Trecho do Livro: Antes de Morrer | Jenny Downham

“O retrato mais honesto e confiável de uma jovem em risco – não, além do risco – que podemos encontrar na literatura recente.” — jornal The New York Times

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Sei que estou no hospital assim que abro os olhos. Todos eles têm o mesmo cheiro, e o tubo preso ao meu braço é dolorosamente conhecido. Tento me sentar na cama, mas minha cabeça desaba e a bile sobe pela minha garganta.

Uma enfermeira corre para junto de mim com uma bacia de papelão, mas chega tarde demais. A maior parte acaba em cima de mim e nos lençóis.

– Não tem problema – diz ela. – Vamos limpar isso rapidinho.

Ela enxuga minha boca, depois me ajuda a virar de lado para poder desamarrar minha camisola.

– O médico já vem – diz ela.

Enfermeiras nunca dizem o que sabem. São contratadas por sua boa disposição e pelo volume dos cabelos. Precisam ter um aspecto vivo e saudável, para servir de incentivo aos pacientes.

Ela conversa comigo enquanto me ajuda a vestir outra camisola, conta-me que já morou perto do mar na África do Sul e diz:

– O Sol lá é mais próximo da Terra, e sempre faz calor.

Ela tira os lençóis de baixo de mim e aparece com outros, limpos.

– Aqui na Inglaterra meus pés estão sempre muito frios – continua. – Agora vamos rolar você de volta. Um, dois, três e… Isso, prontinho. Ah, bem na hora… O médico chegou.

Ele é careca, branco e de meia-idade. Cumprimenta-me educamente e arrasta uma cadeira de debaixo da janela para se sentar ao lado da cama. Sempre espero que em algum hospital, em algum lugar deste país, eu vá encontrar o médico perfeito, mas nenhum deles nunca é o certo. Quero um mágico de capa e varinha de condão, ou um cavaleiro com uma espada, alguém destemido. Esse de hoje é inexpressivo e educado como um vendedor.

– Tessa – começa ele –, você sabe o que é hipercalcemia?

– Se eu disser que não, posso ter outra coisa?

Ele parece espantado, e é exatamente esse o problema: eles nunca entendem direito a piada. Queria que ele tivesse um assistente. Um palhaço seria bom, alguém para lhe fazer cosquinhas com uma pena enquanto ele dá seu parecer médico.

Ele folheia o prontuário que tem no colo.

– Hipercalcemia é uma patologia em que a sua taxa de cálcio fica muito alta.

Estamos tratando você com bisfosfonatos para baixar essa taxa. Você já deveria estar se sentindo bem menos confusa e enjoada.

– Estou sempre confusa – digo a ele.

– Tem alguma pergunta?

Ele me olha como quem espera alguma coisa, e detesto decepcioná-lo, mas o que eu poderia perguntar para esse homenzinho sem graça?

Ele me diz que a enfermeira vai me dar um remédio para me ajudar a dormir. Levanta-se e se despede com a cabeça. Essa é a hora em que o palhaço faria um caminho de cascas de banana até a porta, depois viria se sentar na cama comigo. Juntos riríamos nas costas do médico enquanto ele se retirasse com seu passinho corrido.

Está escuro quando acordo, e não consigo me lembrar de nada. Isso me apavora. Durante uns dez segundos, luto contra a realidade, chutando os lençóis embolados, convencida de que fui raptada ou algo pior.

É papai quem corre até junto de mim, afaga minha cabeça, sussurra meu nome várias vezes como se fosse uma fórmula de magia.

É então que me lembro. Eu pulei dentro de um rio, convenci Cal a me acompanhar em um ridículo surto de compras, e agora estou no hospital. Mas o intervalo de esquecimento faz meu coração bater depressa como o de um coelho, porque de fato, por um minuto, esqueci quem eu era. Tornei-me ninguém, e sei que isso vai acontecer de novo.

Papai sorri para mim.

– Quer um pouco d’água? – pergunta. – Está com sede?

Ele me serve um copo d’água da jarra, mas sacudo a cabeça, e ele torna a pousá-lo sobre a mesa.

– A Zoey sabe que eu estou aqui?

Ele remexe no bolso do casaco e tira um maço de cigarros. Vai até a janela e a abre. O ar frio se insinua para dentro.

– Você não pode fumar aqui, pai.

Ele fecha a janela e torna a guardar os cigarros no bolso.

– Não – diz. – Acho que não. – Volta a se sentar, estende a mão para segurar a minha. Imagino se ele também terá esquecido quem é.

– Eu gastei muito dinheiro, pai.

– Eu sei. Não faz mal.

– Nem achei que o meu cartão conseguisse fazer tudo aquilo. Em cada loja, achava que fossem recusar o cartão, mas isso nunca aconteceu. No entanto, guardei todos os recibos, então a gente pode devolver tudo.

– Shhh – diz ele. – Está tudo bem.

– O Cal está legal? Eu assustei ele?

– Ele vai sobreviver. Quer falar com ele? Está lá fora no corredor com a sua mãe.

Nunca, ao longo dos quatro últimos anos, todos os três vieram me visitar ao mesmo tempo. Sinto medo de repente.

Os dois entram, muito sérios, Cal apertando a mão de mamãe, mamãe parecendo fora de lugar, papai segurando a porta aberta. Todos os três ficam em pé ao lado da cama olhando para mim. Parece a premonição de um dia que ainda irá acontecer. Mais tarde. Agora não. Um dia em que não vou conseguir vê-los olhando, nem sorrir, nem lhes dizer para pararem de me assustar e se sentarem.

Mamãe puxa uma cadeira para mais perto, inclina-se e me dá um beijo. Seu cheiro conhecido – o sabão em pó que ela usa, o óleo de laranja que passa no pescoço – me dá vontade de chorar.

– Que susto você me deu! – diz ela, e sacode a cabeça como se simplesmente não pudesse acreditar.

– Também fiquei com medo – sussurra Cal. – Você desmaiou no táxi, e o motorista pensou que você estivesse bêbada.

– Foi mesmo?

– Eu não sabia o que fazer. Ele disse que, se você vomitasse, a gente ia ter que pagar uma taxa extra.

– E eu vomitei?

– Não.

– E aí você mandou ele ir pastar?

Cal sorri, mas o sorriso treme nos cantos.

– Não.

– Quer vir sentar aqui na cama?

Ele faz que não com a cabeça.

– Ô, Cal, não chora! Vem sentar aqui na cama comigo, vem. Vamos tentar lembrar de todas as coisas que a gente comprou.

Mas, em vez disso, ele se senta no colo de mamãe. Acho que nunca o vi fazer isso. Não tenho certeza de que papai tenha visto também. Até mesmo Cal parece surpreso. Ele se vira para o ombro dela e começa a soluçar desbragadamente. Ela afaga suas costas, traçando círculos com a mão. Papai olha pela janela. E eu estico os dedos por cima do lençol à minha frente. Estão muito magros e brancos, como as mãos de um vampiro, capazes de sugar o calor de qualquer pessoa.

– Quando eu era pequena, sempre quis ter um vestido de veludo – diz mamãe. – Um vestido verde, com gola rendada. Minha irmã tinha um e eu nunca tive, então entendo o que é querer ter coisas bonitas. Se você algum dia quiser ir fazer compras de novo, Tessa, posso ir com você. – Ela indica o quarto com a mão em um gesto extravagante. – Vamos todos!

Cal se afasta do ombro dela para olhá-la no rosto.

– É? Eu também?

– Você também.

– Só imagino quem vai pagar! – diz papai de seu lugar junto ao parapeito da janela.

Mamãe sorri, seca as lágrimas de Cal com as costas da mão, depois beija sua bochecha.

– Salgadas – diz. – Salgadas como o mar.

Papai a olha fazer isso. Pergunto-me se ela sabe que ele está olhando.

Ela começa a contar uma história sobre sua irmã mimada, Sarah, e um pônei chamado Tango. Papai ri, e diz que ela não pode reclamar de ter tido uma infância de privações. Ela então o provoca, contando-nos como deu as costas a uma família rica para ficar na pior casando-se com papai. E Cal pratica um truque com uma moeda, passando uma libra de uma das mãos para a outra, e em seguida abrindo o punho para nos mostrar que ela sumiu.

É maravilhoso ouvi-los conversar, suas palavras deslizando umas para dentro das outras. Meus ossos não doem tanto com eles três assim tão perto. Quem sabe, se eu ficar bem paradinha, eles não percebam a lua pálida do lado de fora da janela, nem ouçam o carrinho de remédios sacolejando pelo corredor. Poderiam passar a noite aqui. Poderíamos fazer bagunça, contar piadas e histórias até o sol raiar.

Mas, depois de algum tempo, mamãe diz:

– O Cal está com sono. Vou levar ele pra casa agora e pôr ele na cama. – Vira-se para papai. – Te vejo lá.

Ela me dá um beijo de boa-noite, depois me sopra um outro da janela. Chego a senti-lo aterrissar na minha bochecha.

– Tchau, fedorenta – diz Cal.

E eles vão embora.

– Ela vai dormir na nossa casa? – pergunto a papai.

– Parece mais fácil, só por hoje.

Ele se aproxima, senta-se na cadeira e segura minha mão.

– Sabe – diz –, quando você era bebê, eu e sua mãe ficávamos acordados durante a noite vendo você respirar. Tínhamos certeza de que você ia se esquecer de respirar se a gente parasse de olhar. – Sua mão muda de posição, o contorno de seus dedos fica mais suave. – Pode rir de mim, mas é verdade. Fica mais fácil quando os filhos crescem, mas nunca passa. Eu me preocupo com você o tempo inteiro.

– Por que você está me dizendo isso?

Ele dá um suspiro.

– Sei que você está armando alguma coisa. O Cal me contou sobre uma tal lista que você fez. Preciso saber do que se trata, não porque eu queira te impedir, mas porque quero garantir que vai estar segura.

– Não é a mesma coisa?

– Não, acho que não. É como se você estivesse dando o melhor que tem pra outra pessoa, Tess. Ser deixado de fora disso dói demais.

Sua voz vai sumindo. Será que é só isso mesmo que ele quer? Ser incluído? Mas como posso lhe contar sobre Jake e sua estreita cama de solteiro? Como posso lhe contar que foi Zoey quem me mandou pular, e que eu tive de dizer sim? Ainda restam sete coisas a fazer. Se eu lhe contar, ele vai tirá-las de mim. Não quero passar o resto da minha vida enrolada em um cobertor no sofá com a cabeça no ombro de papai. A lista é a única coisa que me faz seguir em frente.

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