You are currently browsing the daily archive for Julho 24th, 2008.

Receitas de Chocolate: Brigadeiro de Forno

Ingredientes

  • 200 g de chocolate granulado
  • 1 lata de leite condensado
  • 100 ml de leite
  • 1 colher de sopa de chocolate em pó
  • 1 colher de sopa de margarina
  • 3 ovos

Preparo

Bata no liqüidificador os ovos, o leite condensado, o leite, o chocolate em pó e a margarina. Depois encha forminhas redondas com cerca de 3 cm de diâmetro.

Aqueça o forno a 180ºC e leve o doce para assar em banho-maria por cerca de meia-hora. Retire os brigadeiros do forno e deixe-os esfriar por alguns intantes.

Desenforme o brigadeiro enquanto ainda estiver morno. Polvilhe o chocolate granulado em um prato e envolva o doce. Sirva-se! Depois leia um trecho do livro Dieta Nota 10 para aliviar (ou pesar mais) a consciência.

—–
+ Veja também:


Trecho do Livro: Isto é Biologia | Ernst Mayr

Livros Isto e Biologia Ernst Mayr This Is Biology BooksLivro: Isto é Biologia
Brasil | World

O que significa “vida”?

Os humanos primitivos viviam perto da natureza. Todos os dias eles se viam às voltas com plantas e animais, como coletores, caçadores ou pastores. E a morte — de bebês e velhos, de mulheres no parto, de homens na guerra — estava sempre presente. Certamente nossos primeiros ancestrais pelejaram com a eterna pergunta: “O que é a vida?”.

Talvez a princípio eles não fizessem distinção entre a vida num organismo e o espírito num objeto natural não-vivo. A maioria dos povos primitivos acreditava que um espírito pudesse residir em uma montanha ou uma nascente, assim como em uma árvore, um animal ou uma pessoa. Essa visão animista da natureza acabou se desfazendo, mas a crença de que “alguma coisa” numa criatura viva a distinguia da matéria inanimada e deixava o corpo no momento da morte continuou firme. Na Grécia antiga, essa alguma coisa nos seres humanos foi denominada “sopro vital”. Mais tarde, em especial na religião cristã, ela foi chamada de alma.

Na época de Descartes e da Revolução Científica, os animais (juntamente com as montanhas, os rios e as árvores) perderam o direito de ter alma. Mas uma cisão dualista entre o corpo e a alma nos seres humanos continuou a ser aceita quase universalmente, e até hoje muita gente acredita nela. A morte era um problema intrigante para um dualista: por que essa tal alma haveria de morrer ou deixar o corpo de repente? Se a alma saía mesmo do corpo, será que ela ia para algum lugar específico, como um nirvana qualquer ou o céu? Somente quando Charles Darwin desenvolveu sua teoria da evolução por meio da seleção natural foi que uma explicação racional e científica da morte se tornou possível. August Weismann, um seguidor de Darwin do final do século XIX, foi o primeiro autor a explicar que uma sucessão rápida de gerações fornece o número de novos genótipos necessário para lidar permanentemente com um ambiente que se modifica. Seu ensaio sobre a morte e o morrer foi o começo de uma nova era no nosso entendimento do significado da morte.

Quando os biólogos e filósofos falam da “vida”, no entanto, eles não estão se referindo à vida (quer dizer, ao viver) em oposição à morte, e sim da vida em oposição à falta dela em um objeto inanimado. Elucidar a natureza dessa entidade chamada “vida” tem sido um dos principais objetivos da biologia. O problema, aqui, é que “vida” remete a alguma “coisa” — uma substância ou uma força — e, durante séculos, os filósofos e os biólogos tentaram, em vão, identificar essa força ou substância vital. Na realidade, o substantivo “vida” é meramente uma reificação do processo de viver. Ela não existe como entidade independente. É possível lidar cientificamente com o processo de viver, algo impossível de fazer com a entidade abstrata “vida”. É possível descrever, e mesmo definir, o que é viver; é possível definir o que é um organismo vivo; e é possível tentar estabelecer uma fronteira entre vivo e não-vivo. Mais ainda, é possível até tentar explicar como a vida, enquanto processo, pode ser o produto de moléculas que não são, elas próprias, vivas.

O que é vida, e como explicar os processos vivos, tem sido objeto de acalorada controvérsia desde o século XVI. Para resumir, a situação era a seguinte: sempre houve um campo alegando que os organismos vivos não eram, na verdade, nada diferentes da matéria inanimada; algumas vezes essas pessoas foram chamadas de mecanicistas, mais tarde de fisicalistas. E sempre houve um campo oposto — os chamados vitalistas — reivindicando, por sua vez, que os organismos vivos possuíam propriedades que não poderiam ser encontradas na matéria inerte e que, portanto, conceitos e teorias biológicos não poderiam ser reduzidos às leis da física e da química. Em alguns períodos e centros intelectuais, os fisicalistas pareciam vencer o debate, e em outras épocas e locais os vitalistas pareciam prevalecer. No século XX ficou claro que ambos os lados estavam parcialmente certos e parcialmente errados.

Os fisicalistas acertaram ao insistir em que não há um componente metafísico da vida e que, no nível molecular, ela pode ser explicada de acordo com os princípios da física e da química. Ao mesmo tempo, os vitalistas estavam certos ao afirmar que, ainda assim, os organismos não são a mesma coisa que a matéria inerte, mas possuem diversas características autônomas, em particular seu programa genético historicamente adquirido, algo que não se conhece na matéria inanimada. Os organismos são sistemas multiordenados, bem diferentes de qualquer coisa encontrada no mundo inanimado. A corrente filosófica que terminou por incorporar os melhores princípios tanto do fisicalismo quanto do vitalismo (após descartar os excessos de ambos) ficou conhecida como organicismo, e é o modelo dominante hoje.

Os fisicalistas

As primeiras tentativas de produzir uma explicação natural (em oposição à sobrenatural) do mundo aconteceram na filosofia de vários pensadores gregos, entre eles Platão, Aristóleles, Epicuro e muitos outros. Esse começo promissor, no entanto, foi em grande parte esquecido em séculos posteriores. A Idade Média foi dominada pela adesão estrita aos ensinamentos das Escrituras, que atribuíam tudo na natureza a Deus e às Suas leis. Mas o pensamento medieval, particularmente no folclore, também era caracterizado por uma crença em todo tipo de forças ocultas. Esse pensamento animista, mágico, foi enfim reduzido, se não eliminado, por uma nova forma de olhar para o mundo que foi apropriadamente batizada de “desencantamento do mundo” (Maier, 1938).

As influências que levaram ao desencantamento do mundo foram várias. Elas incluíam não apenas os filósofos gregos, transmitidos ao Ocidente pelos árabes juntamente com a redescoberta dos seus escritos originais, mas também desenvolvimentos tecnológicos do fim da era medieval e do começo da Renascença. Havia grande fascínio por relógios e outros autômatos — na verdade, por quase todo tipo de máquina. Isso culminou na afirmação de Descartes de que todos os organismos, à exceção dos seres humanos, não eram nada senão máquinas.

Descartes (1596-1650) se tornou o porta-voz da Revolução Científica, que, com sua sede de objetividade e precisão, não podia aceitar idéias vagas, embebidas em metafísica e no sobrenatural, como a de uma alma em animais e plantas. Ao restringir aos humanos a posse da alma, e ao declarar que os animais não são nada mais que autômatos, Descartes cortou o nó górdio, por assim dizer. Com a mecanização da alma animal, ele completou o desencantamento do mundo.

É um tanto difícil entender por que o conceito de organismo como máquina teve uma popularidade tão duradoura. Afinal, nenhuma máquina jamais se construiu sozinha, replicou-se, programou-se ou foi capaz de buscar a própria energia. A semelhança entre um organismo e uma máquina é por demais superficial. No entanto, esse conceito perdurou por boa parte do século XX.

O sucesso de Galileu, Kepler e Newton em usar a matemática para reforçar suas explicações do cosmo também contribuiu para a mecanização da visão do mundo. Galileu (1623) capturou sucintamente o prestígio da matemática na Renascença quando declarou que o livro da natureza “não pode ser entendido a não ser que primeiro se aprenda a compreender a linguagem e ler os caracteres em que está composto. Ele está escrito na linguagem da matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender uma palavra que seja dele; sem eles, vagamos em um labirinto escuro”.

O rápido desenvolvimento da física logo depois levou a Revolução Científica um passo adiante, transformando o mecanicismo mais genérico do período anterior em um fisicalismo mais específico, baseado em leis concretas sobre o funcionamento dos céus e da Terra.

O movimento fisicalista teve o enorme mérito de refutar grande parte do pensamento mágico que caracterizara os séculos anteriores. Seu maior tento talvez tenha sido fornecer uma explicação natural dos fenômenos físicos e eliminar, dessa forma, grande parte da confiança no sobrenatural que antes era aceita por quase todo mundo. Se o mecanicismo, em particular o fisicalismo, sua cria, foi longe demais em alguns aspectos, isso era inevitável em se tratando de um movimento novo e enérgico. Mas, por causa de seu unilateralismo e de seu fracasso em explicar qualquer um que fosse dos fenômenos e processos específicos do organismo vivo, o fisicalismo induziu a uma rebelião. Esse contramovimento é geralmente descrito sob o termo guarda-chuva vitalismo.

Desde Galileu até os tempos modernos, tem havido na biologia um movimento de gangorra entre explicações estritamente mecanicistas da vida e as mais vitalistas. O cartesianismo chegou a seu ápice com a publicação de L’homme machine (1748), de De la Mettrie. O que se seguiu depois foi um florescimento vigoroso do vitalismo, particularmente na França e na Alemanha, mas triunfos posteriores da física e da química no meio do século XIX inspiraram uma ressurgência fisicalista na biologia. Esta ficou em grande parte confinada à Alemanha, o que talvez não chegue a ser surpreendente, já que em nenhum outro lugar a biologia prosperou tanto no século XIX como na Alemanha.

—–
+ Veja também:


LG Electronics apresenta monitor com o maior índice de contraste do mercado

O Monitor LG Widescreen W2284F tem o melhor índice de contraste disponível no mercado brasileiro (30.000:1) e foi desenvolvido para usuários que procuram um produto que ofereça excelente qualidade de imagem e tempo de resposta ultra-rápido.

O LG W2284F foi recentemente premiado com o IF Design Award 2008 por suas características diferenciadas: base transparente com luz branca interna que pulsa quando ligado, botão no formato de gota com LED azul (sensível ao toque) e design que privilegia as bordas arredondadas e a cor black piano.

O monitor, disponível na versão de 22 polegadas, conta com tempo de resposta ultra-rápido de 2ms, velocidade que faz até a mais rápida das imagens se tornar precisa e clara, sem sombras.

O LG W2284F conta também com as funções exclusivas “FUN” (4:3 no wide, para visualização de imagens 4:3 no widescreen sem distorção; efeito foto, que permite a visualização de imagens coloridas, preto e branco, em tom sépia e com mais brilho e ez-zooming, que reduz a resolução em um nível permitido para visualizar detalhes).

O monitor LG W2284F vem com o chip FLATRON f-Engine, desenvolvido com exclusividade pela LG, que permite ao aparelho fazer ajustes automáticos para obter uma melhor resolução.

—–
+ Veja também:


Trecho do Livro: O Primeiro Bilhão | Christopher Reich

Livros O Primeiro Bilhao Christopher Reich The First Billion BooksLivro: O Primeiro Bilhão
Brasil | World

- Você é milionário? – perguntou ela.

- Eu? – Grafton Byrnes apontou para o próprio peito. – Não. Temo que não.

- Sim – insistiu ela, acrescentando um recatado sorriso. – Você é milionário. Posso até jurar. Tem um bom terno. Uma gravata bonita. É confiante. Você é milionário.

Byrnes desgrudou os olhos da loira de pernas longas e perfeitas, que sentara junto do balcão ao seu lado, e olhou ao redor. O local chamava-se Metelitsa e era restaurante, boate e cassino, tudo num só, e ficava na avenida Novy Arbat, no centro de Moscou. Cortinas vermelhas bloqueavam a luz do sol da tarde, mantendo-a lá fora. Toalhas de mesa brancas, espelhos escurecidos e crupiês de gravata-borboleta davam ao ambiente um toque de classe. Mas uma boa farejada disse algo diferente a Byrnes: fumaça, perfume, inebriante mistura de bebidas de alto preço e moral frouxa. Podia reconhecer um bord*el só pelo cheiro.

- Sou um cara bem-sucedido – disse, de maneira concisa. – Nada de especial.

- Você é muito bem-sucedido, eu acho. Sim, um milionário. – Ela pronunciou a palavra me-lo-nár, e o sotaque eslavo mais a dicção lenta conferiram à palavra a pátina da sua importância de outrora. – Quer me pagar uma bebida?

- Claro – concordou ele antes de perguntar a si mesmo no que estaria se metendo. – O que quer?

- Vodca. Com gelo e uma casquinha de laranja.

- É pra já…

Byrnes estava achando cada vez mais difícil desviar os olhos da mulher a seu lado. Dizer que ela era deslumbrante teria sido uma injustiça. Devia ter no máximo vinte e um anos, os cabelos eram loiro-platinados, os olhos de cetim azul e tinha a boca amuada, que a mulher dele chamava de “boca picada de abelha” e que uma certa quantidade de colágeno pode reproduzir. Seu vestido era preto, curto e justo; as unhas estavam pintadas com esmalte de um marrom nacarado. Mas era o comportamento dela que Byrnes achava irresistível: a inquisitiva inclinação da cabeça, a atitude impudente, a ousadia brilhante do olhar que parecia dizer: “Desafie-me, eu faço qualquer coisa”. Em resumo, era a companhia sonhada por todos os divorciados de meia-idade.

- Barman!

Quando Byrnes girou seu banquinho para chamar a atenção do barman, sem querer bateu com o cotovelo no homem a seu lado.

- Izvinitye – disse, com um sorriso.

Desculpe-me.

O homem mediu-o de alto a baixo, depois se ergueu do banquinho. Tinha um metro e noventa de altura, uns vinte e dois anos, cabelo cortado rente, à moda da Marinha, e pescoço da grossura de um hidrante. Estava com um amigo que parecia ter nascido na mesma árvore que ele. Haviam-no prevenido contra rapazes como aqueles. Eram chamados de “cabeças-chatas”. Capangas da mafiya russa ou, mais polidamente, seguranças da elite empresarial russa.

Tome cuidado, o melhor amigo de Byrnes lhe dissera. Moscou não é Paris, Zurique e, nem Roma. Pode parecer uma cidade européia, mas não é. Você está na Rússia. O país inteiro está na merda. Dois por cento do povo está enriquecendo e o resto não tem nem um pinico pra mijar. Aí a situação é muito perigosa.

- Desculpe a mim – respondeu o russo, em inglês decente. – Espero não ter perturbado o senhor e a linda moça.

- Não – discordou Byrnes. – A culpa foi minha. Mais uma vez, peço que me desculpe. Deixe-me oferecer-lhe uma bebida. Eu ia mesmo fazer um pedido.

- Não precisa – disse o russo, por entre os dentes cerrados. – Tenha uma boa noite.

Fez que ajeitava o paletó e tornou a sentar-se. Só um cego não teria visto o revólver niquelado sob sua axila – um Colt Python .357 com coronha de madrepérola, se Byrnes não se houvesse enganado.

Ao voltar-se para a moça, viu que já havia duas bebidas sobre o balcão. Tudo bem, disse a si mesmo, vamos começar de novo. E ergueu seu copo:

- Na Strovye.

- Na Strovye. – Ela tomou um gole, depois se inclinou para frente e deu-lhe um leve beijo no rosto. – Meu nome é Svetlana.

- Eu sou Graf – apresentou-se ele, depois tomou toda a bebida de uma vez. – Bom conhecer você.

- Você fala russo. Por que não me contou isso antes?

- Nemogo – justificou-se Byrnes.

Só um pouco. A Força Aérea teria orgulho dele por se lembrar de tantas palavras em russo. Também sabia dizer “Sou um oficial”, “Meu número de série é…” e algumas poucas e muito bem escolhidas obscenidades.

- Eu não gosto dos homens russos – confidenciou Svetlana. – Muito arrogantes.

- Nem eu – concordou ele -, muito grandes.

Ela riu.

- Diga-me, Graf, por que está aqui em Moscou?

- Vim a negócios – respondeu Graf.

- Nee-goces? O que você faz?

Byrnes sacudiu os ombros e desviou o olhar.

- Nada de interessante. Apenas coisas rotineiras.

Essa resposta não estava muito longe da verdade. Ele chegara no começo daquela tarde para uma visita de emergência. Tudo muito ultra-secreto. Quarenta e oito horas no país para verificar o equipamento em funcionamento da Mercury Broadband, um serviço Internet multinacional e provedor que sua empresa estava por entregar ao público em uma semana. Haviam surgido dúvidas em relação à firma de Moscou, que seria o centro de operações da rede de comunicações – isto é, se ela de fato possuísse todos os itens físicos que afirmava ter: roteadores, interruptores, transmissores e tudo o mais. A missão de Byrnes era introduzir-se na empresa, verificar se tinha o equipamento necessário para prestar serviços de banda larga para sua propalada média de duzentos mil usuários, e enviar um relatório a respeito.

A OIP, ou oferta inicial pública, de ações era avaliada em dois bilhões de dólares, e do que ele viesse a descobrir dependia, nada mais, nada menos, a continuação da existência da firma. A luz verde significaria setenta milhões de dólares em honorários, garantia de gratificações relativas a negócios dada pela Mercury a qualquer momento e resgate, no caso de insolvência iminente.

Enfiar a oferta numa gaveta significava morte – definida também como demissões em massa ou a venda da firma para uma empresa maior ou ainda, no pior dos casos, fechar o barraco e colocar numa janela o aviso “Fui pescar”. Para sempre.

- E qual é o seu negócio? – quis saber Svetlana.

- Investimentos bancários. Ações. Títulos. Como na Wall Street, sabe?

- Então, eu estava certa – anunciou ela, orgulhosa, colocando uma das mãos na perna dele e deixando-a lá. – Você é milionário.

- Talvez sim – respondeu Graf -, talvez não. De qualquer modo, não é bem-educado falar de dinheiro.

- Acho que você está errado. O dinheiro é sexy – afirmou ela, batendo várias vezes as pálpebras. – Afrodisíaco, eu acho.

Ele pediu outra bebida e quando chegou tomou um grande gole. Começava a ter aquela sensação de suave mornidão e achava gostoso. Do seu banquinho alto junto ao balcão via a pista assoalhada de dança, um pequeno cassino com máquinas papa-níqueis e meia dúzia de mesas de jogo. Cabeças-chatas achavam-se na posição de sentido em alguns pontos ao redor do nível mais baixo do soalho onde ficavam os jogos de dados. Estavam de olho num homem de terno preto moderno, com o colarinho da camisa aberto e correntes de ouro. Notas, amarrotadas e verdes, de dinheiro americano eram trocadas por fichas azuis e prateadas. Ninguém apostava menos de quinhentos dólares. Os dados rolavam pelas mesas forradas de feltro verde. Vozes rouquenhas erguiam-se no salão, animadas, aduladoras, violentas. Os gritos em stacatto eram estridentes e criavam um agressivo zumbido. Às cinco para as nove de uma noite de quinta-feira o ambiente começava a ficar agitado.

- E por que, Graf, você veio para Metelitsa? – a mão de Svetlana se movera mais para cima na perna dele e um dedo percorria uma dobra do pano da calça. – Para me ver, será? Para ver Svetlana?

Ela o fitava fixamente, os magnéticos olhos azuis ordenando-lhe que chegasse mais perto. Seus lábios entreabriram-se e ele viu uma tira rosada e úmida por trás dos dentes perfeitos. Pôde sentir a morna e expectante respiração dela. O perfume de seus cabelos, lilás e água de rosas, flutuava diante dele… tentando-o… seduzindo-o.

- Sim… Quero dizer, não… Quero dizer…

Byrnes não sabia o que queria dizer. Não tinha certeza se era a vodca ou apenas Svetlana, mas o fato é que de repente estava decididamente embriagado. Tinha dificuldade em focalizar a visão, também. Colocou uma das mãos em cima do balcão e ficou em pé de maneira instável; deu outra cotovelada no matador a seu lado.

- Cuidado aí! – latiu o atacante.

Você está na Rússia. É muito perigosa.

- Desculpe, desculpe – Byrnes ergueu as mãos, em atitude de defesa. Voltou-se para Svetlana. – Com licença… Vou lá no fundo…

Resmungou as palavras “banheiro” e “lavar a cara”.

- Eu o ajudo – disse ela, passando um braço pela cintura dele. – Vamos subir a escada juntos. Eu lhe mostro o caminho.

- Não, não. Estou bem, de verdade. Para onde devo ir?

- Lá para cima. À direita. – Ela indicou o caminho, depois abraçou-o. – Você não abandonar Svetlana?

De súbito ela não mais parecia uma princesa de gelo russa, mas sim uma garota de vinte anos com medo de perder a féria do dia.

- Não – respondeu ele. – Não abandonar Svetlana.

Meu Deus, agora estava até falando como ela!

Dirigiu-se ao banheiro, cambaleando ao longo do balcão antes de recuperar o domínio sobre as pernas inseguras e subir a escada. Já dentro do banheiro, abriu totalmente a torneira de uma pia e jogou água fria no rosto, ao mesmo tempo em que respirava profundamente. Um minuto depois começou a sentir-se melhor. Tinha sido a vodca que bebera. Duas doses duplas e estava de quatro. Prometeu a si mesmo ter uma conversa séria com o recepcionista do hotel, para dizer-lhe que pensava em algo muito diferente quando lhe pedira que indicasse um lugar onde um cavalheiro pudesse tomar um aperitivo e jantar.

Com as duas mãos apoiadas na pia olhou-se bem de perto no espelho.

- Vamos, garoto – murmurou -, saia dessa!

Olhando-o do espelho estava um vigoroso e bonito pai de dois adolescentes que se aproximava da meia-idade. Alguns fios prateados infiltravam-se na generosa cabeleira negra. O cansaço sombreava os olhos duros. Seu queixo forte, quadrado, com uma fenda no meio, que era origem a milhares de piadas, evidenciava uma leve, porém já perceptível, flacidez. Piscando, perguntou-se que fim havia levado o galante aviador que havia transportado os soldados do seu país no decorrer de dois conflitos armados, o habilidoso piloto que aterrissara um F-15 em péssimas condições de vôo e acabara mergulhando em alto-mar quando perdera os freios hidráulicos.

- Calma aí – soou uma voz belicosa em seu íntimo. – Todos têm direito de se divertir de vez em quando.

- Você é um panaca – disse em voz alta, zangado pela própria falta de autocontrole. – Provavelmente a sua amiguinha reforçou a sua bebida, e aposto que o amigo grandalhão dela está esperando por você lá no fim da escada, disposto a dar-lhe as suas melhores atenções. Você veio para cá trabalhar e não bancar o idiota. Dê o fora daqui. Agora!

Cinco minutos depois, Grafton Byrnes saiu do banheiro. Sua gravata estava com o nó perfeito, se bem que um pouco úmida. O paletó achava-se abotoado. A leve embriaguez desaparecera, substituída por uma pulsante dor de cabeça e a vontade férrea de estar bem longe daquele local o mais depressa possível. Ao chegar no alto da escada, olhou para o bar. Svetlana conversava animadamente com os dois valentões ao lado dos quais estivera sentado.

Idiota!, pensou. Aquela fora, mesmo, uma situação planejada.

Girou nos calcanhares e foi para o salão onde funcionava o restaurante. Na parede ao fundo um luminoso indicava “Saída”. Esgueirando-se entre as mesas, esbarrou nas pessoas que jantavam e diminuiu um pouco o passo, apenas para se desculpar. Ao chegar na saída de emergência, abriu a porta e encontrou-se no topo de uma escada de incêndio. Colocou um pé hesitante no primeiro e enferrujado degrau. Toda a estrutura balançou e gemeu. Aquilo havia sido construído antes que Stalin tivesse sequer pensado nas palavras “plano qüinqüenal”.

Recuar. Passar para o plano B.

Mas quando se virou para entrar no edifício, a porta bateu. Do lado de fora não havia maçaneta para abri-la.

Byrnes engoliu em seco, uma sensação de mal-estar avolumando-se sobre seus ombros. Não tinha certeza se estava assustado ou embriagado, mas um momento depois descia a escada de incêndio. Degrau por degrau, desceu pela instável estrutura, os passos cautelosos, mas não inseguros. Seis lances de escada levaram-no três andares abaixo e quando chegou ao chão ficou imóvel, surpreso por aquela coisa não ter se desmanchado toda.

Ainda passava uma mão na outra para livrá-las do pó de ferrugem quando a porta da saída de emergência abriu-se e seu cabeça-chata favorito apareceu no patamar, seis lances de escada acima.

- Allo, Graf – chamou o russo. – Pare aí. Quero falar com você. Deve dinheiro à Tatiana.

Tatiana? O que acontecera com Svetlana?

Levou menos de um segundo para Byrnes decidir dar o fora. Devia a Svetlana, ou Tatiana, ou qualquer que fosse o verdadeiro nome dela, um pedido de desculpa por aquela retirada repentina, mas com certeza não lhe devia dinheiro algum. E mesmo que devesse não ia pagar para o cafetão dela. Algo lhe dava absoluta certeza de que aquele sujeito não era confiável para uma conversa tranqüila.

Depois de inspirar profundamente, Byrnes saiu correndo pela rua tão rapidamente quanto suas pernas lhe permitiam. Não precisou olhar para trás a fim de ver se o capanga da mafiya o seguia – o ranger raivoso da escada de incêndio lhe dizia tudo o que queria saber a respeito. O céu era azul-claro, caminhando para o índigo. A lua no quarto crescente estava pendurada lá no alto. O ar cheirava a batata frita e descarga de automóveis. Depois de virar a esquina do Metelitsa, cortou caminho pelo estacionamento para chegar mais rápido à outra rua.

A Novy Arbat havia sido construída no início da década de anos 1960 como uma resposta de Khrushchev à Quinta Avenida de Manhattan. Quatro faixas de tráfego fluíam em cada direção, ladeadas por uma sucessão de edifícios comuns de escritórios e de apartamentos, daquela espécie com aparelhos de ar-condicionado que gotejam um líquido gelado, suspensos em armações como poleiros, e metade das janelas cobertas de fuligem. Talvez a Bowery, pensou Byrnes, mas a Quinta? De jeito nenhum.

Ao chegar à rua, ergueu uma das mãos.

- Táxi!

Era uma tradição russa motoristas amadores oferecerem serviço de táxi em troca de alguns dólares, marcos ou francos. Num piscar de olhos, um Lada vermelho parou e Byrnes se acomodou no banco do passageiro.

- Hotel Baltschug – disse. Então, um segundo depois: – Não, espere.

Procurou nos bolsos e encontrou o endereço do centro de operações da rede de comunicações que deveria visitar. Se aquilo era a Rússia, queria ver-se bem longe o mais depressa possível. Olhou o céu de novo. Ainda havia luz bastante para que fizesse seu trabalho. Terminaria o que tinha a fazer naquela noite mesmo e pegaria o primeiro avião da manhã seguinte. Estaria em San Francisco às quatro da tarde e no escritório às cinco. Nunca lhe parecera tão divertido abrir seus e-mails.

- Você conhece Rudenev Ulitsa?

- Rudenev? – O motorista pareceu confuso, então se localizou. – Rudenev! Da! Da!

Era um homem pequeno, perto dos sessenta anos, com olhos de tártaro e os cabelos começando a mais ou menos cinco centímetros acima das sobrancelhas. Prova viva de que os mongóis tinham chegado às portas de Moscou.

- Rudenev Ulitsa, 99 – disse Byrnes, tirando uma nota de cem dólares da carteira e dando ao homem. – E depressa!

Cinco segundos depois o Lada descia à toda a faixa central da Novy Arbat. Por cima do ombro, Byrnes olhou através do pára-brisa traseiro. O tráfego do fim da tarde já se acumulava ao redor do carro. Por um instante teve uma rápida visão do estacionamento diante do Metelitsa. Uma longa fileira de carros esperava para ser retirada pelo manobrista. Homens e mulheres dirigiam-se à entrada. Não viu nem sinal do seu mais novo amigo.

- Rudenev, quanto tempo?

O motorista ergueu um dedo.

- Uma hora.

Byrnes afundou-se no banco, e prendeu a respiração.

Ir para a Rússia tinha sido, mesmo, uma péssima idéia.

—–
+ Veja também:


 

Julho 2008
D S T Q Q S S
« Jun   Ago »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Atualizações

Categorias