando

Que parte de “inimigos mortais” é complicada demais para você

Olha, sei que estou sendo um imbecil, mas não há como

Não podemos ser amigos quando você fica o tempo todo com um bando de

As coisas só ficam piores quando eu penso demais em você, então não escreva mais

Sim, eu sinto sua falta também. Muito. Isso não muda nada. Desculpe.

Jacob
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Passei os dedos pela folha de papel, sentindo as marcas onde ele pressionara tanto a caneta que quase a rasgou. Eu podia imaginá-lo escrevendo isso — rabiscando as letras furiosas com sua caligrafia tosca, riscando linha após linha quando as palavras saíam erradas, talvez até quebrando a caneta com sua mão grande demais; isso explicaria as manchas de tinta. Eu podia imaginar a frustração unindo suas sobrancelhas pretas e enrugando sua testa. Se eu estivesse lá, poderia até rir. Não tenha um derrame cerebral por isso, Jacob, eu teria dito a ele. É só colocar para fora.

Rir era a última coisa que eu queria fazer agora, ao reler as palavras que eu já memorizara. Sua resposta a meu pedido — passado de Charlie a Billy e depois a ele exatamente como na segunda série, conforme ele observara — não era surpresa. Eu sabia a essência do que ele ia dizer antes de abrir o papel.

Surpreendente era o quanto cada linha riscada me feria — como se as pontas das letras tivessem bordas afiadas. Mais do que isso, por trás de cada começo irritado pairava um enorme poço de mágoa; a dor de Jacob me cortava mais fundo do que a minha própria.

Enquanto pensava nisso, senti o aroma inconfundível de queimado subindo da cozinha. Em outra casa, o fato de uma pessoa que não fosse eu estar cozinhando não devia ser motivo de pânico.

Enfiei o papel amarrotado no bolso de trás e corri. Desci a escada num átimo.

O vidro de molho de espaguete que Charlie colocara no microondas só estava em sua primeira volta quando abri a porta e o tirei de lá.

— O que foi que eu fiz de errado? — Charlie perguntou.

— Você devia ter tirado a tampa primeiro, pai. Não pode colocar metal no microondas. — Retirei rapidamente a tampa enquanto falava, despejei metade do molho numa tigela e a coloquei dentro do microondas e o vidro de volta à geladeira; determinei o tempo e apertei o botão “Ligar”.

Charlie observava meus ajustes com os lábios franzidos.

— Fiz o macarrão direito?

Olhei a panela no fogão — a origem do cheiro que me alertara.

— É bom mexer — eu disse com doçura. Peguei uma colher e tentei desfazer a papa grudenta que queimava no fundo.

Charlie suspirou.

— Mas o que significa isso tudo? — perguntei.

Ele cruzou os braços e olhou pela vidraça dos fundos a chuva que caía forte.

— Não sei do que você está falando — grunhiu ele.

Fiquei pasma. Charlie cozinhando? E por que aquela atitude ríspida?

Edward ainda não havia chegado; em geral, meu pai reservava esse tipo de comportamento para meu namorado, fazendo o máximo para exemplificar o assunto “incômodo” em cada palavra e gesto. Os esforços de Charlie eram desnecessários — Edward sabia exatamente o que meu pai estava pensando sem que ele demonstrasse.

A palavra namorado foi revirada por dentro da bochecha com uma tensão familiar enquanto eu mexia a panela. Não era a palavra certa, definitivamente. Eu precisava de alguma que expressasse melhor o compromisso eterno… Mas palavras como destino e sina pareciam piegas quando usadas numa conversa comum.

Edward tinha outra palavra em mente, que era a origem da tensão que eu sentia. Eu tinha arrepios só de pensar nela.

Noiva. Argh. Dei de ombros para me livrar da idéia.

— Perdi alguma coisa? Desde quando você faz o jantar? — perguntei a Charlie. O bolo de massa borbulhou na água fervente enquanto eu a cutucava. — Ou tenta fazer o jantar, melhor dizendo.

Charlie deu de ombros.

— Não há nenhuma lei que me proíba de cozinhar em minha própria casa.

— Você saberia disso — respondi, sorrindo ao olhar o distintivo alfinetado em sua jaqueta de couro.

— Rá. Essa é boa.

Ele tirou a jaqueta, como se meu olhar o lembrasse de que ainda a estava vestindo, e a pendurou no gancho reservado para suas roupas. O cinto com a arma já estava no lugar — ele não sentia a necessidade de usá-la na delegacia havia algumas semanas. Não tinha havido mais desaparecimentos perturbadores para transtornar a cidadezinha de Forks, em Washington, ninguém mais vira lobos gigantescos e misteriosos nos bosques sempre chuvosos…

Eu mexia o macarrão em silêncio, imaginando que em seu próprio tempo Charlie acabaria por falar sobre o que o incomodava. Meu pai não era um homem de muitas palavras, e o esforço dispensado tentando preparar um jantar para nós dois deixava claro que havia um número incomum de palavras em sua mente.

Olhei o relógio, por hábito, algo que eu sempre fazia mais ou menos nesse horário. Agora faltava menos de meia hora.

As tardes eram a parte mais difícil de meu dia. Desde que meu ex-melhor amigo (e lobisomem) Jacob Black me dedurara sobre a moto que eu pilotara escondido — uma traição que ele concebera a fim de me deixar de castigo para que eu não pudesse ficar com meu namorado (e vampiro) Edward Cullen —, Edward tinha permissão para me ver só das sete às nove e meia da noite, sempre no recesso do meu lar e sob a supervisão do olhar infalivelmente rabugento de meu pai.

Isso era uma evolução do castigo anterior e menos restritivo que eu recebera por um desaparecimento inexplicado de três dias e um episódio de mergulho de penhasco.

É claro que eu ainda via Edward na escola, porque não havia nada que Charlie pudesse fazer a respeito disso. E, também, Edward passava quase todas as noites em meu quarto, mas Charlie não sabia. A capacidade de Edward de escalar facilmente e em silêncio até minha janela no segundo andar era quase tão útil quanto sua habilidade de ler a mente de Charlie.

Embora eu ficasse longe de Edward só na parte da tarde, era o suficiente para me deixar inquieta, e as horas sempre se arrastavam. Ainda assim, suportava minha punição sem reclamar porque — primeiro — eu sabia que merecia e — segundo — porque eu não podia suportar magoar meu pai saindo de casa agora, quando pairava uma separação muito mais permanente, invisível para Charlie, tão próxima em meu horizonte.

Meu pai se sentou à mesa com um grunhido e abriu o jornal úmido que estava ali; segundos depois, estava estalando a língua de reprovação.

— Não sei por que lê o jornal, pai. Isso só o aborrece.

Ele me ignorou, resmungando para o jornal nas mãos.

— É por isso que todo mundo quer morar numa cidade pequena! Ridículo.

— O que as cidades grandes fizeram de errado agora?

— Seattle está se tornando a capital de homicídios do país. Cinco assassinatos sem solução nas últimas duas semanas. Dá para imaginar viver assim?

— Acho que Phoenix tem uma taxa de homicídios mais alta, pai. Eu vivi assim. — E nunca estive prestes a ser uma vítima de assassinato antes de me mudar para esta cidadezinha segura. Na verdade, eu ainda estava em várias estatísticas de risco… A colher tremeu em minhas mãos, agitando a água.

— Bom, você não tem como me cobrar por isso — disse Charlie.

Eu desisti de salvar o jantar e preparei-me para servi-lo; tive de usar uma faca de carne para cortar uma porção de espaguete para Charlie e depois para mim, enquanto ele observava com uma expressão encabulada. Charlie cobriu sua porção com molho e comeu. Eu disfarcei meu próprio pedaço ao máximo que pude e segui seu exemplo sem muito entusiasmo. Comemos em silêncio por um momento. Charlie ainda olhava as notícias, então peguei meu exemplar muito surrado de O morro dos ventos uivantes de onde deixara naquela manhã e tentei me perder na Inglaterra da virada do século enquanto esperava que ele começasse a falar.

Eu estava na parte em que Heathcliff volta quando Charlie deu um pigarro e atirou o jornal no chão.

— Você tem razão — disse Charlie. — Eu tinha um motivo para fazer isso. — Ele agitou o garfo para a gororoba. — Queria conversar com você.

Deixei o livro de lado.

— Podia simplesmente ter falado.

Ele assentiu, as sobrancelhas se unindo.

— É. Vou me lembrar disso da próxima vez. Pensei que tirar o jantar de suas mãos amoleceria você.

Eu ri.

— Funcionou… Suas habilidades culinárias me deixaram mole feito marshmallow. Do que você precisa, pai?

— Bom, é sobre Jacob.

Senti meu rosto enrijecer.

— O que tem ele? — perguntei por entre os lábios rígidos.

— Calma, Bells. Sei que ainda está chateada por ele ter delatado você, mas foi a atitude certa. Ele estava sendo responsável.

— Responsável — repeti com sarcasmo, revirando os olhos. — Muito bem, então, o que tem Jacob?

A pergunta despreocupada que se repetiu em minha cabeça era tudo, menos banal. O quem tem Jacob? O que eu ia fazer com ele? Meu ex-melhor amigo que agora era… o quê? Meu inimigo? Eu me encolhi.

A expressão de Charlie de repente era de preocupação.

— Não fique chateada comigo, está bem?

— Chateada?

— Bom, é sobre Edward também.

Meus olhos se estreitaram.

A voz de Charlie ficou mais ríspida.

— Eu o deixo entrar aqui em casa, não é?

— Deixa mesmo — admiti. — Por períodos curtos de tempo. É claro que você também podia me deixar sair de casa por períodos curtos de vez em quando — continuei, só de brincadeira; eu sabia que ficaria trancafiada aqui por todo o ano letivo. — Tenho sido muito boazinha ultimamente.

— Bom, era aí que eu ia chegar… — E, então, o rosto de Charlie se esticou num sorriso inesperado que fez rugas nos olhos; por um segundo ele parecia vinte anos mais novo.

Eu vi um brilho fraco de possibilidade naquele sorriso, mas continuei, devagar.

— Estou confusa, pai. Está falando de Jacob, de Edward ou de meu castigo?

O sorriso faiscou de novo.

— Mais ou menos dos três.

— E qual é a relação entre eles? — perguntei, cautelosa.

— Tudo bem. — Ele suspirou, erguendo as mãos como se estivesse se rendendo. — Estou pensando que talvez você mereça uma condicional por bom comportamento. Para uma adolescente, você reclama muito pouco. Minha voz e as sobrancelhas se ergueram.

— É sério? Estou livre?

De onde vinha isso? Eu tinha certeza de que ficaria em prisão domiciliar até que realmente me mudasse, e Edward não captara nenhuma oscilação nos pensamentos de Charlie…

Charlie ergueu um dedo.

— Sob uma condição.

O entusiasmo desapareceu.

— Ótimo — suspirei.

— Bella, isto é mais um pedido do que uma ordem, está bem? Você está livre. Mas espero que vá usar a liberdade… com critério.

— O que isso quer dizer?

Ele suspirou de novo.

— Sei que está satisfeita por ficar o tempo todo com Edward…

— Também fico com Alice — interrompi. A irmã de Edward não tinha hora de visita; entrava e saía quando bem entendia. Charlie era massa de modelar nas mãos eficientes de Alice.

— Isso é verdade — disse ele. — Mas você tem outros amigos além dos Cullen, Bella. Ou tinha, antigamente.

Nós nos olhamos por um longo momento.

— Quando foi a última vez que você falou com Angela Weber? — atirou ele para cima de mim.

— Na sexta-feira, no almoço — respondi de imediato.

Antes da volta de Edward, meus amigos da escola se polarizaram em dois grupos. Eu preferia pensar neles como os bons e os maus. Nós e eles também funcionava. Os bons eram Angela, o namorado firme dela, Ben Cheney, e Mike Newton; estes três me perdoaram de modo generoso por ter enlouquecido quando Edward foi embora. Lauren Mallory era o núcleo mau do lado deles, e quase todos os outros, inclusive minha primeira amiga em Forks, Jessica Stanley, pareciam satisfeitos em continuar no programa anti-Bella.

Com Edward de volta à escola, a linha divisória ficara ainda mais distinta. A volta de Edward cobrara seu tributo sobre a amizade de Mike, mas Angela era inabalavelmente fiel, e Ben seguia seu exemplo. Apesar da aversão natural que sentiam pelos Cullen, Angela se sentava por educação ao lado de Alice todo dia no almoço. Depois de algumas semanas, Angela até parecia à vontade ali. Era difícil não se encantar com os Cullen — depois que eles lhe dessem a chance de ficar encantado.

— Fora da escola? — perguntou Charlie, recuperando minha atenção.

— Eu não vejo ninguém fora da escola, pai. De castigo, lembra? E Angela tem namorado também. Ela sempre está com o Ben. Se eu fosse mesmo livre — acrescentei, cheia de ceticismo —, talvez pudéssemos sair juntos.

— Tudo bem. Mas então… — ele hesitou. — Você e Jake costumavam ser como unha e carne, e agora…

Eu o interrompi.

— Pode dizer aonde quer chegar, pai? Qual é sua condição… exatamente?

— Não acho que você deva abandonar todos os seus outros amigos por causa de seu namorado, Bella — disse ele numa voz severa. — Não é bom, e acho que sua vida será mais equilibrada se você tiver outras pessoas nela. O que aconteceu em setembro…

Eu me encolhi.

— Bom — disse ele, na defensiva. — Se você tivesse uma vida à parte de Edward Cullen, poderia não ter sido daquele jeito.

— Teria sido exatamente igual — murmurei.

— Talvez sim, talvez não.

— E então? — lembrei a ele.

— Use sua nova liberdade para ver seus outros amigos também. Tenha equilíbrio.

Assenti devagar.

— Equilíbrio é bom. Mas tenho algumas quotas específicas para cumprir?

Ele fez uma careta, mas sacudiu a cabeça.

— Não quero dificultar nada. Só não se esqueça de seus amigos…

Era um dilema com o qual ainda estava lutando. Meus amigos. Para a própria segurança deles, gente que jamais poderia ver de novo depois da formatura.

Então qual é o melhor modo de agir? Passar tempo com eles enquanto podia? Ou começar a separação agora para torná-la mais gradual? Desanimei diante da idéia da segunda opção.

— … em particular, Jacob — acrescentou Charlie, antes que eu pudesse pensar melhor.

Um dilema maior que o primeiro. Levei um momento para encontrar as palavras certas.

— Com Jacob pode ser… complicado.

— Os Black são praticamente da família, Bella — disse ele, severo e paternal de novo. — E Jacob foi um amigo muito, muito bom para você.

— Sei disso.

— Você não sente falta dele? — perguntou Charlie, frustrado.

Minha garganta de repente parecia inchada; tive de pigarrear duas vezes para responder.

— Sim, sinto falta dele — admiti, ainda olhando para baixo. — Sinto muita saudade dele.

— Então, por que é difícil?

Não era uma questão que eu tivesse liberdade para explicar. Contrariava as regras para pessoas normais — pessoas humanas, como eu e Charlie — saber do mundo clandestino cheio de mitos e de monstros que existia em segredo em volta de nós. Eu sabia desse mundo — e, como conseqüência, os problemas não eram poucos. Eu não ia envolver Charlie nas mesmas confusões.

— Com Jacob existe um… conflito — eu disse devagar. — Um conflito sobre a amizade, quero dizer. A amizade nem sempre parece ser suficiente para Jake. — Encobri minha desculpa com os detalhes que eram verdadeiros porém insignificantes, em nada cruciais quando comparados ao fato de que o bando de lobisomens de Jake tinha um ódio cruel da família de vampiros de Edward — e, portanto, a mim também, porque eu pretendia me unir de modo pleno a essa família. Não era um assunto que eu pudesse resolver com ele num bilhete, e ele não atendia a meus telefonemas. Mas meu plano de lidar com o lobisomem em pessoa, com certeza, não se coadunava com os vampiros.

— Edward não está preparado para uma pequena competição saudável?

— A voz de Charlie agora era sarcástica.

Olhei sombriamente para ele.

— Não existe competição.

— Você está ferindo os sentimentos de Jake, evitando-o desse jeito. Ele prefere ser amigo a nada.

Ah, agora eu é que o estava evitando?

— Tenho certeza absoluta de que Jake não quer ser amigo coisa nenhuma.

— As palavras arderam em minha garganta. — Aliás, de onde você tirou essa idéia?

Charlie ficou constrangido.

— O assunto talvez tenha surgido hoje numa conversa com Billy…

— Você e Billy fofocam feito umas velhinhas — reclamei, enfiando a faca com violência no espaguete congelado em meu prato.

— Billy está preocupado com Jacob — disse Charlie. — Jake está passando por dificuldades agora… Está deprimido.

Eu estremeci, mas não tirei os olhos da maçaroca.

— E você sempre ficava muito feliz depois de passar o dia com Jake. — Charlie suspirou.

— Eu estou feliz agora. — Grunhi ferozmente entre os dentes.

O contraste entre minhas palavras e o tom rompeu a tensão. Charlie explodiu numa gargalhada e eu tive de acompanhá-lo.

— Tá legal, tudo bem — concordei. — Equilíbrio.

— E Jacob — insistiu ele.

— Vou tentar.

— Ótimo. Encontre esse equilíbrio, Bella. E, ah, sim, você recebeu correspondência — disse Charlie, encerrando o assunto sem sutileza alguma.

— Está ao lado do fogão.

Não me mexi, meus pensamentos girando confusos em torno do nome de Jacob. Era mais provável que fosse mala-direta; tinha recebido um pacote de minha mãe no dia anterior e não estava esperando mais nada.

Charlie afastou a cadeira da mesa e se espreguiçou quando ficou de pé. Levou o prato dele à pia mas, antes de abrir a água para lavá-lo, parou para atirar um envelope a mim. A carta escorregou pela mesa até meu cotovelo.

— Hã, obrigada — murmurei, confusa pela pressão. Depois vi o endereço do remetente. A carta era da Universidade do Sudeste do Alasca. — Essa foi rápida. Acho que esqueci o prazo desta também.

Charlie riu. Virei o envelope e olhei para ele.

— Está aberta.

— Eu fiquei curioso.

— Estou chocada, xerife. Isso é crime federal.

— Ah, leia isso logo.

Eu saquei a carta e alguns palavrões.

— Meus parabéns — disse ele antes que eu pudesse ler alguma palavra.

— Sua primeira admissão.

— Obrigada, pai.

— Precisamos conversar sobre os custos. Tenho algum dinheiro guardado…

— Ei, ei, nada disso. Não vou tocar na sua aposentadoria, pai. Eu tenho meu fundo universitário. — O que restava dele; nem havia muito no começo.

Charlie franziu o cenho.

— Alguns desses lugares são muito caros, Bella. Quero ajudar. Você não tem que ir para o Alasca só porque é mais barato.

Não era mais barato, não mesmo. Mas ficava bem longe e Juneau tinha uma média de 321 dias nublados por ano. O primeiro pré-requisito era meu, o segundo, de Edward.

— Eu posso pagar. Além disso, tem muito apoio financeiro por lá. É fácil conseguir crédito. — Eu esperava que meu blefe não fosse óbvio demais. Não tinha pesquisado muito sobre o assunto.

— Então… — Charlie começou, depois franziu os lábios e desviou os olhos.

— Então o quê?

— Nada. Eu só estava… — Ele fechou a cara. — Só me perguntava… Quais são os planos de Edward para o ano que vem?

— Ah!

— E então?

Três batidas rápidas na porta me salvaram. Charlie revirou os olhos e eu me levantei num salto.

— Já vou! — gritei enquanto Charlie murmurava alguma frase que parecia “Suma daqui”. Eu o ignorei e fui abrir a porta para Edward.

Eu escancarei a porta — ridiculamente ansiosa — e lá estava ele, meu milagre pessoal.

O tempo não me deixara imune à perfeição de seu rosto, e eu tinha certeza de que nenhum aspecto dele deixaria de me surpreender. Meus olhos acompanharam suas feições pálidas: o quadrado do queixo, a curva suave dos lábios cheios — agora retorcidos num sorriso —, a linha reta do nariz, o ângulo agudo das maçãs do rosto, o mármore macio da testa — parcialmente oculta por uma mecha de cabelo bronze, escuro com a chuva…

Deixei os olhos para o final, sabendo que, quando olhasse dentro deles, talvez perdesse o fio do pensamento. Eles eram grandes, calorosos como de ouro líquido, e emoldurados por uma franja grossa de cílios escuros. Olhar seus olhos sempre fazia com que eu me sentisse extraordinária — como se meus ossos tivessem virado esponja. Eu também ficava um pouco tonta, mas isso devia ser porque eu me esquecia de respirar. De novo.

Era um rosto que qualquer modelo no mundo daria a alma para conseguir. É claro que este podia ser exatamente o preço pedido: uma alma.

Não. Eu não acreditava nisso. Sentia-me culpada até de pensar nisso e estava feliz — como sempre ficava — por ser a única pessoa cujos pensamentos eram um mistério para Edward.

Peguei sua mão e suspirei quando seus dedos frios encontraram os meus. Seu toque vinha com a sensação estranha de alívio — como se eu estivesse com dor e o sofrimento de repente cessasse.

— Oi. — Eu sorri um pouco para minha recepção anticlimática.

Ele ergueu nossos dedos entrelaçados para afagar meu rosto com as costas da mão.

— Como foi sua tarde?

— Lerda.

— A minha também.

Ele puxou meu punho até seu rosto, nossas mãos ainda entrelaçadas. Seus olhos se fecharam à medida que o nariz roçava a pele ali, e ele sorriu delicadamente, sem abri-los. Desfrutando o buquê enquanto resistia ao vinho, como certa vez ele mencionou.

Eu sabia que o cheiro do meu sangue — mais doce para ele do que o sangue de qualquer outro, do mesmo modo que vinho ao lado de água para um alcoólatra — causava-lhe dor pela sede ardente que produzia. Mas ele não parecia fugir dele, como fizera um dia. Eu só podia imaginar o esforço hercúleo por trás desse gesto simples.

Entristecia-me que ele tivesse de se esforçar tanto. Eu me reconfortava por saber que não seria a causa de sua dor por muito mais tempo.

Ouvi Charlie se aproximando então, batendo os pés para expressar seu costumeiro desprazer com nosso convidado. Os olhos de Edward se abriram e ele deixou nossas mãos caírem, mantendo-as entrelaçadas.

— Boa noite, Charlie. — Edward era sempre impecavelmente educado, embora Charlie não merecesse isso.

Charlie grunhiu para ele, depois ficou parado ali, de braços cruzados. Nos últimos tempos levava a idéia de supervisão paterna a extremos.

— Trouxe mais alguns formulários de universidades — disse-me Edward depois, estendendo um envelope pardo estufado. Ele trazia um rolo de selos feito um anel em seu dedo mínimo.

Eu gemi. Como era possível que ainda existissem tantas universidades a que ele ainda não me obrigara a me candidatar? E como ele continuava encontrando essas brechas? O prazo já estava se esgotando.

Ele sorriu como se pudesse ler meus pensamentos; deviam ter ficado muito evidentes em meu rosto.

— Ainda há alguns prazos abertos. E alguns lugares dispostos a abrir exceções.

Eu podia imaginar as motivações por trás dessas exceções. E a quantia em dólares envolvida.

Edward riu da minha expressão.

— Podemos? — perguntou ele, conduzindo-me para a mesa da cozinha.

Charlie bufou e nos seguiu, embora não pudesse se queixar da atividade programada para a noite. Ele me atormentava diariamente para tomar uma decisão sobre a universidade.

Limpei a mesa enquanto Edward organizava uma pilha intimidadora de formulários. Quando passei O morro dos ventos uivantes para a bancada, Edward ergueu uma sobrancelha. Eu sabia o que ele estava pensando, mas Charlie interrompeu antes que Edward pudesse comentar.

— Por falar em formulários de universidades, Edward — disse Charlie, seu tom ainda mais rabugento; ele evitava se dirigir diretamente a Edward e, quando tinha de fazer isso, exagerava no mau humor —, Bella e eu acabamos de conversar sobre o ano que vem. Já decidiu para onde vai?

Edward sorriu para Charlie e sua voz era simpática.

— Ainda não. Recebi algumas cartas de admissão, mas ainda estou pensando em minhas opções.

— Onde você foi admitido? — pressionou Charlie.

— Syracusa… Harvard… Dartmouth… e recebi a carta de admissão da Universidade do Sudeste do Alasca hoje. — Edward virou o rosto um pouco para o lado, de modo que pudesse piscar para mim. Reprimi uma risada.

— Harvard? Dartmouth? — murmurou Charlie, incapaz de esconder a incredulidade. — Bom, isso é bem… é muita coisa. É, mas a Universidade do Alasca… Você não pensaria de verdade nela quando pode ir para uma universidade da Ivy League. Quer dizer, seu pai ia querer que você…

— Carlisle sempre apóia as decisões que eu tomo — disse Edward com serenidade.

— Umpf.

— Adivinha só, Edward? — eu disse numa voz animada, entrando no jogo.

— Que foi, Bella?

Apontei para o envelope grosso na bancada.

— Acabo de receber minha admissão na Universidade do Alasca!

— Meus parabéns! — Ele sorriu. — Que coincidência.

Os olhos de Charlie se estreitaram e ele olhou de um para o outro.

— Ótimo — murmurou ele depois de um minuto. — Vou ver o jogo, Bella. Nove e meia.

Este era o comando de partida de sempre.

— Hã, pai? Lembra o que acabamos de conversar sobre minha liberdade…?

Ele suspirou.

— É verdade. Tudo bem, dez e meia. Você ainda tem um toque de recolher nos dias úteis.

— Bella não está mais de castigo? — perguntou Edward.

Embora eu soubesse que ele não estava realmente surpreso, não consegui detectar nenhuma nota falsa na emoção súbita de sua voz.

— Com uma condição — corrigiu Charlie entre os dentes. — O que você tem a ver com isso?

Fiz uma cara bem feia para meu pai, mas ele não viu.

— É só que é bom saber — disse Edward. — Alice anda ansiosa por uma companhia para as compras, e tenho certeza de que Bella adoraria ver algumas luzes da cidade. — Ele sorriu para mim.

Mas Charlie grunhiu.

— Não! — Sua fisionomia ficou roxa.

— Pai! Qual é o problema?

Ele fez um esforço para descerrar os dentes.

— Não quero que você vá a Seattle agora.

— Hein?

— Eu lhe falei da reportagem no jornal… Tem uma espécie de gangue de assassinos solta em Seattle e quero que você fique longe disso, está bem?

Revirei os olhos.

— Pai, há uma probabilidade maior de eu ser atingida por um raio do que um dia eu ir a Seattle…

— Não, está tudo bem, Charlie — disse Edward, interrompendo-me. — Eu não quis dizer Seattle. Estava pensando em Portland. Eu também não deixaria Bella ir a Seattle. É claro que não.

Eu o olhei, incrédula, mas ele estava com o jornal de Charlie nas mãos e lia a primeira página com atenção.

Ele devia estar tentando acalmar meu pai. A idéia de correr perigo até do mais letal dos humanos enquanto eu estivesse com Alice ou com Edward era completamente hilariante.

Funcionou. Charlie olhou para Edward por um segundo mais, depois deu de ombros.

— Ótimo. — Ele foi para a sala de estar, agora meio com pressa; talvez não quisesse perder o aviso.

Esperei até que a tevê estivesse ligada, para que Charlie não conseguisse me ouvir.

— O que… — comecei a perguntar.

— Espere — disse Edward sem tirar os olhos do jornal. Seus olhos continuaram focalizados na página enquanto ele empurrava o primeiro formulário para mim pela mesa. — Você pode aproveitar suas respostas para este. Mesmas perguntas.

Charlie ainda devia estar ouvindo. Eu suspirei e comecei a preencher as informações de sempre: nome, endereço, estado civil… Depois de alguns minutos, olhei para cima, mas Edward agora mirava, pensativo, além da janela. Enquanto inclinava a cabeça para meu trabalho, percebi pela primeira vez o nome da universidade.

Eu bufei e atirei a folha de papel de lado.

— Bella?

— Fala sério, Edward. Dartmouth?

Edward levantou o formulário descartado e o recolocou delicadamente diante de mim.

— Acho que você ia gostar de New Hampshire — disse ele. — Há todo um complemento de cursos noturnos para mim, e as florestas são convenientemente localizadas para um andarilho ávido. Muita vida selvagem. — Ele abriu o sorriso torto a que eu não resistiria.

Respirei fundo.

— Vou deixar que me pague depois, se isso a faz feliz — prometeu ele. — Se quiser, posso lhe cobrar juros.

— Como se eu pudesse entrar sem um suborno enorme. Ou isso faz parte do empréstimo? A ala Cullen da biblioteca? Argh. Por que estamos tendo essa discussão de novo?

— Pode preencher o formulário, por favor, Bella? Não vai doer nada se candidatar.

Meu queixo destravou.

— Quer saber? Não acho que eu vá.

Estendi a mão para a papelada, pretendendo amassá-la numa forma adequada para atirar na lixeira, mas já não estava mais ali. Olhei a mesa vazia por um momento, depois para Edward. Ele não parecia ter se mexido, mas os formulários já deviam estar guardados em seu casaco.

— O que está fazendo? — perguntei.

— Eu assino seu nome melhor do que você mesma. Você já escreveu essas respostas.

— Sabe que está exagerando nisso. — Sussurrei para o caso de Charlie não estar totalmente imerso no jogo. — Não preciso me candidatar a mais lugar nenhum. Fui aceita na Alasca. Quase posso pagar as taxas do primeiro semestre. É um álibi tão bom quanto qualquer outro. Não há necessidade de gastar um monte de dinheiro, qualquer que seja a origem.

Um olhar de dor enrijeceu seu rosto.

— Bella…

— Não comece. Concordo que preciso passar por tudo isso pelo bem de Charlie, mas nós dois sabemos que não estarei em condições de ir a nenhuma universidade no outono que vem. Nem de ficar perto de gente.

Meu conhecimento dos primeiros anos como uma recém-vampira era vago. Edward nunca entrara em detalhes — não era seu assunto preferido —, mas eu sabia que não era agradável. O autocontrole aparentemente era uma habilidade adquirida. Qualquer coisa além de educação à distância estava fora de cogitação.

— Pensei que ainda não tivéssemos decidido o momento — lembrou-me Edward num tom delicado. — Você pode desfrutar de um ou dois semestres de faculdade. Há muitas experiências humanas que você nunca teve.

— Eu as terei depois.

— Elas não serão experiências humanas depois. Não se tem uma segunda chance como humana, Bella.

Suspirei.

— Você precisa ser razoável com a escolha do momento, Edward. É perigoso demais embromar nesse caso.

— Ainda não há perigo — insistiu ele.

Olhei para ele. Não há perigo? Claro. Só havia uma vampira sádica tentando vingar a morte do companheiro com a minha morte, de preferência por um método lento e torturante. Quem estava preocupado com Victoria? Ah, e sim, os Volturi — a família real vampira com seu pequeno exército de guerreiros vampiros —, que insistiram que meu coração parasse de bater de uma ou outra maneira no futuro próximo, porque os humanos não podem saber que eles existem. É verdade. Não havia motivo para todo esse pânico.

Mesmo com Alice mantendo vigilância — Edward dependia de suas visões pouco precisas do futuro para nos dar alertas antecipados — era insanidade correr o risco.

Além disso, eu já ganhara essa discussão. A data de minha transformação estava marcada para algum momento logo depois de minha formatura no ensino médio, dali a algumas semanas.

Um abalo forte de inquietude perfurou meu estômago enquanto eu percebia que me restava pouco tempo. É claro que essa mudança era necessária — e era a chave para o que eu queria mais do que tudo no mundo —, mas eu estava profundamente consciente de Charlie sentado no outro cômodo, desfrutando de seu jogo, como em qualquer outra noite. E de minha mãe, Renée, longe, na ensolarada Flórida, ainda me pedindo para passar o verão na praia com ela e o novo marido. E de Jacob, que, ao contrário de meus pais, sabia exatamente o que ia acontecer quando eu desaparecesse para alguma universidade distante. Mesmo que meus pais não ficassem desconfiados por um bom tempo, mesmo que eu pudesse dispensar as visitas com desculpas sobre despesas de viagem, carga de estudos ou doenças, Jacob saberia da verdade.

Por um momento, a idéia da revolta certa de Jacob ensombreou qualquer outra dor.

— Bella — murmurou Edward, seu rosto se retorcendo quando leu a aflição no meu. — Não há pressa. Não vou deixar ninguém ferir você. Pode levar o tempo que precisar.

— Eu tenho pressa — sussurrei, sorrindo amarelo, tentando fazer piada disso. — Quero ser um monstro também.

Seus dentes trincaram; ele falou através deles.

— Não faz idéia do que está dizendo. — De repente, ele colocou o jornal úmido na mesa entre nós. Seu dedo apontou a manchete na primeira página:

AUMENTAM AS MORTES, POLÍCIA TEME ATIVIDADE DE GANGUE

— O que isso tem a ver?

— Os monstros não são uma piada, Bella.

Olhei a manchete outra vez, depois sua expressão séria.

— Um… um vampiro está fazendo isso? — sussurrei.

Ele sorriu sem humor algum. Sua voz era baixa e fria.

— Ficaria surpresa, Bella, em ver com que freqüência minha espécie é a origem dos horrores de seu noticiário humano. É fácil reconhecer, quando você sabe o que procurar. As informações aqui indicam um vampiro recém transformado à solta em Seattle. Sedento de sangue, louco e descontrolado.Como todos nós somos.

Deixei meus olhos caírem no jornal de novo, evitando os olhos dele.

— Estamos monitorando a situação há algumas semanas. Todos os sinais estão lá… Os desaparecimentos improváveis, sempre à noite, os corpos mal desovados, a ausência de outras provas… Sim, alguém novinho em folha. E ninguém parece estar assumindo a responsabilidade pelo neófito… — Ele respirou fundo. — Bom, não é problema nosso. Não teríamos prestado atenção no caso se não estivesse tão perto de casa. Como eu disse, isso acontece o tempo todo. A existência de monstros resulta em conseqüências monstruosas.

Tentei não ver os nomes nas páginas, mas eles saltaram do texto impresso como se estivessem em negrito. As cinco pessoas cuja vida terminara, cujas famílias agora estavam de luto. Era diferente de considerar o assassinato em nível abstrato, lendo aqueles nomes. Maureen Gardiner, Geoffrey Campbell, Grace Razi, Michelle O’Connell, Ronald Albrook. Pessoas que tinham pais, filhos, amigos, animais de estimação, empregos, esperanças, planos, lembranças e futuros…

— Não seria o mesmo para mim — sussurrei, meio para mim mesma. — Você não deixaria que eu fosse assim. Vamos morar na Antártida.

Edward bufou, rompendo a tensão.

— Pingüins. Que lindo.

Soltei uma risada trêmula e tirei o jornal da mesa para não ter de ver os nomes; ele caiu no linóleo com um baque. É claro que Edward não pensaria nas possibilidades de caça. Ele e sua família “vegetariana” — todos comprometidos em proteger a vida humana — preferiam o sabor de grandes predadores para satisfazer suas necessidades alimentares.

— Alasca, então, como planejamos. Só um lugar muito mais distante de Juneau… Um lugar com muitos ursos.

— Melhor — ele cedeu. — Lá tem urso polar também. Muito feroz. E os lobos são bem grandes.

Minha boca se abriu e minha respiração soprou numa lufada áspera.

— Que foi? — perguntou ele, antes que eu pudesse me recuperar. A confusão desapareceu e todo seu corpo pareceu enrijecer. — Ah! Deixe os lobos para lá, então, se a idéia é ofensiva para você. — Sua voz era dura e formal, os ombros rígidos.

— Ele era meu melhor amigo, Edward — murmurei. Doía usar o verbo no passado. — É claro que a idéia me ofende.

— Por favor, perdoe-me por minha falta de consideração — disse ele, ainda muito formal. — Eu não devia ter sugerido isso.

— Não se preocupe. — Olhei minhas mãos, fechadas em punhos sobre a mesa.

Nós dois ficamos em silêncio por um momento, depois seu dedo frio estava sob meu queixo, erguendo meu rosto. Sua expressão era muito mais suave agora.

— Desculpe. De verdade.

— Eu sei. Sei que não é a mesma coisa. Eu não devia ter reagido assim. É só que… bom, eu já estava pensando em Jacob antes de você chegar. — Hesitei. Seus olhos castanhos pareciam ficar um pouco mais escuros sempre que eu pronunciava o nome de Jacob. Minha voz ficou suplicante em resposta a isso. — Charlie disse que Jake está passando por dificuldades. Ele agora está sofrendo, e… a culpa é minha.

— Você não fez nada de errado, Bella.

Respirei fundo.

— Preciso dar um jeito nisso, Edward. Devo isso a ele. E é uma das condições de Charlie, de qualquer modo…

Seu rosto mudou enquanto eu falava, ficando rígido de novo, como o de uma estátua.

— Sabe que está fora de cogitação você andar desprotegida com um lobisomem, Bella. E seria quebra do pacto se qualquer um de nós entrasse no território deles. Quer que comecemos uma guerra?

— É claro que não!

— Então não tem sentido continuar discutindo a questão. — Ele baixou a mão e virou o rosto, tentando mudar de assunto. Seus olhos pararam em algo atrás de mim e ele sorriu, embora os olhos continuassem preocupados.

— Fico feliz por Charlie ter decidido deixar você sair… Você precisa muitíssimo de uma visita à livraria. Nem acredito que está lendo O Morro dos Ventos Uivantes de novo. Ainda não sabe de cor?

— Nem todos nós temos memória fotográfica — eu disse asperamente.

— Com ou sem memória fotográfica, não entendo por que gosta dele. Os personagens são pessoas medonhas que arruínam a vida umas das outras. Não sei como Heathcliff e Cathy terminaram ao lado de casais como Romeu e Julieta, ou Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy. Não é uma história de amor, é uma história de ódio.

— Você tem problemas sérios com os clássicos — eu disse.

— Talvez porque não fique impressionado com a antiguidade. — Ele sorriu, evidentemente satisfeito por ter me distraído. — Falando sério, por que você sempre lê isso? — Seus olhos agora eram vívidos de interesse, tentando, de novo, revelar o funcionamento convoluto de minha mente. Ele estendeu a mão por sobre a mesa para afagar meu rosto. — O que lhe agrada tanto?

Sua curiosidade sincera me desarmou.

— Não sei bem — eu disse, lutando para ter coerência enquanto seu olhar esfacelava meus pensamentos sem ter essa intenção. — Acho que tem algo a ver com a inevitabilidade. Nada pode separá-los… Nem o egoísmo dela, nem a maldade dele, nem mesmo a morte, no final…

Seu rosto estava pensativo enquanto ele ponderava minhas palavras. Depois de um instante, ele deu um sorriso zombeteiro.

— Ainda acho que seria uma história melhor se um deles tivesse uma qualidade que os redimisse.

— Acho que esta é a questão — discordei. — O amor dos dois é a única qualidade redentora.

— Espero que você tenha mais juízo do que isso… Se apaixonar por alguém tão… maligno.

— É meio tarde para me preocupar com quem se apaixonou por quem — assinalei. — Mas, mesmo sem o aviso, parece que eu me saí muito bem.

Ele riu baixinho.

— Fico feliz que você pense assim.

— Bom, espero que você seja bastante inteligente para ficar longe de alguém tão egoísta. É Catherine a origem de todos os problemas, não Heathcliff.

— Estarei precavido — prometeu ele.

Suspirei. Ele era tão bom nas distrações! Coloquei a mão sobre a dele para mantê-la em meu rosto.

— Preciso ver Jacob.

Ele fechou os olhos.

— Não.

— Sinceramente, não há perigo algum — eu disse, de novo suplicante.

— Eu costumava passar o dia todo em La Push com todos eles, e nunca aconteceu nada.

Mas pisei em falso; minha voz falhou no final porque percebi, enquanto dizia as palavras, que elas eram uma mentira. Não era verdade que nunca havia acontecido nada. Um breve lampejo de memória — um lobo cinza enorme agachado para atacar, arreganhando os dentes de adaga para mim — fez as palmas de minhas mãos suarem como um eco do pânico recordado.

Edward ouviu meu coração se acelerar e assentiu como se eu tivesse reconhecido a mentira em voz alta.

— Os lobisomens são instáveis. Às vezes, as pessoas perto deles se machucam. Às vezes, elas morrem.

Eu queria negar isso, mas outra imagem sufocou minha réplica. Vi em minha mente o rosto antes lindo de Emily Young, agora desfigurado por três cicatrizes escuras que baixavam o canto de seu olho direito e deixavam sua boca presa para sempre numa careta de lado.

Ele esperou, implacavelmente triunfante, que eu encontrasse minha voz.

— Você não os conhece — sussurrei.

— Conheço-os melhor do que você pensa, Bella. Eu estava aqui da última vez.

— Da última vez?

— Nosso caminho começou a se cruzar com o dos lobos há setenta anos… Tínhamos acabado de nos acomodar perto de Hoquiam. Isso foi antes de Alice e Jasper estarem conosco. Nós estávamos em maior número, mas isso não os teria impedido de entrar numa luta, se não fosse por Carlisle. Ele conseguiu convencer Ephraim Black de que era possível coexistirmos, e por fim fizemos uma trégua.

O nome do bisavô de Jacob me sobressaltou.

— Pensamos que os limites tinham desaparecido com Ephraim — murmurou Edward; agora parecia que ele falava consigo mesmo. — Que a singularidade genética que permitia a transmutação tivesse se perdido… — Ele se interrompeu e me fitou de um jeito acusatório. — Sua falta de sorte parece ficar mais poderosa a cada dia. Percebe que sua atração implacável por tudo que é letal é bastante forte para arrancar da extinção um bando de caninos mutantes? Se pudéssemos engarrafar sua sorte, teríamos uma arma de destruição em massa.

Ignorei a provocação, minha atenção presa pelo pressuposto dele — ele falava sério?

— Mas não fui eu que os trouxe de volta. Não sabia?

— Sabia do quê?

— Minha falta de sorte nada tem a ver com isso. Os lobisomens voltaram porque os vampiros voltaram.

Edward me encarou, seu corpo imóvel de surpresa.

— Jacob me disse que a presença de sua família aqui deu a partida nisso. Pensei que você já soubesse…

Seus olhos se estreitaram.

— É isso que eles acham?

— Edward, considere os fatos. Há setenta anos você veio para cá e os lobisomens apareceram. Você voltou agora, e os lobisomens surgiram de novo. Acha que é só uma coincidência?

Ele pestanejou e seu olhar relaxou.

— Carlisle ficará interessado nesta teoria.

— Teoria — zombei.

Ele ficou em silêncio por um momento, olhando a chuva pela janela; imaginei que estivesse contemplando o fato de que a presença de sua família estava transformando os habitantes em cães gigantes.

— Curioso, mas não é exatamente relevante — murmurou ele depois de um momento. — A situação é a mesma.

Eu podia traduzir isso muito bem: nada de amigos lobisomens.

Eu sabia que devia ter paciência com Edward. Não era que ele não estivesse sendo razoável, era só que ele não entendia. Ele não fazia idéia do quanto eu devia a Jacob Black — muitas vezes, minha vida, e talvez minha sanidade também.

Eu não gostava de falar daquela época enfadonha com ninguém, em especial com Edward. Ele só estava tentando me salvar quando partiu, tentando salvar minha alma. Eu não o considerava responsável por todas as idiotices que eu fizera em sua ausência, ou pela dor que sofrera.

Mas ele era.

Então eu teria de exprimir meus esclarecimentos com muito cuidado.

Levantei-me e contornei a mesa. Ele abriu os braços para mim e me sentei em seu colo, aninhando-me em seu abraço frio de pedra. Olhei suas mãos enquanto falava.

— Por favor, ouça por um minuto. Isto é muito mais importante do que atender a alguns caprichos de um velho amigo. Jacob está sofrendo. — Minha voz distorceu a palavra. — Não posso me negar a ajudá-lo… Não posso desistir dele agora, quando ele precisa de mim. Só porque ele não é humano o tempo todo… Bom, ele estava a meu lado quando eu mesma… não era tão humana. Você não sabe como foi… — Eu hesitei. Os braços de Edward estavam rígidos à minha volta; as mãos agora em punhos, os tendões se destacando. — Se Jacob não tivesse me ajudado… não tenho certeza se você teria por que voltar. Tenho que tentar consertar isso. Eu devo a ele mais do que isso, Edward.

Olhei seu rosto, preocupada. Seus olhos estavam fechados, e o queixo, tenso.

— Nunca vou me perdoar por tê-la deixado — sussurrou ele. — Nem que eu viva cem mil anos.

Coloquei a mão em seu rosto frio e esperei até que ele suspirou e abriu os olhos.

— Você estava tentando fazer o que era certo. E tenho certeza de que teria funcionado com qualquer pessoa menos retardada do que eu. Além disso, você está aqui agora. É só isso que importa.

— Se eu não tivesse partido, você não teria necessidade de arriscar sua vida para consolar um cão.

Eu me encolhi. Estava acostumada com Jacob e todas as suas calúnias pejorativas — sanguessuga, parasita… De certo modo, parecia mais áspero na voz aveludada de Edward.

— Não sei como expressar isso adequadamente — disse Edward, e seu tom de voz era triste. — Imagino que vá parecer cruel. Mas estive perto demais de perder você no passado. Sei o que é pensar que perdi. Eu não vou tolerar nenhum risco.

— Tem que confiar em mim neste caso. Eu vou ficar bem.

Seu rosto era de dor outra vez.

— Por favor, Bella — ele sussurrou.

Olhei em seus olhos dourados subitamente ardentes.

— Por favor o quê?

— Por favor, por mim. Por favor, faça um esforço para se manter segura. Farei tudo o que eu puder, mas agradeceria se tivesse uma ajudazinha.

— Vou dar um jeito — murmurei.

— Você faz mesmo alguma idéia da importância que tem para mim? Alguma noção do quanto a amo? — Ele me puxou para mais perto de seu peito duro, colocando minha cabeça sob seu queixo.

Apertei os lábios em seu pescoço frio como neve.

— Eu sei o quanto eu amo você — respondi.

— Você compara uma árvore pequena com toda uma floresta.

Revirei os olhos, mas ele não pôde ver.

— Impossível.

Ele beijou o alto de minha cabeça e suspirou.

— Nada de lobisomens.

— Não vou concordar com isso. Preciso ver Jacob.

— Então terei de impedi-la.

Ele parecia totalmente confiante de que isso não seria um problema. Eu tinha certeza de que ele estava com a razão.

— Veremos — blefei mesmo assim. — Ele ainda é meu amigo.

Pude sentir o bilhete de Jacob em meu bolso, como se de repente pesasse dez quilos. Pude ouvir as palavras em sua voz, e ele parecia concordar com Edward — algo que nunca aconteceria na realidade.

Isso não muda nada. Desculpe.

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