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O Estado de São Paulo
Lista dos livros mais vendidos no Brasil
02/03/2008
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Livros Livro Book A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS MARKUS ZUSAK

Ficção

01. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
MARKUS ZUSAK

02. O CAÇADOR DE PIPAS
KHALED HOSSEINI

03. A CIDADE DO SOL
KHALED HOSSEINI

04. O GUARDIÃO DE MEMÓRIAS
KIM EDWARDS

05. A DOÇURA DO MUNDO
THRITY UMRIGAR

06. A SOMBRA DO VENTO
CARLOS RUIZ ZAFÓN

07. HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE (Vol. 7)
J. K. ROWLING

08. A CONSPIRAÇÃO FRANCISCANA
JOHN SACK

09. OS LIMITES DA LEI
SCOTT TUROW

10. A BÚSSOLA DE OURO
PHILIP PULLMAN

1808 LAURENTINO GOMES Livros Livro Book

Não-Ficção

01. 1808
LAURENTINO GOMES

02. O SEGREDO
RHONDA BYRNE

03. O MONGE E O EXECUTIVO
JAMES C. HUNTER

04. VALE TUDO: TIM MAIA
NELSON MOTTA

05. ONDE ESTÁ TERESA?
ZIBIA GASPARETTO

06. A LEI DA ATRAÇÃO
MICHAEL J. LOSIER

07. MARLEY E EU
JOHN GROGAN

08. OS SEGREDOS DA MENTE MILIONÁRIA
T. HARV EKER

09. CASAIS INTELIGENTES ENRIQUECEM JUNTOS
GUSTAVO CERBASI

10. CÓDIGO DA VIDA
SAULO RAMOS

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+ Veja também:

Foto Pics Book Livro Bernard Cornwell The Winter King O Rei do Inverno Livro Primeiro Capitulo Livros BooksPrimeiro Capítulo: O Rei do Inverno | Bernard Cornwell

Livro: O Rei do Inverno
Brasil | World

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Primeira Parte
Um nascimento no inverno

Há muito e muito tempo, numa terra chamada Britânia, estas coisas aconteceram. O bispo Sansum, a quem Deus deve abençoar acima de todos os santos vivos e mortos, diz que estas memórias deveriam ser lançadas no poço sem fundo junto com todas as outras imundícies da humanidade decaída, pois são as histórias dos últimos dias antes que a grande escuridão baixasse sobre a terra que chamamos de Lloegyr, que significa Terras Perdidas, o país que um dia foi nosso mas que nossos inimigos agora chamam de Inglaterra. Estas são as histórias de Artur, o Senhor das Guerras, o Rei que Nunca Existiu, o Inimigo de Deus e — que o Cristo vivo e o bispo Sansum me perdoem — o melhor homem que conheci. Como chorei por Artur!

Hoje está frio. Os morros são de uma palidez mortal e as nuvens escuras. Teremos neve antes do anoitecer, mas Sansum certamente nos recusará a bênção de um fogo aceso. É bom para mortificar a carne, diz o santo. Agora estou velho, mas Sansum, que Deus ainda lhe dê muitos anos, é ainda mais velho, de modo que não posso usar a idade como argumento para destrancar o depósito de lenha. Sansum dirá apenas que o sofrimento é uma oferenda a Deus que sofreu mais do que todos nós, e assim, nós, os seis irmãos, tremeremos no semi-sono, amanhã o poço estará congelado e o irmão Maelgwyn terá de descer pela corrente para bater com uma pedra no gelo antes que possamos beber.

Mas o frio não é a pior aflição de nosso inverno, e sim que os caminhos gelados farão com que Igraine não visite o mosteiro. Igraine é nossa rainha, casada com o rei Brochvael. É morena e esguia, muito jovem, e tem uma agilidade que parece o calor do sol num dia de inverno. Vem aqui rezar para ter um filho, mas passa mais tempo conversando comigo do que rezando para Nossa Senhora ou Seu filho abençoado. Conversa comigo porque gosta de ouvir as histórias de Artur, e no verão passado contei tudo que pude lembrar e, quando não pude lembrar mais, ela me trouxe um maço de pergaminhos, um frasco de tinta feito de chifre e um feixe de penas de ganso para escrever. Artur usava penas de ganso no capacete. Estas penas de escrever não são tão grandes, nem tão brancas, mas ontem segurei o maço de penas diante do céu de inverno e por um glorioso momento de culpa pensei ter visto seu rosto abaixo das plumas. Durante aquele momento o dragão e o urso rosnaram sobre a Britânia para aterrorizar de novo os pagãos, mas então espirrei e vi que segurava um punhado de penas sujas de bosta de ganso e pouco adequadas para escrever. A tinta é igualmente ruim; mera fuligem de lâmpada misturada com goma de casca de macieira. Os pergaminhos são melhores. São feitos de pele de carneiro, que sobraram da época dos romanos e já estiveram cobertos por uma escrita que nenhum de nós sabe ler, mas as mulheres de Igraine rasparam as peles até ficarem brancas. Sansum diz que seria melhor se tanta pele de carneiro fosse transformada em sapatos, mas as peles raspadas são finas demais para ser moldadas, e além disso Sansum não ousou ofender Igraine e com isso perder a amizade do rei Brochvael. Este mosteiro não fica a mais de um dia de viagem dos lanceiros inimigos, e até mesmo nosso pequeno armazém poderia tentar aqueles inimigos que ficam do outro lado do riacho Negro, além dos morros e até no vale de Dinewrac se os guerreiros de Brochvael não recebessem a ordem de nos proteger. Mas não creio que mesmo a amizade de Brochavel faria Sansum se reconciliar com a idéia de o irmão Derfel escrever um relato sobre Artur, o Inimigo de Deus, e assim Igraine e eu mentimos ao santo abençoado dizendo que estou escrevendo uma tradução do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo para a língua dos saxões. O santo abençoado não fala a língua do inimigo, nem sabe ler, por isso podermos enganá-lo por tempo suficiente para que esta narrativa seja escrita.

E ele precisará ser enganado, já que, pouco depois de eu começar a escrever nesta pele mesma, o santo Sansum entrou na sala. Ficou perto da janela, olhou para o céu opaco e esfregou as mãos magras.

— Eu gosto do frio — disse ele, sabendo que eu não.
— Eu o sinto mais na mão que me falta — respondi gentilmente. É a minha mão esquerda que falta e estou usando o coto do pulso para firmar o pergaminho enquanto escrevo.
— Toda dor é uma lembrança abençoada da Paixão de nosso querido Senhor — disse o bispo, como eu esperava, depois se encostou na mesa para olhar o que eu tinha escrito. — Fale o que dizem as palavras, Derfel.
— Estou escrevendo a história no nascimento do Menino Jesus — menti.

Ele olhou para a pele, depois colocou uma unha suja sobre seu próprio nome. Sansum é capaz de decifrar algumas letras, e o nome dele deve ter se destacado do pergaminho tão claramente quanto um corvo na neve. Em seguida riu como uma criança e torceu com os dedos uma madeixa de meus cabelos brancos.

— Eu não estava presente no nascimento de Nosso Senhor, Derfel, no entanto este é o meu nome. Você está escrevendo heresia, seu sapo do inferno?
— Senhor — falei humildemente enquanto seu aperto mantinha meu rosto curvado para perto do trabalho. — Comecei o Evangelho registrando que é apenas pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e com a permissão de seu santo mais sagrado, Sansum — e aqui apontei para o nome dele —, que posso anotar essa boa nova de Cristo Jesus.
Ele puxou meu cabelo, arrancando alguns fios, depois se afastou.
— Você é fruto de uma prostituta saxã, e nenhum saxão jamais foi digno de confiança. Tome cuidado, saxão, para não me ofender.
— Glorioso senhor — falei, mas ele não ficou para ouvir mais. Houve um tempo em que Sansum se ajoelhava diante de mim e beijava minha espada, mas agora é um santo e eu sou apenas o mais miserável dos pecadores. E um pecador com frio, porque a luz fora de nossa paredes é oca, cinzenta e cheia de ameaça. A primeira neve cairá logo.

E existia neve quando começou a história de Artur. Foi há uma vida inteira, no último ano do reino do Grande Rei Uther. Aquele ano, segundo a contagem do tempo feita pelos romanos, era 1233 depois da fundação da cidade deles — ainda que nós, na Britânia, costumemos datar nossas datas a partir do Ano Negro, que foi quando os romanos abateram os druidas em Ynys Mon. Segundo essa contagem, a história de Artur começa no ano 420, ainda que Sansum, que Deus o abençoe, numere nossa época a partir da data do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo ele acredita, aconteceu 480 invernos antes de essas coisas começarem. Mas como quer que você conte nos anos, foi há muito, muito tempo, numa terra chamada Britânia, e eu estava lá.

E foi assim.
Começou com um nascimento.
Numa noite fria, quando o reino estava imóvel e branco sob uma lua minguante.
E no salão, Norwenna gritava.
E gritava.

Era meia-noite. O céu estava claro, seco e brilhante de estrelas. A terra congelada, dura como ferro, os riachos travados pelo gelo. A lua minguante era um mau presságio, e em sua luz carrancuda as longas terras do oeste pareciam brilhar com um tremeluzir pálido e frio. Nenhuma neve tinha caído há três dias, e não acontecera nenhum degelo, de modo que o mundo inteiro estava branco a não ser onde as árvores tinham sido sopradas pelo vento e agora estavam pretas e intricadas contra a terra devastada pelo inverno. Nosso hálito virava névoa, mas não era soprado para longe porque não existia vento nessa clara meia-noite. A terra parecia morta e imóvel, como se tivesse sido abandonada por Belenos, o Deus Sol, e deixada à deriva no vazio interminável e frio entre os mundos. E frio estava; um frio cortante, mortal. Agulhas de gelo pendiam compridas das traves no grande salão de Caer Cadarn e do portão em arco por onde, mais cedo, o séquito do Grande Rei tinha lutado através da neve para trazer nossa princesa a este alto lugar de reis. Caer Cadarn era onde ficava a pedra real; era o lugar de aclamação e portanto o único local, segundo insistia o Grande Rei, onde seu herdeiro poderia nascer.

Norwenna gritou de novo.

Nunca vi o nascimento de uma criança, nem, que Deus permita, verei. Vi uma égua dar à luz e vi cascos abrirem caminho para o mundo, e ouvi o ganido fraco de uma cadela parindo e senti os movimentos de um gato que nascia, mas nunca vi o sangue e o muco que acompanha os gritos de uma mulher. E como Norwenna gritava!, mesmo tentando não gritar, pelo menos foi o que as mulheres disseram depois. Algumas vezes os guinchos se interrompiam subitamente e deixavam um silêncio pairando em toda a alta fortaleza, e o Grande Rei podia levantar sua cabeça grandiosa de entre as peles e ouvir com tanta atenção quanto se estivesse num bosque com os saxões por perto, só que agora prestava atenção na esperança de que o silêncio súbito marcasse o instante do nascimento, quando seu reino teria de novo um herdeiro. Ele ouvia, e no silêncio da fortaleza gelada escutávamos o barulho áspero da respiração terrível de sua nora e uma vez, só uma, houve um gemido patético, e o Grande Rei meio se virou como se fosse dizer algo, mas então os gritos recomeçaram e sua cabeça baixou sobre as peles grossas, de modo que somente os olhos podiam ser vistos brilhando na caverna sombria formada pelo pesado capuz e a gola de pele.

— O senhor não deveria estar nas muralhas, Grande Senhor — disse o bispo Bedwin.

Uther balançou a mão enluvada como a sugerir que Bedwin podia ir para dentro, onde os fogos estavam acesos, mas que o Grande Rei Uther, o Pendragon da Britânia, não iria se mexer. Queria ficar nas muralhas de Caer Cadarn para olhar a terra gelada e o ar onde espreitavam os demônios, mas Bedwin estava certo, o Grande Rei não deveria estar montando guarda contra demônios naquela noite inclemente. Uther estava velho e doente, mas a segurança do reino dependia de seu corpo inchado e de sua mente lenta e triste. Há apenas seis meses ele estava vigoroso, mas então veio a notícia da morte de seu herdeiro, Mordred — o mais amado de seus filhos e o único nascido da esposa e que permanecia vivo — fora cortado por um machado saxão e sangrara até a morte sob o morro do Cavalo Branco. A morte deixara o reino sem herdeiro, e um reino sem herdeiro é um reino condenado, mas esta noite, se os Deuses quisessem, o herdeiro de Uther nasceria da viúva de Mordred. A não ser que fosse uma menina, claro, e nesse caso toda a dor era em vão e o reino estava condenado.

A cabeça grandiosa de Uther se levantou das peles que estavam com uma crosta de gelo onde seu hálito havia tocado nos pêlos.
— Tudo está sendo feito, Bedwin? — perguntou Uther.
— Sim, Grande Senhor, tudo. — O bispo Bedwin era o conselheiro de maior confiança do rei e, como a princesa Norwenna, era cristão. Norwenna, protestando por ter sido tirada da quente vila romana na localidade próxima de Lindinis, tinha gritado com o sogro dizendo que só iria a Caer Cadarn se ele prometesse manter longe as feiticeiras dos Deuses antigos. Ela insistira num nascimento cristão, e Uther, desesperado por um herdeiro, tinha concordado com a exigência. Agora os sacerdotes de Bedwin estavam entoando suas orações numa câmara ao lado do salão onde água benta tinha sido espargida, uma cruz fora pendurada sobre a cama do nascimento e outra posta sob o corpo de Norwenna. Bedwin explicou:
— Estamos rezando à abençoada Virgem Maria que, não tendo conspurcado seu corpo sagrado com qualquer conhecimento carnal, tornou-se a santa mãe de Cristo e…
— Basta — rosnou Uther. O Grande Rei não era cristão e não gostava de que qualquer homem tentasse transformá-lo num, mas aceitava que o Deus cristão provavelmente tinha tanto poder quanto a maioria dos outros. Os acontecimentos desta noite estavam testando essa tolerância até o limite.

E era por isso que eu estava lá. Eu era uma criança à beira de me tornar homem, um cumpridor de mandados imberbe que se agachava, gélido, ao lado da cadeira do rei nas muralhas de Caer Cadarn. Tinha vindo de Ynys Wydryn, a fortaleza de Merlin, que ficava no horizonte norte. Minha tarefa, se fosse ordenado, era pegar Morgana e suas auxiliares que esperavam na enlameada cabana de um pastor de porcos ao pé da encosta oeste de Caer Cadarn. A princesa Norwenna poderia querer a mãe de Cristo como sua parteira, mas Uther estava a postos com os Deuses mais antigos, caso o mais novo fracassasse.

E o Deus cristão fracassou. Os gritos de Norwenna diminuíram, mas os gemidos ficaram mais desesperados até que finalmente a mulher do bispo Bedwin veio do salão e se ajoelhou trêmula ao lado da cadeira do Grande Rei. O bebê, disse Ellin, não queria sair, e a mãe, pelo que ela temia, estava morrendo. Uther desconsiderou o último comentário. A mãe era nada, apenas a criança importava, e somente se fosse um menino.

— Grande Senhor… — começou Ellin nervosamente, mas Uther não estava mais ouvindo.
Ele deu um tapa na minha cabeça.
— Vá, garoto. — E então saí de sua sombra, saltei no interior da fortaleza e corri entre as construções, pela brancura sombreada pela lua. Os guardas do portão oeste me olharam passar correndo, e em seguida eu estava escorregando e caindo pela rampa de gelo da estrada oeste. Eu cortava a neve, rasguei o manto num toco de árvore e caí com força sobre algumas sarças pesadas de gelo, mas não senti nada, a não ser o peso gigantesco do destino de um reino sobre meus ombros jovens.
— Lady Morgana! — gritei enquanto me aproximava da cabana. — Lady Morgana!
Ela devia estar esperando, porque a porta da cabana se abriu imediatamente e seu rosto com a máscara de ouro brilhou ao luar.
— Vá! — gritou ela para mim. — Vá! — Então me virei e comecei a subir de volta o morro enquanto ao meu redor um punhado dos órfãos de Merlin se esforçavam para andar na neve. Estavam carregando panelas que batiam umas nas outras enquanto corriam, mas quando a encosta ficou íngreme e perigosa demais eles eram forçados a jogar as panelas adiante e subir atrás, usando mãos e pés. Morgana seguia mais devagar, atendida por sua escrava Sebile que carregava os feitiços e ervas necessários. — Acenda os fogos, Derfel! — gritou ela para mim.
— Fogo! — gritei sem fôlego enquanto atravessava o portão. — Fogo nas muralhas! Fogo!

O bispo Bedwin protestou contra a chegada de Morgana, mas o Grande Rei se virou em fúria contra o conselheiro, e o bispo se rendeu humilde à fé mais antiga. Seus sacerdotes e monges receberam a ordem de sair da capela feita às pressas, de carregar archotes para todas as partes das muralhas e lá empilhar os archotes com lenha e madeira arrancada das cabanas que se agrupavam dentro do muro norte da fortaleza. Os fogos estalaram, depois chamejaram gigantescos na noite, e sua fumaça pairou no ar, formando uma cúpula que confundiria os espíritos malignos e os manteria longe deste lugar onde uma princesa e seu filho estavam morrendo. Nós, os jovens, corríamos pelas fortificações batendo panelas para fazer o grande barulho que entonteceria ainda mais os malignos.

— Gritem — ordenei aos filhos de Ynys Wydryn, e outras crianças ainda vieram das cabanas dentro da fortaleza para somar seus ruídos aos nossos. Os guardas batiam com as lanças nos escudos, e os sacerdotes empilhavam mais lenha numa dúzia de piras flamejantes enquanto o resto de nós gritávamos nossos desafios ruidosos contra as fúrias malignas que cortavam a noite para amaldiçoar o trabalho de parto de Norwenna.

Morgana, Sebile, Nimue e uma menina foram para o salão da frente. Norwenna gritou, mas não soubemos se gritava em protesto contra a vinda das mulheres de Merlin ou porque a criança teimosa estava partindo seu corpo ao meio. Mais gritos soaram enquanto Morgana expulsava os auxiliares cristãos. Jogou as duas cruzes na neve e lançou no fogo um punhado de artemísia, a erva da mulher. Mais tarde, Nimue me contou que elas puseram bolotas de ferro na cama úmida para espantar os espíritos malignos que já estavam alojados ali, e puseram sete pedras-de-águia em volta da cabeça da mulher que se retorcia, para trazer os bons espíritos da morada dos Deuses.

Sebile, a escrava de Morgana, pôs um galho de bétula sobre a porta do salão e balançou outro sobre o corpo da princesa que se contorcia. Nimue se agachou perto da porta e urinou na soleira para manter as fadas malignas longe do salão, depois pegou um pouco da urina com a mão em concha e levou até a cama de Norwenna, onde borrifou-a sobre a palha como mais uma precaução para que a alma da criança não fosse roubada na hora do nascimento. Morgana, com a máscara dourada brilhando à luz das chamas, afastou as mãos de Norwenna com tapas para poder forçar um amuleto feito de âmbar raro entre os seios da princesa. A menina, uma das enjeitadas sob a proteção de Merlin, esperava cheia de terror ao pé da cama.

A fumaça das fogueiras recém-ateadas turvava as estrelas. Criaturas que acordaram na floresta ao pé de Caer Cadarn uivavam para o barulho que tinha irrompido acima, enquanto o Grande Rei Uther erguia os olhos para a lua que ia morrendo e rezava para que não tivesse chamado Morgana tarde demais. Morgana era filha natural de Uther, a primeira dos quatro bastardos que o Grande Rei havia gerado em Igraine de Gwynedd. Sem dúvida, Uther preferiria que Merlin estivesse ali, mas ele tinha sumido há meses, ido para lugar nenhum, ido, algumas vezes nos parecia, para sempre, e Morgana, que aprendera com Merlin, devia tomar o lugar dele nesta noite fria em que batíamos panelas e gritávamos até ficar roucos para afastar os inimigos malignos de Caer Cadarn. Até mesmo Uther se juntou a nós fazendo barulho, ainda que o som de seu cajado batendo na borda da muralha fosse muito fraco. O bispo Bedwin estava de joelhos, rezando, enquanto sua mulher, expulsa da sala do parto, chorava, uivava e pedia ao Deus cristão para perdoar as feiticeiras pagãs.

Mas a feitiçaria deu certo, porque nasceu uma criança viva.

O grito dado por Norwenna na hora do nascimento foi pior do que qualquer um que o precedera. Foi o urro de um animal atormentado, um lamento para fazer toda a noite soluçar. Nimue me disse mais tarde que Morgana tinha causado essa dor enfiando a mão no canal do nascimento e arrancando o bebê para este mundo com o uso de força bruta. A criança veio sangrenta de dentro da mãe atormentada, e Morgana gritou para a menina pegar a criança enquanto Nimue amarrava e cortava o cordão. Era importante que o bebê fosse segurado primeiro por uma virgem, e por isso a menina tinha sido levada ao salão, mas ela ficou apavorada e não queria chegar perto da palha sangrenta onde Norwenna agora ofegava, e onde o recém-nascido, manchado de sangue, parecia natimorto.

— Pegue-o! — gritou Morgana, mas a menina fugiu em lágrimas. Assim, Nimue pegou o bebê da cama e limpou sua boca, para que ele pudesse respirar ofegante pela primeira vez.
Todos os presságios eram muito ruins. A lua com halo estava minguando e a virgem fugira do bebê que agora começava a chorar alto. Uther ouviu o barulho e o vi fechar os olhos enquanto rezava aos Deuses para ter recebido um menino.
— Posso? — perguntou hesitante o bispo Bedwin.
— Vá — disse Uther com rispidez, e o bispo desceu rapidamente a escada de madeira, arrebanhou a túnica e correu pela neve pisoteada até a porta do salão. Ficou ali alguns segundos, depois correu de volta para a muralha, acenando.
— Boas novas, Grande Senhor, boas novas! — gritava Bedwin enquanto subia desajeitadamente pela escada de mão. — Notícia excelente!
— Um menino. — Uther antecipou a notícia soltando as palavras junto com a respiração.
— Um menino! — confirmou Bedwin. — Um belo menino!
Eu estava agachado perto do Grande Rei e vi lágrimas surgirem em seus olhos virados para o céu.
— Um herdeiro — disse Uther num tom de espanto, como se na verdade não tivesse ousado esperar que os Deuses o favorecessem. Enxugou as lágrimas com a mão coberta pela luva de pele. — O reino está salvo, Bedwin.
— Deus seja louvado, Grande Senhor, ele está salvo — concordou Bedwin.
— Um menino — disse Uther, e então, de repente, seu corpo enorme foi sacudido por uma tosse terrível que o deixou ofegante. — Um menino — disse de novo quando a respiração se estabilizou.
Morgana veio depois de um tempo. Subiu a escada e prostrou o corpo atarracado na frente do Grande Rei. Sua máscara de ouro brilhava, escondendo o horror que havia por baixo. Uther tocou o ombro dela com o cajado.
— Levante-se, Morgana. — Em seguida ele enfiou a mão debaixo do manto e pegou um broche de ouro para recompensá-la.
Mas Morgana não quis aceitar.
— O menino é aleijado — disse ela numa voz agourenta. — Tem um pé torto.
Vi Bedwin fazer o sinal-da-cruz, porque um príncipe aleijado era o pior presságio que essa noite poderia trazer.
— É muito ruim? — perguntou Uther.
— Só o pé — disse Morgana em sua voz áspera. — A perna é bem formada, Grande Senhor, mas o príncipe jamais correrá.
Bem do fundo de seu manto de pele cheio de dobras Uther deu um risinho.
— Os reis não correm, Morgana. Eles andam, governam, cavalgam e recompensam seus súditos bons e honestos. Aceite o ouro. — Ele estendeu de novo o broche para ela. Era uma peça de ouro grosso, maravilhosamente moldada na forma do talismã de Uther, um dragão.
Mas Morgana continuou não querendo aceitar.
— E o menino é o último filho que Norwenna poderá ter, Grande Senhor. Nós queimamos as secundinas e elas não soaram nem uma vez. — As secundinas eram sempre postas no fogo, de modo que o som estalado que elas fizessem diria quantos outros filhos a mulher teria. — Eu ouvi com atenção, e elas permaneceram silenciosas.
— Os Deuses as queriam silenciosas — disse Uther, irritado. — Meu filho está morto — prosseguiu em voz monótona —, então quem mais poderia dar a Norwenna um filho homem em condições de ser rei?
Morgana fez uma pausa.
— O senhor? — disse ela enfim.

Uther riu diante do pensamento, depois o riso virou uma gargalhada e finalmente outro ataque de tosse que o fez se curvar para a frente numa dor que rasgava os pulmões. A tosse finalmente passou e ele inspirou trêmulo enquanto balançava a cabeça.

— O único dever de Norwenna era parir um filho homem, Morgana, e isso ela fez. Nosso dever é protegê-lo.
— Com toda a força de Dumnonia — acrescentou Bedwin, ansioso.
— Os recém-nascidos morrem com facilidade — alertou Morgana aos dois homens, em sua voz opaca.
— Este não — disse Uther com ferocidade. — Este não. Ele irá até você, Morgana, em Ynys Wydryn, e você usará suas habilidades para garantir que ele viva. Ande, pegue o broche.
Finalmente Morgana aceitou o broche do dragão. O bebê aleijado ainda estava chorando, e a mãe gemia, mas sobre as muralhas de Caer Cadarn os que batiam panelas e cuidavam das fogueiras estavam comemorando a notícia de que nosso reino tinha um herdeiro de novo. Dumnonia tinha um edling, e o nascimento de um edling significava grandes festas e presentes generosos. A palha da cama, ensangüentada pelo parto, foi trazida e jogada numa fogueira para que as chamas estalassem ruidosas. Uma criança havia nascido; tudo que essa criança precisava agora era de um nome, e desse nome não poderia haver dúvida. Nenhuma. Uther se levantou da cadeira e ficou de pé, enorme e sério sobre a muralha de Caer Cadarn para pronunciar o nome de seu neto recém-nascido, o nome de seu herdeiro e o nome do edling de seu reino. O bebê nascido no inverno teria o nome do pai.
Iria se chamar Mordred.

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Best Seller Books
Lista dos livros mais vendidos
nos Estados Unidos
Mar 02, 2008
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Ficção

1. THE APPEAL
John Grisham
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2. STRANGERS IN DEATH
J. D. Robb (Nora Roberts)
Brasil | World

3. 7TH HEAVEN
James Patterson & Maxine Paetro
Brasil | World

4. LADY KILLER
Lisa Scottoline
Brasil | World

5. DUMA KEY
Stephen King
Brasil | World

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Não-Ficção

1. LIBERAL FASCISM
Jonah Goldberg
Brasil | World

2. IN DEFENSE OF FOOD
Michael Pollan
Brasil | World

3. THE AGE OF AMERICAN UNREASON
Susan Jacoby
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4. RECONCILIATION
Benazir Bhutto
Brasil | World

5. PREDICTABLY IRRATIONAL
Dan Ariely
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The New York Times Lista dos Livros Mais Vendidos Bestseller Books Best Seller THE SECRET O Segredo Rhonda Byrne Livro

Auto-Ajuda

1. THE SECRET (O Segredo)
Rhonda Byrne
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2. WOMEN AND MONEY
Suze Orman
Brasil | World

3. THE THIRD JESUS
Deepak Chopra
Brasil | World

4. BECOME A BETTER YOU
Joel Osteen
Brasil | World

5. YOU: STAYING YOUNG
Michael F. Roizen & Mehmet C. Oz
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