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Foto Pics Book Livro As Memorias do Livro Andrew Holtz Livro Primeiro Capitulo Livros BooksPrimeiro Capítulo: A Ciência Médica de House | Andrew Holtz

Livro: A Ciência Médica de House
Brasil | World

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Doutor, não me sinto muito bem.”

Uma jovem de 29 anos que sofreu uma convulsão e perdeu a capacidade de falar. Um homem com uma freqüência cardíaca tão acelerada que não bombeava o sangue direito. Uma modelo de 15 anos que de repente torna-se agressiva e, em seguida, desmaia.

Esses são alguns dos mistérios de House.

A princípio, todo paciente é um mistério. Muitos são resolvidos em questão de minutos. Outros demoram mais. Alguns nunca são resolvidos. O dr. Gregory House e sua equipe no seriado House enfrentam casos difíceis, até mesmo bizarros, em cada episódio; mas praticamente todos os pacientes que procuram o dr. House têm um histórico médico, mesmo que perguntas essenciais fi quem sem resposta. Todos os pacientes já consultaram vários médicos antes e já foram submetidos a uma série de testes. House sabe que o paciente tem um problema sério, com uma explicação incomum.

Quando uma mulher que está dormindo 18 horas por dia chega ao dr. House no episódio “Fidelity” (“Fidelidade”, 1-07), ela já passou por três médicos de emergência, dois neurologistas e um radiologista; por isso, o diagnóstico óbvio, depressão, já havia sido considerado e descartado.

Quando um jovem recém-formado aparece sofrendo de espasmos com sensações semelhantes a choques, outros médicos já investigaram as hipóteses de deficiência vitamínica, câncer, esclerose múltipla, neuropatias e algumas possibilidades de intoxicação antes de encaminhar o paciente à equipe do dr. House.

Os sintomas são, evidentemente, parte essencial das informações necessárias para fazer um diagnóstico adequado. Contudo, em geral, um conjunto de sintomas pode apontar para várias doenças. Essa lista de opções é conhecida como “diagnóstico diferencial”. Febre repentina, dor de garganta e fraqueza muscular são sintomas de gripe. Mas o mesmo conjunto de sintomas também aparece nos casos de dengue e em uma variedade de outras infecções virais e bacterianas. Freqüentemente, sintomas semelhantes aos da gripe são o primeiro sinal de uma infecção por HIV. Os sintomas isolados podem ser muito difíceis de interpretar.

Por isso, como os médicos começam a trilhar o caminho para o diagnóstico certo?

O contexto é tudo. Por exemplo, nos casos em que o paciente tiver viajado recentemente para os trópicos, haverá maior probabilidade de ser dengue. No entanto, antes que o médico tenha acesso ao histórico clínico e pessoal do paciente, antes que paciente e médico tenham tido a oportunidade de trocar uma palavra sequer, uma informação-chave é conhecida: o cenário em que o paciente se apresenta.

No jargão médico, “apresentar-se” é comparecer perante o médico com um problema ou queixa. A apresentação é a circunstância inicial de interação entre paciente e profissional de saúde, antes de qualquer exame ou qualquer tipo de teste. O paciente sente que algo está errado, ou algo acontece, um colapso ou uma convulsão, que mobiliza alguém a levá-lo para receber atendimento médico.

As circunstâncias iniciais em grande parte determinam o processo de diagnóstico primário. O paciente chegou de ambulância? Foi andando até uma emergência? Marcou consulta com antecedência com seu clínico geral regular? O dr. House avalia seus pacientes da clínica de modo bem diferente dos casos desafiadores que lhe são indicados. Ele considera que os pacientes da clínica têm enfermidades comuns. Na verdade, no episódio “Sports Medicine” (“Medicina Desportiva”, 1-12) ele diagnostica quatro pacientes em menos de três minutos, todos na sala de espera da clínica. Por outro lado, regularmente descarta diagnósticos comuns em seu quadro branco da sala de conferências, quando investiga mais a fundo os casos para encontrar explicações raras. O contexto do primeiro encontro com o médico é uma pista importante.

Assistência primária

“Se você é o dr. House e está naquele centro de atendimento terciário e o paciente está na unidade de tratamento intensivo, isso significa que ele está muito doente ou tem algo extremamente bizarro, porque foi parar naquele ambiente”, afirma Rick Kellerman, médico de família em Wichita, no estado norte-americano do Kansas, e presidente na gestão de 2006-2007 da Academia Americana de Médicos de Família.

“Um dos aspectos realmente difíceis da assistência primária é que atendemos pacientes que vêm diretamente da rua. Assim, algumas pessoas com dor de garganta estarão com amigdalite. Outras, com câncer no esôfago.”

De muitas maneiras diferentes, o primeiro médico a ver o paciente tem a tarefa mais difícil. Para o primeiro médico, um paciente novo pode ser uma página em branco. O problema ameaça sua vida ou é simplesmente incômodo? Ele vai melhorar por conta própria ou a condição precisa ser tratada?

“Acho que é incrivelmente difícil diagnosticar alguém. Para o público, freqüentemente parece que é muito fácil, mas, na verdade, é bastante difícil. Os pacientes não chegam com os diagnósticos estampados na testa”, afirma o dr. Kellerman.

Os pacientes chegam da rua, de maneira não-selecionada, com o que chamamos de problema não-diferenciado. Talvez a queixa seja cansaço. O desafio é ir do “cansaço” para o que realmente está acontecendo com aquele paciente.

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Livro: As Memórias do Livro
Brasil | World

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O vento soprava sobre o rio Miljacka, cortante como um tapa no rosto. O casaco fino de Lola não oferecia proteção alguma. Ela corria pela ponte estreita, com as mãos enfiadas nos bolsos. Do outro lado do rio, erguiam-se abruptamente degraus toscos esculpidos em pedra que iam dar em um emaranhado de vielas estreitas, ladeadas por prédios residenciais mal conservados. Lola galgou os degraus, dois a cada passo, e virou na segunda viela, finalmente encontrando proteção das fortes lufadas de vento.

Ainda não era meia-noite; por isso a porta de entrada do prédio não estava trancada. Lá dentro estava muito mais confortável que no frio da rua. Ela parou por um momento, para recuperar o fôlego. O saguão estava impregnado com o cheiro de repolho cozido e urina de gato. Lola subiu devagar a escada e girou cuidadosamente o trinco do apartamento de sua família. Embora sua mão direita se estendesse instintivamente para tocar o Mesusá na soleira da porta antes de entrar, ela não saberia dizer por que fazia isso. Tirou o casaco, desamarrou os sapatos e os levou para dentro na mão, andando nas pontas dos pés enquanto passava pelas formas adormecidas de sua mãe e seu pai. O apartamento era de um cômodo, tendo como única privacidade uma cortina divisória.

Sua irmãzinha era apenas uma saliência por baixo da colcha. Lola levantou a coberta e deslizou para o lado da irmã. Dora estava enrolada como um animal pequeno, irradiando um bem-vindo calor. Lola se aproveitou do calor das costas da irmã, que reclamou em meio ao sono, emitindo um baixo resmungo choroso e se afastando. Ela colocou as mãos geladas debaixo das próprias axilas. Apesar do frio, seu rosto ainda estava quente, e a testa ainda suada de tanto dançar; se seu pai acordasse, poderia notar.

Lola adorava dançar. Era a única coisa que a atraía para os encontros dos Jovens Guardiões. Ela gostava de caminhadas, também; as longas e duras caminhadas nas montanhas até um lago suspenso ou às ruínas de uma antiga fortaleza. Quanto ao restante, ela não ligava muito. Achava enfadonhas as infindáveis discussões políticas. E hebraico — não gostava de ler nem na própria língua, muito menos se esforçar para decodificar os estranhos rabiscos pretos que Mordechai estava sempre tentando lhe ensinar.

Ela pensava no braço dele sobre seus ombros, no círculo. Ainda sentia o peso agradável do corpo dele, musculoso pelo trabalho na fazenda. Quando ele arregaçou as mangas, revelou antebraços bronzeados e duros como avelãs. Embora ela não soubesse os passos, era fácil seguir a dança com ele ao seu lado, encorajando-a com um sorriso. Uma nativa de Sarajevo — mesmo pobre como Lola — jamais olharia duas vezes para um camponês bósnio. Ainda que o fazendeiro estivesse muito bem de vida, um morador da cidade se sentia superior a ele. Mas, com Mordechai, a situação era totalmente diferente. Ele crescera em Travnik, que, embora não fosse como Sarajevo, era uma cidade boa também. Ele era uma pessoa estudada; freqüentara o ginásio. Dois anos antes, porém, com dezessete anos de idade, partira de barco para a Palestina, para trabalhar em uma fazenda. E, pela descrição dele, não era uma fazenda nada próspera; um pedaço de terra estéril, seco, onde as pessoas quebravam as costas para cultivar qualquer coisa. E sem lucros, apenas a comida na boca e as roupas de trabalho. Pior que um camponês, na verdade. Entretanto, quando ele falava disso, era como se não houvesse no mundo profissão mais fascinante ou nobre que cavar valas para irrigação e colher tâmaras.

Lola adorava ouvir Mordechai quando ele falava de todas as coisas práticas que um pioneiro tinha que saber, por exemplo, tratar uma picada de escorpião ou estancar o sangue de um corte feio; como fazer uma latrina sanitária ou improvisar um abrigo. Lola sabia que jamais sairia de casa para ser uma pioneira na Palestina, mas gostava de pensar no tipo de vida aventurosa que exigia essas técnicas. E gostava de pensar em Mordechai. O jeito que ele falava fazia-a se lembrar das antigas canções ladinas que seu avô cantava para ela quando era garotinha. Ele tinha uma barraca de sementes em uma feira pública, e a mãe de Lola às vezes a deixava lá enquanto ia trabalhar. Seu avô sempre tinha um grande repertório de histórias de cavaleiros e fidalgos, e poemas de um lugar mágico chamado Sepharad, onde, ele dizia, seus ancestrais tinham vivido muito tempo atrás. Mordechai falava de sua nova terra como se fosse Sepharad. Ele dizia ao grupo que mal podia esperar para voltar àquele lugar, a Eretz Israel.

— Tenho inveja de cada nascer do sol em que eu não estou lá para ver as pedras brancas do vale do Jordão virarem ouro.

Lola não falava durante as discussões em grupo. Ela se sentia ignorante, em comparação com os outros. Muitos deles eram Svabo Jijos, judeus que falavam iídiche, que tinham vindo para a cidade após a ocupação austríaca, no fim do século XIX. Famílias que falavam a língua ladina, como a de Lola, habitavam a cidade desde 1565, quando Sarajevo fazia parte do império otomano, e o sultão muçulmano lhes oferecia refúgio da perseguição cristã. Os que vieram eram, na maioria, indivíduos errantes desde a expulsão da Espanha em 1492, incapazes de encontrar um lar permanente. Em Sarajevo, encontraram paz e aceitação, mas apenas algumas poucas famílias prosperaram. A maioria continuou na atividade de pequeno mercador, como seu avô, ou os artesãos com habilidades simples. Os Svabo Jijos eram mais educados, mais europeus em sua aparência. Não tardou até conseguirem empregos melhores e se mesclarem com as altas camadas da sociedade de Sarajevo. Seus filhos freqüentavam o ginásio e às vezes entravam para a universidade. Nos Jovens Guardiões, eles eram os líderes natos.

Uma era filha de um conselheiro da cidade; um era o filho do farmacêutico, um viúvo, para quem a mãe de Lola lavava roupa. O pai de outra garota era guarda-livros no ministério das finanças, onde o pai de Lola trabalhava como zelador. Mas Mordechai tratava todos como iguais, de modo que aos poucos eles tinham coragem de fazer perguntas.

— Mas, Mordechai — ela havia perguntado —, você não se sente feliz por estar de volta ao seu país, falando a sua língua, não tendo que trabalhar tanto?

Mordechai se voltou para ela com um sorriso.

— Meu lar não é aqui — ele disse, com delicadeza. — Nem o seu. O único verdadeiro lar para os judeus é Eretz Israel. E é por isso que estou aqui, para lhe falar da vida que você poderia ter, para preparála e levá-la comigo, para construirmos nossa terra natal judaica.

Ele levantou os braços, como que para incluí-la em um abraço comunal.

— Se você desejar, mesmo, não é um sonho. — Fez uma pausa, deixando as palavras pairando no ar. — Um grande homem disse isso uma vez, e eu acredito. E você, Lola, vai fazer seus sonhos se tornarem realidade? — Ela corou, não acostumada a receber atenção; e Mordechai sorriu, benevolente. E, então, estendeu as mãos para incluir o grupo todo. — Mas pensem nisso. O que vocês desejam? Fazer a dança do pombo, rastejando para pegar as migalhas dos outros, ou querem ser gaviões do deserto, e voar alto, para o seu destino?

Isak, o filho do farmacêutico, era um garoto estudioso, magérrimo, com braços e pernas finos como lápis. A mãe de Lola vivia dizendo que, apesar de toda a sua cultura, o farmacêutico não tinha a mínima idéia de como alimentar direito uma criança em fase de crescimento. Mas, de todos os jovens na sala, Isak era o único que se mexia impacientemente durante a preleção retórica de Mordechai. Mordechai observou isso e dirigiu toda a força de seu entusiasmo para ele.

— O que foi, Isak? Tem alguma coisa que gostaria de partilhar conosco?

Isak empurrou para trás seus óculos de armadura fina, e disse:

— O que você diz pode ser verdade para os judeus na Alemanha. Todos nós ouvimos notícias preocupantes de lá. Mas, aqui, não. O anti-semitismo nunca fez parte de nossa vida, em Sarajevo. Veja onde está a sinagoga: entre a mesquita e a igreja ortodoxa. Desculpe, mas a Palestina é o lar dos árabes, não o seu. E, com certeza, não o meu. Nós somos europeus. Por que daríamos as costas a um país que nos ofereceu prosperidade e educação, e nos tornaríamos camponeses em meio a um povo que não nos quer?

— Então, você se contenta em ser um pombo? — Mordechai perguntou, sorrindo, mas sua intenção de diminuir Isak era clara, mesmo para Lola.

Isak beliscou o osso do nariz e coçou a cabeça.

— Talvez — disse. — Mas pelo menos o pombo não faz mal a ninguém. O gavião vive à custa de outras criaturas que habitam o deserto.

Lola tinha ouvido os dois discutirem, até sentir dor de cabeça. Ela não tinha idéia de quem estava certo. Virou-se sobre o colchão fino e tentou aquietar a mente. Precisava dormir; do contrário, ficaria sonolenta durante as tarefas no dia seguinte, e seu pai quereria saber por quê. Lola trabalhava na lavanderia com a mãe, Rashela. Ficava cansada da tarefa de andar pelas ruas entregando roupa limpa e engomada e pegando roupas sujas. O vapor quente, úmido, a deixava com sono, quando ela deveria cuidar do cobre. Sua mãe às vezes a encontrava encolhida num canto, enquanto a água esfriava e uma escória gordurosa se formava na superfície.

Lujo, o pai, não era um homem agressivo, mas era rigoroso e prático. A princípio, ele tinha permitido a Lola ir aos encontros dos Jovens Guardiões, Hashomer Haza’ir em hebraico, depois que terminasse o trabalho. Seu amigo, Mosa, o custódio do centro da comunidade judaica, havia falado bem do grupo, dizendo que era uma saudável e inofensiva organização de jovens, assim como os escoteiros dos gentios. Mas Lola tinha caído no sono e deixado o fogo que aquecia o cobre apagar. Sua mãe a repreendeu, e o pai perguntou por quê. Quando soube que era por causa da dança, a hora, que meninos e meninas faziam juntos, ele proibiu Lola de freqüentar outras reuniões. “Você só tem quinze anos, filha. Quando for um pouco mais velha, nós lhe arrumaremos um noivo para ser seu parceiro, e aí você poderá dançar.”

Ela implorou para que ele reconsiderasse, dizendo que ficaria sentada durante a dança.

— Há coisas lá que eu posso aprender — disse.

— Coisas! — repetiu Lujo, em tom de desprezo. — Coisas que a ajudarão a ganhar o pão para a sua família? Não? Achei que não, mesmo. Idéias loucas. Idéias comunistas, pelo que eu sei. Idéias que são proibidas em nosso país, e que vão colocá-la numa encrenca da qual você não precisa. E uma língua morta que ninguém fala, exceto alguns velhos na sinagoga. Realmente, eu não sei o que passou pela cabeça de Mosa. Vou zelar pela sua honra, mesmo que os outros se esqueçam do valor de tal coisa. Com a caminhada, aos domingos, eu não me importo, se sua mãe não tiver tarefas para você. Mas de agora em diante você vai passar as noites em casa.

Desde aquele dia, Lola começara a viver uma exaustiva vida dupla. O Hashomer se reunia duas noites por semana. Nessas noites, ela ia para a cama cedo, com sua irmãzinha. Às vezes, depois de ter trabalhado muito, precisava de uma tremenda força de vontade para permanecer acordada, ouvindo a respiração suave, regular do corpinho de Dora ao seu lado. Mas geralmente a expectativa facilitava-lhe manter-se acordada, fingindo dormir, até perceber, pelo ronco dos pais, que já podia sair. Esgueirava-se furtivamente, vestindo as roupas no corredor e torcendo para que nenhum vizinho abrisse a porta e a visse.

Na noite em que Mordechai disse ao grupo que ia embora, Lola, a princípio, não entendeu.

— Vou para casa — ele disse.

Lola achou que ele estava falando de Travnik. Finalmente, porém, compreendeu que ele ia embarcar num trem de carga para a Palestina, e que ela nunca mais o veria. Ele convidou a todos que fossem se despedir dele na estação, no dia da partida. Em seguida, anunciou que Avram, um aprendiz de gráfico, decidira ir com ele.

— Ele é o primeiro. Espero que muitos de vocês venham em seguida. — Ele olhou para Lola, e ela teve a impressão que o rapaz não ia desviar o olhar. — Quando vierem, nós estaremos lá, para lhes dar as boas-vindas.

No dia em que Mordechai e Avram iam partir, Lola queria ir à estação de trem, mas sua mãe tinha uma pilha imensa de roupas para lavar e engomar. Rashela pelejava com o ferro pesado enquanto Lola assumia seu lugar costumeiro com o cobre e o rolo. Na hora em que o trem ia partir para o litoral, Lola olhou para as paredes cinza da lavanderia, observando o vapor condensar e escorrer pela pedra fria. O cheiro de mofo lhe enchia as narinas. Ela tentou imaginar os fortes e brancos raios de sol que Mordechai descrevera, tingindo de dourado as oliveiras, e o aroma dos brotos de laranja nascendo nos jardins circundados por muros de pedra, em Jerusalém.

O líder que assumiu o lugar de Mordechai, um jovem chamado Samuel, de Novi Sad, era um competente e habilidoso professor de atividades ao ar livre, mas não possuía aquele carisma que deixava Lola acordada durante as reuniões. Agora, mais do que nunca, ela adormecia enquanto esperava seus exaustos pais dormirem. Ela acordava com o chamado à oração da madrugada pelo khoja, convidando seus vizinhos muçulmanos à devoção. Percebia então que havia perdido uma reunião e se sentia apenas levemente arrependida.

Outros garotos e garotas seguiram Avram e Mordechai à Palestina, sempre com a despedida dos outros na estação de trem. De vez em quando, escreviam para o grupo. Seus relatos eram sempre parecidos; o trabalho era duro, mas a terra valia o esforço, e o que mais importava era você ser um judeu construindo uma terra judaica. Lola às vezes achava o tom das cartas estranho. Com certeza, algum deles deveria sentir falta de casa! Com certeza, nem todos deviam se dar bem com aquele tipo de vida! Mas parecia que aqueles que partiam se tornavam uma única pessoa, falando com a mesma voz monótona.

O ritmo das partidas foi aumentando à medida que as notícias da Alemanha pioravam. A anexação da Áustria deixava o Reich bem próximo das fronteiras. Mas a vida no centro comunitário prosseguia, como de costume, os velhos se encontrando para tomar café e conversar, os religiosos para o Oneg Shabbat, nas noites de sexta-feira. Não havia o senso de perigo, mesmo quando o governo fechou os olhos para as gangues fascistas que começavam a rondar as ruas, molestando todos que eles sabiam ser judeus, e entrando em luta física com os ciganos. “São só uns arruaceiros tolos”, Lujo dizia, dando de ombros. “Toda comunidade tem arruaceiros, mesmo a nossa. Isso não significa nada.”

Às vezes, quando Lola estava pegando roupas sujas de um apartamento na parte afluente da cidade, ela via Isak, sempre carregando nos ombros uma pesada mochila com livros. Ele estava na universidade agora, estudando química, como fizera seu pai. Lola queria lhe perguntar o que ele achava dos arruaceiros, e se estava preocupado com a ocupação da França. Mas ela tinha vergonha, por causa do cesto de roupa malcheirosa que carregava. E não tinha certeza se sabia o suficiente para fazer perguntas de uma maneira que não parecesse tola.

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