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Livro: Uma Questão Pessoal
Brasil | World

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Lá estava o mapa da África, em exposição no mostruário. Vistoso, belo como um cervo africano. Bird deixou escapar um suspiro abafado. Enfiadas em uniformes e com as partes expostas do corpo arrepiadas de frio, as vendedoras da livraria não lhe deram atenção. Entardecia. Como o corpo de um gigante recém-falecido, a atmosfera em volta da Terra fora perdendo aos poucos o calor daquele início de verão e se resfriara por completo. As pessoas pareciam querer recuperar das sombras do subconsciente a memória do calor do dia, cujo resquício a pele ainda retinha, e suspiravam desoladas. Junho, seis e meia da tarde. Ninguém mais suava na cidade. Exceto sua própria mulher, que àquela altura estaria transpirando intensamente por todos os poros do corpo desnudado. Estendida sobre um lençol de borracha e com os olhos fortemente cerrados, perdiz atingida em vôo e em plena queda. Gemendo de dor, tomada de angústia e ansiedade.
Bird estremeceu e observou melhor os detalhes do mapa. O oceano ao redor da África era do mesmo azul do céu lavado das madrugadas de inverno. Melancólico de provocar lágrimas. As latitudes e longitudes não haviam sido traçadas mecanicamente, com o auxílio de um compasso, por exemplo. Eram imprecisas mas belas, porque executadas à mão. Traços grossos, em tinta negra. O continente propriamente dito parecia o crânio de um homem com a cabeça inclinada. A cabeça gigantesca parecia contemplar com afeição a Austrália dos coalas, das gazelas e dos cangurus. A África em miniatura, com a distribuição demográfica do continente, impressa na parte inferior do mapa, era como uma cabeça de cadáver começando a decompor-se; outra, mostrando as vias de comunicação, era uma cabeça escalpelada com finas artérias à mostra. Aquelas duas pequenas Áfricas sugeriam morte violenta.
– Quer que retire o atlas do mostruário?
– Não, o que eu quero não é este. Estou procurando os mapas rodoviários da África Ocidental, da África Central e da África Meridional, os mapas Michelin – disse Bird.
A vendedora se agachou em frente a uma estante cheia de mapas Michelin de todos os tipos. Começava a vasculhá-los apressadamente quando Bird, revelando-se conhecedor, acrescentou:
– São os mapas de número cento e ointenta e dois e cento e oitenta e cinco.
O que Bird examinava entre suspiros era uma das páginas de um espesso atlas mundial. Respeitável, encadernado em couro, uma peça de antiquário. Ele já verificara o preço daquele volume luxuoso semanas antes. Valia umas cinco vezes seu salário de professor de cursinho. Contando as receitas de sua atividade secundária como intérprete, poderia obtê-lo em três meses de trabalho. Mas precisava sustentar a si próprio, à mulher e ao ser que em breve viria ao mundo. Era um chefe de família.
A vendedora separou dois conjuntos de mapas de capa vermelha e os depositou sobre o balcão. Tinha mãos pequenas e sujas e dedos feios. Lembravam as patas de um camaleão agarradas a um tronco ressequido. Bird viu o logotipo Michelin por entre os dedos dela: o homem batráquio de borracha rodando um pneu estrada afora provocou nele o sentimento de que a compra dos mapas era uma tolice. Porém aqueles mapas teriam um uso prático importante. Bird perguntou sobre o outro mapa, o da edição luxuosa do mostruário, pelo qual continuava interessado.
– Por que o atlas está sempre aberto no mapa da África?
Cautelosa, a vendedora preferiu não responder.
Por que ele estaria sempre aberto na página da África?, Bird se perguntava.
Preferência da vendedora, por achar aquela página a mais bonita do livro? Talvez. Mas o mapa de um continente mutável como o africano se desatualiza com muita rapidez. Provoca a caducidade de qualquer atlas. Deixar o atlas aberto na página da África seria, pura e simplesmente, proclamar a obsolescência da obra inteira. Que mostrassem o mapa de um continente politicamente estabilizado, sem a mínima possibilidade de desatualização. Mas qual deles? O continente americano, ou seja, o norte-americano?
Bird interrompeu suas conjecturas para pagar pelos dois mapas de capa vermelha, depois avançou na direção da escada, passando cabisbaixo entre a estátua de bronze de uma mulher nua e rechonchuda e uma árvore plantada num vaso. O baixo-ventre da estátua de bronze estava lustroso e úmido, ensebado pelas mãos dos carentes de sexo. Brilhava como um nariz de cachorro. Quando estudante, também ele costumava alisar aquela barriga ao passar. Agora, não tinha coragem nem de olhar o rosto da mulher de bronze. Vira o médico e as enfermeiras, de mangas arregaçadas, lavando e esfregando os braços com desinfetante. E, nua, estendida ali ao lado, sua mulher. O médico tinha braços peludos.
Bird atravessou o congestionado setor de revistas do andar térreo. Enfiou cuidadosamente o embrulho contendo os mapas no bolso externo do paletó, protegendo-o enquanto caminhava. Pela primeira vez, comprava mapas de uso prático como aqueles.
Quando vou conseguir pisar o solo africano? Erguer o rosto, ver o céu da África através das lentes dos óculos escuros? Chegará mesmo esse dia? Ele não acreditava. Quem sabe, neste exato momento, eu não tenha perdido para sempre essa chance? Quem sabe não estou dando adeus à única e última oportunidade da minha juventude? Mas fazer o quê?
Inconformado, empurrou com violência a porta da livraria e saiu para a rua, para o lusco-fusco da tarde. Início de verão, pairava no ar uma nebulosidade, fruto da poluição aliada às sombras do crepúsculo. A vitrina exibia livros de capa dura recém-importados. Lá no alto, um eletricista que trocava lâmpadas de néon pulou e caiu agachado diante de Bird. Ele recuou, assustado, e se deteve, observando a própria imagem refletida no vidro da ampla vitrina às escuras. Estava envelhecendo com a rapidez de um corredor de curta distância. Bird, vinte e sete anos e quatro meses. Recebera o apelido aos quinze anos de idade e desde então nunca deixara de ser Bird. Flutuando desajeitadamente à superfície do lago escuro da vitrina, como um afogado. Bird, baixo e magro, a própria imagem do pássaro. Seus amigos haviam engordado assim que se formaram e começaram a trabalhar. Até os magros teimosos haviam deixado de sê-lo depois do casamento. Bird, contudo, continuara magro. Só o ventre estava um pouco mais saliente. Andava sempre encurvado e de ombros encolhidos. Não mudava de posição nem quando estava parado. Jeito de velho, desses que um dia foram atletas.
Não só os ombros encolhidos lembravam as asas dobradas de um pássaro. O próprio rosto era o de um pássaro. Nariz afilado e liso, fortemente encurvado, com o aspecto de um bico de ave; olhos inexpressivos, com um brilho duro de goma-laca, que se arregalavam de vez em quando como se estivessem apavorados. Lábios finos e rijos, sempre cerrados. A linha da face e do queixo formava um ângulo muito agudo. Cabelos avermelhados, subindo ao céu como uma labareda. Aos quinze anos, Bird já era assim. Nada se alterara aos vinte. Até quando, aquele jeito de pássaro? Faria parte da espécie humana cujo rosto e físico se conservam irremediavelmente imutáveis dos quinze aos sessenta? Sendo assim, estaria fadado a conviver com aquela imagem da vitrina pelo resto da vida. Idéia realmente angustiante e repulsiva, que lhe dava náuseas. Pássaro decrépito e cansado, cheio de filhos, o seu futuro…
Foi aí que, do fundo daquele lago escuro, surgiu uma mulher de aspecto positivamente estranho. Corpulenta, de ombros largos, tão alta que sua cabeça ficava acima do reflexo da cabeça de Bird. Com a sensação de que havia um monstro às suas costas Bird finalmente se voltou, na defensiva. A mulher estava agora diante dele, com ar indagador, examinando-o com atenção. Bird devolveu o olhar, mas percebeu que pouco depois a ansiedade estampada no rosto dela era afastada por um sopro de indiferença. Ela esboçara um contato, com algum intuito. E de repente se dera conta de que Bird não correspondia bem ao tipo presumido. A essa altura ele já percebera o que havia de estranho naquela mulher. Uma cabeleira encaracolada, por demais vistosa, envolvia-lhe o rosto, digno de um anjo dos quadros de anunciação de Fra Angelico. E pontas de barba malfeita que emergiam, trêmulas, rompendo a fantástica espessura da maquilagem, em especial sobre o lábio superior.
– Oi! – cumprimentou a mulherona com uma voz retumbante, masculina e jovial, embaraçada pelo engano que cometera.
– Oi! – respondeu Bird, apressando um sorriso, a voz um tanto desafinada e estridente. Outra das razões de seu apelido.
Após seguir com o olhar o travesti que dava meia-volta sobre o salto alto e se afastava, Bird começou a caminhar no sentido oposto. Atravessou uma ruela estreita e cruzou com extremo cuidado uma larga avenida por onde circulavam bondes. Repentes de aflição aguçavam-lhe a cautela. Um passarinho aflito. O apelido, sem dúvida, era muito adequado.
O sujeito me tomou por um homossexual, quando me viu contemplando minha própria imagem na vitrina. Achou que eu estava à espera de um encontro. Terrível engano. Mas percebeu imediatamente o erro quando me voltei, e isso salva minha honra. Assim tranqüilizado, Bird agora achava graça do bizarro da situação. Oi! – nas circunstâncias, não havia saudação mais adequada, não é mesmo? Aquele travesti deve ser um intelectual refinado.
Nascia uma súbita simpatia pelo jovem fantasiado de mulher. Será que ele encontraria um companheiro homossexual para a noite? Faria uma abordagem bem-sucedida? Quem sabe. Talvez devesse ter encontrado coragem para acompanhar o travesti.
Atravessou a avenida e entrou numa rua repleta de lanchonetes e bares. Estava imaginando o que teria acontecido se tivesse acompanhado o outro até uma espelunca qualquer. Com certeza estariam agora ambos nus e deitados, conversando como bons irmãos. Estaria nu apenas para deixar o outro à vontade. Teria revelado que sua mulher estava em trabalho de parto. Diria também que havia muito tempo sonhava viajar pela África, e que o maior de todos os seus sonhos era publicar um livro de aventuras depois de regressar. Os céus da África, esse seria o título. E diria que com o nascimento da criança ele ficaria confinado numa jaula – a família. Já era prisioneiro de fato dessa jaula desde que se casara, mas a porta, que ainda lhe parecia estar aberta, seria definitivamente trancada pelo filho que estava para nascer. Sua viagem solitária pela África ficaria impossível. E aquele travesti removeria, uma por uma, todas as sementes da neurose que o atormentava. Compreenderia, sem dúvida. O rapaz saíra pelas ruas da cidade fantasiado de mulher em busca de uma companhia homossexual. O empenho em ser fiel às distorções de sua personalidade o levara àquilo. Gente como ele com certeza teria olhos e ouvidos sensíveis para os temores enraizados nas profundezas do subconsciente.
Amanhã de manhã poderíamos fazer a barba juntos, lado a lado, ouvindo o noticiário pelo rádio, partilhando o mesmo pote de sabão. O travesti era moço, mas parecia ter barba cerrada. Bird sorriu, interrompendo o fio do pensamento. Dificilmente teria passado uma noite com o rapaz, mas podia ao menos tê-lo convidado para um trago. Nesse momento avançava por uma rua em que bares de terceira se enfileiravam um ao lado do outro para acolher a multidão de bêbados que buscavam aqueles lugares. Estava com sede e com vontade de beber, mesmo desacompanhado. Torcendo o pescoço longo e fino, Bird percorreu com os olhos os dois lados da rua, à escolha de um bar. Na verdade, não estava muito à vontade. O que não diria sua sogra, se fosse ver a mulher e o filho recém-nascido cheirando a bebida! Não queria dar a impressão, nem a ela nem ao sogro, de ter voltado a beber. Decepcioná-los de novo, não!
No momento, o sogro de Bird lecionava numa pequena faculdade particular, mas até se aposentar fora chefe do departamento de inglês da universidade onde Bird estudava, e o fato de Bird ter conseguido, jovem como era, uma colocação como professor devia-se mais à proteção do sogro do que à sorte. Ele adorava aquele velho, e também o venerava. Bird jamais conhecera alguém com a generosidade do sogro e não queria desapontá-lo outra vez.
Aos vinte e cinco anos de idade, Bird se casara, em maio. Naquele verão, durante quatro semanas, entregara-se ao uísque. De repente se achara solto e à deriva num oceano do álcool, Robinson Crusoé embriagado. Estudante de pós-graduação, abandonara suas obrigações. Deixara de comparecer à faculdade e ao emprego de meio período para se enfurnar em sua quitinete ouvindo discos e ingerindo uísque o dia inteiro e a noite inteira também, é claro. Dias de horror, em que nada fizera que comprovasse sua condição de ser humano vivente a não ser ouvir música, tomar uísque e curtir o sono intranqüilo dos ébrios. Passadas quatro semanas, ressuscitara das setecentas horas de embriaguez para se descobrir miseravelmente lúcido. Completamente destroçado, uma cidade arrasada pela guerra. Alcoólatra com escassa possibilidade de recuperação, restava-lhe cultivar novamente os campos áridos de seu relacionamento. Primeiro consigo mesmo, em seguida com o seu mundo.
Bird encaminhara um pedido de desligamento do curso de pós-graduação e fora trabalhar como professor de cursinho, emprego obtido graças ao sogro. Agora, dois anos depois, aguardava o parto da mulher. Surgisse aquele Bird no quarto do hospital, com álcool nas veias, a sogra fugiria espavorida, levando a filha e o neto!
Ele próprio se mantinha precavido contra a atração do álcool ainda presente, já atenuada mas pertinaz. Ressurgindo das quatro semanas no inferno do uísque, tentara diversas vezes descobrir o que o arrastara para as setecentas horas de bebedeira. Jamais chegara a uma conclusão. E desde que não conseguira atinar com as causas do súbito mergulho às profundezas da bebida, sempre havia o perigo de voltar para lá a qualquer momento. Não tinha como organizar uma defesa enquanto não compreendesse o que haviam sido aquelas quatro semanas.
Numa das obras sobre a África que lia com tanta avidez, deparara com o seguinte trecho do diário de uma expedição ao continente:
“As histórias de bebedeiras dos nativos, objeto dos relatos de todos os exploradores e até hoje comuns nas aldeias africanas, revelam a existência de um vazio na vida das pessoas deste belo país. Insatisfações básicas ainda impelem os habitantes das aldeias africanas à autodestruição desesperada”.
O trecho provinha de um texto referente aos nativos das aldeias do Sudão agreste. Ao lê-lo, Bird percebeu que vinha evitando ir fundo na pesquisa das carências da própria vida, das raízes de sua insatisfação. Sabendo que elas existiam, porém, acautelava-se com a bebida.
Bird chegou a uma praça de onde as ruas se irradiavam, no centro do bairro de casas noturnas. O relógio elétrico do grande teatro à sua frente indicava sete da noite, hora de ligar para a sogra no hospital e saber do estado da mulher. Vinha ligando de hora em hora desde as três da tarde. Olhou em volta e viu que havia na praça diversas cabinas de telefone público, todas ocupadas. Ele se exasperava, não tanto pela ansiedade em saber como estava a mulher, mas pela preocupação com os nervos da sogra, que aguardava a ligação junto ao telefone destinado aos acompanhantes. Um sentimento obsessivo de que estava sendo tratada com descortesia pelo hospital se apossara dela desde o momento em que levara a filha para lá. Talvez o telefone esteja sendo usado por algum parente de alguém internado. Pobre esperança. Bird retrocedeu pela rua para examinar bares, cafeterias, pequenos restaurantes e lojas de artigos ocidentais. Havia o recurso de entrar numa daquelas casas e pedir para usar o telefone. Contudo, queria evitar os bares e já jantara. Seria o caso de comprar um remédio para o estômago?
Saiu em busca de uma farmácia e acabou diante de uma loja de aspecto peculiar, numa esquina. Na entrada via-se um cartaz enorme com a fotografia de um caubói sacando o revólver do coldre, pronto para atirar. Uma tabuleta anunciava, em letras rebuscadas: Gun Corner. Estava afixada sobre a cabeça de um índio que o caubói pisava com sua bota de esporas. No interior da loja viam-se diversos jogos instalados em caixas de cor acinzentada, embaixo de bandeiras das nações e de enfeites de papel rendado verdes e amarelos pendurados no teto. Uma rapaziada muito mais jovem do que Bird se movimentava de um lado para o outro. Espiando pelos vidros da porta, emoldurados por fitas vermelhas e índigo, ele avistou um telefone vermelho instalado bem ao fundo.
Bird passou entre um jukebox que berrava um rock’n’roll já fora de moda e uma máquina de venda automática de Coca-Cola e penetrou na Gun Corner. As paredes de madeira estavam sujas de barro ressequido. Imediatamente, teve a sensação de que fogos de artifício espoucavam dentro de seus ouvidos. A muito custo, conseguiu chegar até o telefone, passando pelo labirinto de adolescentes, máquinas automáticas, dardos e um tiro ao alvo em animais em miniatura: numa caixa, contendo um pequeno cenário de bosque, corças marrons, lebres brancas e enormes sapos verdes se moviam, transportados por uma correia. No momento em que Bird ia passando, uma colegial, cercada de amigas que riam alegremente, acabava de acertar um sapo, acrescentando cinco pontos ao total registrado pela máquina. Bird introduziu uma moeda no telefone e discou o número já memorizado do hospital. Escutou com um ouvido o som remoto da chamada e com o outro o rock’n’roll misturado ao ruído de milhares de patas de caranguejo correndo juntas – os adolescentes, maravilhados com seus brinquedos automáticos, esfregavam continuamente o assoalho gasto com as solas, macias como luvas, de seus sapatos italianos. Qual seria a opinião da sogra sobre aquela confusão toda? Deveria desculpar-se também pela barulheira, além de se desculpar pelo atraso na ligação?
Depois de quatro chamadas, atendeu a voz da sogra, um arremedo infantil da voz da mulher. Afinal Bird esqueceu as desculpas e perguntou logo pelo estado da mulher.
– Não, ainda não nasceu. Ela está morrendo de sofrimento, e nada! A criança não nasce!
Bird ficou alguns instantes atônito e sem palavras, observando os minúsculos orifícios do receptor. Buracos de formiga. Ou estrelas negras no céu noturno do bocal, ora anuviado, ora limpo, conforme sua respiração.
– Então volto a ligar às oito. Até logo – disse, um minuto depois, e com um suspiro colocou o fone no gancho.
Bem ao lado dele havia um brinquedo de dirigir um carro em miniatura. Um rapaz de aparência filipina estava no assento do motorista, manobrando o volante. Uma miniatura de Jaguar tipo E, suportada por um cilindro, estava instalada sobre uma correia, ao centro. Desenhada sobre a superfície da correia, uma paisagem rural. A correia se movia continuamente, fazendo o Jaguar correr pela bela estrada suburbana que avançava, sinuosa e interminável. Obstáculos como vacas, carneiros e pastoras surgiam a todo momento, pondo em perigo o Jaguar tipo E. O volante devia ser movido constantemente, para acionar o cilindro e salvar o carro de um acidente. Totalmente absorto, o rapaz se mantinha encurvado sobre o volante, enrugando a testa estreita e morena, dirigindo sem parar, como se a correia panorâmica fosse levá-lo a um ilusório ponto de chegada. Soltava um ruído sibilante misturado com saliva por entre os lábios finos, que mordia com os caninos pontudos. Entretanto, a estrada cheia de obstáculos prosseguia infindável à frente do pequeno Jaguar tipo E. A velocidade da correia caía, e o menino retirava apressadamente uma moeda do bolso da calça. Introduzia-a entre as pálpebras de aço do receptor, e continuava. Por alguns momentos, Bird ficou em pé atrás do rapaz, meio de lado, observando-o. De repente, a fadiga em seus pés se tornou insuportável. Caminhou apressado para a porta dos fundos, andando como se pisasse em metal quente, e deu com dois brinquedos bastante curiosos.
Do lado direito, um grupo de rapazes produzia um enorme estrondo, semelhante a um impacto mecânico. Não dava para ver o que produzia o ruído. Todos eles vestiam blusões com dragões bordados em fios dourados e prateados, desses à venda em lojas de presentes de Hong Kong para turistas americanos. Ninguém percebera a presença de Bird, que se encaminhou para o brinquedo à esquerda, uma versão século XX de um instrumento de tortura medieval, a virgem de ferro. Uma bela jovem de aço, em tamanho natural, pintada em xadrez preto e branco, protegia os seios nus com as mãos. Para vê-los, era necessário afastar seus braços com toda a força. Um sistema media a pressão dos punhos e a força dos braços e mostrava os resultados nas janelas, os olhos da estátua. Acima da cabeça da virgem de aço, uma tabela indicava a capacidade média em cada idade.
Bird enfiou uma moeda entre os lábios da mulher de ferro e em seguida tratou de afastar seus braços para descobrir-lhe os seios. Os braços de ferro resistiram tenazmente. Bird empregou mais força. Seu rosto se aproximava cada vez mais do peito da jovem de aço. A face da mulher fora moldada numa expressão de sofrimento, e aquilo dava a Bird a sensação de que a estava violentando. Deu tudo o que pôde, até que os músculos de seu corpo começaram a doer. De repente, ouviu um barulho de engrenagens no corpo da mulher e nos olhos dela surgiram números pintados em cor levemente sangüínea. Bird relaxou os músculos e, ofegante, verificou seu desempenho comparando-o com a tabela. Os números obtidos por Bird foram setenta na pressão dos punhos e setenta e cinco na força dos braços, mas não ficava claro a que se referiam aqueles números. A tabela sugeria, para a idade de vinte e sete anos, cento e dez para os dois esforços. Incrédulo, Bird examinou a tabela e verificou que os números que conseguira correspondiam à média de um homem de quarenta anos. Quarenta anos! Foi um golpe no estômago. Deixou escapar um arroto. Bird, vinte e sete anos e quatro meses, dono de punhos e braços com poder muscular de um homem de quarenta anos! Mas como? E, além do mais, sentia pontadas nos músculos dos ombros e da virilha, pontadas que ameaçavam instalar-se sob a forma de uma desagradável dor muscular crônica. Estava na hora de recuperar o amor-próprio. Avançou para o brinquedo da direita, surpreso consigo mesmo por levar tão a sério aqueles passatempos físicos.
Com a aproximação de Bird, os rapazes de blusão bordado reagiram com a vivacidade de animais que percebem um intruso em seu território. Imobilizaram-se imediatamente e passaram a observá-lo de forma acintosa. Bird recuou, hesitante, mas com jeito de quem não quer nada examinou o dispositivo instalado no centro do círculo de rapazes. Tinha o formato de uma forca, dessas dos filmes de faroeste. No lugar onde se penduraria a cabeça do infeliz havia um objeto com o formato de um elmo eslavo. O elmo deixava à mostra a extremidade de um saco de areia de couro preto. Havia um orifício no centro do elmo, uma espécie de olho ciclópico. Depois de introduzir uma moeda no orifício, puxava-se o saco de areia para baixo e, simultaneamente, o ponteiro do mostrador instalado numa coluna voltava à posição zero. No centro do mostrador havia um desenho de um rato robotizado. O rato escancarava a boca amarela e gritava: “Venha! Teste o poder de seu punho!”.
Vendo que Bird permanecia imóvel, apenas contemplando o dispositivo, um dos jovens se adiantou. Introduziu uma moeda no orifício do elmo e puxou para baixo o saco de areia, um pouco constrangido, mas confiante, como quem vai fazer uma demonstração. Depois, recuou um passo e, saltitando feito bailarino, aplicou um murro no saco de areia. Ouviu-se um estrondo e em seguida o ruído da corrente golpeando o interior do elmo, do qual pendia o saco de areia. A potência da pancada ultrapassara a capacidade de medida do mostrador, e o ponteiro tremia desvairado. A rapaziada dos blusões explodiu numa gargalhada só. O dispositivo entrara em pane e não voltava à posição inicial. Orgulhoso, o jovem assumiu a posição de caratê e desferiu um leve chute no saco de areia. Só então o ponteiro se moveu, indicando cento e cinqüenta, e o saco se recolheu vagarosamente para dentro do elmo, feito um bernardo-eremita fatigado. Nova gargalhada dos jovens.
Um entusiasmo irracional levou Bird a tirar o paletó. Colocou-o sobre uma máquina de jogo de bingo, tomando cuidado para não amassar o mapa da África. Em seguida, introduziu no elmo uma das muitas moedas que levava no bolso com o objetivo de telefonar para o hospital. Os adolescentes observavam cada um de seus movimentos. Bird puxou para baixo o saco de areia e deu um passo para trás, ficando em posição de sentido. Quando colegial, certa vez fora expulso da escola numa cidade provinciana. Na época, preparava-se para os exames de ingresso à faculdade. Quase todas as semanas se envolvia em brigas com bandos de arruaceiros da cidade. Fora temido e andava sempre cercado de admiradores mais jovens. Assim, confiava na força de seus punhos. Não iria saltitar desajeitadamente como aquele rapaz; aplicaria um golpe com o corpo imóvel, na posição ortodoxa. Avançou um passo com leveza e desferiu um direto de direita no saco. Teria superado a marca máxima de dois mil e quinhentos do mostrador, mandando o dispositivo a nocaute? Nada disso, ficou nos trezentos. Bird levou até junto do peito o punho utilizado no golpe e, inclinado para diante, permaneceu atônito por alguns instantes, olhando para o mostrador. O sangue lhe subiu ao rosto. Às suas costas, os rapazes se plantavam, imóveis e mudos. Mas, sem dúvida, prestavam atenção nele e no mostrador. Com certeza estavam desnorteados pela aparição daquele indivíduo capaz de um desempenho tão medíocre.
Ignorando a presença deles, Bird se aproximou do elmo, que já recolhera o saco de areia. Enfiou outra moeda para trazê-lo novamente para baixo. Dessa vez, ao diabo a postura; esmurrou o saco reunindo todo o peso do corpo no punho. O braço inteiro, do cotovelo até o punho, ficou entorpecido. Mas o ponteiro indicou apenas quinhentos.
Bird se inclinou depressa para pegar o paletó e vestiu-o voltado para a máquina de bingo. Depois, virou-se para o grupo silencioso e tentou esboçar um sorriso maduro. Queria um sorriso entre surpreso e compreensivo, um sorriso de velho campeão veterano de lutas para jovem campeão. Mas os rapazes, de rostos frios e inexpressivos, limitaram-se a fitá-lo como a um cão. Bird enrubesceu até as orelhas e deixou a loja cabisbaixo, em passos apressados. Uma gargalhada ostensivamente sarcástica ergueu-se às suas costas. Tonto como criança envergonhada, atravessou a praça em largas passadas e se enfiou rapidamente por uma ruela escura ao lado do teatro. Perdera o ânimo para caminhar em meio à multidão do bairro de diversão noturna. Havia prostitutas paradas na ruela, mas, intimidadas, nenhuma lhe dirigiu a palavra. Enveredou de repente por outra ruela onde nem prostitutas havia. A ruela era interrompida por uma barreira elevada. Sentiu cheiro de grama: a encosta da barreira devia ser coberta de grama. Em cima da barreira passavam os trilhos de uma ferrovia. Bird olhou para os dois lados procurando ver se algum trem se aproximava, mas nada viu. Olhou para o céu escuro. A nuvem avermelhada que parecia baixar ao longe provavelmente era o reflexo das luzes de néon do bairro noturno. Gotas pingaram repentinamente sobre a face erguida. A chuva estava para cair, o que explicava o cheiro intenso de grama. Curvando a cabeça, pôs-se a urinar, desajeitado.
Foi quando ouviu passos desordenados de pessoas aproximando-se às suas costas. Depois de urinar, Bird se voltou. Já estava completamente cercado pelos rapazes de blusão bordado. Eles formavam um grupo compacto, tendo às costas a tênue claridade vinda da direção do teatro. Não era possível distinguir a expressão de seus rostos. Bird se lembrou naquele instante de que percebera indícios de intenso desprezo na frieza do grupo, na loja. Sua debilidade estimulara neles o instinto animal. O impulso compulsivo que leva crianças violentas a maltratar os mais fracos despertara, lançando-os em perseguição do pobre carneiro dos quinhentos pontos no teste de potência de punho. Em pânico, Bird procurou, afobado, uma rota de fuga. Fugir na direção das luzes do bairro de lazer significava investir na direção do grupo e tentar romper o cerco justamente onde ele era mais forte. Difícil para seu físico recém-testado (potência muscular de um homem de quarenta anos!). Nem pensar: eles o fariam recuar sem a menor dificuldade. À direita, um beco sem saída ia dar numa parede de madeira. À esquerda, uma passagem estreita entre a barreira e a alta cerca de arame do terreno de uma fábrica conduzia a uma avenida distante onde circulavam automóveis. Aquela era uma esperança de fuga: atravessar correndo a passagem de cem metros sem ser agarrado.
Bird se decidiu. De repente gingou o corpo, simulando uma corrida para o beco, e voltou-se para o lado oposto, investindo para a esquerda. Os adversários, contudo, eram escolados em manobras daquele tipo. Haviam previsto a tática, como Bird teria feito aos vinte anos, nas noites de sua cidade provinciana. Ao fintar a fuga para a direita, eles se moveram rapidamente para a esquerda, barrando-lhe o caminho. Quando Bird se aprumou do giro e arremeteu para a esquerda, colidiu com a silhueta negra de um corpo inclinado para trás feito um arco: a mesma atitude utilizada para esmurrar o saco de areia. Não havia tempo nem espaço para esquivar-se. Atingido pelo pior soco recebido em toda a sua vida, Bird voou de costas de encontro à grama da barreira. Gemeu, cuspindo sangue e saliva. Os rapazes riram alto, como haviam feito ao estourar o limite do medidor. Mas voltaram a ficar em silêncio e fecharam o cerco em torno de Bird, caído ao solo. Esperavam.
Bird se lembrou do mapa da África, que devia estar amarrotado, comprimido entre seu corpo e a terra da barreira. Outro pensamento – o de que seu filho estava para nascer – emergiu em sua consciência, provocando-lhe uma aflição jamais sentida. Assaltou-o uma súbita onda de fúria e desespero. Até então estivera assustado e perplexo, procurando apenas fugir. Agora não mais. Se deixasse de lutar agora, sua oportunidade de viajar para a África ficaria perdida para sempre. E não apenas isso: seu filho viria ao mundo unicamente para encontrar o pior destino possível. Uma inspiração de momento o fez acreditar que aquilo fatalmente aconteceria. Sacudiu a cabeça e levantou-se devagar, com um gemido. O semicírculo dos adolescentes recuou em perfeita ordem, chamando-o para a briga. Confiante, o mais robusto deles se adiantou. Bird tinha os braços pensos, o queixo projetado para diante. Permanecia de pé e apático, feito um boneco de pancadas. O rapaz mirou com cuidado. Ergueu alto o pé, à maneira de um pitcher de beisebol ao lançar a bola, inclinou-se, levando o punho bem para trás, e desferiu um murro. Bird baixou a cabeça e, recuando os quadris, investiu feito um touro furioso contra o adversário.
Com um urro abafado, um jato de suco gástrico saltou da boca do rapaz, que desabou. Perdera o fôlego. Rapidamente, Bird ergueu a cabeça e encarou os demais. Reacendia nele a excitação da briga, esquecida havia tantos anos. Tanto os garotos como ele próprio se mantinham imóveis, estudando o adversário teimoso. Os minutos se passavam.
De repente, um deles gritou para os companheiros:
– Chega, chega! Esse cara não é páreo para a gente, é um “tio”!
Prontamente, os adolescentes se descontraíram e se afastaram na direção do teatro carregando o companheiro desacordado, sem dar atenção a Bird, ainda em guarda. Bird ficou sozinho, molhado pela chuva. De repente tudo lhe pareceu cômico e começou a rir em silêncio. Seu paletó estava manchado de sangue. Se ficasse algum tempo mais debaixo da chuva, a mancha seria disfarçada pelas gotas d’água. Sua cabeça doía, assim como a região dos olhos, os braços e as costas, mas estava bem-humorado pela primeira vez desde o início das dores de parto da mulher. Foi mancando pela trilha estreita entre a barreira e o terreno da fábrica na direção da rua asfaltada. Uma locomotiva a vapor dos velhos tempos surgiu impetuosamente, espalhando fagulhas, e correu sobre a barreira acima de Bird, um rinoceronte negro voando pela escuridão do céu. Ao sair na avenida, Bird descobriu um fragmento de dente quebrado entre sua língua e sua gengiva, e cuspiu-o enquanto esperava por um táxi.
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