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Henfil e O Pasquim
Henfil (Henrique de Souza Filho) foi um cartunista mineiro, criador de alguns dos mais conhecidos personagens de história em quadrinhos no Brasil, e teve importante atuação política na história do país.
Nasceu em Minas Gerais, no município de Ribeirão das Neves. Mudou-se com a família para Belo Horizonte ainda na infância e trocou as brincadeiras com os amigos pelos desenhos. Em meados da década de 1950, juntamente com o irmão Betinho, aderiu ao movimento da esquerda católica, trazido ao Brasil por missionários dominicanos franceses. Inspirado nesses frades, criou os personagens Fradinhos (Fradins: Fradim Baixim e Fradim Cumprido), que logo fizeram sucesso.
Trabalhou como quadrinhista na revista Alterosas, cujo diretor, o escritor Roberto Drummond, sugeriu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida. Foi para o Rio de Janeiro e publicou seus quadrinhos no Jornal dos Sports. Logo depois passou a colaborar no jornal O Pasquim – um dos principais veículos de resistência civil ao regime militar, consagrando-se nacionalmente. A produção de histórias em quadrinhos e cartuns do mineiro Henfil já possuía então sua marca registrada: um desenho humorístico político, crítico e sátiro, com personagens tipicamente brasileiros.
Com o aumento da repressão política do regime militar, a censura agia fortemente sobre a redação do Pasquim. Para se proteger da repressão do governo e também para tratar sua hemofilia, Henfil exilou-se nos Estados Unidos, retornando ao Brasil em 1975.
Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da campanha pelas Diretas Já. Casou-se três vezes. Henfil era hemofílico e foi contaminado com o vírus da AIDS numa transfusão de sangue. Morreu no Rio de Janeiro em janeiro de 1988. Estima-se que, em 26 anos de carreira, Henfil tenha produzido entre 20 mil e 30 mil cartuns. Suas tiras foram divulgadas em vários países do mundo sob o título “The Mad Monks”.
Seu maior sonho era fazer desenho animado. Segundo ele, só assim suas idéias não morreriam, pois seus bonecos poderiam andar, cantar e falar, o que não acontecia quando ele desenhava e sua idéia virava papel, tinta e nanquim.
O dia 4 de janeiro lembra a morte do desenhista Henfil em 1988, com seus poucos 44 anos, e é também o Dia do Hemofílico.
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O Pasquim
O significado do nome não é dos mais lisonjeiros: Pasquim é um jornal difamatório espalhado clandestinamente. O nome do tablóide surgiu do cartunista Jaguar que, junto com Henfil, Ziraldo, Millôr Fernandes, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Glauber Rocha, Ivan Lessa e alguns outros singulares, formavam a linha de frente da Patota do Pasquim.
O jornal O Pasquim surgiu no Rio de Janeiro em 1969 (chegou às bancas em 26 de junho daquele ano). Com sua irreverência, humor e anarquia, deu uma nova roupagem e linguagem ao jornalismo brasileiro. Apresentou uma forma mais coloquial à publicidade e causou um forte abalo nos níveis da hipocrisia nacional, pois enfrentou a censura e a cadeia com o riso aberto.
Ninguém ficou rico com o Pasquim, embora ele tenha vendido nos seus melhores tempos, entre 1969 e 1973, até 250 mil exemplares, um volume acima do razoável, se lembrarmos que os jornais de tiragem nacional rodam hoje, quase 40 anos depois, com toda a informatização, a facilidade de distribuição e as fortes campanhas de assinantes, cerca de 300 mil exemplares.
O comportamento da chamada Patota do Pasquim era tão anárquico quanto o conteúdo do jornal. E o que ganharam gastaram entre prisão, brigas, festas e altas dosagens etílicas. Os militares e a elite brasileira tentaram sufocá-lo diversas vezes e de formas variadas mas, quando conseguiram, ele já havia disseminado uma nova forma de comportamento nos meios de comunicação. Como disse o cartunista Jaguar, um dos fundadores do Pasquim: “a imprensa tirou o paletó e a gravata, ou, como diz o Olivetto, passamos a escrever e nos comunicar com língua de gente, do povo.”
A última edição do Pasquim foi a de número 1.072, publicada em 11 de novembro de 1991.
Em abril de 2008, Jaguar e outros vinte jornalistas – que foram perseguidos durante os anos repressivos da Ditadura Militar – tiveram seus processos de anistia aprovados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Ele e o cartunista Ziraldo receberam as maiores indenizações: cada um recebeu 1 milhão de reais.
Abaixo segue a entrevista de Henfil a revista Veja em 28 de Abril de 1971.
Veja: Henfil, modéstia à parte, você se considera o maior humorista do Brasil?
HENFIL: Não. Eu não sou o maior humorista do Brasil. E não falo por modéstia, não. O maior humorista brasileiro, o humorista mais completo do país, no meu entender, é o Millôr Fernandes, que está aí mesmo na revista. Ele é um cara que tá de antena ligada para tudo quanto é assunto. É um cosmopolita da informação. Ele bebe água em anúncio classificado, em televisão, em enciclopédia, em revistinha imbecil, em jornal. E, se estou aprendendo, não posso ser maior do que ele, que também leva sobre mim a vantagem do maior tempo de serviço. E tem o Ziraldo, o Jaguar, o Fortuna. Quer dizer, um pessoal pelo qual eu tenho o maior respeito, inclusive está na minha frente há muitos anos. Eu sou uma novidade. E novidade normalmente faz barulho.
Veja: O criador do contestador Baixinho, segundo consta, tem um dos maiores salários do país. Afinal, que contestação é essa?
HENFIL: Realmente, eu ganhava muito bem. Era um cara que tinha uma soma de salários muito boa. Mas isso me deu uma série de problemas. Um deles: o excesso de segurança. Eu acho que para criar é preciso estar inseguro, estar a perigo o tempo todo. A insegurança, o perigo, é que faz com que o cara crie. A maioria dos meus personagens, eu os criei numa época em que estava a perigo, tentando abrir caminho profissionalmente. Depois, não criei nada de novo. Quando vi que o negócio era esse, resolvi cortar o mal pela raiz. Deixei 90% dos lugares onde trabalhava. Cortei definitivamente os trabalhos em publicidade, que são justamente aqueles que rendem mais, passei a trabalhar só em três veículos que me interessam: Jornal do Brasil, onde faço uma charge política para um público mais sofisticado, O Pasquim, onde eu faço grossura para um público relativamente indefinido (não sei se é elite, porque todo mundo lê – inclusive tem uma penetração violenta no interior), e o Jornal dos Sports, onde eu faço charge para o povão. Estou ganhando 90% menos por tática: para criar melhor. Não há maior perigo para um cara que cria do que a estabilidade.
Veja: Henfil, o fradinho baixinho é a exteriorização de suas neuroses?
HENFIL: Como habitante deste planeta industrial, obviamente eu sou neurótico. E o Baixinho é apenas a exteriorização de meus impulsos. Descarrego nele as minhas reações impulsivas, inclusive aquelas de que muitas vezes eu discordo depois.
Veja: Você já levou o Baixinho ao psicanalista?
HENFIL: Levei ao reflexologista, o negócio do condicionamento. O pessoal lá da clínica brincava comigo: Você vai perder a graça, pois seu humor é fruto de suas neuroses. Se isto for verdade, pensei, vou passar fome depois de curado. Mas aconteceu o inverso. Ao me libertar de uma série de tensões, de problemas, fiquei mais descontraído. O Baixinho ficou ainda mais baixinho e eu fiquei mais espontâneo.
Veja: Se o Baixinho é você, quem é o Cumprido?
HENFIL: O Baixinho sou eu. Hoje. O Cumprido também sou eu – numa versão antiga. Vamos dizer que eu andei e o Cumprido ficou para trás. É isso. O Cumprido é como eu era: um cara carola, infantil, ingênuo, aquele mineiro com aquela formação religiosa antiga, mórbida. A religião do terror, na qual tudo é pecado (o raio que está caindo é castigo de Deus). Do pecado mortal, venial e original. O Cumprido ficou nessa fase. Agora eu me identifico com o Baixinho, que é exatamente como eu sou hoje: toda uma negação desse meu passado. E de uma maneira muito agressiva, porque esse meu passado me incomoda bastante. Não acho nada gostoso ser um cara que já foi da cruzada eucarística, que quase foi congregado mariano. Minha mãe me formava para eu ser padre. Fui salvo pelos dominicanos, que me deram uma nova formação, uma nova visão da Igreja, de justiça, de liberdade, de alegria. A outra era uma visão tétrica. O Baixinho procura, através da agressão, do ridículo, me checar e ao meio em que vivo. Já vi: não era só eu o carola: meio mundo é carola, fariseu, hipócrita. Então eu passei a anarquizar, a agredir essa gente, como o Baixinho agride.
Veja: Se o Baixinho é considerado o mau caráter da dupla dos fradinhos, o Henfil é mau caráter?
HENFIL: Não. Eu não sou mau caráter. De jeito nenhum. Eu seria mau caráter se as ações do Baixinho, pelas quais sou responsável, fossem gratuitas. Mas não são. Ele está sempre provocado: pela frescura com a criança, o relacionamento que se tem com a criança, por exemplo. O pessoal acha o Baixinho um tremendo mau caráter porque ele está sempre agredindo as crianças não é isso? O problema é que existe um negócio que me provoca: a paparicação das crianças até os dois, três anos. Elas são os reizinhos, as princesinhas da casa. Daí em diante o negócio começa a mudar: o cace*te começa a comer em cima, elas são mandadas para a guerra do Vietnam. Quer dizer: eu sou a favor do adulto. Não quero essa discriminação de idades. Por isso agrido a carolice com as crianças, que é negócio de fariseu: paparica agora para ser bucha de canhão depois. O Baixinho agride esse relacionamento falso, hipócrita. Procura escandalizar: chega e dá uma cocada numa criança. Aí todo mundo acha aquilo um sadismo tremendo. Mas se por acaso eu fizer o Baixinho mandar um rapaz para a guerra, ninguém acha graça. Meu negócio é esse, mostrar, com a ajuda do sadismo, um troço que, na base da poesia, não entra na cabeça de ninguém. Minha política é simples: poesia não, sadismo sim.
Veja: Como foi que os Fradinhos nasceram?
HENFIL: Nasceram graças à insistência de um cara lá de Minas, que praticamente me obrigou a criar os personagens para a revista Alterosa, que ele dirigia. Quer dizer: ele queria que eu criasse um personagem. Como na época, 1964, eu convivia muito com os frades dominicanos, acabei vestindo os personagens com o hábito deles. Curioso é que o Roberto Drumond, o jornalista, foi o único sujeito a acreditar em mim, numa época em que nem eu acreditava. Eu era um péssimo desenhista. Meus desenhos poderiam servir, no máximo, para um catálogo de esquizofrênicos, ou uma coleção de desenhos de débil mental. Eu pedia demissão todo o mês mas o Roberto não aceitava e ainda metia minha família no meio para me obrigar a continuar. Também não durou muito, pois quatro números e quatro meses depois a revista fechou.
Veja: Você matou os Fradinhos e depois os ressuscitou. Por que tentou acabar com eles e por que desistiu? As criaturas foram mais fortes do que o criador?
HENFIL: Foi o seguinte: eu trabalho há três anos no Jornal dos Sports, fazendo uma charge diária de quase uma página. Quer dizer: em três anos temos aí umas mil e tantas charges. Pois bem, até hoje ninguém escreveu ou falou que eu estava chato, que precisava modificar, renovar: o povo tem uma raiz cultural muita firme, muito bacana. Ele vai se identificando com o negócio e passa a ser mesmo até contra mudanças radicais. Não gosta de estar mudando todo dia. Sabe que até as galinhas põem menos ovos quando trocadas de galinheiro. Essas mudanças sucessivas acabam desestruturando, arrasando o cara. O povão é assim: nestes três anos de Jornal dos Sports nunca me pediu para eu mudar minhas galinhas de galinheiro. No Pasquim é diferente. Seus leitores não pertencem ao povão, mas da classe média alta para a burguesia: estudantes, profissionais liberais, enfim um pessoal com um nível cultural um pouquinho mais elevado e com uma formação cultural principalmente estrangeira. Um pessoal de moda, que muda de filósofo, de Marcuse, como quem muda de camisa. Que muda de músico, de cantor, como quem muda de cueca. Esse pessoal fica mudando, só mudando, porque não tem raiz nenhuma – devido à formação estrangeira vive de costas para o Brasil. O sonho desse pessoal todo é pegar uma bolsa de estudo para a Europa, e ir passear ou trabalhar nos Estados Unidos. Resultado, dezesseis números, isto é, quatro meses, depois de Os Fradinhos estrearem no Pasquim, começaram a chegar as cartas de reclamação.
Veja: O que pretendiam as cartas?
HENFIL: Elas diziam: É preciso mudar, é preciso renovar, esse negócio está chato, o Henfil está sem imaginação. Fiquei mordido com o negócio. Meu primeiro golpe foi retirar o Baixinho, que era o personagem de que eles mais gostavam. Foi minha primeira vingança. Quando o Baixinho saiu, comecei a receber montes de cartas indignadas. De protesto em protesto, eu que já tinha o negócio mais ou menos engatilhado, fiz o Baixinho voltar. A volta foi anunciada na primeira página. O pessoal ficou na maior alegria ao reencontrar o Baixinho nos primeiros quadrinhos. A alegria durou pouco: no penúltimo quadrinho, um caminhão atropelou e matou os dois fradinhos. Foi minha segunda vingança. Aí é que foi aquela indignação total: era nome feio em todas as cartas. Houve até um cara, de Vitória, que prometeu vir ao Rio para me dar uma bolacha. O fato é que eu atingi o que queria: mostrei pra todo mundo que por trás dos Fradinhos havia um criador que tudo sabia e tudo queria a respeito deles.
Veja: Por que o Baixinho é muito mais popular que o Cumprido?
HENFIL: É fácil: a gente vive num clima mundial de sadismo. Em cada esquina o sujeito está levando cace*te (não confundir com cassetete) na cabeça. Então nada mais óbvio que o pessoal se identifique com o personagem sádico ou por projeção ou por sublimação. Mas é bom que se diga que a maioria dos leitores é formada por Cumpridos, por tremendos Cumpridos. O escândalo que o Baixinho produz neles é que me leva a ter essa idéia. Com um detalhe: o maior desejo deles é serem iguais ao Baixinho.
Veja: Os Fradinhos são o Henfil você já disse. Mas fisicamente eles se inspiraram em alguém?
HENFIL: Sim. Em dois frades dominicanos, de quem eu gostava muito. Um era gordinho, baixinho, moleque – o frei Rato; o outro, cumprido, magrelo e muito místico – o frei Patrício.
Veja: Você é mineiro e foi criado no melhor estilo TFM (Tradicional Família Mineira): muita religião, tabus e preconceitos. Qual a influência disso no seu humor?
HENFIL: Eu sou um reflexo da minha criação. Inclusive agradeço muito a minha mãe, a minha família, à TFM pelo que eu posso produzir hoje. O negócio lá em casa era terrível: era comemorar dia de santo por dia de santo. Quer dizer, todo dia era aquela chamada religião do terror: eu tinha um medo danado do fogo do inferno. Em dia de tempestade a gente queimava palha benta, entrava debaixo da mesa com medo do castigo de Deus em cima da cidade. Depois da confissão voltava para casa rezando uma estranha objurgatória – Deus pra cá, capeta pra lá – acompanhada de um movimento com a mão direita. Quando eu dizia Deus pra cá, levava a mão ao peito. Quando dizia Capeta pra lá, a retirava, num gesto de expulsão. Mas, durante a caminhada, acabava havendo um desencontro entre as palavras e os gestos. E quando eu percebia, entrava em pânico e voltava correndo para confessar de novo, pois pra mim era como se eu tivesse dito que estava com o capeta. Era uma religião mórbida. A repressão que eu sofria por causa disso obviamente desabrochou o masoquismo: foi criado o masoquismo Henfil. E, como todo mundo sabe, masoquismo e sadismo são a mesma coisa. Logicamente isso influenciou o meu trabalho. Não nego isso em nenhum momento e até faço propaganda do tipo de enredo que os fradinhos vivem. Tá o Cumprido neste esquema antigo e tá no Baixinho o meu protesto, a minha agressão a esse tipo de vida que eu levava. Eu agradeço a esse tipo de educação que eu tive e que já superei. O negócio é que eu assimilei e consegui dar um tratamento comercial às minhas neuroses. Hoje vendo as minhas neuroses nas páginas do Pasquim. Mas, olhando bem, a posição crítica em que me coloco me dá certo crédito de sadio. Sou crítico, logo sou sadio, portanto não sou tão neurótico assim.
Veja: O humorista deve fazer o humor pelo humor ou esse humor deve ter um fim? (Nesse caso, que fim?)
HENFIL: Acho bacana responder a essa pergunta. Justamente porque não sou um cara gratuito. Acho que o meu trabalho tem um fim. A época do humor pelo humor já passou. Hoje o humor é jornalístico, tem de ser engajado, de ser quente. A fase da comunicação pura e simples acabou. O humor agora é de identificação. O meu objetivo é a identificação. Procuro dar o meu recado através do humor. Humor pelo humor é sofisticação, é frescura. E nesta eu não tou: meu negócio é pé na cara. E levo o humorismo a sério. Faço a maior preparação para detonar as minhas bombas de humor. Reservo horário, ambiente, me concentro, expulso criança de perto, dou tiro em vizinho com o rádio ligado alto – o diabo. Quer dizer: para detonar. Mas mantenho sempre a preocupação de que todos me entendam. Evito erudição, intelectualismo. Não sou artista plástico: meu negócio é me fazer entender da maneira mais fácil, rápida e direta possível.
Dicas de leitura:
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+ Veja também:
Trecho do Livro: Anticâncer – Prevenir e Vencer Usando Nossas Defesas Naturais | David Servan-Schreiber
Livro: Anticâncer
Brasil | World
Eu estava em Pittsburgh há sete anos, tendo deixado a França há dez. Fazia meu internato em psiquiatria ao mesmo tempo em que continuava pesquisas começadas durante o doutorado de ciências. Com meu amigo Jonathan Cohen, dirigia um laboratório de imagens cerebrais funcionais para o qual obtivéramos o financiamento do National Institute of Health, o Instituto Nacional de Saúde americano. Nosso objetivo era compreender os mecanismos do pensamento observando o que se passava dentro do cérebro. Nunca poderia imaginar o que essas pesquisas iriam me fazer descobrir: minha própria doença.
Jonathan e eu éramos muito próximos. Ambos médicos que se especializavam em psiquiatria, juntos nos inscrevêramos no doutorado de ciências em Pittsburgh. Ele vinha do universo cosmopolita de São Francisco, eu de Paris via Montreal, e tínhamos nos encontrado de repente em Pittsburgh, no coração de uma América profunda, estrangeira tanto para um quanto para o outro. Alguns anos antes, publicáramos nossas pesquisas na prestigiosa revista Science, e depois – na Psychological Review – um artigo sobre o papel do córtex préfrontal, uma zona ainda pouco conhecida do cérebro que permite o elo entre o passado e o futuro. Apresentávamos uma nova teoria na psicologia, graças às nossas simulações do funcionamento cerebral em computador. Os artigos tinham causado um certo alvoroço, o que nos permitira, enquanto éramos simples estudantes, conseguir recursos e criar aquele laboratório de pesquisa.
Para Jonathan, se quiséssemos avançar nesse campo, as simulações em computador não bastavam mais. Precisávamos testar nossas teorias observando diretamente a atividade cerebral por intermédio de uma técnica de ponta, a imagem funcional por ressonância magnética (IRM). Na época, essa técni ca era balbuciante. Somente centros de pesquisa muito avançados possuíam aparelhos de ressonância magnética de alta precisão. Muito mais difundidos, os aparelhos RM de hospital eram também claramente menos efi cientes. Especificamente, ninguém tinha conseguido avaliar com um aparelho de hospital a atividade do córtex pré-frontal – o objeto de nossas pesquisas. De fato, ao contrário de outras regiões do cérebro cujas variações são muito fáceis de medir, o córtex pré-frontal não se ativa com muita intensidade. É preciso “empurrá-lo”, inventando tarefas complexas, para que ele se manifeste minimamente nas imagens IRM. Paralelamente, Doug, um jovem físico da nossa idade especialista em técnicas de IRM, teve a idéia de um novo método de gravação de imagens que talvez permitisse contornar a dificuldade. O hospital onde trabalhávamos concordou em nos emprestar seu aparelho RM à noite, entre oito e onze horas, uma vez terminadas as consultas. E nós começamos a testar a nova abordagem.
Doug, o físico, modificava continuamente seu método, enquanto Jonathan e eu inventávamos tarefas mentais para estimular ao máximo essa zona do cérebro. Após vários fracassos, conseguimos perceber em nossas telas a ativação do famoso córtex pré-frontal. Foi um momento excepcional, o resultado de uma fase de pesquisa intensa, tornada mais emocionante ainda pelo fato de ter sido vivida entre colegas.
Nós éramos um pouco arrogantes, eu devo confessar. Estávamos com 30 anos, acabáramos de concluir nossos doutorados, já tínhamos um laboratório. Com nossa nova teoria que interessava a todo mundo, éramos estrelas em ascensão na psiquiatria americana. Dominávamos tecnologias de ponta que ninguém praticava. As simulações em computador das redes de neurônios e as imagens cerebrais funcionais por IRM ainda eram quase desconhecidas dos psiquiatras universitários. Naquele ano, Jonathan e eu chegamos até a ser convidados pelo professor Widlöcher, o luminar da psiquiatria francesa da época, para fazer um seminário no Pitié-Salpêtrière, o hospital parisiense onde Freud estudou com Charcot. Durante dois dias, diante de um público de psiquiatras e neurocientistas franceses, nós explicamos como a simulação das redes de neurônios em computador podia ajudar na compreensão dos mecanismos psicológicos e patológicos. Aos 30 anos, havia razão para sentir orgulho.
A vida antes do câncer era o quê? Eu era um entusiasmado com a vida, um tipo de vida que agora me parece um tanto estranho: eu estava cheio da certeza do sucesso, confiante em uma ciência sem concessões, e não sentia muita atração pelo contato com os pacientes. Como trabalhava ao mesmo tempo com o internato de psiquiatria e o laboratório de pesquisa, tentava fazer o me nos possível na área clínica. Eu me lembro de um pedido que me fi zeram, para que me inscrevesse em um certo estágio. Como a maior parte dos internos, não me sentia muito animado: a carga de trabalho era muito pesada, e além do mais não era de psiquiatria propriamente dita. Tratava-se de passar seis meses em um hospital geral, tratando de problemas psicológicos de doentes hospitalizados por problemas físicos – gente que tinha sido operada, passado por um transplante hepático, que sofria de câncer, de lúpus, de esclerose múltipla… Eu não tinha nenhuma vontade de fazer um estágio que ia me impedir de dirigir o laboratório, e, além disso, toda aquela gente sofrendo, não era exatamente o que me interessava. Queria sobretudo fazer pesquisa, escrever artigos, participar de congressos e difundir minhas idéias. Um ano antes, eu tinha ido para o Iraque com os Médicos sem Fronteiras. Fui confrontado com o horror e gostei de aliviar o sofrimento de tantas pessoas, dia após dia. Mas a experiência não me deu vontade de continuar no mesmo caminho, uma vez de volta ao hospital em Pittsburgh. Era como se houvesse dois mundos diferentes e fechados um ao outro. Eu era antes de tudo jovem e ambicioso – ainda sou um pouco…
O lugar que o trabalho ocupava na minha vida tinha, aliás, desempenhado um papel importante no divórcio penoso do qual eu emergia naquele momento. Entre outras causas de desacordo, minha mulher não tinha suportado, por causa de sua carreira, o fato de eu querer continuar morando em Pittsburgh. Ela queria voltar para a França, ou pelo menos ir morar em uma cidade mais fun, como Nova York. Para mim, ao contrário, tudo estava se acelerando em Pittsburgh e eu não queria deixar meu laboratório e meus colaboradores. Tudo terminou diante do juiz, e durante um ano eu vivi sozinho na minha minúscula casa, entre um quarto e um escritório.
E então, num dia em que o hospital estava quase deserto – era entre o Natal e o ano-novo, a semana mais vazia dos Estados Unidos -, eu vi aquela jovem no refeitório lendo Baudelaire. Alguém que lê Baudelaire na hora do almoço é um espetáculo raro nos Estados Unidos, e ainda mais em Pittsburgh. Eu sentei na mesa dela. Ela era russa, tinha as maçãs do rosto protuberantes e grandes olhos negros, um ar ao mesmo tempo reservado e extremamente perspicaz. Às vezes ela parava completamente de falar, eu ficava desconcertado. Eu perguntei por que fazia aquilo e ela me respondeu: “Estou verificando interiormente a sinceridade do que você acabou de dizer.” Aquilo me fez rir. Eu estava gostando bastante daquela maneira de me colocar no meu lugar. Foi assim que nós começamos uma história que levou tempo para se desenvolver. Eu não tinha pressa, ela também não.
Seis meses mais tarde, fui trabalhar durante todo o verão na universidade de São Francisco em um laboratório de psicofarmacologia. O dono do labora tório estava em vias de se aposentar e gostaria que eu fosse seu sucessor. Eu me lembro de ter dito a Anna que se eu encontrasse alguém em São Francisco, talvez fosse o fim de nosso relacionamento. Que eu compreenderia perfeitamente se ela fizesse o mesmo por seu lado. Acredito que ela tenha lamentado, mas eu queria ser absolutamente franco. Ela não morava comigo, nosso relacionamento era agradável, mas não passava disso. Mesmo assim, eu dei de presente a ela um cachorro antes de partir… Havia entre nós uma certa ternura. Uma ternura e uma distância.
Mas, quando eu voltei em setembro para Pittsburgh, ela veio morar na minha casa de boneca. Eu sentia que alguma coisa entre nós estava crescendo, o que me deixava contente. Não sabia bem aonde aquela história iria me levar e continuava me mantendo na defensiva – não esquecera meu divórcio. Mas minha vida estava caminhando bem. Eu me sentia feliz com Anna. No mês de outubro, nós tivemos duas semanas mágicas. O verão tinha voltado. Naquele momento, eu olhei para ela e compreendi que estava apaixonado.
E depois tudo mudou inesperadamente.
Eu me lembro da gloriosa noite de outubro em Pittsburgh. De moto pelas avenidas ladeadas de flamboyants em direção ao centro de IRM, eu ia me encontrar com Jonathan e Doug para uma de nossas sessões de experiências com os estudantes que nos serviam de “cobaias”. Eles entravam no aparelho e nós lhes pedíamos para fazer tarefas mentais por um salário mínimo. Nossas pesquisas os animavam, e sobretudo a perspectiva de receber no final da sessão uma imagem numérica de seus cérebros, que eles corriam para exibir em seus computadores. O primeiro estudante veio por volta das oito horas. O segundo, previsto para nove ou dez horas, não apareceu. Jonathan e Doug me perguntaram se eu não queria me fazer de cobaia. Claro que eu aceitei, eu era o menos técnico dos três. Me deitei dentro do aparelho, um tubo extremamente apertado onde se fi ca com os braços colados no corpo, um pouco como em um caixão. Muita gente não suporta os aparelhos de ressonância magnética: 10% a 15% dos pacientes são excessivamente claustrofóbicos e não conseguem fazer IRM.
Eu estava dentro do aparelho e começamos como sempre por uma série de imagens cujo objetivo é destacar a estrutura do cérebro da pessoa examinada. Os cérebros, como os rostos, são todos diferentes. É preciso portanto, antes de qualquer avaliação, fazer uma espécie de cartografia do cérebro em repouso (o que se chama de imagem anatômica), com a qual serão comparadas as vistas tomadas no momento em que o paciente estiver executando atividades mentais (nós as chamamos de imagens funcionais). Durante todo o processo, batendo em um assoalho de madeira, correspondente aos movimentos do ímã eletrônico que se engata e desengata muito depressa para induzir variações do campo magnético no cérebro. O ritmo dessas batidas varia, caso essas imagens sejam anatômicas ou funcionais. Pelo que eu conseguia ouvir, Jonathan e Doug estavam fazendo imagens anatômicas do meu cérebro.
Ao final de uns dez minutos, a fase anatômica terminou. Eu esperava ver aparecer em um pequeno espelho colado bem em cima dos meus olhos a “tarefa mental” programada por nós a fim de estimular a atividade do córtex pré-frontal – era o objetivo da experiência. É para apertar um botão cada vez que se identifiquem letras idênticas dentre as que desfi lam rapidamente na tela (o córtex pré-frontal permite memorizar as letras que desapareceram e fazer as operações de comparação). Aguardo, pois, que Jonathan envie a tarefa e que se desencadeie o ruído próprio do aparelho registrando a atividade funcional do cérebro. Mas a pausa se prolonga. Não compreendo o que está acontecendo. Jonathan e Doug estão ao lado, na sala de controle, só se pode falar para lá por interfone. Então eu ouço nos fones de ouvido: “David, há um problema. Há alguma coisa errada com as imagens. Vamos ter que recomeçar.” Tudo bem. Recomeçamos. Fazemos outra vez dez minutos de imagens anatômicas. Chega o momento em que a tarefa mental devia começar. Eu aguardo. A voz de Jonathan me diz: “Não vai dar para fazer. Temos um problema. Espere um pouco.” Eles vêm para a sala do aparelho e fazem deslizar a mesa sobre a qual eu estou deitado, e eu vejo, ao sair do tubo, que eles estão com uma expressão estranha. Jonathan coloca uma mão sobre o meu braço e me diz: “Não podemos fazer a experiência. Tem um negócio no seu cérebro.” Eu peço que me mostrem na tela as imagens que eles gravaram por duas vezes no computador.
Eu não era nem radiologista nem neurologista, mas tinha visto muitas imagens de cérebro, era nosso trabalho cotidiano: havia, sem nenhuma ambigüidade, na região do córtex pré-frontal direito, uma bola redonda do tamanho de uma noz. Pela sua localização, não se tratava de um desses tumores benignos do cérebro que se vêem por vezes, operáveis, ou que não estão entre os mais virulentos – como os meningiomas, os adenomas da hipófise. Às vezes, trata-se de um cisto, de um abscesso infeccioso, provocado por certas doenças como a aids. Mas minha saúde era excelente, eu fazia muito esporte, chegava até a ser capitão do meu time de squash. Essa hipótese estava, pois, descartada. Impossível me iludir sobre a gravidade do que acabáramos de descobrir. Em estágio avançado, um câncer no cérebro sem tratamento geralmente mata em seis semanas; com tratamento, em seis meses. Eu não sabia em que estágio me encontrava, mas conhecia as estatísticas. Permanecemos os três silenciosos, não sabendo o que dizer. Jonathan mandou os filmes para o departamento de radiologia a fim de que fossem avaliados logo no dia seguinte por um especialista, e nós nos despedimos.
Fui embora na minha moto, em direção à minha casinha na outra ponta da cidade. Eram 11 horas, a lua estava muito bonita num céu luminoso. No quarto, Anna dormia. Eu me deitei e olhei para o teto. Era de fato muito estranho que a minha vida acabasse daquele jeito. Era inconcebível. Havia um tal fosso entre o que eu acabara de descobrir e o que eu construíra durante tantos anos, a disposição que eu acumulara para o que prometia ser um percurso longo e que devia resultar em realizações cheias de sentido. Tinha a impressão de estar só começando a contribuir com coisas úteis. Eu emergia de um período muito duro. O doutorado tinha sido especialmente trabalhoso. Meu casamento só durara três meses. Há sete anos eu vivia em uma cidade que não tinha nada de atraente. Com 22 anos, tinha deixado a França pelo Canadá e depois pelos Estados Unidos. Tinha feito tantos sacrifícios, investido tanto no futuro! E, de repente, me via diante da possibilidade de não haver futuro nenhum.
E, além do mais, estava sozinho. Meus irmãos estudaram um tempo em Pittsburgh, mas já tinham ido embora. Não tinha mais mulher. Minha relação com Anna era muito recente, e ela iria certamente me deixar: quem quer saber de um tipo que aos 31 anos está condenado à morte? Eu me via como um pedaço de madeira boiando dentro de um rio e que subitamente encalha na margem, preso. O destino dele era contudo fazer todo o caminho até o oceano. Ficara preso naquele lugar, ao acaso, onde não tinha verdadeiros elos. Eu ia morrer sozinho em Pittsburgh.
Lembro-me de um acontecimento extraordinário que se produziu enquanto eu estava deitado na cama contemplando a fumaça do meu cigarro indiano. Na verdade, eu não estava com vontade de dormir. Estava imerso nos meus pensamentos quando, de repente, ouvi minha própria voz falando na minha cabeça, com uma suavidade, uma segurança, uma convicção, uma clareza, uma certeza que eu não conhecia. Não era eu, e contudo era de fato a minha voz. No momento em que eu repetia a mim mesmo que “não é possível que isto tenha acontecido a mim, é impossível”, a voz disse: “Sabe de uma coisa, David? É perfeitamente possível, e não é assim tão grave.” E então se passou algo extraordinário e incompreensível, pois, naquele segundo, deixei de ficar paralisado. Era uma evidência: sim, era possível, faz parte da experiência humana, muitas outras pessoas a viveram antes de mim, eu não era diferente. Não era grave ser simplesmente humano, plenamente humano. Meu cérebro encontrara sozinho a via da tranqüilidade. Depois, quando tive medo novamente, tive que aprender a controlar minhas emoções. Mas naquela noite eu adormeci e no dia seguinte pude trabalhar e fazer o necessário para começar a enfrentar a doença, e encarar a minha vida.
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