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1 Tudo tem seu tempo,
há um momento oportuno para cada
empreendimento debaixo do céu.

2 Tempo de nascer,
e tempo de morrer;
tempo de plantar,
e tempo de colher a planta.

3 Tempo de matar,
e tempo de sarar;
tempo de destruir,
e tempo de construir.

4 Tempo de chorar,
e tempo de rir;
tempo de gemer,
e tempo de dançar.

5 Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar.

6 Tempo de buscar,
e tempo de perder;
tempo de guardar,
e tempo de jogar fora.

7 Tempo de rasgar,
e tempo de costurar;
tempo de calar,
e tempo de falar.

8 Tempo de amar,
e tempo de odiar;
tempo de guerra,
e tempo de paz.”

Bíblia | Eclesiastes.

A primeira glória é a reparação dos erros.”

Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis)   (1839-1908)

Caricatura Woody Allen Caricature

Woody Allen por Carlinhos Muller

Lotofácil Conc. 0220 (17/05/2007)

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Frequência das dezenas

01/150 02/147 03/122 04/137 05/134 06/121
07/116 08/126 09/128 10/128 11/146 12/118
13/138 14/127 15/135 16/131 17/135 18/117
19/135 20/133 21/124 22/132 23/148 24/134
25/138

Atraso das dezenas

01/005 02/001 03/001 04/003 05/000 06/001
07/002 08/001 09/000 10/000 11/001 12/000
13/000 14/000 15/000 16/000 17/000 18/000
19/001 20/000 21/000 22/001 23/000 24/000
25/000

Duque(s) mais sorteado(s) na Lotofácil

02-25/099

Terno(s) mais sorteado(s) na Lotofácil

01-02-25/067 01-11-23/067

Quando Nietzsche Chorou - When Nietzsche Wept

Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept) é o romance de estréia de Irvin Yalom, psicoterapeuta e professor de psiquiatria na Universidade de Stanford, combina personagens reais da Europa do fim do século XIX com ficção. Trata do encontro entre Nietzsche, Freud e Josef Bauer. Lou Salomé promove um encontro entre o médico Bauer e Nietzsche, pois o filósofo sofre de um mal desconhecido. O encontro entre a psicanálise, a filosofia e a literatura torna-se inevitável neste romance.

Abaixo, o Primeiro Capítulo do livro:

O carrilhão de San Salvatore invadiu o devaneio de Josef Breuer. Puxou o pesado relógio de ouro do bolso do colete. Nove horas. Novamente, leu o pequeno cartão de borda prateada recebido no dia anterior.

21 de outubro de 1882

Doutor Breuer,

Preciso vê-lo para um assunto da maior urgência. O futuro da filosofia alemã
está em jogo. Encontre-me amanhã cedo às nove horas no Café Sorrento.

Lou Salomé

Um bilhete impertinente! Havia anos ninguém o abordava com tanta sem-cerimônia. Ele não conhecia nenhuma Lou Salomé. Nenhum remetente no envelope. Nenhuma forma de informar a essa pessoa que nove horas era inconveniente, que a Sra. Breuer não gostaria de tomar o café da manhã sozinha, que o Dr. Breuer estava de férias e que não estava interessado em “assuntos urgentes” – aliás, o Dr. Breuer viera a Veneza precisamente para se livrar de assuntos urgentes. Não obstante, lá estava ele no Café Sorrento às nove horas em ponto, esquadrinhando os rostos ao seu redor e se perguntando qual deles poderia ser a impertinente Lou Salomé.

- Outro café, senhor?

Breuer anuiu com a cabeça para o garçom, um rapaz de treze ou quatorze anos e de cabelos pretos, lisos e úmidos, penteados para trás.

Quanto tempo durara seu devaneio? Consultou novamente o relógio. Outros dez minutos de vida desperdiçados. E desperdiçados em quê? Como de hábito, devaneara sobre Bertha, a bela Bertha, sua paciente nos últimos dois anos. Estava recordando sua voz provocante: “Doutor Breuer, por que tem tanto medo de mim?” Lembrou suas palavras quando lhe dissera que deixaria de ser seu médico: “Aguardarei. Você sempre será o único homem em minha vida.”

Ele se censurou: “Pelo amor de Deus, pare! Pare de pensar! Abra os olhos! Veja! Deixe o mundo entrar!”

Breuer ergueu sua xícara, inalando o aroma do saboroso café junto com profundas inspirações do frio ar veneziano do mês de outubro. Volveu a cabeça e olhou ao redor. As outras mesas do Café Sorrento estavam repletas de homens e mulheres que faziam o desjejum – na maioria, turistas, e quase todos de meia-idade. Muitos seguravam o jornal com uma das mãos e a xícara de café com a outra. Para além das mesas, viam-se nuvens de pombos azul-cinza que esvoaçavam e mergulhavam. As águas paradas do Grand Canal, brilhando com os reflexos dos grandes palácios alinhados nas suas margens, eram perturbadas somente pela esteira ondulante de uma gôndola costeira. As outras embarcações ainda dormiam, amarradas em estacas tortas espalhadas aqui e ali ao longo do canal, qual lanças espetadas ao acaso por alguma mão gigante.

- É isso mesmo: olhe ao redor, seu tolo! – Breuer proferiu de si para consigo. – As pessoas vêm do mundo inteiro para admirar Veneza; pessoas que se recusam a morrer sem serem abençoadas por esta beleza.

Quanto da vida eu perdi – pensou – simplesmente por deixar de olhar? Ou por olhar e não ver? No dia anterior, fizera uma caminhada solitária pela ilha de Murano e, depois de uma hora, não vira nada, não registrara nada. Nenhuma imagem se transferira de sua retina para o córtex. Toda a sua atenção se consumira em pensamentos sobre Bertha: o sorriso encantador, os olhos adoráveis, a sensação de seu corpo quente e confiante e sua respiração acelerada quando ele a examinava ou massageava. Tais cenas tinham poder – uma vida própria; sempre que baixava a guarda, elas lhe invadiam a mente e usurpavam sua imaginação. Será esta a minha sina para sempre? – se perguntou. Estarei destinado a ser um simples palco no qual as memórias de Bertha representam eternamente seu drama?

Alguém se levantou na mesa ao lado. O ruído agudo da cadeira metálica contra o tijolo o despertou e, mais uma vez, ele procurou Lou Salomé.

Ali estava ela! A mulher descendo a Riva del Carbon e adentrando o café. Somente ela poderia ter escrito aquela nota – aquela bela mulher, alta e esguia, envolta num casaco de peles, marchando altivamente em direção a ele, agora, através do emaranhado de mesas lotadas. Ao se aproximar, Breuer notou que ela era jovem, talvez até mais jovem do que Bertha, possivelmente uma colegial. Mas aquela presença impositiva – extraordinária! Poderia levá-la longe!

Lou Salomé prosseguiu até ele sem demonstrar qualquer hesitação. Como poderia estar tão certa de sua pessoa? A mão esquerda de Breuer rapidamente golpeou as cerdas ruivas de sua barba para limpá-la das migalhas de pãozinho. Sua mão direita puxou a parte lateral da jaqueta preta que vestia para que não ficasse erguida em torno do pescoço. Ao chegar a poucos metros de distância, a jovem deteve-se por um instante e fitou-o ousadamente nos olhos.

De súbito, a mente de Breuer cessou de tagarelar. Agora, olhar não exigia concentração. Agora, retina e córtex cooperavam perfeitamente, permitindo que a imagem de Lou Salomé penetrasse livre em sua mente. Era uma mulher de extraordinária beleza: testa altiva, queixo forte e bem esculpido, olhos azuis brilhantes, lábios cheios e sensuais, e seus cabelos louroprateados, negligentemente penteados, se reuniam em um coque alto, expondo- lhe as orelhas e o pescoço longo e gracioso. Ele notou com especial prazer as mechas de cabelo que escapavam do coque e descaíam arrojadamente em todas as direções.

Mais três passos, e ela atingiu sua mesa.

- Doutor Breuer, sou Lou Salomé. Posso? – perguntou, apontando a cadeira vazia. Sentou-se tão prontamente que Breuer não teve tempo de cumprimentá-la como devia: levantar-se, curvar-se, beijar-lhe as mãos e puxar a cadeira para ela.

- Garçom, garçom! – Breuer estalou os dedos animadamente. – Um café para a dama. Cafè latte? – Olhou em direção à senhorita Salomé. Ela anuiu com a cabeça e, a despeito do frio matinal, tirou o casaco de peles.

- Sim, um cafè latte.

Breuer e sua companheira de café ficaram sentados em silêncio por um momento. Depois, Lou Salomé fitou-o diretamente nos olhos e começou:

- Tenho um amigo em desespero. Temo que venha a se matar num futuro muito próximo. Seria uma grande perda para mim e uma grande tragédia pessoal, pois eu carregaria certa responsabilidade. Apesar disso, eu poderia suportar e superar esse fato. Mas – ela se inclinou em sua direção, falando mais suavemente – uma tal perda poderia se estender bem além de mim: a morte desse homem teria conseqüências imensas para o senhor, para a cultura européia, para todos nós. Acredite em mim.

Breuer tencionou dizer “A senhorita está decerto exagerando”, mas não conseguiu proferir as palavras. O que em qualquer outra mulher jovem se afiguraria hipérbole adolescente, parecia diferente aqui, algo a ser levado a sério. A sinceridade dela, seu fluxo de convicção eram irresistíveis.

- Quem é esse homem, seu amigo? Eu o conheço?

- Ainda não! Mas dentro de algum tempo, todos o conheceremos. Chama-se Friedrich Nietzsche. Talvez esta carta de Richard Wagner para o professor Nietzsche sirva para apresentá-lo. – Ela retirou uma carta da bolsa, desdobrou-a e a ofereceu a Breuer. – Devo primeiro dizer que Nietzsche não sabe que estou aqui nem que possuo esta carta.

A última frase da senhorita Salomé provocou uma pausa em Breuer.

“Devo ler uma tal carta?” – pensou. “Esse professor Nietzsche não sabe que ela a está mostrando para mim – ou mesmo que está de posse dela! Como a obteve? Pegou-a emprestada? Surrupiou-a?”

Breuer se orgulhava de muitos de seus atributos. Ele era leal e generoso. A engenhosidade de seus diagnósticos virara lenda: em Viena, era o médico pessoal de grandes cientistas, artistas e filósofos como Brahms, Brücke e Brentano. Aos quarenta, era conhecido em toda a Europa e cidadãos distintos de todo o Ocidente viajavam grandes distâncias para se consultarem com ele. Contudo, acima de qualquer coisa, orgulhava-se da integridade – jamais em sua vida cometera um ato desonroso. A não ser, talvez, que fosse considerado responsável por seus pensamentos carnais de Bertha, pensamentos que de direito deveriam ser dirigidos à sua esposa Mathilde.

Assim, hesitou em apanhar a carta da mão estendida de Lou Salomé. Mas por um breve lapso. Outro olhar para dentro daqueles cristalinos olhos azuis e a abriu. Estava datada de 10 de janeiro de 1882 e começava assim:

“Meu amigo Friedrich”; vários parágrafos tinham sido circundados.

Vós acabastes de dar ao mundo uma obra ímpar. Vosso livro é caracterizado por uma convicção tão consumada, que pressagia a mais profunda originalidade. De que outra forma poderíamos, minha esposa e eu, ter realizado o desejo mais ardente de nossas vidas, ou seja, que algum dia algo vindo de fora possuísse plenamente nossos corações e nossas almas! Cada um de nós leu vosso livro duas vezes – primeiro sozinho, de dia, e depois em voz alta, de noite. Disputamos com razão o único exemplar e lamentamos que o prometido segundo exemplar ainda não tenha chegado.

Vós estais doente! Vós também estais desanimado? Em caso positivo, gostaria tanto de fazer algo para afastar vosso desalento! Como devo começar? Nada mais posso fazer que não esbanjar meus elogios irrestritos a vós.

Aceitai-os ao menos com um espírito amigável, ainda que vos deixe insatisfeito.

Saudações sinceras de vosso,

Richard Wagner

Richard Wagner! Não obstante toda sua urbanidade vienense, toda sua familiaridade e facilidade com os grandes homens da época, Breuer ficou aturdido. Uma carta tal como aquela escrita pelo próprio punho do mestre! Mas rapidamente recuperou sua serenidade.

- Muito interessante, minha cara Fräulein, mas agora, por favor, diga-me precisamente o que posso fazer pela senhorita.

Inclinando-se outra vez para a frente, Lou Salomé repousou de leve sua mão enluvada sobre a mão de Breuer:

- Nietzsche está doente, muito doente. Ele precisa da sua ajuda.

- Mas qual é a natureza da doença dele? Quais são os seus sintomas?

- Breuer, perturbado pelo toque da mão da jovem, ficou satisfeito por navegar em águas familiares.

- Dores de cabeça. Em primeiro lugar, dores de cabeça lancinantes.

E surtos constantes de náusea. E uma ameaça de cegueira. Sua visão vem gradualmente se deteriorando. E problemas estomacais: às vezes, não consegue comer durante dias. E insônia: nenhum remédio consegue fazê-lo dormir, de modo que toma doses perigosas de morfina. E tontura: às vezes, fica mareado em terra firme vários dias de uma vez.

Longas listas de sintomas não eram novidade nem estímulo para Breuer, que normalmente examinava de 25 a 30 pacientes por dia e viera a Veneza precisamente para descansar dessa lida. Contudo, tamanha era a veemência de Lou Salomé, que se sentiu compelido a prestar plena atenção.

- A resposta à sua pergunta, minha cara dama, é sim, é claro que examinarei seu amigo. Quanto a isso, não há dúvida. Afinal, sou um médico. Mas, por favor, permita-me formular uma pergunta: por que a senhorita e seu amigo não vêm a mim por um caminho mais direto? Por que não escrevem simplesmente para meu consultório em Viena e solicitam uma consulta? -

Com isso, Breuer olhou ao redor à procura do garçom para trazer a conta e pensou quão satisfeita Mathilde ficaria com seu retorno tão rápido ao hotel. Mas não era fácil se livrar dessa mulher ousada:

- Doutor Breuer, mais uns minutinhos, por favor. Não estou exagerando a gravidade do estado de Nietzsche, a profundidade de seu desespero.

- Não duvido disso. Mas volto a perguntar, Fräulein Salomé, por que o senhor Nietzsche não se consulta comigo em meu consultório em Viena? Ou não visita um médico na Itália? Onde ele mora? Gostaria que eu indicasse um médico na própria cidade dele? E por que eu? Aliás, como a senhorita soube que eu estava em Veneza? Ou que sou um aficionado da ópera e que admiro Wagner?

Lou Salomé não se abalou e sorriu quando Breuer começou a crivá-la de perguntas, seu sorriso tornando-se malicioso à medida que a fuzilaria prosseguia.

- Fräulein, está sorrindo como se tivesse um segredo. Acho que é uma jovem dama que adora mistérios!

- Tantas perguntas, doutor Breuer. É notável; conversamos por apenas poucos minutos e, não obstante, há tantas perguntas intrigantes. Certamente, isso é um bom presságio de conversas futuras. Deixe que lhe conte mais sobre nosso paciente.

Nosso paciente! Enquanto Breuer se espantava novamente com sua audácia, Lou Salomé continuou:

- Nietzsche exauriu os recursos médicos da Alemanha, Suíça e Itália. Nenhum médico conseguiu compreender sua doença ou aliviar seus sintomas. Nos últimos 24 meses, segundo me contou, consultou-se com 24 dos melhores médicos da Europa. Ele abriu mão de seu lar, abandonou seus amigos, renunciou à sua cátedra na universidade. Ele se tornou um andarilho em busca de um clima tolerável, à procura de um ou dois dias de alívio de sua dor.

A jovem mulher parou, erguendo a xícara para bebericar enquanto mantinha o olhar fixo em Breuer.

- Fräulein, em minha prática como clínico, vejo com freqüência pacientes em estados incomuns ou intrigantes. Porém, permita que fale honestamente: não disponho de milagres. Numa situação como essa, de cegueira, cefaléias, vertigem, gastrite, fraqueza, insônia, em que vários excelentes médicos foram consultados e deixaram a desejar, é pouco provável que eu consiga fazer mais do que me tornar seu vigésimo quinto excelente médico em tantos meses.

Breuer se reclinou na cadeira, apanhou um charuto e o acendeu. Soprou uma fumaça fina e azulada, esperou até se dissipar e, depois, continuou:

- Novamente, porém, ofereço-me para examinar o professor Nietzsche em meu consultório. Entretanto, é bem provável que a causa e a cura de uma doença tão refratária como a dele ultrapassem o alcance da ciência médica de 1882. Seu amigo pode ter nascido uma geração cedo demais.

- Nascido cedo demais! – Ela riu. – Uma observação presciente, doutor Breuer. Quantas vezes ouvi Nietzsche proferir exatamente estas palavras! Agora, tenho certeza de que o senhor é o médico certo para ele.

Apesar de sua presteza em partir e da visão recorrente de Mathilde já vestida e andando ansiosa pelo quarto do hotel, Breuer imediatamente expressou interesse:

- Como assim?

- Ele muitas vezes se denomina um “filósofo póstumo”: um filósofo para quem o mundo ainda não está preparado. De fato, o novo livro que está planejando começa com este tema: um profeta, Zaratustra, repleto de sabedoria, decide iluminar as pessoas. Mas ninguém compreende suas palavras. Eles não estão preparados para o profeta que, percebendo ter vindo cedo demais, retorna à sua solidão.

- Fräulein, suas palavras me intrigam: sou apaixonado por filosofia. Porém, meu tempo hoje é limitado e estou esperando uma resposta direta à minha pergunta: por que seu amigo não me consulta em Viena.

- Doutor Breuer – Lou Salomé fitou-o diretamente nos olhos -, desculpe minha imprecisão. Talvez esteja sendo demasiado indireta. Sempre gostei de me deter na presença de grandes mentes: talvez porque precise de modelos para meu próprio desenvolvimento, talvez porque só goste de colecioná-las. Mas sei que é um privilégio conversar com um homem da profundidade e do horizonte do senhor.

Breuer sentiu que enrubescia. Não mais suportava o olhar dela e desviou a visão para longe, enquanto ela continuava:

- O que quero dizer é que talvez seja culpada de ser indireta simplesmente para prolongar nosso tempo juntos.

- Mais café, senhorita? – Breuer fez sinal para o garçom. – E mais desses pãezinhos engraçados. Já refletiu sobre a diferença entre a panificação alemã e italiana? Permita-me descrever minha teoria sobre a concordância entre o pão e a personalidade nacional.

Assim, Breuer não voltou às pressas para Mathilde. Enquanto tomava um desjejum descansado com Lou Salomé, refletiu sobre a ironia de sua situação. Que estranho ter vindo a Veneza para desfazer o dano causado por uma mulher bonita e, agora, estar sentado tête-à-tête com outra ainda mais bonita! Ele também observou que, pela primeira vez em meses, sua mente estava livre da obsessão por Bertha.

Talvez – ponderou – exista afinal uma esperança para mim. Quem sabe possa me valer desta mulher para expulsar Bertha do palco de minha mente. Terei descoberto um equivalente psicológico da terapia da substituição farmacológica? Uma droga benigna como a valeriana pode substituir uma mais perigosa, como a morfina. Similarmente, talvez Lou Salomé possa substituir Bertha – um grande progresso! Afinal, esta mulher é mais sofisticada, mais realizada. Bertha é – como dizer? – pré-sexual, uma mulher irrealizada, uma criança se debatendo desajeitadamente no corpo de uma mulher.

Contudo, Breuer sabia que era precisamente a inocência pré-sexual de Bertha que o atraía para ela. Ambas as mulheres o excitavam: pensar nelas provocou uma vibração quente nas partes pudendas. Por outro lado, ambas as mulheres o amedrontavam: ambas perigosas, mas de formas diferentes. Essa Lou Salomé o assustava devido a seu poder – pelo que ela poderia fazer a ele. Bertha o assustava devido à sua submissão – pelo que ele poderia fazer a ela. Tremeu ao pensar nos riscos que correra com Bertha – quão próximo chegara de violar a regra mais fundamental da ética médica, de arruinar a si próprio, a família, sua vida inteira.

Entretanto, estava tão profundamente envolvido na conversa e tão inteiramente encantado com sua jovem companheira de desjejum, que enfim ela – e não ele – retornou à doença do amigo, especificamente ao comentário de Breuer sobre milagres médicos.

- Tenho 21 anos, doutor Breuer, e abandonei toda crença em milagres. Percebo que o fracasso de 24 excelentes médicos só pode significar que atingimos os limites do conhecimento médico contemporâneo. Porém, não me interprete mal! Não tenho ilusão de que o senhor vá curar a doença de Nietzsche. Não foi por isso que procurei sua ajuda.

Breuer pôs a xícara de café de volta na mesa e limpou o bigode e a barba com o guardanapo:

- Perdoe-me, Fräulein, agora fiquei realmente confuso. A senhorita não começou dizendo que desejava minha ajuda porque seu amigo está muito doente?

- Não, doutor Breuer, eu disse que tinha um amigo que está desesperado, que corre grande perigo de se suicidar. É o desespero do professor Nietzsche, e não seu organismo, que peço para curar.

- Mas senhorita, se seu amigo está desesperado com a saúde e não disponho de uma terapia para ele, o que fazer? Não posso ajudar uma mente doente.

Breuer interpretou a anuência de Lou Salomé com a cabeça como um reconhecimento das palavras do médico de Macbeth* e prosseguiu:

- Fräulein Salomé, não existe remédio para o desespero, médico para a alma. Não há muito que possa fazer, a não ser recomendar um dos excelentes balneários terapêuticos na Áustria ou Itália. Ou talvez uma conversa com um sacerdote ou algum outro conselheiro religioso, um membro da família… quem sabe, um bom amigo?

- Doutor Breuer, sei que é capaz de fazer mais do que isso. Tenho um espião. Meu irmão Jenia é um estudante de medicina que freqüentou sua clínica em Viena no início deste ano.

Jenia Salomé! Breuer tentou recordar o nome. Havia tantos estudantes.

- Através dele, soube de seu amor por Wagner, que tiraria férias esta semana no Hotel Amalfi em Veneza e, também, como reconhecê-lo. Porém, mais importante de tudo, através dele soube que o senhor é realmente um médico para o desespero. No último verão, ele assistiu a uma conferência informal em que o senhor descreveu seu tratamento de uma jovem mulher chamada Anna O.; uma mulher que estava desesperada e que tratou com uma nova técnica chamada “terapia através da conversa”, uma cura baseada na razão, no deciframento de associações mentais emaranhadas. Jenia contou que o senhor é o único médico da Europa capaz de oferecer um tratamento realmente psicológico.

Anna O.! Breuer sobressaltou-se com o nome e derramou o café ao trazer a xícara até os lábios. Secou a mão com o guardanapo, esperando que Fräulein Salomé não tivesse observado o acidente. Anna O., Anna O.! Incrível! Para onde quer que se volvesse, deparava com Anna O. – seu codinome para Bertha Pappenheim. Extremamente discreto, Breuer jamais citava os nomes reais dos pacientes ao discutir seus casos com os alunos. Em seu lugar, criava um pseudônimo retrocedendo as iniciais em uma letra do alfabeto: dessarte, B.P. de Bertha Pappenheim tornou-se A.O., ou Anna O.

- Jenia ficou tremendamente impressionado com o senhor, doutor Breuer. Ao descrever sua conferência e sua cura de Anna O., declarou-se bem-aventurado por estar à luz de um gênio. Vamos e venhamos, Jenia não é um rapaz impressionável. Jamais o ouvi falar assim antes. Resolvi, então, que deveria um dia encontrá-lo, conhecê-lo, talvez estudar com o senhor. Mas meu “um dia” se tornou mais imediato com a piora do estado de Nietzsche nos últimos dois meses.

Breuer olhou ao redor. Muitos dos outros fregueses haviam terminado e saído, mas ei-lo ali sentado, totalmente distante de Bertha, falando com uma mulher impressionante que ela trouxera para sua vida. Um calafrio o percorreu. Jamais encontraria um refúgio de Bertha?

- Fräulein – Breuer pigarreou para limpar a garganta e se forçou a prosseguir -, o caso descrito por seu irmão foi, simplesmente, um caso individual em que apliquei uma técnica altamente experimental. Não há razão para acreditar que essa técnica específica vá ajudar seu amigo. De fato, existem várias razões para acreditar que não ajudará.

- Como assim, doutor Breuer?

- Temo que o tempo não permita uma resposta prolongada. Por ora, observarei simplesmente que Anna O. e seu amigo sofrem de doenças assaz diferentes. Ela foi acometida de histeria e sofreu de certos sintomas de invalidez, conforme seu irmão deve ter-lhe contado. Minha abordagem consistiu em remover sistematicamente cada sintoma, ajudando minha paciente a rememorar, com ajuda do mesmerismo, o trauma psíquico esquecido no qual se originou. Uma vez descoberta a fonte específica, o sintoma desaparecia.

- Suponha, doutor Breuer, que consideremos o desespero como um sintoma. O senhor não poderia tratá-lo da mesma forma?

- O desespero não é um sintoma médico, senhorita; é vago, impreciso. Cada um dos sintomas de Anna O. envolvia uma parte delimitada do corpo; cada um era causado pela descarga da excitação intracerebral através de alguma passagem neural. Pelo que a senhorita me descreveu, o desespero de seu amigo é inteiramente ideacional. Não existe um tratamento para tal estado.

Pela primeira vez, Lou Salomé hesitou:

- Mas, doutor Breuer – novamente pôs sua mão sobre a dele -, antes de tratar de Anna O., não havia tratamento psicológico para a histeria. Pelo que eu entendo, os médicos recorriam apenas a banhos ou ao terrível tratamento com choques elétricos. Estou convencida de que o senhor, talvez apenas o senhor, poderá descobrir um tal tratamento novo para Nietzsche.

Subitamente, Breuer observou a hora. Ele tinha que retornar para junto de Mathilde.

- Fräulein, farei todo o possível para ajudar seu amigo. Por favor, aceite meu cartão. Verei seu amigo em Viena.

Ela mirou o cartão apenas brevemente, antes de guardá-lo na bolsa.

- Doutor Breuer, as coisas não são tão simples assim. Nietzsche não é, por assim dizer, um paciente cooperador. Na verdade, ele nem sabe que estou conversando com o senhor. Trata-se de uma pessoa extremamente reservada e de um homem orgulhoso. Ele jamais conseguirá reconhecer a necessidade de ajuda.

- Mas a senhorita disse que ele fala abertamente de suicídio.

- Em toda conversa, em toda carta. Mas ele não pede ajuda. Caso viesse a saber de nossa conversa, jamais me perdoaria, e estou certa de que se recusaria a consultar o senhor. Ainda que, de alguma forma, eu o persuadisse, ele limitaria a consulta aos problemas corporais. Nem em mil anos ele viria a lhe pedir para aliviar seu desespero. Ele sustenta opiniões rígidas sobre fraqueza e poder.

Breuer começou a se sentir frustrado e impaciente:

- Então, Fräulein, o drama se torna mais complexo. A senhorita quer que eu me encontre com certo professor Nietzsche, que considera um dos grandes filósofos de nossa época, a fim de persuadi-lo de que a vida – ou ao menos a vida dele – vale a pena ser vivida. Além do mais, devo consegui-lo sem que nosso filósofo saiba disso.

Lou Salomé assentiu com a cabeça, exalou profundamente e se sentou novamente na cadeira.

- Como é possível? – continuou. – Realizar simplesmente a primeira meta, curar o desespero, ultrapassa o alcance da ciência médica. Mas esta segunda condição, de que o paciente seja tratado sub-repticiamente, transfere nosso empreendimento para o reino do fantástico. Existem outros obstáculos ainda não revelados? Quem sabe o professor Nietzsche fale apenas sânscrito ou se recuse a deixar seu eremitério no Tibete? – Breuer se sentiu atordoado mas, observando o ar de espanto de Lou Salomé, rapidamente se controlou. – Seriamente, Fräulein Salomé, como poderei fazê-lo?

- Agora está vendo, doutor Breuer! Agora está vendo por que procurei o senhor em vez de um homem de menor envergadura!

Os sinos de San Salvatore soaram a hora. Dez horas. Mathilde devia estar ansiosa. Ah! Ficar se preocupando com ela… Breuer acenou novamente para o garçom. Enquanto esperavam a conta, Lou Salomé fez um convite incomum:

- Doutor Breuer, aceitaria meu convite para o desjejum amanhã? Conforme já mencionei, tenho certa responsabilidade pessoal pelo desespero do professor Nietzsche. Há muito mais que gostaria de lhe contar.

- Amanhã, infelizmente, será impossível. Não é todo dia que uma mulher adorável me convida para o desjejum, Fräulein, mas não posso aceitar. A natureza de minha viagem para cá com minha mulher desaconselha que a deixe novamente.

- Permita então sugerir outro plano. Prometi ao meu irmão visitá-lo este mês. Aliás, até há pouco tempo, eu planejara viajar a Viena com o professor Nietzsche. Permita que, quando eu estiver lá, forneça-lhe mais informações. Enquanto isso, tentarei persuadir o professor Nietzsche a consultar o senhor sobre a deterioração de sua saúde física.

Caminharam juntos para fora do café. Poucos fregueses restavam, enquanto os garçons tiravam as mesas. Breuer ia partir quando Lou Salomé lhe tomou o braço e pôs-se a andar junto dele.

- Doutor Breuer, essa hora foi curta demais. Estou ávida por mais um pouco de seu tempo. Posso caminhar com o senhor de volta ao hotel?

O convite impressionou Breuer pela ousadia, masculinidade; entretanto, dos lábios dela, soava como normal, não afetado – a forma natural como as pessoas deveriam conversar e viver. Se uma mulher aprecia a companhia de um homem, por que não lhe dar o braço e pedir para andar com ele? Contudo, que outra mulher sua conhecida teria proferido essas palavras? Estava diante de uma espécie diferente de mulher. Aquela mulher era livre!

- Jamais lastimei tanto declinar um convite – disse Breuer, puxando o braço dela para mais perto dele -, mas é hora de voltar, e voltar sozinho. Minha adorável mas preocupada esposa estará esperando na janela e é meu dever mostrar-me sensível aos sentimentos dela.

- É claro, mas – ela puxou o braço para ficar face a face com ele, autocontida, vigorosa como um homem – para mim a palavra “dever” é pesada e opressiva. Reduzi meus deveres a apenas um: perpetuar minha liberdade. O casamento e seu séquito de possessão e ciúme escravizam o espírito. Eles jamais me dominarão. Espero, doutor Breuer, que chegue o tempo em que nem o homem, nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas. – Virando de costas com toda a segurança de sua chegada: – Auf Wiedersehen. Até nosso próximo encontro – em Viena.

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* Na tragédia Macbeth, de William Shakespeare, Lady Macbeth, oprimida pelos crimes que ajudou o marido a cometer, sofre de terríveis visões. O médico chamado para tratá-la confessa sua impotência: “Essa doença está além de meus conhecimentos.” (5o Ato, Cena I) (N. do T.)

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In nineteenth-century Vienna, a drama of love, fate, and will is played out amid the intellectual ferment that defined the era. Josef Breuer, one of the founding fathers of psychoanalysis, is at the height of his career. Friedrich Nietzsche, Europe’s greatest philosopher, is on the brink of suicidal despair, unable to find a cure for the headaches and other ailments that plague him.

When he agrees to treat Nietzsche with his experimental “talking cure,” Breuer never expects that he too will find solace in their sessions. Only through facing his own inner demons can the gifted healer begin to help his patient. In When Nietzsche Wept, Irvin Yalom blends fact and fiction, atmosphere and suspense, to unfold an unforgettable story about the redemptive power of friendship.

 

Maio 2007
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